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o cortiço de aluísio de azevedo fonte azevedo aluísio o cortiço 30 ed são paulo Ática 1997 bom livro texto proveniente de a biblioteca virtual do estudante brasileiro
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jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarelo já mareadas um oratório cheio de santos e forrado de papel de cor um baú grande de couro cru tacheado dois banquinhos de pau feitos de uma só peça e um formidável cabide de pregar na parede com a sua competente coberta de retalhos de chita o vendeiro nunca tivera tanta mobília agora disse ele à crioula as coisas vão correr melhor para você você vai ficar forra eu entro com o que falta nesse dia ele saiu muito à rua e uma semana depois apareceu com uma folha de papel toda escrita que leu em voz alta à companheira você agora não tem mais senhor declarou em seguida à leitura que ela ouviu entre lágrimas agradecidas agora está livre doravante o que você fizer é só seu e mais de seus filhos se os tiver acabou-se o cativeiro de pagar os vinte mil-réis à peste do cego coitado a gente se queixa é da sorte ele como meu senhor exigia o jornal exigia o que era seu seu ou não seu acabou-se e vida nova contra todo o costume abriu-se nesse dia uma garrafa de vinho do porto e os dois beberam-na em honra ao grande acontecimento entretanto a tal carta de liberdade era obra do próprio joão romão e nem mesmo o selo que ele entendeu de pespegar-lhe em cima para dar à burla maior formalidade representava despesa porque o esperto aproveitara uma estampilha já servida o senhor de bertoleza não teve sequer conhecimento do fato o que lhe constou sim foi que a sua escrava lhe havia fugido para a bahia depois da morte do amigo o cego que venha buscá-la aqui se for capaz desafiou o vendeiro de si para si ele que caia nessa e verá se tem ou não pra pêras não obstante só ficou tranqüilo de todo daí a três meses quando lhe constou a morte do velho a escrava passara naturalmente em herança a qualquer dos filhos do morto mas por estes nada havia que recear dois pândegos de marca maior que empolgada a legitima cuidariam de tudo menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de muitos anos àquela parte ora bastava já e não era pouco o que lhe tinham sugado durante tanto tempo bertoleza representava agora ao lado de joão romão o papel tríplice de caixeiro de criada e de amante mourejava a valer mas de cara alegre às quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias aviando o café para os fregueses e depois preparando o almoço para os trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal aos fundos da venda varria a casa cozinhava vendia ao balcão na taverna quando o amigo andava ocupado lá por fora fazia a sua quitanda durante o dia no intervalo de outros serviços e à noite passava-se para a porta da venda e defronte de um fogareiro de barro fritava fígado e frigia sardinhas que romão ia pela manhã em mangas de camisa de tamancos e sem meias comprar à praia do peixe e o demônio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e consertar além da sua a roupa do seu homem que esta valha a verdade não era tanta e nunca passava em todo o mês de alguns pares de calças de zuarte e outras tantas camisas de riscado joão romão não saia nunca a passeio nem ia à missa aos domingos tudo que rendia a sua venda e mais a quitanda seguia direitinho para a caixa econômica e daí então para o banco tanto assim que um ano depois da aquisição da crioula indo em hasta pública algumas braças de terra situadas ao fundo da taverna arrematou-as logo e tratou sem perda de tempo de construir três casinhas de porta e janela que milagres de esperteza e de economia não realizou ele nessa construção servia de pedreiro amassava e carregava barro quebrava pedra pedra que o velhaco fora de horas junto com a amiga furtavam à pedreira do fundo da mesma forma que subtraiam o material das casas em obra que havia por ali perto estes furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados do melhor sucesso graças à circunstância de que nesse tempo a polícia não se mostrava muito por aquelas alturas joão romão observava durante o dia quais as obras em que ficava material para o dia seguinte e à noite lá estava ele rente mais a bertoleza a removerem tábuas tijolos telhas sacos de cal para o meio da rua com tamanha habilidade que se não ouvia vislumbre de rumor depois um tomava uma carga e partia para casa enquanto o outro ficava de alcatéia ao lado do resto pronto a dar sinal em caso de perigo e quando o que tinha ido voltava seguia então o companheiro carregado por sua vez nada lhes escapava nem mesmo as escadas dos pedreiros os cavalos de pau o banco ou a ferramenta dos marceneiros e o fato é que aquelas três casinhas tão engenhosamente construídas foram o ponto de partida do grande cortiço de são romão hoje quatro braças de terra amanhã seis depois mais outras ia o vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da sua bodega e à proporção que o conquistava reproduziam-se os quartos e o número de moradores sempre em mangas de camisa sem domingo nem dia santo não perdendo nunca a ocasião de assenhorear-se do alheio deixando de pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber enganando os fregueses roubando nos
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pesos e nas medidas comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa dos seus senhores apertando cada vez mais as próprias despesas empilhando privações sobre privações trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois joão romão veio afinal a comprar uma boa parte da bela pedreira que ele todos os dias ao cair da tarde assentado um instante à porta da venda contemplava de longe com um resignado olhar de cobiça pôs lá seis homens a quebrarem pedra e outros seis a fazerem lajedos e paralelepípedos e então principiou a ganhar em grosso tão em grosso que dentro de ano e meio arrematava já todo o espaço compreendido entre as suas casinhas e a pedreira isto é umas oitenta braças de fundo sobre vinte de frente em plano enxuto e magnífico para construir justamente por essa ocasião vendeu-se também um sobrado que ficava à direita da venda separado desta apenas por aquelas vinte braças de sorte que todo o flanco esquerdo do prédio coisa de uns vinte e tantos metros despejava para o terreno do vendeiro as suas nove janelas de peitoril comprou-o um tal miranda negociante português estabelecido na rua do hospício com uma loja de fazendas por atacado corrida uma limpeza geral no casarão mudar-se-ia ele para lá com a família pois que a mulher dona estela senhora pretensiosa e com fumaças de nobreza já não podia suportar a residência no centro da cidade como também sua menina a zulmirinha crescia muito pálida e precisava de largueza para enrijar e tomar corpo isto foi o que disse o miranda aos colegas porém a verdadeira causa da mudança estava na necessidade que ele reconhecia urgente de afastar dona estela do alcance dos seus caixeiros dona estela era uma mulherzinha levada da breca achava-se casada havia treze anos e durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos ainda antes de terminar o segundo ano de matrimônio o miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério ficou furioso e o seu primeiro impulso foi de mandá-la para o diabo junto com o cúmplice mas a sua casa comercial