Prémio Novos Artistas Fundação EDP 2015

 

Embed or link this publication

Description

pg.70 - 81

Popular Pages


p. 1

Nuno NUNO VICENTE: A RESPIRAÇÃO DAS ÁGUAS NUNO VICENTE: THE BREATHING OF THE WATERS Vicente Nuno Vicente trabalha com o tempo, ou melhor, são os elementos do tempo que trabalham nas suas obras. O tempo marcado nos relógios humanos é corrigido, nos seus trabalhos, pelo tempo real, que transforma, quase sempre com um alto grau de imprevisibilidade, as matérias escolhidas pelo artista para as exposições. Esses elementos do tempo real que trabalham as obras de Nuno Vicente, podem ser percebidos em algumas obras anteriores em que o artista trabalha com o tempo arqueológico e paleonto­ lógico, em que confronta os fenómenos naturais terrestres com os tempos cósmicos, por exem­ plo, confrontando o incomensurável tempo de vida dos fósseis com o frágil momento de um deles atravessar a película de água de um lago (Homenagem a Ilya Prigogine – ricochete de fósseis sobre a água, 2014), ensaiando modos de comu­ nicar as suas ideias ao espaço exterior (Diários – Mensagem ao Infinito #1, 2014), ensaiando modalidades infinitamente lentas de desgaste de materiais (Gutta cavat lapidem, 2008), usando os seus passeios pelos bosques ou florestas da Alemanha (onde vive) ou Portugal para recolher material vivo e morto (Transformação de um pássaro em pedra, 2011 – 14; Floresta – captação do movimento de um objecto inerte, 2014) confron­ tando o natural com dispositivos de tecnologia humana de modo a proporcionar campos de desenvolvimento ao tipo de reflexões que orientam o seu trabalho. No caso das peças apresentadas nesta exposição o elemento natural transformador ou ativador é a luz sendo a água, simultaneamente, elemento ativador e condutor. O artista parte do duplo como matriz de desenvolvimento do seu discurso visual mas desloca-nos, imediatamente, da dimensão formal para a dimensão metafórica: duas obras em duas paredes, dois sistemas de linguagem, simetrias frontais ou diagonais, o antes e o depois, o dia e a noite, a lua e o sol, também o positivo e o negativo. Se considerarmos como formando um duplo o par luz - água veremos que Nuno Vicente não trabalha com tanto com oposições mas sobre complementaridades. A água e a luz Nuno Vicente works with time, or rather, the elements of time are at work in his pieces. The time measured by human watches is rectified by real time as it transforms, often with a high degree of unpredictability, the materials the artist selects for his shows. The true agencies at work in Nuno Vicente’s pieces, these elements of real time can be seen in other, previous, works in which the artist works with archeological and paleontological time, confronting natural terres­ trial phenomena with cosmic time, for example, confronting the incommensurable lifespan of a fossil with the fragile moment it crosses the surface of a lake (Homage to Ilya Prigogine – Skype rocking of fossils onto water, 2014), essaying new ways how to communicate his thoughts into outer space (Diaries – Message into the infinite #1, 2014), essaying infinitely slow ways of abrading materials (Gutta cavat lapidem, 2008), using his walks through German and Portuguese forests and woodlands (he lives in Germany) to collect dead and living materials (Transformation of a bird into stone, 2011 – 14; Forest – capturing the movement of an inert body, 2014), and confronting the natural with human made devices in order to define a ground where to develop the reflections that serve as guidelines to his work. In the case of the pieces presented in this exhibition, the natural, transformative, and actu­ ator element is light. Water is used as an actu­ ator and as conductor. Using the double as the base for the development of his visual discourse, the artist immediately shifts our position from a formal to a metaphorical dimension: two works on two walls, two language systems, frontal or diagonal symmetries, the before and the after, day and night, the moon and the sun, the positive and the negative. Considering the pair light / water as a double, we can understand that Nuno Vicente’s work is more about complementarity than it is about opposition. Water and light are indivisible elements seen as continuous fluxes (material, the first, incorporeal, the second); both difficult to control, they interact in nature – the artist’s objective is somehow the 70 71

