O Futuro da Gente - Míriam Leitão

 

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Resenha e entrevista do livro História do Futuro

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Sam Smith é o grande destaque deste sábado no Rock in Rio. B5 DESAFIO BRASIL. Em seu terceiro livro de não ficção, a jornalista Míriam Leitão encarou o desafio de enxergar o Brasil dos próximos anos em áreas como saúde, economia e tecnologia FOTOS: DIVULGAÇÃO Obra de Míriam Leitão é um recorte positivo de tudo que o Brasil pode ser e não é. É uma reflexão pontual: temos que agir agora Sábado 26/09/2015 FELIPE MIRANDA * ESTAGIÁRIO A diarreia ainda mata crianças no Brasil. Muito brasileiro morre de tuberculose em leitos de hospitais. O racismo existe, sim, e não deve ser confundido com preconceito social. Não é uma questão de pertencer à classe D ou C. Isso é desculpa. Em Alagoas, para cada um jovem branco assassinado, cinco negros morrem. Estudos apontam que teremos 10 milhões de crianças a menos que hoje em 2050. A população brasileira está envelhecendo. Trata-se de uma mudança na curva demográfica. Sinônimo de possibilidades. Mudanças e riscos. Aliás, a sensação de perigo é frequente em cada página da história contada por Míriam Leitão em seu terceiro livro de não ficção. Ela decidiu prever o futuro do País inteiro, e você deve imaginar o quão complicado é tudo isso. Durante quatro anos, ela conversou com especialistas de áreas como política, economia, saúde, meio ambiente e tecnologia, para enxergar além, para apontar erros e identificar as possíveis alterações para os anos vindouros. As informações que deram início a este texto são verídicas e desconfortáveis, mas, acredite, a obra de Míriam é um recorte positivo de tudo que o Brasil pode ser e não é. É uma reflexão pontual: temos que agir agora. Apesar de, aparentemente, parecer impossível prever o futuro. A jornalista, a mais premiada do País, afirma que muito já se sabe sobre os próximos anos. “Cada especialista em sua área tem um campo de visão. Ele sabe que coisas estão determinadas a acontecer. Os climatologistas, por exemplo, sabem que o clima está mudando, e que isso vai produzir períodos de seca, de muita chuva”. Apesar de atuar na economia há quase 20 anos, o segmento foi o mais difícil para estipular algo. “A economia é determinada pelas nossas decisões. Os fatos vão naquela direção ou na outra. Uma coisa que venho falando há muito tempo é a perda de investimento. Estava na cara que aconteceria pelo que houve ao longo dos últimos anos nas atitudes políticas da presidente Dilma. Foram decisões erradas, sempre numa direção de piorar. Em algum momento isso levaria ao rebaixamento do Brasil. O que a economia permite? Que você alerte e mostre as possibilidades para que se faça escolhas”. É o que Míriam faz no capítulo dedicado às frentes da economia no País, o futuro da moeda e a modernização. Segundo ela, o brasileiro adquiriu uma alergia à inflação. E, de fato, o desenvolvimento está inteiramente ligado a preços baixos e acessibilidade para crescer. A mensagem é uma só: é preciso maturidade e aprender com o passado. No mundo existe 1 milhão de hectares de florestas tropicais. Metade disso é a Amazônia, e os números do desmatamento por lá são assustadores, apresentando altos e baixos. Nos últimos 60 anos, perdemos 19% dela. Estamos falando de um dos maiores biomas do País, lar de 16 mil espécies de árvores. A Amazônia equivale à Indonésia em tamanho. Sobre o capítulo que abre o livro, a escritora afirma que foi uma surpresa tanta grandiosidade. “O que eu descobri foi impressionante. Eu não tinha noção da dimensão disso tudo. Até sabia que o Brasil era uma potência, mas não sabia que era a primeira em biodiversidade”. Mais grandioso que o verde são os problemas enfrentados por quem luta pela preservação do lugar. Grila- MÍRIAM LEITÃO AUTORA “Apenas 11% da população está acima dos 60 anos, e mesmo assim temos um gasto extravagante com a aposentadoria. Por quê? As pessoas estão se aposentando antes da hora. É preciso pensar seriamente nisso. O País não pode trabalhar para pagar os aposentados” gem, trabalho escravo, assassinatos, disputas de terra. Parece uma guerra, e é. A Amazônia não pode perdê-la. Para escrever História do futuro, Míriam Leitão teve que conciliar sua agenda profissional e fazer alguns esforços. Alongar os dias e as noites. “Escrever livros é um sonho muito forte pra mim. Fico feliz de poder realizálo. Escrevi em todas as minhas férias. Acordava de madrugada e escrevia até de noite. Durante a semana, eu conseguia conciliar pesquisas, entrevistas e o trabalho diário, mas escrever exige que você se desligue de tudo, então é difícil pra mim. Eu faço