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ANAIS DO III CIDS Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística – Variedade, atitudes linguísticas e ensino Homenagem a Jacyra Andrade Mota e Suzana Alice Marcelino Cardoso Centro de Letras e Ciências Humanas (CLCH) Universidade Estadual de Londrina – 07 a 10 de outubro de 2014 ISBN 978-85-7846-344-1 PAPEL SOCIAL DE LÍDER POLÍTICO E USO DA LÍNGUA: SEGURANÇA E INSEGURANÇA LINGUÍSTICA TRABALHO APRESENTADO NO SIMPÓSIO “PALAVRAS E RELAÇÕES SOCIAIS” Edivanildo Flauberte Correia de Afonso (PG)* Universidade do Estado da Bahia Resumo: Este artigo tem por objetivo investigar a relação entre o desempenho do papel social de líder político, um papel considerado formal, e o uso que é feito da língua. Para tanto, observa-se a incidência tanto da segurança quanto da insegurança linguística no discurso político de vereadores da cidade de São Domingos – BA, focalizando em aspectos de linguagem que são característicos de um estado e outro. Nesse sentido, analisam-se algumas das estratégias e recursos linguísticos adotados pelos vereadores para viabilizar seus discursos, a exemplo das chamadas hipercorreções. Analisam-se ainda as possíveis causas de os sujeitos da pesquisa se mostrarem seguros ou inseguros linguisticamente na situação de comunicação em que se encontram, a qual tem como traço característico a exigência de alto grau de monitoração estilística. O estudo é conduzido com base nos pressupostos teóricos da Sociolinguística, mais precisamente de sua abordagem etnográfica, de modo a considerar a situação comunicativa Câmara de Vereadores e um de seus eventos, a Sessão Ordinária. Assim, esse é um trabalho que visa por em foco o comportamento linguístico de uma comunidade de fala marcadamente heterogênea. Palavras-chave: Líder político. Segurança linguística. Insegurança linguística. Introdução É considerável a quantidade de mudanças pelas quais a sociedade brasileira tem passado nos últimos tempos. Entre elas, sem dúvida, há uma que é de grande relevância: a participação de sujeitos de origens e perfis os mais heterogêneos em * Programa de Pós-graduação em Estudo de Linguagens da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Departamento de Ciências Humanas, Campus I, Salvador - BA. Contato: flaubertecorreia@hotmail.com. Simpósio | 790

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Anais do III CIDS – Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística – Variedade, Atitudes Linguísticas e Ensino Homenagem a Jacyra Andrade Mota e Suzana Alice Marcelino Cardoso Londrina, Universidade Estadual de Londrina – 7 a 10 de outubro de 2014 ISBN 978-85-7846-344-1 domínios sociais tradicionalmente reservados àqueles que combinassem atributos como ser membro das classes sociais privilegiadas, pertencer à cultura urbana e ter determinado grau de escolaridade. O processo de democratização política do país tem possibilitado que tanto indivíduos com apenas o Ensino Fundamental completo quanto aqueles com os mais altos níveis de escolaridade ocupem, por exemplo, o cargo de Presidente da República, ou de Governador ou de Prefeito; tem possibilitado também que tanto indivíduos de origem rural quanto de origem urbana ocupem, por exemplo, o cargo de Senador, de Deputado ou de Vereador. É preciso destacar, no entanto, que essa ampla possibilidade de participação política é acompanhada, por outro lado, de uma série de limitações de diversas ordens, que em sua grande maioria não são inscritas legalmente, mas, sobretudo, socialmente. Exige-se normalmente do líder político uma acomodação às exigências de seu cargo, o que significa muito mais do que do que assumir uma postura formal, saber ouvir e representar os interesses da população, conhecer a realidade de seu país, de seu estado, de sua cidade. Espera-se que ele tenha habilidades mínimas de leitura e escrita que lhe permitam lidar com as leis e documentos concernentes ao seu cargo; que ele tenha a habilidade de