[close]

p. 2

são elementos unos, entendíveis como fluxos contínuos (materializado um, impalpável o outro); ambos de difícil controlo, agem um sobre o outro na natureza – é em certa medida a artificialização poética desse processo natural que Nuno Vicente pretende alcançar. Uma peça, frente à entrada da exposição (A sombra de um rio em contracorrente – Homenagem a Heráclito) é constituída por um delicado tanque de bronze que, se nem as condições naturais nem as construtivas (humanas) forem favoráveis, pode permanecer como mero projeto escultórico de uma obra a haver ou que se as condições forem favoráveis, ou seja, se estiver colocada em para­ lelo com um rio (neste caso o Tejo) e poder ser acionada pela luz do sol pode funcionar como imagem de um braço de água, desviada do seu curso natural e a ele devolvida. A luz ativadora pode, ela também, sofrer uma espécie de captura e condução chegando aos sensores da peça por reflexo de um espelho. Assim ativada, uma bomba de água recolhe no rio, frente ao Museu, e nele liberta depois, as suas águas. Há um tempo de espera e ação, há uma entrega ao acaso atmos­ férico, há a colocação dos saberes mecânicos e eletrónicos ao serviço de uma poética que reme­ mora, sabotando-os, tanto os valores práticos e simbólicos da clepsidra, como os da fonte ou do bebedouro arcaicos. E no entanto, aproxi­ mando-nos da peça, despertamos um novo sen­ tido, percebemos que o ruído da água corrente e o seu gotejar no interior da parede de sustentação (sugerindo o segredo de uma gruta) criam um novo elemento de fruição estética da peça. Outra peça, imediatamente à esquerda da entrada (Escultura dividida – propagação da luz noturna no infinito) é um diaporama que regista (em pleno leito do mesmo rio Tejo), mas muitos quilómetros acima da foz (zona de Vila Velha de Ródão), momentos da deriva de uma pequena embarcação com dois espelhos simétricos cober­ tos por painéis. A energia recolhida por esses painéis durante o dia serve apenas para a sua ati­ vação durante a noite. Durante o dia os espelhos estão cobertos, durante a noite os painéis sobem, deixando que a luz noturna se reflita simetrica­ mente, descendo de novo antes do nascer do sol. O diaporama foi realizado em noites de lua cheia de modo a potenciar o valor simbólico da troca de luzes verificada (entre sol e lua, entre noite e dia). poetic artificialization of this natural process. In the wall facing the entrance of the exhi­ bition, one piece, (The shadow of a river in countercurrent – Tribute to Heraclitus), consists of a delicate bronze receptacle that, if neither natural nor building (human) conditions are met, can remain as the sculptural project of a future work or, when the conditions are met, i.e. if it is parallel to a river (the Tagus, in this case) and able to receive sunlight, it is activated and transforms into a stream of water that is diverted from the river, and then returned to it. The light that activates the piece can also be subjected to processes of capture and transmission, as it is captured by a reflecting mirror and projected onto the work’s solar panels. Once the piece is activated, it pumps water (from the river just in front of the Museum) into it and then back into the river. There is a time for pause and a time for action, a surrender to chance and weather patterns, mechanic and electronic knowledge serves a poetics that is reminiscent of (and sabo­ tages) the functional and symbolic values of the clepsydra and of the archaic fountain and source. However, as we approach the piece a new per­ ception and a new sense is awakened: hearing the water and its dripping sound inside the sup­ porting wall (suggesting the secrecy of a cave) we are aware of a new element added to the aesthetic fruition of the piece. Another piece, immediately on the left after the entrance (Divided sculpture – the propagation of nocturnal night into the infinite) is a slideshow depicting (in the same river, but many miles upstream, near Vila Velha de Ródão) the drift of a small boat with two symmetrical mirrors covered by solar panels. The energy received by these panels during the day is only used to activate a mechanism that lifts them at sundown. During the day the mirrors are covered, during the night the panels rise, uncovering the mirrors and allowing them to symmetrically reflect the nocturnal light. The panels return to their original position when the sun rises. The images were taken in full moon nights in order to potentiate the symbolic value of the exchange of lights (between sun and moon, between night and day). Even if he likes the idea of imagining it arriving at the river mouth where the first O destino do pequeno modelo (o seu naufrágio, a possibilidade de encalhar) é indiferente ao artista que gostaria de o poder imaginar chegando à foz, onde a outra peça se situa. Nuno Vicente, citando Heraclito, pretende testemunhar a irreversibilidade da passagem da água do rio em direção ao mar, testemunhando um tempo contínuo. Porém, confronta-se com um rio onde as barragens, em certos períodos de consumo, podem puxar as águas de novo para as albufeiras colocando em causa aquela verdade filosófica milenar (“ninguém se pode banhar duas vezes na mesma água do mesmo rio”), revertendo o tempo, tornando-o descontínuo ou impossibi­ litando que ele seja medido pelos meios naturais. Ao usar ele mesmo, artefactos e artifícios huma­ nos para ilustrar as suas ideias sobre a natureza põe afinal em causa o próprio equilíbrio que nos poderia ser transmitido pelos exercícios de sime­tria existentes nas peças, entre as peças, e entre as peças (como microcosmos) e a natureza (como macrocosmos). João Pinharanda piece is, the fate of the small raft (if it sinks or runs aground) is not important to the artist. Quoting Heraclitus, Nuno Vicente observes the irreversibility of the movement of the river water as it flows towards the sea in a continuous flux. However, the artist is confronted with a river where, in certain periods, dams can pull back the water, challenging the ancient phil­ osophical statement (“no man ever steps in the same river twice”), reversing time, fragmenting it or making it impossible to measure by natural means. Using artifacts and human artifices in order to illustrate his thoughts about nature, the artist challenges the equilibrium that could be conveyed by the exercises of symmetry in his pieces, between his pieces (as a microcosm), and between his pieces and nature (as a macrocosm). João Pinharanda 72 73

