Revista O PROFESSOR, edição 21

 

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Sindicato dos Professores do ABC, ı Presidente: José Jorge Maggio ı Diretores responsáveis: Denise F. Lopes Marques e Jorge G. de Oliveira Jr. ı Jornalista responsável: Sérgio Corrêa (Mtb: 19.065) ı Diagramação: Israel Barbosa

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Outubro de 2015 - Número 21 CENÁRIO POLÍTICO Uma análise de: Eduardo Suplicy, Leonardo Boff e Frei Beto João Pedro Stédile: Assembleia Constituinte será o caminho para a reforma política Revista O PROFESSOR 1

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SINPRO ABC na palma de sua mão Baixe o novo aplicativo para celular do SINPRO ABC No app o professor poderá encontrar todas as informações importantes e necessárias para a categoria como: Convenções e Acordos Coletivos do Ensino Básico, Superior, SESI, SENAI, SENAC e notícias do SINPRO ABC. Para baixar o app no celular você deve digitar o link: http://app.vc/nossos_direitos_-_sinpro_abc no navegador do seu celular ou localize "SINPRO" no Play Store, ou ainda ler o código QR abaixo SINPRO ABC - Sindicato dos Professores do ABC www.sinpro-abc.org.br 2 O PROFESSOR Revista

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Editorial País marcado por manifestações: Mobilização ou Manipulação? iferente do que vimos em 29 de setembro de 1992 (impeachment de Fernando Collor de Mello), a população brasileira tem se revezado em manifestações por todo o País, favoráveis e contrárias ao governo da presidenta Dilma Rousseff. Neste ano, representantes de diversos setores da sociedade foram às ruas para pedir o impeachment da chefe da Nação ou então, para fortalecer a democracia. Vemos claramente os dois lados da moeda: Cara (a face real do País) e Coroa (o que o poder representa no Brasil). Diante desta situação nos perguntamos se esses movimentos “populares” são realmente mobilização ou manipulação de políticos e da Mídia inconformados com o resultado das eleições? O SINPRO ABC (Sindicato dos Professores) lembra que foi nos governos petistas que os trabalhadores tiveram as maiores conquistas da história, além da inclusão social de 45 milhões de brasileiros que viviam em situação de extrema pobreza. No entanto, a direção do sindicato se opõe às medidas impostas pelo ministro da fazenda, Joaquim Levy, que cria uma política econômica recessiva ao País, obrigando o governo a contar investimentos e direitos sociais. Alertamos também sobre a injusta tributação no Brasil, chamando a atenção sobre os 10% mais pobres da população que têm 32% de sua renda comprometida com os impostos, enquanto os 0,3% muito ricos, com renda anual declarada superior a R$ 4,5 milhões, contribuem com apenas 6% de sua renda. Por isso, defendemos a criação do imposto sobre as grandes fortunas do País. Nesta edição da revista “O Professor” você confere um balanço dos últimos 13 anos do partido dos trabalhadores no governo federal, além de artigos sobre a taxação de grandes fortunas, cartelização do sistema financeiro (fusão de bancos), direitos dos trabalhadores rechaçados pelo Congresso e conflitos de terras indígenas no País, entre outros assuntos. Queremos propor uma reflexão séria sobre temas, que afetam nossa rotina manipulada pela mídia, a serviço do interesse dos grandes capitalistas do País. Boa leitura Direção SINPRO ABC Revista D Revista O PROFESSOR Publicação do Sindicato dos Professores de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul. Ano X - Número 21 - 2015 SINPRO ABC - Gestão 2012/2015 ISSN 1807-7994 Expediente Presidente do SINPRO ABC - José Jorge Maggio • Secretária de Imprensa - Denise Filomena Lopes Marques • Secretário de Imprensa suplente - Jorge Gonçalves • Jornalista responsável e reportagens - Sérgio Corrêa (MTb 19.065) Projeto Gráfico e Capa: Israel Barbosa • Tiragem: 4.000 exemplares • Gráfica: Silva Marts (19) 3112-8700 • SINPRO ABC - Rua Pirituba, 61/65 - Bairro Casa Branca - Santo André CEP 09015-540 - São Paulo www.sinpro-abc.org.br • imprensa@sinpro-abc.org.br • www.facebook.com/sinproabc Os artigos assinados nesta publicação não expressam, necessariamente, a opinião do Sindicato. www.revistaoprofessor.com.br O PROFESSOR 3

