Interferências - Nelson Maravalhas

 

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© 2005 by maravalhas apresentação elisa de souza martinez tradução nelson maravalhas junior capa e projeto gráfico artwork design gráfico marcelo terraza revisão alex cojorian português marco antônio ramos vieira inglês tiragem 1.000 exemplares todos os desenhos foram realizados sobre material já impresso ou revelado tais como rótulos notas velhas de dinheiro fotografias anúncios imagens em jornais e revistas pedaços de livro rasgados catálogos de bonecas barbies fotocópias santinhos filipetas convites de exposições folders de teatro e dança catálogos de instrumentos e aparelhos hospitalares etc foram usado guache nanquim e pastel para as correções e interferências os tamanhos das reproduções são quase sempre o tamanho real dos desenhos all drawings were made over previously printed material for instance labels old bills photographs advertisements images in newspapers and magazines pieces of torn books barbie dolls catalogues photocopies exhibitions invitations folders for theatre and dance catalogue of tools and equipments for hospitals so on and so on bodycolour gouache ink and pastel were used for the corrections and interferences the reproductions are almost all actual size m311 maravalhas junior nelson interferências nelson maravalhas junior ­ brasília círculo de estudos clássicos de brasília 2005 56 p isbn 85-89135-12-8 1 artes plásticas 2 desenho 3 técnicas mistas i título cdu 73/76

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um re-formador de imagens e scolhas e paradoxos no conjunto de interferências maravalhas imprime seu traço numa coleção de toda a produção imagética do mundo o gesto no tempo que abarca essa produção é um processo em que ocorre uma subjetivação do mundo dos objetos as estratégias do artista escondem a aceitação do procedimento recorrente nas tradições artísticas citar sempre em cada obra realizada um repertório de imagens ou de soluções plásticas que o antecederam esse repertório infinito está segundo uma lógica devoradora que mobiliza a busca de soluções diferenciadas para cada ação artística em permanente expansão e o princípio dialógico na produção dos objetos artísticos materializa-se em percursos aparentemente paradoxais o gesto inaugural nas interferências é selecionar uma imagem-suporte entre a infinidade pré-existente no mundo que determinará a realização do desenho que lhe será sobreposto as configurações e os meios para produzi-las o enquadramento inicial é recoberto pelo desenho do artista que deste modo inclui seu ponto de vista na paisagem do mundo se na imagem apropriada vêem-se as marcas de um fazer que a originou ao integrar o mundo dos objetos apropriáveis suas fronteiras são dissolvidas pelo olhar do artista que lhe atribui um novo lugar cada objeto-imagem possuído pelo artista torna-se estágio de um processo em que a autonomia é superada e o bom caminho da arte em-si-mesma é corrompido as imagens sincretizadas nas configurações que vemos apresentam gradações no apagamento da imagem-suporte pelo desenho do artista que podem ser exemplificadas com a série de paisagens cedulares pode-se concluir apressadamente que a variação na intensidade do gesto seja um sinal de falta de estilo entretanto o que importa nesse processo aberto é a integridade material de um objeto que passa a possuir o artista e a demandar deste os procedimentos que irão converter sua condição descartável em perene conseqüentemente a reversibilidade de papéis possuidor-possuído tem um equivalente processual ao mesmo tempo em que selecionam-se materiais 6

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mais adequados às características das imagens-suporte estas são também adequadas à qualidade dos materiais disponíveis para a interferência quais são os meios mais adequados para produzir uma imagem durável quais seriam as suas vantagens a compatibilidade entre os materiais da imagem-suporte e os escolhidos pelo artista reveste o resultado de um valor é arte essa operação é fronteiriça o artista que realiza o processo de criação da obra que vemos está situado entre dois territórios o mundo dos objetos industriais e o mundo da arte ou o mundo das imagens externas e seu contraponto interno unidos por meio das livres associações estabelecidas pelo desenho não é portanto suficiente nomear ou escolher um objeto que passará a ser artístico nem objets trouvés nem ready-made em estado puro a indeterminação de um processo único de produção da interferência sinaliza um caminho de várias possibilidades em alguns casos a obra resulta da sobreposição de uma camada de matéria imagem e conseqüentemente sentido ao suporte encontrado em outros a obra é produto da ação do artista sobre duas camadas pré-existentes uma fotografia de sua autoria é corrompida pela umidade e pela mão do artista novamente composta com um desenho o acaso é neste segundo caso um evento desorientador convertido em estímulo em ambos o encontro com o objeto da ação artística não é um fim em si mesmo os procedimentos de maravalhas diferem também da transposição de um objeto não-artístico para o contexto da arte pela simples inserção ou seja as interferências não são ready-mades enquanto marcel duchamp realizava seus ready-made aided por meio da adição de um detalhe gráfico ao objeto industrializado com a única finalidade de satisfazer uma necessidade de aliteração os desenhos de maravalhas sobrepõem-se 7