garantia-se com o dote que ela trouxera uns oitenta contos em prédios e ações da divida publica de que se utilizava o desgraçado tanto quanto lhe permitia o regime dotal além de que um rompimento brusco seria obra para escândalo e segundo a sua opinião qualquer escândalo doméstico ficava muito mal a um negociante de certa ordem prezava acima de tudo a sua posição social e tremia só com a idéia de ver-se novamente pobre sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida depois de se haver habituado a umas tantas regalias e afeito à hombridade de português rico que já não tem pátria na europa acovardado defronte destes raciocínios contentou-se com uma simples separação de leitos e os dois passaram a dormir em quartos separados não comiam juntos e mal trocavam entre si uma ou outra palavra constrangida quando qualquer inesperado acaso os reunia a contragosto odiavam-se cada qual sentia pelo outro um profundo desprezo que pouco a pouco se foi transformando em repugnância completa o nascimento de zulmira veio agravar ainda mais a situação a pobre criança em vez de servir de elo aos dois infelizes foi antes um novo isolador que se estabeleceu entre eles estela amava-a menos do que lhe pedia o instinto materno por supô-la filha do marido e este a detestava porque tinha convicção de não ser seu pai uma bela noite porém o miranda que era homem de sangue esperto e orçava então pelos seus trinta e cinco anos sentiu-se em insuportável estado de lubricidade era tarde já e não havia em casa alguma criada que lhe pudesse valer lembrou-se da mulher mas repeliu logo esta idéia com escrupulosa repugnância continuava a odiá-la entretanto este mesmo fato de obrigação em que ele se colocou de não servir-se dela a responsabilidade de desprezá-la como que ainda mais lhe assanhava o desejo da carne fazendo da esposa infiel um fruto proibido afinal coisa singular posto que moralmente nada diminuísse a sua repugnância pela perjura foi ter ao quarto dela a mulher dormia a sono solto miranda entrou pé ante pé e aproximou-se da cama devia voltar pensou não lhe ficava bem aquilo mas o sangue latejava-lhe reclamando-a ainda hesitou um instante imóvel a contemplá-la no seu desejo estela como se o olhar do marido lhe apalpasse o corpo torceu-se sobre o quadril da esquerda repuxando com as coxas o lençol para a frente e patenteando uma nesga de nudez estofada e branca o miranda não pôde resistir atirou-se contra ela que num pequeno sobressalto mais de surpresa que de revolta desviou-se tornando logo e enfrentando com o marido e deixou-se empolgar pelos rins de olhos fechados fingindo que continuava a dormir sem a menor consciência de tudo aquilo ah ela contava como certo que o esposo desde que não teve coragem de separar-se de casa havia mais cedo ou mais tarde de procurá-la de novo conhecia-lhe o temperamento forte para desejar e fraco para resistir ao desejo consumado o delito o honrado negociante sentiu-se tolhido de vergonha e arrependimento não teve animo de dar palavra e retirou-se tristonho e murcho para o seu quarto de desquitado oh como lhe doía agora o que acabava de praticar na cegueira da sua sensualidade que cabeçada dizia ele agitado que formidável cabeçada no dia seguinte os dois viram-se e evitaram-se em silêncio como se nada de extraordinário houvera entre eles acontecido na véspera dir-se-ia até que depois daquela ocorrência o miranda sentia crescer o seu ódio contra a esposa e à noite desse mesmo dia quando se achou sozinho na sua cama estreita jurou mil vezes aos seus brios nunca mais nunca mais praticar semelhante loucura.
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mas daí a um mês o pobre homem acometido de um novo acesso de luxúria voltou ao quarto da mulher estela recebeu-o desta vez como da primeira fingindo que não acordava na ocasião porém em que ele se apoderava dela febrilmente a leviana sem se poder conter soltou-lhe em cheio contra o rosto uma gargalhada que a custo sopeava o pobre-diabo desnorteou deveras escandalizado soerguendo-se brusco num estremunhamento de sonâmbulo acordado com violência a mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo para fugir passou-lhe rápido as pernas por cima e grudando-se-lhe ao corpo cegou-o com uma metralhada de beijos não se falaram miranda nunca a tivera nem nunca a vira assim tão violenta no prazer estranhou-a afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada descobriu nela o capitoso encanto com que nos embebedam as cortesãs amestradas na ciência do gozo venéreo descobriu-lhe no cheiro da pele e no cheiro dos cabelos perfumes que nunca lhe sentira notou-lhe outro hálito outro som nos gemidos e nos suspiros e gozou-a gozou-a loucamente com delírio com verdadeira satisfação de animal no cio e ela também ela também gozou estimulada por aquela circunstância picante do ressentimento que os desunia gozou a desonestidade daquele ato que a ambos acanalhava aos olhos um do outro estorceu-se toda rangendo os dentes grunhindo debaixo daquele seu inimigo odiado achando-o também agora como homem melhor que nunca sufocando-o nos seus braços nus metendo-lhe pela boca a língua úmida e em brasa depois um arranco de corpo inteiro com um soluço gutural e estrangulado arquejante e convulsa estatelou-se num abandono de pernas e braços abertos a cabeça para o lado os olhos moribundos e chorosos toda ela agonizante como se a tivessem crucificado na cama a partir dessa noite da qual só pela manhã o miranda se retirou do quarto da mulher estabeleceu-se entre eles o hábito de uma felicidade sexual tão completa como ainda não a tinham desfrutado posto que no intimo de cada um persistisse contra o outro a mesma repugnância moral em nada enfraquecida durante dez anos viveram muito bem casados agora porém tanto tempo depois da primeira infidelidade conjugal e agora que o negociante já não era acometido tão freqüentemente por aquelas crises que o arrojavam fora de horas ao dormitório de dona estela agora eis que a leviana parecia disposta a reincidir na culpa dando corda aos caixeiros do marido na ocasião em que estes subiam para almoçar ou jantar foi por isso que o miranda comprou o prédio vizinho a joão romão a casa era boa seu único defeito estava na escassez do quintal mas para isso havia remédio com muito pouco compravam-se umas dez braças daquele terreno do fundo que ia até à pedreira e mais uns dez ou quinze palmos do lado em que ficava a venda miranda foi logo entender-se com o romão e propôs-lhe negócio o taverneiro recusou formalmente miranda insistiu o senhor perde seu tempo e seu latim retrucou o amigo de bertoleza nem só não cedo uma polegada do meu terreno como ainda lhe compro se mo quiser vender aquele pedaço que lhe fica ao fundo da casa o quintal É exato pois você quer que eu fique sem chácara sem jardim sem nada para mim era de vantagem ora deixe-se disso homem e diga lá quanto quer pelo que lhe propus já disse o que tinha a dizer ceda-me então ao menos as dez braças do fundo nem meio palmo isso é maldade de sua parte sabe eu se faço tamanho empenho é pela minha pequena que precisa coitada de um pouco de espaço para alargar-se e eu não cedo porque preciso do meu terreno ora qual que diabo pode lá você fazer ali uma porcaria de um pedaço de terreno quase grudado ao morro e aos fundos de minha casa quando você aliás dispõe de tanto espaço ainda hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer ali!