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Parabéns professor! 15 de outubro Adriaen van Ostade - o projeto de Yorck : 10,000 Der Malerei de Meisterwerke . DVDRevista ROM, 2002. ISBN 3936122202. Distribuído pela Directmedia Publishing GmbH . 4 O PROFESSOR

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O PROFESSOR Sindicato dos Professores do ABC - Edição 21 - 2015 Revista Entrevistas Artigos A mídia já tem opinião, mas não deveria ser assim Página 26 Saúde Eduardo Suplicy Página 08 Incentivo ao Parto Normal Página 61 Uma alternativa para o imposto sobre grandes fortunas Internacional Página 28 Leonardo Boff Página 12 Economia Pré-sal, Irã e juros azedaram relação com EUA Página 31 70 anos do horror de Hiroshima Página 48 Juventude 25 anos do ECA Eleições 2016 Perfil dos vereadores Página 46 Frei Beto Página 17 Política Cinco maiores bancos do país controlam 86% dos ativos Esportes Brasil rumo ao podium Página 64 Página 68 Página 36 Cultura Galeria a céu aberto leva grafite para as ruas Sindical João Pedro Stédile Defende uma Assembleia Contituinte Página 20 Página 74 Turismo Monte Alegre do Sul e Congresso conservador, direitos trabalhistas rechaçados Iguape Página 78 Página 42 Página 44 Assédio Moral no Brasil Sala de aula Livro: A Guerra de Yuan Revista Página 82 O PROFESSOR 5

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Imagem da internet POLÍTICA ÀS AVESSAS? “Louvado seja aquele que correndo por entre os escombros da guerra, da política e das desgraças públicas, preserva sua honra intacta.” Simon Bolívar. Por Sérgio Corrêa artimos deste pensamento, de um dos maiores revolucionários da América Latina, que contribuiu de forma decisiva no processo de independência da América Espanhola, para avaliarmos o momento de transição pelo qual passa o País, diante dos 13 anos do governo petista. Desta forma relembramos um pouco da história de inclusão que mudou o Brasil nos últimos anos. O início da grande transformação social no País se deu em 2003 com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à presidência, em sua quarta tentativa para chegar ao cargo, após derrotar o candidato José Serra (PSDB), com 61,27% dos votos válidos, em segundo turno. A eleição de Lula foi marcada por ter sido a primeira na história do Brasil de um ex operário ao posto mais elevado no executivo do País. Foram quatro anos de governo (20032006) com importantes conquistas sociais como, Bolsa Família, Fome Zero, Primeiro Emprego, Redução da Mortalidade infantil e Combate ao Trabalho Escravo. P Revista Em outubro de 2006, Lula se reelegeu para a presidência, derrotando o candidato Geraldo Alckmin, também do PSDB, sendo eleito no segundo turno com mais de 60% dos votos válidos contra 39,17% de seu adversário. Após quatro anos, o governo Lula terminou o mandato com 80% de avaliação positiva. Teve como principais marcas a manutenção da estabilidade econômica, a retomada do crescimento no País e a redução da pobreza e da desigualdade social. Diante deste quadro positivo e da confiança do povo, Lula conseguiu fazer sua sucessora, Dilma Rousseff, para os próximos quatro anos de mandato (2010-2014). Dilma foi a primeira mulher eleita para o posto de chefe de Estado e chefe de governo em toda a história do Brasil. No primeiro mandato, Dilma deu continuidade a diversos programas de seu antecessor, principalmente nas áreas sociais, sendo o ex-presidente seu principal conselheiro. Durante os quatro anos de governo também imprimiu sua marca em trabalhos como: Brasil sem miséria, Brasil carinhoso, geração de 6 O PROFESSOR