falar em público e de articular um discurso coerente, enfim, que ele apresente a competência comunicativa que sua função política exige. Visando a alcançar um entendimento tanto das questões que envolvem o desempenho linguístico marcado pela segurança quanto o marcado pela insegurança, é que este trabalho se concretiza. Para observar um lado e outro da questão, optouse por acompanhar os processos comunicativos dos vereadores em Sessões Ordinárias da Câmara Municipal de São Domingos – BA. Nesse caso, analisa-se o desempenho linguístico desses sujeitos, orientando-se por questionamentos tais como: que fenômenos linguísticos podem ser representativos dos estados de segurança e de insegurança linguística? Há, por acaso, alguma relação entre o desempenho linguístico dos vereadores e seus perfis sociais (geográficos e socioculturais, especificamente)? Quais podem ser as reais motivações para os estados de segurança e insegurança linguística, que eles possivelmente apresentem? A Abordagem Etnográfica da Sociolinguística Em termos metodológicos, a Sociolinguística busca lugares de intersecção entre o mundo social e a dimensão linguística, podendo essas intersecções ser definidas ou a partir do funcionamento social ou a partir do funcionamento linguístico. As diferentes abordagens que são rotuladas como sociolinguística são estabelecidas normalmente a Simpósio | 791

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Anais do III CIDS – Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística – Variedade, Atitudes Linguísticas e Ensino Homenagem a Jacyra Andrade Mota e Suzana Alice Marcelino Cardoso Londrina, Universidade Estadual de Londrina – 7 a 10 de outubro de 2014 ISBN 978-85-7846-344-1 partir do lugar que privilegiam para as intersecções entre língua e sociedade, de modo que se pode distinguir três áreas, a saber: a Sociologia da Linguagem, a Teoria da Variação e Mudança e a Etnografia da Fala (também chamada de Etnografia da Comunicação); cada uma delas focando em determinados aspectos da relação entre língua e sociedade (PAGOTTO, 2006). A Etnografia da Fala, especificamente, é a abordagem na qual, segundo Fasold (1990), o uso da língua em geral é relacionado a valores de ordem sociocultural. Pagotto (2006) defende que dentro dessa abordagem, hoje, pode-se incluir também a chamada Sociolinguística Interacional. Segundo ele, os estudos desenvolvidos nessa área buscam chegar a uma competência comunicativa dos falantes por meio da descrição de cenas enunciativas capazes de revelar a maneira como uma comunidade se organiza. Nesse caso, um dos principais objetivos é o conhecimento das regras sociais que determinam o emprego das formas linguísticas dentro do funcionamento social da comunidade. Nessa direção, pode-se afirmar que o principal assunto da Etnografia da comunicação é a competência comunicativa, ou seja, o conjunto de conhecimentos e habilidades que um falante precisa dispor para se comunicar apropriadamente dentro de uma comunidade de fala. O foco dessa abordagem, assim, está nas comunidades organizadas como sistemas de eventos comunicativos, relacionados com todos os outros sistemas da cultura, ou seja, o foco está nas comunidades de fala existentes numa dada sociedade. Monitoração Estilística e Suas Expressões Os eventos comunicativos de letramento são geralmente identificados como os que exigem, por parte dos falantes, uma maior monitoração do seu estilo linguístico. Uma exigência que advém, em boa medida, do fato de esses tipos de eventos caracterizarem-se por ser menos dependentes contextualmente; por exigirem mais esforço cognitivo; e por se constituírem de rotinas linguísticas cujo conhecimento é geral mente associ ado à escol ari zação e a um al to ní vel de l etramento (BORTONI-RICARDO, 2006). Pode-se afirmar que normalmente há uma identificação entre os estilos mais monitorados da língua e um maior grau de formalidade, o que não significa apenas o aumento na demanda de mais atenção à forma linguística, mas também a demanda de uma maior aproximação das convenções da variedade culta, sobretudo quando a Simpósio | 792