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É que você é teimoso olhe se me cedesse as dez braças do fundo a sua parte ficaria cortada em linha reta até à pedreira e escusava eu de ficar com uma aba de terreno alheio a meter-se pelo meu quer saber não amuro o quintal sem você decidir-se então ficará com o quintal para sempre sem muro porque o que tinha a dizer já disse mas homem de deus que diabo pense um pouco você ali não pode construir nada ou pensará que lhe deixarei abrir janelas sobre o meu quintal não preciso abrir janelas sobre o quintal de ninguém nem tampouco lhe deixarei levantar parede tapando-me as janelas da esquerda não preciso levantar parede desse lado então que diabo vai você fazer de todo este terreno ah isso agora é cá comigo o que for soará pois creia que se arrepende de não me ceder o terreno se me arrepender paciência só lhe digo é que muito mal se sairá quem quiser meter-se cá com a minha vida passe bem adeus travou-se então uma lata renhida e surda entre o português negociante de fazendas por atacado e o português negociante de secos e molhados aquele não se resolvia a fazer o muro do quintal sem ter alcançado o pedaço de terreno que o separava do morro e o outro por seu lado não perdia a esperança de apanhar-lhe ainda pelo menos duas ou três braças aos fundos da casa parte esta que conforme os seus cálculos valeria ouro uma vez realizado o grande projeto que ultimamente o trazia preocupado a criação de uma estalagem em ponto enorme uma estalagem monstro sem exemplo destinada a matar toda aquela miuçalha de cortiços que alastravam por botafogo era este o seu ideal havia muito que joão romão vivia exclusivamente para essa idéia sonhava com ela todas as noites comparecia a todos os leilões de materiais de construção arrematava madeiramentos já servidos comprava telha em segunda mão fazia pechinchas de cal e tijolos o que era tudo depositado no seu extenso chão vazio cujo aspecto tomava em breve o caráter estranho de uma enorme barricada tal era a variedade dos objetos que ali se apinhavam acumulados tábuas e sarrafos troncos de árvore mastros de navio caibros restos de carroças chaminés de barro e de ferro fogões desmantelados pilhas e pilhas de tijolos de todos os feitios barricas de cimento montes de areia e terra vermelha aglomerações de telhas velhas escadas partidas depósitos de cal o diabo enfim ao que ele que sabia perfeitamente como essas coisas se furtavam resguardava soltando à noite um formidável cão de fila este cão era pretexto de eternas resingas com a gente do miranda a cujo quintal ninguém de casa podia descer depois das dez horas da noite sem correr o risco de ser assaltado pela fera É fazer o muro dizia o joão romão sacudindo os ombros não faço replicava o outro se ele é questão de capricho eu também tenho capricho em compensação não caia no quintal do miranda galinha ou frango fugidos do cercado do vendeiro que não levasse imediato sumiço joão romão protestava contra o roubo em termos violentos jurando vinganças terríveis falando em dar tiros pois é fazer um muro no galinheiro repontava o marido de estela daí a alguns meses joão romão depois de tentar um derradeiro esforço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho resolveu principiar as obras da estalagem deixa estar conversava ele na cama com a bertoleza deixa estar que ainda lhe hei de entrar pelos fundos da casa se é que não lhe entre pela frente mais cedo ou mais tarde como-lhe não duas braças mas seis oito todo o quintal e até o próprio sobrado talvez e dizia isto com uma convicção de quem tudo pode e tudo espera da sua perseverança do seu esforço inquebrantável e da fecundidade prodigiosa do seu dinheiro dinheiro que só lhe saia das unhas para voltar multiplicado desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente todos os seus atos todos fosse o mais simples visavam um interesse pecuniário só tinha uma preocupação aumentar os bens das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes aqueles que por maus ninguém compraria as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo do que no entanto gostava imenso vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores aquilo já não era ambição era uma moléstia nervosa uma loucura um desespero de acumular de reduzir tudo a moeda e seu tipo baixote socado de cabelos à escovinha a barba sempre por fazer ia e vinha da pedreira para a venda da venda às hortas e ao capinzal sempre em mangas de camisa de tamancos sem meias olhando
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para todos os lados com o seu eterno ar de cobiça apoderando-se com os olhos de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas entretanto a rua lá fora povoava-se de um modo admirável construía-se mal porém muito surgiam chalés e casinhas da noite para o dia subiam os aluguéis as propriedades dobravam de valor montara-se uma fábrica de massas italianas e outra de velas e os trabalhadores passavam de manhã e às ave-marias e a maior parte deles ia comer à casa de pasto que joão romão arranjara aos fundos da sua varanda abriram-se novas tavernas nenhuma porém conseguia ser tão afreguesada como a dele nunca o seu negocio fora tão bem nunca o finório vendera tanto vendia mais agora muito mais que nos anos anteriores teve até de admitir caixeiros as mercadorias não lhe paravam nas prateleiras o balcão estava cada vez mais lustroso mais gasto e o dinheiro a pingar vintém por vintém dentro da gaveta e a escorrer da gaveta para a barra aos cinqüenta e aos cem mil-réis e da burra para o banco aos contos e aos contos afinal já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazéns fornecedores começou a receber alguns gêneros diretamente da europa o vinho por exemplo que ele dantes comprava aos quintos nas casas de atacado vinha-lhe agora de portugal às pipas e de cada uma fazia três com água e cachaça e despachava faturas de barris de manteiga de caixas de conserva caixões de fósforos azeite queijos louça e muitas outras mercadorias criou armazéns para depósito aboliu a quitanda e transferiu o dormitório aproveitando o espaço para ampliar a venda que dobrou de tamanho e ganhou mais duas portas já não era uma simples taverna era um bazar em que se encontrava de tudo objetos de armarinho ferragens porcelanas utensílios de escritório roupa de riscado para os trabalhadores fazenda para roupa de mulher chapéus de palha próprios para o serviço ao sol perfumarias baratas pentes de chifre lenços com versos de amor e anéis e brincos de metal ordinário e toda a gentalha daquelas redondezas ia cair lá ou então ali ao lado na casa de pasto onde os operários das fábricas e os trabalhadores da pedreira se reuniam depois do serviço e ficavam bebendo e conversando até as dez horas da noite entre o espesso fumo dos cachimbos do peixe frito em azeite e dos lampiões de querosene era joão romão quem lhes fornecia tudo tudo até dinheiro adiantado quando algum precisava por ali não se encontrava jornaleiro cujo ordenado não fosse inteirinho parar às mãos do velhaco e sobre este cobre quase sempre emprestado aos tostões cobrava juros de oito por cento ao mês um pouco mais do que levava aos que garantiam a divida com penhores de ouro ou prata não obstante as casinhas do cortiço à proporção que se atamancavam enchiam-se logo sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem havia grande avidez em alugá-las aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho os empregados da pedreira preferiam todos morar lá porque ficavam a dois passos da obrigação o miranda rebentava de raiva um cortiço exclamava ele possesso um cortiço maldito seja aquele vendeiro de todos os diabos fazer-me um cortiço debaixo das janelas estragou-me a casa o malvado e vomitava pragas jurando que havia de vingar-se e protestando aos berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas e contra o infernal baralho dos pedreiros e carpinteiros que levavam a martelar de sol a sol o que aliás não impediu que as casinhas continuassem a surgir uma após outra e fossem logo se enchendo a estenderem-se unidas por ali a fora desde a venda até quase ao morro e depois dobrassem para o lado do miranda e avançassem sobre o quintal deste que parecia ameaçado por aquela serpente de pedra e cal o miranda mandou logo levantar o muro nada aquele demônio era capaz de invadir-lhe a casa até a sala de visitas e os quartos do cortiço pararam enfim de encontro ao muro do negociante formando com a continuação da casa deste um grande quadrilongo espécie de pátio de quartel onde podia formar um batalhão noventa e cinco casinhas comportou a imensa estalagem prontas joão romão mandou levantar na frente nas vinte braças que separavam a venda do sobrado do miranda um grosso muro de dez palmos de altura coroado de cacos de vidro e fundos de garrafa e com um grande portão no centro onde se dependurou uma lanterna de vidraças vermelhas por cima de uma tabuleta amarela em que se lia o seguinte escrito a tinta encarnada e sem ortografia estalagem de são romão alugam-se casinhas e tinas para lavadeiras as casinhas eram alugadas por mês e as tinas por dia tudo pago adiantado o preço de cada tina metendo a água quinhentos réis sabão à parte as moradoras do cortiço tinham preferência e não pagavam nada para lavar graças à abundância da água que lá havia como em nenhuma outra parte e graças ao muito espaço de que se dispunha no cortiço para estender a roupa a concorrência às tinas não se fez esperar acudiram lavadeiras de todos os
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pontos da cidade entre elas algumas vindas de bem longe e mal vagava uma das casinhas ou um quarto um canto onde coubesse um colchão surgia uma nuvem de pretendentes a disputá-los e aquilo se foi constituindo numa grande lavanderia agitada e barulhenta com as suas cercas de varas as suas hortaliças verdejantes e os seus jardinzinhos de três e quatro palmos que apareciam como manchas alegres por entre a negrura das limosas tinas transbordantes e o revérbero das claras barracas de algodão cru armadas sobre os lustrosos bancos de lavar e os gotejantes jiraus cobertos de roupa molhada cintilavam ao sol que nem lagos de metal branco e naquela terra encharcada e fumegante naquela umidade quente e lodosa começou a minhocar a esfervilhar a crescer um mundo uma coisa viva uma geração que parecia brotar espontânea ali mesmo daquele lameiro e multiplicar-se como larvas no esterco.