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empregos com pesados investimentos na economia, Minha casa minha vida, Mais Educação, entre outros. Em 2013 o governo Dilma sofreu grande perda de popularidade com os protestos de junho, porém, os levantamentos continuaram apontando seu favoritismo na disputa eleitoral. Durante o ano de 2014, ocorreram várias denúncias relacionadas à Petrobras na Operação Lava Jato, envolvendo políticos e empreiteiras. A presidenta também enfrentou críticas relacionadas à condução da política econômica do País. Durante o processo eleitoral a petista sofreu com as denúncias de corrupção e oscilou nas pesquisas de intenção de voto. Na última semana de campanha do segundo turno, Dilma passou a liderar numericamente, mas o empate técnico persistiu até o final do processo. Na apuração das urnas a presidenta obteve 51,64% dos votos válidos contra 48,36% de Aécio Neves. No discurso de vitória, Dilma pediu união, prometeu diálogo e negou que o País estaria "dividido". De acordo com a avaliação de alguns cientistas políticos, esta foi a eleição presidencial mais acirrada em 30 anos e considerada uma das mais "ofensivas" da história brasileira. Diante dos opositores de seu governo e dos escândalos de corrupção, que envolvem também outros partidos, Dilma e o PT, de modo particular, têm sido alvos de ataques da mídia e de políticos que querem se beneficiar da atual situação. Segundo a pesquisa Datafolha (06/2015) apenas 10% da população aprovam o governo Dilma. Mas qual avaliação que pessoas sérias e comprometidas com a causa dos oprimidos fazem do governo e do Partido dos Trabalhadores nos 35 anos de existência? Buscando essa análise, a revista “O Professor” conversou com três importantes nomes do País que avaliam a atual situação política brasileira: Eduardo Suplicy, Frei Betto e Leonardo Boff. Analisando a trajetória do Partido dos trabalhadores e dos governos petistas, os três são unânimes em ressaltar os avanços na política de inclusão social e no processo democrático do País. Para o ex senador Suplicy e atual secretário de direitos humanos de São Paulo, “ importantes marcas caracterizam o PT, como o orçamento participativo; a formulação de políticas econômicas e sociais elaboradas com a participação dos movimentos sociais na cidade e no campo; a luta pelas diretas já e pelo aperfeiçoamento das instituições democráticas. Tudo isso faz do partido um importante instrumento de luta das classes menos favorecidas”, avalia. Já o teólogo Leonardo Boff, acredita que a situação pela qual passa o País é apenas uma fase que deve ser vencida e segundo ele, “o caminho mais curto é a educação séria, o controle de todas as instâncias, a circularidade do poder e a punição rigorosa dos corruptos e corruptores como está ocorrendo atualmente com a política de combate à corrupção inaugurada pelo PT”. Com um olhar mais crítico, Frei Betto visualiza dificuldades para o partido, principalmente nas próximas eleições. “Temo que o PT enfrentará muitas dificuldades nas eleições de 2016, a menos que Dilma dê uma virada na condução do país, hoje terceirizada, na economia, à oposição, e na política ao PMDB (Temer, Cunha e Renan). É preciso, o quanto antes, as forças de esquerda buscarem formar um novo movimento de mudança do Brasil, como se fez na Espanha. Caso contrário, cairemos na síndrome francesa, cuja esquerda no poder é mais direitista que a própria direita”. “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete". Aristóteles Confira a íntegra das entrevistas nas próximas páginas. Revista O PROFESSOR 7

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Entrevistas Foto: Agência Brasil 247 “Acredito que as alianças devem ser realizadas e se justificam com o objetivo de se alcançar as metas maiores que desejamos para o País e nunca em função de distribuição de favores” duardo Matarazzo Suplicy é formado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas, onde atualmente é professor titular; e em economia pela Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos. Em 1978 foi eleito deputado em São Paulo pelo antigo MDB. Em 1982, foi eleito deputado federal pelo então recém-criado PT, tendo ajudado a fundar o novo partido. Candidatou-se a prefeito de São Paulo em 1985, 1992 e 1986. Em 1988 foi o vereador mais votado E Revista na capital paulista, tendo cinco vezes mais votos do que o segundo colocado. Ocupou o cargo de presidente da Câmara Municipal no biênio 1989-1990. Chegou ao posto de senador por São Paulo em 1991 exercendo seu mandato até 2014, todas as vezes eleito pelo PT, completando 23 anos de legislatura. Em 2014 perdeu o posto para José Serra (PSDB). Atualmente Eduardo Suplicy é secretário de direitos humanos e cidadania da prefeitura de São Paulo. 8 O PROFESSOR