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livremente sobre a forma e o conceito que a esta é associado deste modo o artista descreve suas interferências como correções e articula com ironia palavras e imagens na interferência realizada sobre a reprodução de um detalhe do afresco de luca signorelli ­ i fatti dell anticristo ­ utilizada para ilustrar as formações do inconsciente a imagem impressa é parcialmente encoberta pelo desenho e o sobrenome do artista na legenda é acrescido da palavra correcting que passa a antecedê-lo como um prenome vemos que o encontro do artista com seus suportes não é conseqüência de um acaso absoluto ainda que o conjunto de interferências seja variado não vemos neste toda a produção imagética do mundo como o artista nos havia anunciado mas sim o resultado de suas escolhas À sua seleção eclética poderíamos atribuir a expressão selva de contradições sem fronteiras classificatórias conforme esta foi utilizada por hans richter para diferenciar os procedimentos artísticos que a geração deste artista opôs à circunscrição e à auto-referencialidade característicos em suas palavras do herbarium da história da arte os antepassados artísticos de maravalhas que realizaram interferências em imagens-suporte na primeira metade do século vinte buscavam um equilíbrio entre o consciente e o inconsciente entre premeditação e espontaneidade kurt schwitters e marcel janco recusavam como o nosso contemporâneo artista um estilo comum e estavam condenados a uma necessidade paradoxal confiar no acaso e ao mesmo tempo considerar que eram seres conscientes trabalhando para alcançar metas conscientes pretendiam nesse contexto atingir

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um estado de liberdade controlada ou de disciplina emancipada nas interferências vê-se que a separação entre territórios artísticos e extraartísticos não é um lugar sem ocorrências sensíveis mas sim duplamente perceptivo ao mesmo tempo em que faz emergir imagens de territórios insondáveis liberta as imagens visíveis da lógica formal que aprisiona suas ambigüidades o acaso permite sobrepor ao bom enquadramento objetivo do mundo conforme o ponto de vista das linguagens codificadas da arte um ângulo positivamente conflituoso para ver o mundo subjetivo vemos uma seleção e uma sintaxe possível para um repertório de imagens que eram antes inteligíveis no mundo das imagens que demandam uma leitura única agora no conjunto reunido por maravalhas neste livro cada imagem deixa de ser ponto de partida para uma leitura unidirecional e sua intratextualidade é um local de convergência entre vários sentidos possíveis de leitura É em cada caso uma encruzilhada no vasto campo dos objetos culturais onde a determinação de locais centrais e periféricos artísticos e não-artísticos somente será possível se recorrermos a convencionalismos cronológicos ou geopolíticos esse conjunto de desenhos marca os passos de um peregrino que de encruzilhada em encruzilhada deixa marcas de sua ironia em um tecido de processos e resultados tão polifônico quanto a cultura na qual existe afinal correcting signorelli poderia ser seu moto elisa de souza martinez agosto de 2005 9