comentários na rádio, tenho uma coluna, programa na GloboNews, vou ao Bom Dia Brasil, tudo é trabalhoso e me ocupa bastante. Imagine como é acompanhar o noticiário de um País tão cheio de coisas acontecendo como este”. Com tanta coisa para apurar, tanto volume e de- talhes, ela preferiu não pecar pelo excesso. Ao todo, foram 32 especialistas consultados. “Fiz longas entrevistas e às vezes em mais de uma etapa. Em vez de ir atrás de cem pessoas, preferi trabalhar com um número menor e falar profundamente com elas. Outras pessoas participaram levantando informações, estudos, dados”. Apesar de ouvir cada um, a voz que guia a narrativa é a de Míriam. Trata-se de um livro-reportagem com espaço para o mais importante: opinião. O livro tem um recado: “O Brasil tem que olhar para algumas coisas agora. Amanhã vai ser tarde demais. Meu papel como jornalista e escritora foi fazer um levantamento, um mapeamento, e mostrar tudo que consegui de forma agradável para a leitura”. Entre os posicionamentos de Míriam, ela chama a atenção para o peso da previdência. “Alguma coisa está errada quanto a isso. Apenas 11% da população está acima dos 60 anos, e mesmo assim temos um gasto extravagante com a aposentadoria. Por quê? As pessoas estão se aposentando antes da hora. É preciso pensar seriamente nisso. O País não pode trabalhar para pagar os aposentados. Tem que ter dinheiro para a formação do jovem e para a saúde também”. Quantas pessoas chegam à chamada terceira idade de forma ativa e são desligadas, injustamente, por terem atingido uma velhice que muitas vezes não incapacita, mas representa uma regalia? A experiência deveria ser vista como ponto forte. É segurança. Por que dispensar quem tem plenas condições de continuar trabalhando? Com o Brasil envelhecendo, e não, isso não é ruim, significa apenas cuidados novos e diferentes, os gastos com a saúde devem aumentar. Organizar a gestão do SUS com esforços do setor público e privado parece a solução. A luta é contra as doenças do mundo subdesenvolvido. História do Futuro aponta tendências e mostra que a educação representa mesmo a esperança. Já que o número de crianças nascendo vai diminuir, a hora de investir no segmento é esse. Os dados que Míriam levantou indicam que a segunda maior causa de endividamento do brasileiro é a educação, atrás apenas dos cartões de crédito. É triste e bonito ao mesmo tempo. As famílias, independentemente do nível social a qual pertencem, estão se preocupando mais com a educação dos filhos. A sala de aula do futuro não pode permanecer nos rankings negativos. O mais interessante dentro dessa enxurrada de estatísticas é que a autora abusa de personagens para ilustrar o que conta. São casos reais de gente que se encaixa em cada uma das pesquisas. “Eu quis fazer essa leitura com histórias de vida pessoal. Com pessoas que em si representam um fato, um evento, uma tendência. Ajudam inclusive para que o texto fique fluido”. Temos o fotógrafo Sebastião Salgado contando sobre o Instituto Terra e o trabalho de recuperação das matas ciliares, a faxineira Margarida Joaquina contando como criou filhos bem-sucedidos, a médica cardiologista Lilian Paula contando sobre as dificuldades que enfrentou na carreira por ser negra. Além dos personagens, o leitor também encontra casos da carreira de Míriam Leitão, dos entrevistados e bastidores de reportagens populares. Tudo costurado para tornar a experiência de olhar para frente mais aconchegante. Menos imprecisa. “Construí esse ambiente de propósito. Eu queria que os leitores tivessem a sensação de me ter na sala de suas casas, levando-os para dentro de tudo isso porque é importante. Esse é um momento muito decisivo no Brasil. Ideal para crescer, desenvolver-se”. Que a lei econômica não prefira o lucro imediato representado pela derrubada das matas, que o Brasil entenda suas 200 línguas e ponha um fim no preconceito, que os brasileiros não precisem ir buscar lá fora o que podem muito bem encontrar por aqui. São meus votos após a leitura de História do Futuro, que faz o uso de referências do passado e do presente para mostrar que o País tem um futuro brilhante pela frente. O segredo é acertar. Erros podem custar caro demais. Míriam Leitão fez sua parte ao trazer esses questionamentos para mais próximo do público numa linguagem fácil e envolvente. “Foi tudo muito bem pesquisado para não ter erros técnicos. Minha preocupação foi incluir as pessoas. Deixo o meu convite para que todos leiam. É um livro sobre assuntos que interessam a muita gente”. ‡ * Sob supervisão da editoria de Cultura Serviço Título: História do Futuro Autor: Míriam Leitão Editora: Intrínseca Quanto: R$ 39, 90

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