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Anais do III CIDS – Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística – Variedade, Atitudes Linguísticas e Ensino Homenagem a Jacyra Andrade Mota e Suzana Alice Marcelino Cardoso Londrina, Universidade Estadual de Londrina – 7 a 10 de outubro de 2014 ISBN 978-85-7846-344-1 monitoração se dá no quadro de eventos comunicativos letrados. Sendo assim, presumese que indivíduos que manejam com segurança estilos mais monitorados da língua são aqueles que possuem um alto grau de letramento, ou seja, são aqueles que se encontram inseridos numa cultura de leitura e escrita (BAGNO, 2007). Nesse panorama, pode-se afirmar que em situações onde a pressão comunicativa esteja presente e, portanto, haja a exigência do uso de estilos linguísticos mais monitorados, será o conhecimento da norma e não apenas o seu reconhecimento o que garantirá ao falante um desempenho linguístico marcado pela eficiência e segurança. A questão, no entanto, é que, dependendo dos atributos socioculturais do indivíduo, bem como de seu grau de inserção na cultura de letramento, o que lhe resta é somente o reconhecimento da norma, ou seja, o conhecimento da sua existência, mas não necessariamente o seu domínio. Em tais condições, a produção verbal do individuo pode mesmo ser marcada por uma cruel insegurança linguística. Esses dois estados aos quais um falante pode estar submetido quando em situação de pressão comunicativa – a segurança e a insegurança linguísticas – são assim explicados por Calvet (2002, p. 72): Fala-se de segurança lingüística quando, por razões sociais variadas, os falantes não se sentem questionados em seu modo de falar, quando consideram sua norma a norma. Ao contrário, há insegurança lingüística quando os falantes consideram seu modo de falar pouco valorizador e têm em mente outro modelo, mais prestigioso, mas que não praticam. Casos específicos de insegurança linguística são mais comuns em situações em que há multilinguismo ou multidialetalismo e que pelo menos uma das línguas ou um dos dialetos que convivem entre si goza de prestígio social. A comunidade de fala brasileira é exemplar nesse sentido, uma vez que nela é possível identificar a existência de diferentes variedades que são avaliadas socialmente de maneiras diferentes: uma delas é considerada de prestígio, enquanto as outras, em diferentes graus e em diferentes contextos, são consideradas estigmatizadas. Nesse cenário, o que se nota é que os falantes das variedades estigmatizadas se sentem inseguros quando interagem em situações comunicativas que exigem certo grau de monitoração estilística e, por conseguinte, o uso da variedade de prestígio. Para os falantes das variedades estigmatizadas, a manifestação objetiva da insegurança linguística será tanto maior quanto maior for a distância entre o reconhecimento da variedade de prestígio e o conhecimento que se tenha dela, ou Simpósio | 793

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Anais do III CIDS – Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística – Variedade, Atitudes Linguísticas e Ensino Homenagem a Jacyra Andrade Mota e Suzana Alice Marcelino Cardoso Londrina, Universidade Estadual de Londrina – 7 a 10 de outubro de 2014 ISBN 978-85-7846-344-1 seja, entre a norma e a capacidade de usá-la. Assim, havendo o reconhecimento mas não necessariamente o conhecimento da norma, se observará na produção verbal do falante uma considerável manifestação de vigilância linguística, de autocorreções e até de hipercorreções. Ao discutir essa questão, Bourdieu (1994, p. 177) argumenta: ... é nas camadas superiores das classes populares e na pequena burguesia que a insegurança e, correlativamente, o alto grau de vigilância e censura atingem seu máximo. Com efeito, enquanto as classes populares estão colocadas diante da alternativa