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an imagery re-former elisa de souza martinez august 2005 c hoices and paradoxes in his interferences maravalhas prints his punch onto a collection of all the world s imagery production the gesture within the scope of production is a process of turning the world of objects into subjectivity the strategies of the artist hide an acceptance of the recurring procedure of the tradition to quote always in each work done a repertory of images or plastic solutions which preceded it this infinite repertory is in permanent expansion and the dialogic principle in the making of artistic objects materializes in apparently paradoxical processes according to a devouring logic which evokes the search of specific solutions for each artistic action the opening gesture in the interferences is to select a supporting-image among the pre-existing infinitude in the world which then influences the making of the drawing that will superpose it the configurations and the means to make interferences the original framework is therefore covered by the artist s drawing what includes his point-of-view into the landscape of the world if the marks of a generative creation can be seen in the seized image while embracing the world of seizable objects their borders are blurred by the gaze of the draughtsman which attributes to them a new locus each objectimage held becomes a phase of a process in which its autonomy is overcome and the good path of art in-it-self is corrupted the images combined in the configurations we see present nuances in the erasing of the supporting-image by the active drawing which can be seen in the series billscapes one could hurriedly conclude that the gradation in the intensity of the gesture is a sign of lack of style nevertheless what matters here in this open process is the material integrity of an object which takes hold of the artist and demands those procedures that will turn their disposable condition into a perennial one consequently the reversibility of the roles of possessor-possessed has a procedural equivalent at the same time that materials are selected according to the adequacy to the features of the supporting-image these are also suitable to the quality of the materials at hand to do the interference which are the most adequate means to produce a resilient image which are their advantages the compatibility between 12

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the materials of the supporting-image and those selected by the craftsman wraps the result up in value it is art this operation is liminal the draughtsman who makes the work we see is located between two territories the world of industrialized objects and the world of art or the world of external imagery and their internal counterpoint united by means of freeassociations established by the drawing it is not therefore enough to name or choose an object in order to elect it as artistic neither objects trouvés nor ready-made in pure state the indetermination of a single process of interference indicates a multifaceted path in some cases the work results from the superimposition of a layer of matter image and consequently meaning onto the found support in others the work is the result of the action of the artist over two pre-existing layers a photograph by him corrupted by humidity turns into a drawing by the action of his hand the randomness is in the latter a disorienting event turned into a stimulus in both cases the encounter with the object of the artistic action is not an end in itself the procedures of maravalhas also differ from the transposition of a non-artistic object to the context of art by the simple insertion that is the interferences are not ready-mades while marcel duchamp made his ready-made aided by means of an addition of a graphic detail on the industrialized object with the single purpose of satisfying an alliteration need the drawings of maravalhas superpose freely on the form and its associated concept therefore the draughtsman describes his interferences as corrections and articulates words and images with irony in the interference made over a reproduction of a detail of a fresco by luca signorelli ­ i fatti dell anticristo ­ employed to illustrate the building up of the unconscious the printed image is only partially covered by the drawing and the word correcting is placed before the surname of the italian artist which becomes a first name of sorts we see that the encounter of the artist with his underpinnings is not the effect of an absolute chance even though the group of interferences is varied we do not see in them all the world s imagery production as the artist claims but the result of his choices to his eclectic selection we could attribute the term jungle of contradictions without classificatory borders as it was used by hans richter in order to differentiate the artistic procedures which this artist s generation had opposed to the typical circumscription and auto-referential breadth in his own words of the herbarium of the history of art the artistic forerunners of maravalhas who had made interferences on supporting-images during the first half of the twentieth century were in search of a balance between the consciousness and the unconscious between premeditation and spontaneity kurt schwitters and marcel janco refused as our contemporary artist an established style and were condemned to a paradoxical need to trust chance and at the same time to consider that they were conscious beings working in order to achieve conscious goals they aimed in that context to accomplish a state of controlled freedom or of emancipated discipline in the interferences we see that the schism between artistic and non-artistic territories is not a place without sensory phenomena but is perceptively binary while making images emerge from unfathomable abysses it also frees the visible imagery from the formal logic that imprisons its ambiguities the randomness allows superposing on the good objective framing of the world according to the point-of-view of the codified art languages a positively conflicting bias to regard the world the subjective one we see a choosing and a likely syntax to a repertoire of images previously intelligible to the world of images that require only a single reading now in this grouping gathered by maravalhas for this book each image refrains from being a launching pad to a unidirectional reading and its intratextuality is a hub to where multifarious meanings converge it is in each case a crossroad in the vast field of cultural objects where the determination of peripheral or central places artistic or non-artistic would only be possible if we operate on conventionalities either chronological or geopolitical this drawing compilation marks the steps of a wanderer who from junction to junction leaves the signs of his irony in a tissue of procedures and results as polyphonic as the culture where it exists after all correcting signorelli could very well be his motto 13

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