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OP: Qual avaliação que o senhor faz, hoje, do Partido dos Trabalhadores se comparado à sua fundação, há 35 anos? Suplicy: Eu era deputado estadual pelo MDB em 1979, o segundo mais votado com 78 mil votos para a Assembleia Legislativa. Éramos 53 pelo MDB e 26 pela Arena. No segundo semestre, por iniciativa do governo Ernesto Geisel, foram extintos a Arena e o MDB. Naquele ano muito interagi com os movimentos de trabalhadores, metalúrgicos, lixeiros, professores, motoristas de ônibus, que realizavam greves e movimentos de reivindicação por melhores salários e condições de trabalho. Também me empenhei para a defesa dos direitos humanos nos mais diversos lugares. Quando houve denúncias de maus tratos e torturas na FEBEM, ali fiz diversas visitas. Empenhei-me na luta pelo restabelecimento de eleições diretas para prefeito de São Paulo, quando o governador Paulo Maluf, eleito pelo colégio eleitoral, queria designar Reinaldo de Barros, cuja nomeação tinha que ser aprovada pela Assembleia Legislativa. Denunciei a forma como o governador procurava prover vantagens aos deputados da oposição para que aprovassem aquele nome. Em razão dessas diversas ações, no segundo semestre de 1979, os líderes sindicais e intelectuais que estavam preparando a fundação do PT convidaram-me, junto com cinco outros deputados do MDB, para participarmos da fundação do partido. Procurei consultar a todos que votaram em mim, na medida do possível. A grande maioria aprovou e, em 10 de fevereiro de 1980 participei da fundação do partido, realizada no Colégio Sion. Eu estava de acordo com os propósitos do partido de defender a construção de um Brasil justo, civilizado, por meios democráticos, dando voz e vez a todos os brasileiros e brasileiras, sempre defendendo a ética, a transparência, a busca da verdade e a aplicação dos instrumentos de política econômica e social que poderiam levar o Brasil a se desenvolver com justa distribuição da renda e da riqueza. Continuo a defender os mesmos ideais da fundação do PT. Houve descaminhos e procedimentos errados. Numa organização que hoje reúne mais de 1,7 milhões de filiados constitui nosso dever tomar medidas para prevenir e corrigir os desvios e mal feitos que aconteceram ou venham a acontecer. OP: Qual sua análise da trajetória petista? Suplicy: O PT conseguiu contribuir para que o Brasil tivesse extraordinários avanços para promover o desenvolvimento econômico e com políticas que garantiram avançar muito no que diz respeito à erradicação da pobreza e à melhoria da distribuição da renda, com programas como o “Bolsa Família”. Houve saltos de qualidade em se prover melhor educação para todos, assim como ampliação dos serviços de saúde para toda a população. Grandes progressos foram realizados nos programas de moradia, como “Minha Casa, Minha Vida”. Mas muito mais precisa ser realizado, pois passamos do 3º país mais desigual do mundo para o 16º. Por outro lado, tivemos dificuldades na condução da política econômica, em boa parte por causa da conjuntura mundial, mas também por nossa responsabilidade. Os desvios de procedimento ético que aconteceram no âmbito de nossos governos contribuíram para que hoje haja uma avalanche de críticas ao nosso partido. OP: Muitos criticam o partido dizendo que hoje ele governa visando apenas interesses próprios . Em sua opinião , o PT, depois que passou a ser governo e teve que fazer acordos com outros partidos, fugiu aos seus ideais? Suplicy: Seja como deputado estadual, federal, vereador, senador por 24 anos, sempre defendi que o chefe do executivo pudesse dizer aos parlamentares que votem sempre de acordo com a sua convicção em defesa do interesse público e nunca em função de designação de nomes para a administração pública ou de emendas que tivessem sido aprovadas e liberadas. Tive sempre por norma não fazer indicações de nomes para o governo, seja quando na oposição ou na base aliada. Essa é a recomendação que continuo a fazer. Foto: Agência Brasil 247 Revista O PROFESSOR 9