livre-falar (negativamente sancionada) ou silêncio, os membros da classe dominante, cujo habitus lingüístico é a realização da norma ou a norma realizada, podem manifestar o desembaraço que lhes dá a segurança (estritamente oposta à insegurança) e a competência real a ela freqüentemente associada. Como resultado de uma grande flutuação estilística, de uma hipersensibilidade às formas estigmatizadas usadas por eles mesmos, falantes das camadas superiores das classes populares e da pequena burguesia, como apontados por Bourdieu, acabam por recorrer, por exemplo, a recursos como a hipercorreção linguística. Decorrente de uma hipótese errada que o falante realiza na tentativa de ajustar-se à norma, a hipercorreção linguística, segundo Calvet (2002), ocorre em duas situações: quando o falante quer fazer crer que domina a língua legítima ou quando ele quer fazer apagar a própria origem. Esse fenômeno, muito comum em contextos de monitoração estilística, pode se dar, como afirma Couto (2007), nos vários níveis da língua, do fonológico ao sintático. O tipo de comportamento linguístico que um falante apresenta numa interação verbal – se marcado pela segurança ou pela insegurança linguística – é mesmo relacionado a uma grande diversidade de fatores, tanto sociais quanto individuais. Em se tratando da variação estilística, especificamente, a mobilidade e a liberdade que um indivíduo tem para transitar entre estilos menos ou mais monitorados, são determinadas, sem dúvida, pelo domínio que ele tem dos recursos comunicativos. Assim, como afirma Bourdieu (1994), é a estrutura da relação objetiva entre as posições que emissor e receptor ocupam na estrutura de distribuição do capital linguístico e das outras espécies de capital que determina o que pode ser dito e a maneira de dizê-lo numa dada circunstância. Simpósio | 794

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Anais do III CIDS – Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística – Variedade, Atitudes Linguísticas e Ensino Homenagem a Jacyra Andrade Mota e Suzana Alice Marcelino Cardoso Londrina, Universidade Estadual de Londrina – 7 a 10 de outubro de 2014 ISBN 978-85-7846-344-1 Metodologia São Domingos, onde se encontra a Câmara Municipal de Vereadores alvo da pesquisa, é um pequeno município localizado no nordeste baiano, precisamente na região do semiárido. A 234 km da capital do estado, Salvador, a cidade possui, segundo dados do Censo 2010 do IBGE, uma população de 9.226 habitantes, dos quais 35,9% têm residência rural e 64,1% residência urbana. A cidade, que se emancipou politicamente em 1989, possui, além da sede, um distrito e cinco povoados. Sendo a situação de comunicação escolhida, a Câmara Municipal abriga determinados eventos comunicativos, que possuem cada qual suas próprias regras. As Sessões da Câmara Municipal são categorizadas em seis tipos: as Sessões Ordinárias, as Extraordinárias, as Solenes, as Preparatórias, as Secretas e as Especiais. Além dessas sessões, ainda há as Reuniões e as Audiências Públicas das Comissões. Cada um desses eventos comunicativos, apesar de terem em comum uma série de características, tem suas peculiaridades em seus fatores constitutivos – a situação, os participantes, os propósitos, a sequência dos atos de fala, o tom emocional, os instrumentos, as normas, os gêneros, entre outros apontados por Hymes (1972). As Sessões Ordinárias, como o foco de interesse dessa pesquisa, são as que acontecem em maior número ao longo da Sessão Legislativa Anual. Esses eventos comunicativos são realizados em dia e hora prefixados em Regimento Interno e possuem interessantes características. Pode-se apontar como uma delas a heterogeneidade de seus participantes. Alguns deles possuem antecedentes rurais e são provenientes de comunidades em que predominam eventos de oralidade; outros possuem antecedentes urbanos e são provenientes de comunidades onde o número de eventos de letramento é considerável. O processo de investigação