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ii durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia ganhando forças socando-se de gente e ao lado o miranda assustava-se inquieto com aquela exuberância brutal de vida aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa por debaixo das janelas e cujas raízes piores e mais grossas do que serpentes minavam por toda a parte ameaçando rebentar o chão em torno dela rachando o solo e abalando tudo posto que lá na rua do hospício os seus negócios não corressem mal custava-lhe a sofrer a escandalosa fortuna do vendeiro aquele tipo um miserável um sujo que não pusera nunca um paletó e que vivia de cama e mesa com uma negra À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume quando ele recolhendo-se fatigado do serviço deixava-se ficar estendido numa preguiçosa junto à mesa da sala de jantar e ouvia a contragosto o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação forte de animais cansados não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo quente e sensual que o embebedava com o seu fartum de bestas no coito e depois fechado no quarto de dormir indiferente e habituado às torpezas carnais da mulher isento já dos primitivos sobressaltos que lhe faziam a ele ferver o sangue e perder a tramontana era ainda a prosperidade do vizinho o que lhe obsedava o espírito enegrecendo-lhe a alma com um feio ressentimento de despeito tinha inveja do outro daquele outro português que fizera fortuna sem precisar roer nenhum chifre daquele outro que para ser mais rico três vezes do que ele não teve de casar com a filha do patrão ou com a bastarda de algum fazendeiro freguês da casa mas então ele miranda que se supunha a última expressão da ladinagem e da esperteza ele que logo depois do seu casamento respondendo para portugal a um ex-colega que o felicitava dissera que o brasil era uma cavalgadura carregada de dinheiro cujas rédeas um homem fino empolgava facilmente ele que se tinha na conta de invencível matreiro não passava afinal de um pedaço de asno comparado com o seu vizinho pensara fazer-se senhor do brasil e fizera-se escravo de uma brasileira mal-educada e sem escrúpulos de virtude imaginara-se talhado para grandes conquistas e não passava de uma vitima ridícula e sofredora sim no fim de contas qual fora a sua África enriquecera um pouco é verdade mas como a que preço hipotecando-se a um diabo que lhe trouxera oitenta contos de réis mas incalculáveis milhões de desgostos e vergonhas arranjara a vida sim mas teve de aturar eternamente uma mulher que ele odiava e do que afinal lhe aproveitar tudo isso qual era afinal a sua grande existência do inferno da casa para o purgatório do trabalho e vice-versa invejável sorte não havia dúvida na dolorosa incerteza de que zulmira fosse sua filha o desgraçado nem sequer gozava o prazer de ser pai se ela em vez de nascer de estela fora uma enjeitadinha recolhida por ele é natural que a amasse e então a vida lhe correria de outro modo mas naquelas condições a pobre criança nada mais representava que o documento vivo do ludibrio materno e o miranda estendia até à inocentezinha d África o ódio que sustentava contra a esposa uma espiga a tal da sua vida fui uma besta resumiu ele em voz alta apeando-se da cama onde se havia recolhido inutilmente e pôs-se a passear no quarto sem vontade de dormir sentindo que a febre daquela inveja lhe estorricava os miolos feliz e esperto era o joão romão esse sim senhor para esse é que havia de ser a vida filho da mãe que estava hoje tão livre e desembaraçado como no dia em que chegou da terra sem um vintém de seu esse sim que era moço e podia ainda gozar muito porque quando mesmo viesse a casar e a mulher lhe saísse uma outra estela era só mandá-la para o diabo com um pontapé podia fazê-lo para esse é que era o brasil fui uma besta repisava ele sem conseguir conformar-se com a felicidade do vendeiro uma grandíssima no fim de contas que diabo possuo eu uma casa de negócio da qual não posso separar-me sem comprometer o que lá está enterrado um capital metido numa rede de transações que não se liquidam nunca e cada vez mais se complicam e mais me grudam ao estupor desta terra onde deixarei a casca que tenho de meu se a alma do meu crédito é o dote que me trouxe aquela sem-vergonha e que a ela me prende como a peste da casa comercial me prende a esta costa d África foi da supuração fétida destas idéias que se formou no coração vazio do miranda um novo ideal o título faltando-lhe temperamento próprio para os vícios fortes que enchem a vida de um homem sem família a quem amar e sem imaginação para poder gozar com as prostitutas o náufrago agarrou-se àquela tábua como um agonizante consciente da morte que se apega à esperança de uma vida futura a vaidade de estela que a principio lhe tirava dos lábios incrédulos sorrisos de mofa agora lhe comprazia à farta procurou capacitar-se de que ela com efeito herdara sangue nobre que ele por sua vez se não o tinha herdado trouxera-o por natureza própria o que devia valer mais ainda e desde então principiou a sonhar com um baronato fazendo disso o objeto querido da sua existência muito satisfeito no intimo por ter afinal descoberto uma coisa em que podia empregar dinheiro sem ter nunca mais de restituí-lo à mulher nem ter de deixá-lo a pessoa alguma.