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OP: Os escândalos de corrupção envolvendo políticos petistas ferem a imagem do partido. O senhor acredita que o PT se desviou do caminho e hoje não representa mais a classe trabalhadora? Suplicy: É fato que os escândalos prejudicaram sobremodo o nosso partido. Em 2014, no estado de São Paulo em especial, houve um verdadeiro tsunami contra o PT. No primeiro turno, se em estados do Norte e do Nordeste a presidenta Dilma teve mais de 70% dos votos, em SP ela alcançou 25% deles; já o nosso bom candidato a governador, Alexandre Padilha, teve 18%; eu para o Senado 32,5%, insuficientes para vencer. Será importante que o PT em cada lugar do país possa se esmerar, sobretudo com exemplos práticos de atuação diária, para que continue ser expressão do sentimento e dos anseios de todos os brasileiros. OP: Políticos que tiveram representatividade no PT saíram do partido alegando alianças escusas feitas por governantes para ter base política. Na sua opinião, todo tipo de aliança é válida para conseguir governabilidade? Suplicy: Acredito que as alianças devem ser realizadas e se justificam com o objetivo de se alcançar as metas maiores que desejamos para o País e nunca em função de distribuição de favores. Divulgação OP: Nestes 35 anos de partido quais os principais acertos do PT? Suplicy: Tantos feitos importantes caracterizaram a marca do PT, como o orçamento participativo; a formulação de políticas econômicas e sociais elaboradas com a participação dos movimentos sociais na cidade e no campo; a luta pelas diretas já e pelo aperfeiçoamento das instituições democráticas; a batalha pela reforma política, que ainda precisa ser realizada. Ainda precisamos avançar em direção à instituição da Renda Básica de Cidadania, apresentada pelo PT e aprovada pela Lei 10.835/2004 por todos os partidos, sancionada pelo Presidente Lula em 8 de janeiro de 2004, e que precisa ser objeto de um grupo de trabalho que estude as etapas em direção à sua implantação, conforme tenho sugerido à querida presidenta Dilma Rousseff. OP: E os maiores erros? Suplicy: Os mal feitos que têm sido apurados pela Controladoria Geral da União, Tribunal de Contas, Polícia Federal, Procuradoria Geral da República e Supremo Tribunal Federal. OP: O senhor esteve no Senado Federal durante 23 anos. Na última eleição perdeu para o candidato do PSDB, José Serra. O senhor acredita que sua saída do Senado foi um voto de protesto dos paulistas contra o PT? Suplicy: Em grande parte foi. Tenho a consciência tranquila de que procurei sempre defender os interesses maiores do povo de São Paulo e do Brasil e a adoção de políticas econômicas e sociais que sem dúvida são consistentes com nossos objetivos maiores. OP: Como o senhor visualiza o futuro do PT? Suplicy: Acredito que saberemos corrigir os rumos e dar a volta por cima de forma que os responsáveis pelos governos do PT em nível municipal, estadual e federal deem todos os passos para sempre agirmos de acordo com as metas e ideais de nossa fundação. 10 O PROFESSOR Revista

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Divulgação "Tenho a consciência tranquila de que procurei sempre defender os interesses maiores do povo" de atendimento à população que procura a Secretaria diariamente. Numa metrópole de 12 milhões de habitantes, em todos os momentos ocorrem ofensas aos direitos humanos e daí a necessidade de estarmos sempre atentos. São tantas as iniciativas interessantes que, para não alongar, menciono algumas: 1) O programa “De Braços Abertos”, que atua na chamada “cracolândia”, no qual estão inscritos mais de 450 usuários de drogas que passaram a ter uma oportunidade de trabalho de varrição de ruas e limpeza de praças e pelo qual recebem R$ 15 por dia. Além disso, foram destinadas vagas para os inscritos em hotéis conveniados com a prefeitura, com resultados bastante positivos até agora. 2) Outro programa é o “Transcidadania”, que visa fortalecer atividades de colocação profissional, reintegração social e resgate da cidadania para 98 LGBT em situação de vulnerabilidade; 3) Através da coordenação de migrantes temos um programa de abrigo emergencial e uma política de atenção contínua de diálogo com os imigrantes de diversas nacionalidades que chegam a São Paulo; 4) Em relação à população em situação de rua, buscamos construir um cenário favorável à implementação de projetos que garantam os direitos humanos, a cidadania e a dignidade do povo da rua. Desenvolvemos parceria para a realização de uma pesquisa feita com os moradores em situação de rua sobre as suas histórias, dificuldades e qualidade de vida, que envolve 15 pesquisadores escolhidos entre eles próprios. OP: Considerações finais. Suplicy: Muito obrigado pela oportunidade. Toda força aos professores para continuarem a prover ótima qualidade de educação a todos os paulistas, brasileiros e brasileiras. Revista OP: Atualmente o senhor exerce o cargo de secretário de direitos humanos e cidadania de São Paulo. Quais seus planos para a pasta? Suplicy: Tem sido um extraordinário desafio levar adiante os propósitos do honroso cargo que o prefeito Fernando Haddad me designou como secretário de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo. Aqui trato de bem coordenar as 13 áreas de atuação: de políticas para as crianças e adolescentes, para a juventude, para os idosos, para a população em situação de rua, para a comunidade LGBT, para álcool e drogas, para os migrantes, para o trabalho decente, para a participação social, para o direito à memória e a verdade, para o direito à cidade, para a educação em direitos humanos, para a ouvidoria e balcão O PROFESSOR 11