etnográfica, adotado para a pesquisa, se deu com a utilização do método de observação-participante, estando o pesquisador na condição de membro do auditório das Sessões Ordinárias da Câmara; e do método de entrevista estrutura. Com vistas a descobrir como se manifesta a segurança e/ou a insegurança linguística dos vereadores, foram acompanhadas e registradas em áudio 5 (cinco) Sessões Ordinárias, em datas alternadas, ao longo de quatro meses da Sessão Legislativa Anual. Com vistas a descortinar as características socioculturais dos vereadores em exercício, foi empregada a entrevista estruturada, por meio da qual foi possível obter, entre outras relevantes informações, as que constam do quadro a seguir: Simpósio | 795

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Anais do III CIDS – Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística – Variedade, Atitudes Linguísticas e Ensino Homenagem a Jacyra Andrade Mota e Suzana Alice Marcelino Cardoso Londrina, Universidade Estadual de Londrina – 7 a 10 de outubro de 2014 ISBN 978-85-7846-344-1 Vereador ACF AJRN EFL EMD EOC FLSF GAC GVSA WFRC Idade 56 51 52 45 55 40 48 42 32 Escolaridade Ensino Fund. Incompleto Ensino Médio Completo Ensino Fund. Incompleto Ensino Fund. Incompleto Ensino Fund. Incompleto Ensino Médio Completo Ensino Médio Completo Ensino Superior Completo Ensino Superior Incompleto Origem Geográfica Rurbano Urbano Rurbano Rurbano Rurbano Rurbano Urbano Urbano Urbano Segurança e Insegurança Linguísticas nas Sessões Ordinárias da Câmara Municipal A primeira e importante observação que se impõe, ao se debruçar sobre os dados coletados nas Sessões Ordinárias observadas, é a de que esse é essencialmente um evento de letramento, visto que os atos de comunicação nele desenvolvidos são pautados, em maior ou menor grau por textos escritos. Da análise dos discursos monitorados proferidos pelos vereadores no evento Sessão Ordinária da Câmara, pôde-se conceber a existência de dois grupos de falantes: o grupo dos que se apresentam linguisticamente inseguros e, por isso mesmo, lançam mão de estratégias como as hipercorreções; e o grupo dos que se apresentam linguisticamente seguros na utilização da norma culta da língua. Nos dados do grupo da insegurança linguística – dos quais, opta-se por apresentar exemplos de apenas alguns de seus representantes – foi possível notar uma frequente tentativa por parte dos falantes de não permitir que as formas linguísticas características de sua variedade de base transparecessem em seu discurso monitorado. Um esforço resultante de um processo de produção linguística que prima por evitar certos recursos linguísticos necessários/adequados ao contexto, por receio de se estar cometendo o que se considera “erro linguístico”. “Como as regras ditadas pela tradição normativa são quase todas contrárias à intuição do falante, ele acaba achando que o que mais lhe soa estranho, aquilo que mais se distancia do uso habitual, espontâneo, normal é que deve ser o ‘certo’ [...].” (BAGNO, 2010, p. 99) Nesse sentido, determinadas regras linguísticas, podem ser consideradas como interessantes índices do esforço do falante para se ajustar à variedade de prestigio. O pronome relativo que, por exemplo, não somente é substituído – às vezes com critérios Simpósio | 796

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Anais do III CIDS – Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística – Variedade, Atitudes Linguísticas e Ensino Homenagem a Jacyra Andrade Mota e Suzana Alice Marcelino Cardoso Londrina, Universidade Estadual de Londrina – 7 a 10 de outubro de 2014 ISBN 978-85-7846-344-1 Além de seu repetitivo uso, o relativo onde, nesses trechos, está sendo usado de forma generalizada tanto como locativo quanto com outras funções. Ora ele substitui uma conjunção explicativa (“... onde vi o presidente lendo...”), ora uma conjunção integrante (“... onde ele venha resolver a situação do Morro Branco”). No entanto, no mais das vezes, a