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semelhante preocupação modificou-o em extremo deu logo para fingir-se escravo das conveniências afetando escrúpulos sociais empertigando-se quanto podia e disfarçando a sua inveja pelo vizinho com um desdenhoso ar de superioridade condescendente ao passar-lhe todos os dias pela venda cumprimentava-o com proteção sorrindo sem rir e fechando logo a cara em seguida muito sério dados os primeiros passos para a compra do titulo abriu a casa e deu festas a mulher posto que lhe apontassem já os cabelos brancos rejubilou com isso zulmira tinha então doze para treze anos e era o tipo acabado da fluminense pálida magrinha com pequeninas manchas roxas nas mucosas do nariz das pálpebras e dos lábios faces levemente pintalgadas de sardas respirava o tom úmido das flores noturnas uma brancura fria de magnólia cabelos castanho-claros mãos quase transparentes unhas moles e curtas como as da mãe dentes pouco mais claros do que a cútis do rosto pés pequeninos quadril estreito mas os olhos grandes negros vivos e maliciosos por essa época justamente chegava de minas recomendado ao pai dela o filho de um fazendeiro importantíssimo que dava belos lucros à casa comercial de miranda e que era talvez o melhor freguês que este possuía no interior o rapaz chamava-se henrique tinha quinze anos e vinha terminar na corte alguns preparatórios que lhe faltavam para entrar na academia de medicina miranda hospedou-o no seu sobrado da rua do hospício mas o estudante queixou-se no fim de alguns dias de que ai ficava mal acomodado e o negociante a quem não convinha desagradar-lhe carregou com ele para a sua residência particular de botafogo henrique era bonitinho cheio de acanhamentos com umas delicadezas de menina parecia muito cuidadoso dos seus estudos e tão pouco extravagante e gastador que não despendia um vintém fora das necessidade de primeira urgência de resto a não ser de manhã para as aulas que ia sempre com o miranda não arredava pé de casa senão em companhia da família deste dona estela no cabo de pouco tempo mostrou por ele estima quase maternal e encarregou-se de tomar conta da sua mesada mesada posta pelo negociante visto que o henriquinho tinha ordem franca do pai nunca pedia dinheiro quando precisava de qualquer coisa reclamava-a de dona estela que por sua vez encarregava o marido de comprá-la sendo o objeto lançado na conta do fazendeiro com uma comissão de usurário sua hospedagem custava duzentos e cinqüenta mil-réis por mês do que ele todavia não tinha conhecimento nem queria ter nada lhe faltava e os criados da casa o respeitavam como a um filho do próprio senhor À noite às vezes quando o tempo estava bom dona estela saia com ele a filha e um moleque o valentim a darem uma volta ate à praia e em tendo convite para qualquer festa em casa das amigas levava-o em sua companhia a criadagem da família do miranda compunha-se de isaura mulata ainda moça moleirona e tola que gastava todo o vintenzinho que pilhava em comprar capilé na venda de joão romão uma negrinha virgem chamada leonor muito ligeira e viva lisa e seca como um moleque conhecendo de orelha sem lhe faltar um termo a vasta tecnologia da obscenidade e dizendo sempre que os caixeiros ou os fregueses da taverna só para mexer com ela lhe davam atracações Óia que eu me queixo ao juiz de orfe e finalmente o tal valentim filho de uma escrava que foi de dona estela e a quem esta havia alforriado a mulher do miranda tinha por este moleque uma afeição sem limites dava-lhe toda a liberdade dinheiro presentes levava-o consigo a passeio trazia-o bem vestido e muita vez chegou a fazer ciúmes à filha de tão solicita que se mostrava com ele pois se a caprichosa senhora ralhava com zulmira por causa do negrinho pois se quando se queixavam os dois um contra o outro ela nunca dava razão à filha pois se o que havia de melhor na casa era para o valentim pois se quando foi este atacado de bexigas e o miranda apesar das súplicas e dos protestos da esposa mandou-o para um hospital dona estela chorava todos os dias e durante a ausência dele não tocou piano nem cantou nem mostrou os dentes a ninguém e o pobre miranda se não queria sofrer impertinências da mulher e ouvir sensaborias defronte dos criados tinha de dar ao moleque toda a consideração e fazer-lhe humildemente todas as vontades havia ainda sob as telhas do negociante um outro hóspede além do henrique o velho botelho este porém na qualidade de parasita era um pobre-diabo caminhando para os setenta anos antipático cabelo branco curto e duro como escova barba e bigode do mesmo teor muito macilento com uns óculos redondos que lhe aumentavam o tamanho da pupila e davam-lhe à cara uma expressão de abutre perfeitamente de acordo com o seu nariz adunco e com a sua boca sem lábios viam-se-lhe ainda todos os dentes mas tão gastos que pareciam limados até ao meio andava sempre de preto com um guarda-chuva debaixo do braço e um chapéu de braga enterrado nas orelhas fora em seu tempo empregado do comércio depois corretor de escravos contava mesmo que estivera mais de uma vez na África negociando negros por sua conta atirou-se muito às especulações durante a guerra do paraguai ainda ganhara forte chegando a ser bem rico mas a roda desandou e de malogro em malogro foi-lhe escapando tudo por entre as suas garras de ave de rapina e agora coitado já velho comido de desilusões cheio de hemorróidas via-se totalmente sem recursos e vegetava à
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sombra do mirada com quem por muitos anos trabalhou em rapaz sob as ordens do mesmo patrão e de quem se conservara amigo a principio por acaso e mais tarde por necessidade devorava-o noite e dia uma implacável amargura uma surda tristeza de vencido um desespero impotente contra tudo e contra todos por não lhe ter sido possível empolgar o mundo com as suas mãos hoje inúteis e trêmulas e como o seu atual estado de miséria não lhe permitia abrir contra ninguém o bico desabafava vituperando as idéias da época assim eram às vezes muito quentes as sobremesas do miranda quando entre outros assuntos palpitantes vinha à discussão o movimento abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei rio branco então o botelho ficava possesso e vomitava frases terríveis para a direita e para a esquerda como quem dispara tiros sem fazer alvo e vociferava imprecações aproveitando aquela válvula para desafogar o velho ódio acumulado dentro dele bandidos berrava apoplético cáfila de salteadores e o seu rancor irradiava-lhe dos olhos em setas envenenadas procurando cravar-se em todas as brancuras e em todas as claridades a virtude a beleza o talento a mocidade a força a saúde e principalmente a fortuna eis o que ele não perdoava a ninguém amaldiçoando todo aquele que conseguia o que ele não obtivera que gozava o que ele não desfrutara que sabia o que ele não aprendera e para individualizar o objeto do seu ódio voltava-se contra o brasil essa terra que na sua opinião só tinha uma serventia enriquecer os portugueses e que no entanto o deixara a ele na penúria seus dias eram consumidos do seguinte modo acordava às oito da manhã lavava-se mesmo no quarto com uma toalha molhada em espírito de vinho depois ia ler os jornais para a sala de jantar à espera do almoço almoçava e sala tomava o bonde e ia direitinho para uma charutaria da rua do ouvidor onde costumava ficar assentado até às horas do jantar entretido a dizer mal das pessoas que passavam lá fora defronte dele tinha a pretensão de conhecer todo o rio de janeiro e os podres de cada um em particular Às vezes poucas dona estela encarregava-o de fazer pequenas compras de armarinho o que o botelho desempenhava melhor que ninguém mas a sua grande paixão o seu fraco era a farda adorava tudo que dissesse respeito a militarismo posto que tivera sempre invencível