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Foto:Agencia Brasil “O PT deve atravessar uma profunda e radical crise. Toda crise acrisola, purifica e deixa livre o essencial” G enézio Darci Boff (Leonardo Boff): Teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil. Ingressou na Ordem dos Frades Menores Franciscanos em 1959 e foi ordenado sacerdote em 1964. Em 1970, doutorou-se em Filosofia e Teologia na Universidade de Munique, Alemanha. Ao retornar ao Brasil, ajudou a consolidar a Teologia da Libertação no País. Lecionou Teologia Sistemática e Ecumênica no Instituto Teológico Franciscano em Petrópolis (RJ) durante 22 anos. Foi editor das revistas Concilium (1970-1995) (Revista Internacional de Teologia), Revista de Cultura Vozes (1984-1992) e Revista Eclesiástica Brasileira (1970-1984). Sua reflexão teológica abrange os campos da Ética, Ecologia e Espiritualidade, além de assessorar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e movimentos sociais como o MST. Trabalha também no campo do ecumenismo. Foi professor de Teologia e Espiritualidade em vários institutos do Brasil e exterior. Como professor visitante, lecionou nas seguintes instituições: Universidade de Lisboa (Portugal), Universidade de Salamanca (Espanha), Universidade Harvard (Estados Unidos), Universidade de Basel (Suíça) e Universidade de Heidelberg (Alemanha). É doutor honoris causa em Política pela universidade de Turim, na Itália, em Teologia pela universidade de Lund na Suécia e nas Faculdades EST – Escola Superior de Teologia em São Leopoldo (Rio Grande do Sul). Tem mais de 60 livros publicados e atualmente se dedica às questões ambientais. 12 O PROFESSOR Revista

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OP: Qual avaliação que o senhor faz, hoje, do Partido dos Trabalhadores se comparado à sua fundação, há 35 anos? Boff: A história não para e modifica as pessoas e as instituições. O poder tem sua lógica férrea. Para se garantir, o poder precisa de mais poder. E aqui está o perigo. O PT entrou inevitavelmente no jogo do poder, mas não conseguiu dar-lhe outro sentido como pretendia: um instrumento para as mudanças necessárias. Em parte o fez, pois introduziu mudanças em favor do povo empobrecido, mas omitiu outras importantes como as reformas política, tributária e infraestrutura. OP: Qual sua análise da trajetória petista? Boff: É uma trajetória ambígua. Fez uma revolução democrática e pacífica no sentido de ter mudado o sujeito do poder. Não mais domina a classe burguesa que por todo o tempo de nossa história prevaleceu. Agora o sujeito é popular, dos movimentos. Passou-se de um Estado privatizante e elitista para um Estado social e de cunho popular. Este é seu lado luminoso. Mas a ambiguidade foi não ter conseguido manter os primeiros ideais e ter aceito o jogo pedestre da política parlamentar. OP: Muitos criticam o partido dizendo que hoje ele governa visando interesses próprios. Na opinião do senhor, o PT, depois que passou a ser governo e teve que fazer acordos com outros partidos, fugiu aos seus ideais? Boff: O PT se confrontou com a seguinte alternativa: ou governar apoiado nos movimentos sociais como fez Evo Morales e Hugo Chaves ou então fazer um presidencialismo de coalização, criando uma base aliada, apoiada no congresso. É notório que o congresso configura uma democracia de baixíssima intensidade, representando mais os interesses das classes dominantes que financiaram as eleições dos representantes, que os interesses gerais da nação. O PT escolheu esta alternativa e seu mal, com as consequências que hoje ficaram claras. “A corrupção é difícil de mudar, pois é algo consolidado, mas temos que reverter esse processo” OP: Os escândalos de corrupção envolvendo políticos petistas ferem a imagem do partido. O senhor acredita que o PT se desviou do caminho e hoje não representa mais a classe trabalhadora? Boff: O PT é talvez o único partido ideológico de cunho nacional e popular. Ele, por causa da coalisão com partidos que pouco tem a ver com o povo, se obrigou a fazer muitas concessões. Isso turvou a imagem do partido que se propunha ser o partido da ética, das mudanças sociais, dos excluídos e empobrecidos. Mal conseguiu segurar alto esta bandeira. Lentamente sua relação com o congresso era mais decisiva que aquela orgânica com os movimentos sociais de base. E aí se traçou o caminho fácil para a corrupção, sempre presente o jogo político parlamentar do "do ut des" vale dizer " do dando que se recebe". Então, a corrupção que é geral em nossa política, foi apresentada como se fosse só do PT. Cada sociedade precisa encontrar um bode expiatório, ora são os comunistas, ora os subversivos, ora os esquerdistas radicais, ora os "petistas" tidos como "petralhas". Concentrando-se num determinado bode expiatório a sociedade, ilusoriamente, se sente livre de suas próprias práticas corruptas e a história continua sem produzir mudanças profundas. Esse mecanismo foi estudado por um grande pensador francês René Girard com sua tese do "bode expiatório" e do "desejo memético”. Entretanto não há que olvidar que não houve corrupção maior no Brasil do que aquela praticada pelas classes dominantes que Revista O PROFESSOR 13