generalização se dá entre os relativos, já que ele é usado tanto para retomar pessoas (“... onde fez uma reunião conosco...”, “... onde tá tendo uma escolinha...”) quanto situações (“... onde tratou de um projeto...”, “... onde foi muito polêmico”). Exemplos como esses revelam o quanto o repertório linguístico desses falantes se mostra insuficiente no que se refere aos conectivos discursivos. Nesse caso, é interessante ressaltar que o que os vereadores FLSF e EFL e os outros que também se mostram inseguros linguisticamente têm em comum são os antecedentes rurais, ou seja, eles podem ser considerados sujeitos rurbanos. Tomando o argumento de BortoniRicardo (2006, p. 45), tem-se que normalmente “os falantes, que se posicionam no continuum rural-urbano, próximos ao polo rural, não dispõem de recursos comunicativos usados na viabilização de estilos monitorados na variedade urbana letrada”. Nisso pode estar parte da explicação da insuficiência de recursos linguísticos para um evento comunicativo como o analisado, próprio de uma cultura de letramento. É sabido que nos eventos de oralidade, sobretudo os de pouca monitoração estilística, observa-se uma reduzida variedade vocabular na função de operadores discursivos (conjunção, pronomes relativos), se comparados com os eventos de letramento, o que pode ser explicado, por exemplo, pela maior dependência contextual que os eventos de oralidade normalmente possuem. Como os falantes em questão são bem mais familiarizados com eventos de oralidade e de pouca monitoração estilística, eles acabam tendo, então, dificuldades em operar com recursos desse tipo. Em contraponto com esse primeiro grupo, que apresenta em seus discursos uma grande demonstração de insegurança linguística, evidenciada pelos dados apresentados e analisados, encontra-se outro grupo, o dos que se mostram seguros linguisticamente. As amostras de fala que são apresentadas a seguir – que são apenas demonstrações do que é uma constante – comprovam que esses outros vereadores, por uma série de razões, conseguem viabilizar bem seus discursos monitorados e formais nas Sessões Ordinárias. Desse modo, é possível observar a necessária presença de recursos comunicativos próprios dos estilos monitorados da variedade urbana letrada: 4.AJRN: “[...] Quero dizer, senhor presidente, que hoje é um dia muito importante para:: o nosso Brasil, a nossa Bahia, para São Domingos... Hoje Simpósio | 798

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ANAIS DO III CIDS Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística – Variedade, atitudes linguísticas e ensino Homenagem a Jacyra Andrade Mota e Suzana Alice Marcelino Cardoso Centro de Letras e Ciências Humanas (CLCH) Universidade Estadual de Londrina – 07 a 10 de outubro de 2014 ISBN 978-85-7846-344-1 ENSINO-APRENDIZAGEM DE LÍNGUA KRAHÔ NA ESCOLA 19 ABRIL: UMA PRÁTICA DE MANUTENÇÃO DA LÍNGUA MATERNA TRABALHO “SOCIOLINGUÍSTICA, APRESENTADO NO SIMPÓSIO BRASIL” LÍNGUAS EM CONTATO E ATITUDES LINGUÍSTICAS NAS FRONTEIRAS DO Francisco Edviges Albuquerque* Universidade Federal do Tocantins Resumo: Esse trabalho tem por objetivo contribuir para a ampliação dos debates entre pesquisadores que, em suas várias áreas de estudo, têm sido interpelados pela problemática das políticas linguísticas voltadas para povos minoritários, além de aprofundar reflexões sobre as pesquisas de ensino de LM no Brasil, sobretudo, para educação escolar monolíngue/bilíngue e intercultural, promovendo parcerias entre pesquisadores da Educação Escolar Indígena, interessados na discussão da interface entre processos de aquisição da Língua Indígena como primeira língua. A proposta a ser discutida está voltada para área temática de Políticas Linguísticas com L1, apoiado nas teorias de aquisição de língua materna, partindo do pressuposto de que o uso da língua portuguesa decorre de um processo sociointeracional entre os falantes das comunidades minoritárias e a sociedade envolvente; bem como, aqueles voltados para