medo às armas de qualquer espécie mormente às de fogo não podia ouvir disparar perto de si uma espingarda entusiasmava-se porém com tudo que cheirasse a guerra a presença de um oficial em grande uniforme tirava-lhe lágrimas de comoção conhecia na ponta da língua o que se referia à vida de quartel distinguia ao primeiro lance de olhos o posto e o corpo a que pertencia qualquer soldado e apesar dos seus achaques era ouvir tocar na rua a corneta ou o tambor conduzindo o batalhão ficava logo no ar e muita vez quando dava por si fazia parte dos que acompanhavam a tropa então não tornava para casa enquanto os militares neo se recolhessem quase sempre voltava dessa loucura às seis da tarde moído a fazer dó sem poder ter-se nas pernas estrompado de marchar horas e horas ao som da música de pancadaria e o mais interessante é que ele ao vir-lhe a reação revoltava-se furioso contra o maldito comandante que o obrigava àquela estopada levando o batalhão por uma infinidade de ruas e fazendo de propósito o caminho mais longo só parece lamentava-se ele que a intenção daquele malvado era dar-me cabo da pele ora vejam três horas de marche-marche por uma soalheira de todos os diabos uma das birras mais cômicas do botelho era o seu ódio pelo valentim o moleque causava-lhe febre com as suas petulâncias de mimalho e velhaco percebendo quanto elas o irritavam ainda mais abusava seguro na proteção de dona estela o parasita de muito que o teria estrangulado se não fora a necessidade de agradar à dona da casa botelho conhecia as faltas de estela como as palmas da própria mão o miranda mesmo que o via em conta de amigo fiel muitas e muitas vezes lhas confiara em ocasiões desesperadas de desabafo declarando francamente o quanto no intimo a desprezava e a razão por que não a punha na rua aos pontapés e o botelho dava-lhe toda a razão entendia também que os sérios interesses comerciais estavam acima de tudo uma mulher naquelas condições dizia ele convicto representa nada menos que o capital e um capital em caso nenhum a gente despreza agora você o que devia era nunca chegar-se para ela ora explicava o marido eu me sirvo dela como quem se serve de uma escarradeira o parasita feliz por ver quanto o amigo aviltava a mulher concordava em tudo plenamente dando-lhe um carinhoso abraço de admiração mas por outro lado quando ouvia estela falar do marido com infinito desdém e até com asco ainda mais resplandecia de contente você quer saber afirmava ela eu bem percebo quanto aquele traste do senhor meu marido me detesta mas isso tanto se me dá como a primeira camisa que vesti desgraçadamente para nós mulheres de sociedade não podemos viver sem esposo quando somos casadas de forma que tenho de aturar o que me caiu em sorte quer goste dele quer não goste juro-lhe porém que se consinto que o miranda se chegue às vezes para mim é porque entendo que paga mais à pena ceder do que puxar discussão com uma besta daquela ordem o botelho com a sua encanecida experiência do mundo nunca transmitia a nenhum dos dois o que cada qual lhe dizia contra o outro tanto assim que certa ocasião recolhendo-se à casa incomodado em hora que não era do seu
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costume ouviu ao passar pelo quintal sussurros de vozes abafadas que pareciam vir de um canto afogado de verdura onde em geral não ia ninguém encaminhou-se para lá em bicos de pés e sem ser percebido descobriu estela entalada entre o muro e o henrique deixou-se ficar espiando sem tugir nem mugir e só quando os dois se separaram foi que ele se mostrou a senhora soltou um pequeno grito e o rapaz de vermelho que estava fez-se cor de cera mas o botelho procurou tranqüilizá-los dizendo em voz amiga e misteriosa isso é uma imprudência o que vocês estão fazendo estas coisas não é deste modo que se arranjam assim como fui eu podia ser outra pessoa pois numa casa em que há tantos quartos é lá preciso vir meterem-se neste canto do quintal nós não estávamos fazendo nada disse estela recuperando o sangue-frio ah tornou o velho aparentando sumo respeito então desculpe pensei que estivessem e olhe que se assim fosse para mim seria o mesmo porque acho isso a coisa mais natural do mundo e entendo que desta vida a gente só leva o que come se vi creia foi como se nada visse porque nada tenho a cheirar com a vida de cada um a senhora está moça está na força dos anos seu marido não a satisfaz é justo que o substitua por outro ah isto é o mundo e se é torto não fomos nós que o fizemos torto até certa idade todos temos dentro um bichinho-carpinteiro que é preciso matar antes que ele nos mate não lhes doam as mãos apenas acho que para outra vez devem ter um pouquinho mais de cuidado e está bom basta ordenou estela perdão eu se digo isto é para deixá-los bem tranqüilos a meu respeito não quero nem por sombra que se persuadam de que o henrique atalhou com a voz ainda comovida mas acredite seu botelho que o velho interrompeu-o também por sua vez passando-lhe a mão no ombro e afastando-o consigo não tenha receio que não o comprometerei menino e como já estivessem distantes de estela segredou-lhe em tom protetor não torne a fazer isto assim que você se estraga olhe como lhe tremem as pernas dona estela acompanhou-os a distancia vagarosamente afetando preocupação em compor um ramalhete cujas flores ela ia colhendo com muita graça ora toda vergada sobre as plantas rasteiras ora pondo-se na pontinha dos pés para alcançar os heliotrópios e os manacás henrique seguiu o botelho até ao quarto deste conversando sem mudar de assunto você então não fala nisto hein jura perguntou-lhe o velho tinha já declarado a rir que os pilhara em flagrante e que ficara bom tempo à espreita falar o quê seu tolo pois então quem pensa você que eu sou só abrirei o bico se você me der motivo para isso mas estou convencido que não dará quer saber eu até simpatizo muito com você henrique acho que você é um excelente menino uma flor e digo-lhe mais hei de proteger os seus negócios com dona estela falando assim tinha-lhe tomado as mãos e afagava-as olhe continuou acariciando-o sempre não se meta com donzelas entende são o diabo por dá cá aquela palha fica um homem em apuros agora quanto às outras papo com elas não mande nenhuma ao vigário nem lhe doa a cabeça porque no fim de contas nas circunstâncias de dona estela é até um grande serviço que você lhe faz meu rico amiguinho quando uma mulher já passou dos trinta e pilha a jeito um rapazito da sua idade é como se descobrisse ouro em pó sabe-lhe a gaitas fique então sabendo de que não é só a ela que você faz o obséquio mas também ao marido quanto mais escovar-lhe você a mulher melhor ela ficará de gênio e por conseguinte melhor será para o pobre homem coitado que tem já bastante com que se aborrecer lá por baixo com os seus negócios e precisa de um pouco de descanso quando volta do serviço e mete-se em casa escove-a escove-a que a porá macia que nem veludo o que é preciso é muito juizinho percebe não faça outra criançada como a de hoje e continue para diante não só com ela mas com todas as que lhe caírem debaixo da asa vá passando menos as de casa aberta que isso é perigoso por causa das moléstias nem tampouco donzelas não se meta com a zulmira e creia que lhe falo assim porque sou seu amigo porque o acho simpático porque o acho bonito e acarinhou-o tão vivamente dessa vez que o estudante fugindo-lhe das mãos afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo enquanto o velho lhe dizia em voz comprimida olha espera vem cá você é desconfiado