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deixaram o povo, por 500 anos, à margem e na miséria, sem participação e sem cidadania, sendo, como diz o historiador mulato Capistrano de Abreu, "capado e recapado, sangrado e ressangrado" por essas classes. Essa é a grande corrupção que, em parte, ainda se perpetua. OP: Como o senhor visualiza o futuro do PT no País? Boff: O PT deve atravessar uma profunda e radical crise. Toda crise acrisola, purifica e deixa livre o essencial. Não podemos aceitar que um ideal tão generoso e singular na história brasileira, representado pelo PT e seus aliados afins se perca totalmente. Possivelmente ficará por um tempo fora do poder central (presidência) que lhe dará oportunidade para se repensar como partido e com um projeto de Brasil mais amadurecido. Ai sim pode voltar redimido, desde que mantenha organicamente relação com a base social popular de onde veio. OP: Numa entrevista recente o senhor disse: "O projeto econômico não é adequado ao projeto social. Há uma desigualdade muito grande". O que precisa ser feito para que o País volte a crescer economicamente com um olhar voltado para o social? Boff: O Brasil foi obrigado a submeterse à lógica da macroeconomia capitalista, caso contrário não conseguiria a base suficiente de apoio do capital nacional e internacional para realizar sua proposta de governo. A Carta aos Brasileiros de Lula apontava para a aceitação deste tipo de economia hoje globalizada. Mas a genialidade de Lula foi, apesar disso, ter aberto cunhas para políticas sociais compensatórias importantes. Os dados revelam a desigualdade de tratamento: o governo deve pagar anualmente aos rentistas cerca de 150 bilhões de reais (via superavit primário) que é o preço do empréstimo feito no mercado e os 70-80 bilhões destinados às políticas sociais e populares. A economia está em desequilíbrio com o projeto social. Como crescer? Este seja talvez o maior desafio do PT. Para mim ele deve ter a coragem de introduzir certa ruptura. Fortalecer o capital nacional, deixar o capital internacional (hoje sem regras) entrar sob claras condições para que não seja apenas com o fim de especular, mas principalmente para produzir, pois temos um grande mercado interno; fortalecer a pequena e média empresa, especialmente de agroecologia, que é, por exemplo, a base do desenvolvimento da Itália e são aquelas que trazem alimentos para nossas mesas; desburocatizar, diria brutalmente, o funcionamento do país, elaborar um projeto nacional claro, soberano, aberto ao diálogo e cooperação com outras economias, aproveitando-se de sua vantagem única de ser o maior país continental com a mais variada riqueza ecológica, confiando que, dentro de Reprodução: Revista Fórum 14 O PROFESSOR Revista