questões relacionadas à educação escolar bilíngue; postulando teóricos, que discutem as teorias do monolinguismo/bilinguismo infantil, a fim de analisar os aspectos da situação de uso de língua materna nas escolas Krahô, como forma de contribuir para que os povos etnicamente minoritários tenham uma educação que reflita os anseios e necessidades das suas comunidades, que esteja colocada no seu contexto sociocultural, linguístico, político e econômico, como instrumento de luta pela sua autodeterminação. Palavras-chave: Educação Escolar Indígena. Bilinguismo Infantil. Interculturalidade. Introdução Quando falamos em bilinguismo/monolinguismo, imediatamente nos remetemos à ideia de que numa sociedade existem sujeitos com competência para se comunicar * Coordenação de Letras- UFT, Araguaína/Tocantins/Brasil. Contato: fedviges@uol.com.br. Simpósio | 802

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Anais do III CIDS – Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística – Variedade, Atitudes Linguísticas e Ensino Homenagem a Jacyra Andrade Mota e Suzana Alice Marcelino Cardoso Londrina, Universidade Estadual de Londrina – 7 a 10 de outubro de 2014 ISBN 978-85-7846-344-1 em duas línguas. Em relação à interculturalidade, pressupõe-se que duas ou mais culturas estão, de alguma forma, se relacionando. Tanto uma situação quanto a outra se imbricam na educação escolar. O diferencial está no contexto em que ocorre cada uma dessas manifestações. A categoria “Escola Indígena”, que baliza nosso estudo, tem no binômio “bilinguismo e interculturalidade” sua mais expressiva identidade. Agregada a essa “Escola Indígena”, se sobrepõe a interculturalidade, considerada por alguns teóricos, por exemplo, Paula (1999), Grupioni (2006), Maher (2006), como condição primordial para que seja respeitada a especificidade da educação escolar indígena, sendo os fenômenos “bilinguismo” e “interculturalidade” elementos constitutivos dessa educação que pretende ser “diferenciada”. Dessa forma, a “educação diferenciada” é uma conquista dos povos indígenas brasileiros, garantida por instrumentos jurídicos nacionais einternacionais e, segundo Grupioni (2001), tem apresentado avanços importantes. Para esse autor, a diversidade das culturas e a riqueza de conhecimentos, saberes e práticas associadas à educação dos povos indígenas, tantas vezes negada pelo saber hegemônico e pelo poder autoritário, hoje e reconhecida e valorizada, abrindo espaço para o reconhecimento e a aceitação da diferença e do pluralismo. Com base nessa premissa, uma educação que valorize a cultura dos grupos indígenas brasileiros e um direito assegurado pela Constituição Federal do Brasil (BRASIL, 1988) que, em seus artigos 210 e 215 faz alusão ao uso da língua materna, simultaneamente com a língua portuguesa. Esses dispositivos favorecem a construção de um projeto educativo que se constitua num instrumento de valorização da cultura indígena, e não uma imposição dos costumes e saberes concebidos segundo os interesses da sociedade nacional. Assim, a educação escolar, nessa perspectiva, assume o papel de não apenas promover a aquisição dos conhecimentos, mas de agenciar o diálogo (FREIRE, 1997) entre povos de culturas diferentes, assegurando para que os indígenas conquistem a autonomia sobre os assuntos que são relevantes para o grupo e mantenham, com os demais povos brasileiros, uma relação de alteridade. A “Educação Escolar Bilíngue Intercultural” entra em nosso estudo quando, em diálogo com os teóricos, fazemos um diagnóstico dessa modalidade educacional, discutindo conceitos e formulando conjecturas, enfatizando, também, as línguas indígenas no geral e a alfabetização bilíngue em particular. A seguir, faremos uma discussão que versa sobre o “Professor indígena de Língua Materna”, identificando em suas práticas pedagógicas fatores que promovem a interculturalidade na escola da Aldeia Manoel Alves. Simpósio | 803

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