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iii eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava abrindo não os olhos mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da ultima guitarra da noite antecedente dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia a roupa lavada que ficara de véspera nos coradouros umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário as pedras do chão esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil mostravam uma palidez grisalha e triste feita de acumulações de espumas secas entretanto das portas surgiam cabeças congestionadas de sono ouviam-se amplos bocejos fortes como o marulhar das ondas pigarreava-se grosso por toda a parte começavam as xícaras a tilintar o cheiro quente do café aquecia suplantando todos os outros trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras os bons-dias reatavam-se conversas interrompidas à noite a pequenada cá fora traquinava já e lá dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam no confuso rumor que se formava destacavam-se risos sons de vozes que altercavam sem se saber onde grasnar de marrecos cantar de galos cacarejar de galinhas de alguns quartos saiam mulheres que vinham pendurar cá fora na parede a gaiola do papagaio e os louros à semelhança dos donos cumprimentavam-se ruidosamente espanejando-se à luz nova do dia daí a pouco em volta das bicas era um zunzum crescente uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas uns após outros lavavam a cara incomodamente debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos o chão inundava-se as mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço que elas despiam suspendendo o cabelo todo para o alto do casco os homens esses não se preocupavam em não molhar o pêlo ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas fossando e fungando contra as palmas da mão as portas das latrinas não descansavam era um abrir e fechar de cada instante um entrar e sair sem tréguas não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias as crianças não se davam ao trabalho de lá ir despachavam-se ali mesmo no capinzal dos fundos por detrás da estalagem ou no recanto das hortas o rumor crescia condensando-se o zunzum de todos os dias acentuava-se já se não destacavam vozes dispersas mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço começavam a fazer compras na venda ensarilhavam-se discussões e resingas ouviam-se gargalhadas e pragas já se não falava gritava-se sentia-se naquela fermentação sangüínea naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida o prazer animal de existir a triunfante satisfação de respirar sobre a terra da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas fazendo compras duas janelas do miranda abriram-se apareceu numa a isaura que se dispunha a começar a limpeza da casa nhá dunga gritou ela para baixo a sacudir um pano de mesa se você tem cuscuz de milho hoje bata na porta ouviu a leonor surgiu logo também enfiando curiosa a carapinha por entre o pescoço e o ombro da mulata o padeiro entrou na estalagem com a sua grande cesta à cabeça e o seu banco de pau fechado debaixo do braço e foi estacionar em meio do pátio à espera dos fregueses pousando a canastra sobre o cavalete que ele armou prontamente em breve estava cercado por uma nuvem de gente as crianças adulavam-no e à proporção que cada mulher ou cada homem recebia o pão disparava para casa com este abraçado contra o peito uma vaca seguida por um bezerro amordaçado ia tilintando tristemente o seu chocalho de porta em porta guiada por um homem carregado de vasilhame de folha o zunzum chegava ao seu apogeu a fábrica de massas italianas ali mesmo da vizinhança começou a trabalhar engrossando o barulho com o seu arfar monótono de máquina a vapor as corridas até à venda reproduziam-se transformando-se num verminar constante de formigueiro assanhado agora no lugar das bicas apinhavam-se latas de todos os feitios sobressaindo as de querosene com um braço de madeira em cima sentia-se o trapejar da água caindo na folha algumas lavadeiras enchiam já as suas tinas outras estendiam nos coradouros a roupa que ficara de molho principiava o trabalho rompiam das gargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra seguido de uma algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro e durante muito tempo fez-se um vaivém de mercadores apareceram os tabuleiros de carne fresca e outros de tripas e fatos de boi só não vinham hortaliças porque havia muitas hortas no cortiço vieram os ruidosos mascates com as suas latas de quinquilharia com as suas caixas de candeeiros e objetos de vidro e com o seu fornecimento de caçarolas e chocolateiras de folha-de-flandres cada vendedor tinha o seu modo especial de apregoar destacando-se o homem das sardinhas com as cestas do peixe dependuradas à moda de balança de um pau que ele trazia ao ombro.
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nada mais foi preciso do que o seu primeiro guincho estridente e gutural para surgirem logo como por encanto uma enorme variedade de gatos que vieram correndo acercar-se dele com grande familiaridade roçando-se-lhe nas pernas arregaçadas e miando suplicantemente o sardinheiro os afastava com o pé enquanto vendia o seu peixe à porta das casinhas mas os bichanos não desistiam e continuavam a implorar arranhando os cestos que o homem cuidadosamente tapava mal servia ao freguês para ver-se livre por um instante dos importunos era necessário atirar para bem longe um punhado de sardinhas sobre o qual se precipitava logo aos pulos o grupo dos pedinchões a primeira que se pôs a lavar foi a leandra por alcunha a machona portuguesa feroz berradora pulsos cabeludos e grossos anca de animal do campo tinha duas filhas uma casada e separada do marido ana das dores a quem só chamavam a das dores e outra donzela ainda a nenen e mais um filho o agostinho menino levado dos diabos que gritava tanto ou melhor que a mãe a das dores morava em sua casinha à parte mas toda a família habitava no cortiço ninguém ali sabia ao certo se a machona era viúva ou desquitada os filhos não se pareciam uns com os outros a das dores sim afirmavam que fora casada e que largara o marido para meter-se com um homem do comércio e que este retirando-se para a terra e não querendo soltá-la ao desamparo deixara o sócio em seu lugar teria vinte e cinco anos nenen dezessete espigada franzina e forte com uma proazinha de orgulho da sua virgindade escapando como enguia por entre os dedos dos rapazes que a queriam sem ser para casar engomava bem e sabia fazer roupa branca de homem com muita perfeição ao lado da leandra foi colocar-se à sua tina a augusta carne-mole brasileira branca mulher de alexandre um mulato de quarenta anos soldado de policia pernóstico de grande bigode preto queixo sempre escanhoado e um luxo de calças brancas engomadas e botões limpos na farda quando estava de serviço também tinham filhos mas ainda pequenos um dos quais a juju vivia na cidade com a madrinha que se encarregava dela esta madrinha era uma cocote de trinta mil-réis para cima a léonie com sobrado na cidade procedência francesa alexandre em casa à hora de descanso nos seus chinelos e na sua camisa desabotoada era muito chão com os companheiros de estalagem conversava ria e brincava mas envergando o uniforme encerando o bigode e empunhando a sua chibata com que tinha o costume de fustigar as calças de brim ninguém mais lhe via os dentes e então a todos falava teso e por cima do ombro a mulher a quem ele só dava tu quando não estava fardado era de uma honestidade proverbial no cortiço honestidade sem mérito porque vinha da indolência do seu temperamento e não do arbítrio do seu caráter junto dela pôs-se a trabalhar a leocádia mulher de um ferreiro chamado bruno portuguesa pequena e socada de carnes duras com uma fama terrível de leviana entre as suas vizinhas seguia-se a paula uma cabocla velha meio idiota a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias era extremamente feia grossa triste com olhos desvairados dentes cortados à navalha formando ponta como dentes de cão cabelos lisos escorridos e ainda retintos