[close]

p. 3

A B O anoitecer: as aves que lentamente se calam; as rãs no inicio da noite; o prolongar do som dos grilos – uma mistura de sons - o som estridente de um pássaro noctívago. O primeiro reflexo lunar ultrapassa a falésia, é o êxtase animal; o ondular da lua no rio; o prolongar da música é frenético. A hora morta: os animais parecem cansados; o silêncio; a aparição dos sons furtivos. A lua está mais pálida; o sentimento é de um tempo estranho, pousado; os primeiros cantos despontam: é o nascer do dia. a caminho da Covilhã, no comboio da CP que ladeia o Tejo, uma paisagem feita de rochas desenham sobre o rio o duplo de uma paisagem em fragmentos: a vontade de criar uma peça que reflete a noite O som da água que cai em cascata trouxe-me ao devaneio de um lugar subterrâneo e de algo muito antigo – uma espécie de espaço pré-biológico, onde a vida e a memória não existem. A sombra que tentava materializar não poderia existir à luz do dia - deveria ficar escondida do olhar e existir apenas como uma memória distante desse tempo: no som da água que escava as coisas. Uma escultura dividida em dia e em noite, ocupando a extensão do rio; uma escultura feita de água; uma obra em permanente reconfiguração. (Translation pp. 119–120) 74 75

[close]

p. 4

C–H 76 77

[close]

p. 5

I Title: The shadow of a river, homage to Heraclitus Subtitle A divided sculpture / diurnal light Description A long bronze receptacle, with a water inlet and outlet, hangs on a wall parallel to the river. The pipe and tube system, two submersible pumps and a set of sensors, transport (conduct, directs, channels) water from the river into the (bronze) receptacle. Whenever sunlight is shone on the bronze piece, the sensors activate and water starts being pumped into the receptacle in the direction contrary to the river current, creating a drawing with the light mirrored by the water. The water is then returned to the river through an outlet upstream. 78 79

[close]

p. 6

? Sobre a luz noturna, diário sobre o Tejo [About the nocturnal light, a diary about the Tagus], 2015 ? No comboio da CP [In the train] ? Uma escultura dividida [A divided sculpture] ? Simbiose animal e luz noturna [Animal symbiosis and nocturnal light] ? Sombra [Shadow] ? A obra decide o local [The artwork decides the place] ? Ilha da Fonte das Virtudes, Portas de Rodão. [Island of Fonte das Virtudes, Portas de Ródão], Portugal 2015 OBRAS EXPOSTAS EXHIBITED WORKS ? A sombra de um rio em contracorrente – Homenagem a Heráclito [The shadow of a river in countercurrent – Tribute to Heraclitus], 2015 Bronze, água do rio, luz, bombas de agua submergíveis, Arduino, sensores de luz / Bronze, river water, light, submersible water pumps, Arduino, light sensors Dimensões variáveis / Variable dimensions C–H Escultura dividida – propagação da luz noturna no infinito [Divided sculpture – the propagation of nocturnal night into the infinite], 2015 Jangada com espelhos mecânicos, boias de inox, painel solar, sensores de luz /  Raft, mechanical mirrors, stainless steel buoys, solar panel, light sensors 120×190×160 cm 4 maio / May – 04:37 / 4.37 am 3 maio / May – 23:16 / 11.16 pm 3 maio / May – 22:04 / 10.04 pm 4 maio / May – 04:03 / 4.03 am 4 maio / May – 05.56 / 5.56 am 3 maio / May – 23:47 / 11.47 pm 80 81

[close]

Comments

no comments yet