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poucos anos, toda a economia será de base ecológica para atender as demandas humanas. O pressuposto fundamental é um grande investimento na educação e na saúde. Um povo ignorante e doente jamais dará um salto rumo a um novo tipo de desenvolvimento. O PT deve arriscar, caso contrário, nunca criará a sua pegada própria. Não pode continuar a pisar na pegada feita pelos outros que não tiveram os mesmos propósitos que o partido. OP: Quais as principais diferenças entre o governo Lula e o governo Dilma? Boff: Dilma prolonga Lula sem mostrar capacidade de negociar politicamente na esteira de Lula, nem possui o carisma de galvanizar as massas, marca registrada da atuação política de Lula. Esses limites criaram certa decepção na população. OP: Quais os principais erros do governo petista? Boff: Ninguém faz o governo que quer. Faz aquele que a correlação de forças nacionais e internacionais o permite. As forças conservadoras nacionais, associadas ao capital mundial, sem qualquer outro interesse senão o de acumular, desequilibraram continuamente a linha mestra do PT que era fazer um governo social e popular. O PT obrigou-se a fazer concessões para poder continuar fazendo o que vinha fazendo em benefício para o povo. Enquanto isso o sistema financeiro e os bancos tinham espaço livre para acumular. No momento presente, considero um grande equívoco e até certa crueldade colocar nas costas dos trabalhadores e aposentados o ônus da crise econômica pela qual passa o País. Se a crise é geral, todos devem colaborar: os bancos, as grandes fortunas e todas as classes sociais, consoante sua capacidade. OP: E os principais acertos? Boff: Para mim o principal acerto que quase ninguém se refere, foi ter feito uma revolução social e democrática sem precisar usar a violência. Segundo Caio Prado Junior em a Revolução Brasileira, uma revolução acontece quando as demandas das grandes maiorias que nunca eram atendidas começaram a ser atendidas e isso como decisão do poder central. Como disse, a base social do governo não é mais a classe dos proprietários, mas a base popular. Custa mantê-la, caso contrário, perdemos uma chance histórica única. Os grandes acertos foram aqueles que beneficiaram os que sempre foram excluídos, cerca de 40 milhões de brasileiros, o que devolveu não apenas mais meios de vida, mas principalmente dignidade, sentido de pertença à uma nação e a um governo que pensa neles. E por fim, foi a partir do PT que o povo começou a se interessar por política, discutir política e colocar a questão ainda não resolvida: que Brasil queremos? Por que sendo uma nação tão rica existem tantos pobres? OP: Muitos acreditam que a corrupção esteja vinculada diretamente aos políticos, de um modo geral, analisamos “o jeitinho brasileiro” e o “querer levar vantagem” em tudo. O senhor acredita que a corrupção esteja enraizada na cultura e educação de nosso povo? Boff: Temos três sombras que sempre nos acompanham: o genocídio indígena, pois eram 6 milhões e hoje são apenas 800 mil. Os 400 anos de colonialismo que criaram a ideia de que tudo deve ser decidido a partir de fora, de que temos que escutar o senhor que tem poder de vida e morte sobre nosso destino, que não temos capacidade por nós mesmos e construir o nosso caminho e por isso precisamos sempre esperar e valorizar tudo o que vem de fora ou de cima; o colonialismo deixou uma herança perversa que é a burocracia complicada, feita para não fazer funcionar o estado e manter o povo longe dos direitos. E a terceira sombra, a pior é o fato de termos tido mais de 300 anos de escravatura. A escravidão é, na perspectiva do escravo, a pior desgraça que pode acontecer, pois perde a liberdade, está sempre à mercê do arbítrio do outro e de ser considerado, "peça" como se dizia, posta no mercado para ser comprada ou vendida. Tirar a liberdade de alguém é a maior violência que se pode cometer e a pior ofensa aos direitos humanos, pois não se considera o escravo como humano, mas no máximo sub-humano. E quando libertamos os escravos não lhes demos nenhum pedacinho de terra, nenhum instrumento de trabalho. Simplesmente os jogamos na rua ou os enviamos às favelas. Essa dívida pesa sobre o Brasil e nunca pagamos devidamente, Revista O PROFESSOR 15

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