apesar da idade chamavam-lhe bruxa depois seguiam-se a marciana e mais a sua filha florinda a primeira mulata antiga muito seria e asseada em exagero a sua casa estava sempre úmida das consecutivas lavagens em lhe apanhando o mau humor punha-se logo a espanar a varrer febrilmente e quando a raiva era grande corria a buscar um balde de água e descarregava-o com fúria pelo chão da sala a filha tinha quinze anos a pele de um moreno quente beiços sensuais bonitos dentes olhos luxuriosos de macaca toda ela estava a pedir homem mas sustentava ainda a sua virgindade e não cedia nem à mão de deus padre aos rogos de joão romão que a desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no peso das compras que florinda fazia diariamente à venda depois via-se a velha isabel isto é dona isabel porque ali na estalagem lhes dispensavam todos certa consideração privilegiada pelas suas maneiras graves de pessoa que já teve tratamento uma pobre mulher comida de desgostos fora casada com o dono de uma casa de chapéus que quebrou e suicidou-se deixando-lhe uma filha muito doentinha e fraca a quem isabel sacrificou tudo para educar dando-lhe mestre até de francês tinha uma cara macilenta de velha portuguesa devota que já foi gorda bochechas moles de pelancas rechupadas que lhe pendiam dos cantos da boca como saquinhos vazios fios negros no queixo olhos castanhos sempre chorosos engolidos pelas pálpebras puxava em bandos sobre as fontes o escasso cabelo grisalho untado de óleo de amêndoas doces quando saia à rua punha um eterno vestido de seda preta achamalotada cuja saia não fazia rugas e um xale encarnado que lhe dava a todo o corpo um feitio piramidal da sua passada grandeza só lhe ficara uma caixa de rapé de ouro na qual a inconsolável senhora pitadeava agora suspirando a cada pitada a filha era a flor do cortiço chamavam-lhe pombinha bonita posto que enfermiça e nervosa ao último ponto loura muito pálida com uns modos de menina de boa família a mãe não lhe permitia lavar nem engomar mesmo porque o médico a proibira expressamente tinha o seu noivo o joão da costa moço do comércio estimado do patrão e dos colegas com muito futuro e que a adorava e conhecia desde pequenita mas dona isabel não queria que o casamento se fizesse já É que pombinha,
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orçando aliás pelos dezoito anos não tinha ainda pago à natureza o cruento tributo da puberdade apesar do zelo da velha e dos sacrifícios que esta fazia para cumprir à risca as prescrições do médico e não faltar à filha o menor desvelo no entanto coitadas daquele casamento dependia a felicidade de ambas porque o costa bem empregado como se achava em casa de um tio seu de quem mais tarde havia de ser sócio tencionava logo que mudasse de estado restituí-las ao seu primitivo circulo social a pobre velha desesperava-se com o fato e pedia a deus todas as noites antes de dormir que as protegesse e conferisse à filha uma graça tão simples que ele fazia sem distinção de merecimento a quantas raparigas havia pelo mundo mas a despeito de tamanho empenho por coisa nenhuma desta vida consentiria que a sua pequena casasse antes de ser mulher como dizia ela e que deixassem lá falar o doutor entendia que não era decente nem tinha jeito dar homem a uma moça que ainda não fora visitada pelas regras não antes vê-la solteira toda a vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquele inferno da estalagem lá no cortiço estavam todos a par desta história não era segredo para ninguém e não se passava um dia que não interrogassem duas e três vezes a velha com estas frases então já veio por que não tenta os banhos de mar por que não chama outro médico eu se fosse a senhora casava-os assim mesmo a velha respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ela e suspirava resignada quando o costa aparecia depois da sua obrigação para visitar a noiva os moradores da estalagem cumprimentavam-no em silêncio com um respeitoso ar de lástima e piedade empenhados tacitamente por aquele caiporismo contra o qual não valiam nem mesmo as virtudes da bruxa pombinha era muito querida por toda aquela gente era quem lhe escrevia as cartas quem em geral fazia o rol para as lavadeiras quem tirava as contas quem lia o jornal para os que quisessem ouvir prezavam-na com muito respeito e davam-lhe presentes o que lhe permitia certo luxo relativo andava sempre de botinhas ou sapatinhos com meias de cor seu vestido de chita engomado tinha as suas joiazinhas para sair à rua e aos domingos quem a encontrasse à missa na igreja de são joão batista não seria capaz de desconfiar que ela morava em cortiço fechava a fila das primeiras lavadeiras o albino um sujeito afeminado fraco cor de espargo cozido e com um cabelinho castanho deslavado e pobre que lhe caia numa só linha até ao pescocinho mole e fino era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres com quem já estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do mesmo sexo em presença dele falavam de coisas que não exporiam em presença de outro homem faziam-no até confidente dos seus amores e das suas infidelidades com uma franqueza que o não revoltava nem comovia quando um casal brigava ou duas amigas se disputavam era sempre albino quem tratava de reconciliá-los exortando as mulheres à concórdia dantes encarregava-se de cobrar o rol das colegas por amabilidade mas uma vez indo a uma república de estudantes deram-lhe lá ninguém sabia por quê uma dúzia de bolos e o pobre-diabo jurou então entre lágrimas e soluços que nunca mais se incumbiria de receber os róis e daí em diante com efeito não arredava os pezinhos do cortiço a não ser nos dias de carnaval em que ia vestido de dançarina passear à tarde pelas ruas e à noite dançar nos bailes dos teatros tinha verdadeira paixão por esse divertimento ajuntava dinheiro durante o ano para gastar todo com a mascarada e ninguém o encontrava domingo ou dia de semana lavando ou descansando que não estivesse com a sua calça branca engomada a sua camisa limpa um lenço ao pescoço e amarrado à cinta um avental que lhe caia sobre as pernas como uma saia não fumava não bebia espíritos e trazia sempre as mãos geladas e úmidas naquela manhã levantara-se ainda um pouco mais lânguido que do costume porque passara mal a noite a velha isabel que lhe ficava ao lado esquerdo ouvindo-o suspirar com insistência perguntou-lhe o que tinha ah muita moleza de corpo e uma pontada do vazio que o não deixava a velha receitou diversos remédios e ficaram os dois no meio de toda aquela vida a falar tristemente sobre moléstias e enquanto no resto da fileira a machona a augusta a leocádia a bruxa a marciana e sua filha conversavam de tina a tina berrando e quase sem se ouvirem a voz um tanto cansada já pelo serviço defronte delas separado pelos jiraus formava-se um novo renque de lavadeiras que acudiam de fora carregadas de trouxas e iam ruidosamente tomando lagar ao lado umas das outras entre uma agitação sem tréguas onde se não distinguia o que era galhofa e o que era briga uma a uma ocupavam-se todas as tinas e de todos os casulos do cortiço saiam homens para as suas obrigações por uma porta que havia ao fundo da estalagem desapareciam os trabalhadores da pedreira donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas o miranda de calças de brim chapéu alto e sobrecasaca preta passou lá fora em caminho para o armazém acompanhado pelo henrique que ia para as aulas o alexandre que estivera de serviço essa madrugada entrou solene atravessou o pátio sem falar a ninguém nem mesmo à mulher e recolheu-se à casa para dormir um grupo de mascates o delporto o pompeo o francesco e o andréa armado cada qual com a sua grande caixa de bugigangas saiu para a peregrinação de todos os dias altercando e praguejando em italiano.
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