Boletim MINOM 3.2

 

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Movimento Internacional para uma Nova Museologia

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PORTUGAL MINOM MOVIMENTO INTERNACIONAL PARA UMA NOVA MUSEOLOGIA BOLETIM MARÇO 2014 N.º 2 - TERCEIRA SÉRIE

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ÍNDICE Editorial ....................................................................................................................................................................2 XXI Jornadas sobre a Função Social do Museu – 1 e 2 de Novembro de 2013 – XXI Jornadas do MINOM em Peniche ..................................................................................................................4 – Fortaleza de Peniche: R esistência e Memória ......................................................................................................5 – Centro Interpretativo de Autoguia da Baleia: Um projeto museológico participativo ...................................6 – TEMA: Identidade e Liberdade ‐ Fortaleza de Peniche R esistência e Memória. Mesa R edonda 1 .................7 – TEMA: Identidade e Museologia Social: “ Os desafios da Museologia Participativa no Centro Interpretativo de Atouguia da Baleia (CIAM)” ‐ Mesa R edonda 2 ....................................................8 NUOME – Núcleo da Oralidade, Memória e Esquecimento – NUOME: Um mundo de palavras viajantes... ou a memória no chapéu NUOME: Mundos de palavras que acordam memórias ........................................................................................10 – NUOME .................................................................................................................................................................14 – Novos Paradigmas para a Museologia .................................................................................................................16 MINOM Educação: Núcleo da Educação – Heróis do Museu 2014 ‐ Dados Partilhados num Trabalho de Partilha .........................................................18 Miséria da Museologia em Portugal .................................................................................................................22 1 MINOM PORTUGAL BOLETIM

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EDITORIAL É numa atmosfera de grandes inquietações e importantes movimentos sociais que o MINOM assinala, neste Boletim, a passagem dos 40 anos sobre os gloriosos dias de Abril. Mas é também a oportunidade de assinalarmos a realização do primeiro Ateliê da Nova Museologia, no Quebéc, em 1984, e, na sua sequência, os cerca de trinta anos deste movimento em Portugal. Estamos, por isso, em tempo de comemorações mas também de reflexão e ação. Poderemos considerar que da conjugação destes dois eventos terão resultado alguns efeitos particularmente interessantes e uma experiência própria no campo da museologia social. Em breve síntese diremos que procurámos intervir contribuindo para a reflexão e o debate sobre o sentido da museologia com as ideias sobre as quais se fundamentam as perspetivas de uma Nova Museologia. Vincámos ao longo dos cerca de trinta anos do nosso movimento a opção por uma museologia ativa de compromisso com o Desenvolvimento e do exercício da Cidadania, fundamento e produto desta museologia que praticamos. Contribuímos para este debate também através da convocação e concretização das JORNADAS SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DO MUSEU, de que aqui apresentamos os textos introdutórios e conclusões referentes à sua 21ª edição realizada recentemente em Peniche. Perante o quadro social que agora vivemos logramos ainda hoje anunciar que vocação do MINOM agrupar, numa vasta plataforma de tendências e de organismos, indivíduos dedicados a uma museologia ativa, interativa, preocupados com a mudança social e cultural… E na adequação da organização MINOM aos novos tempos que agora vivemos e no respeito da sua própria identidade, tem especial significado os progressos dos grupos temáticos entretanto constituídos de cujo trabalho damos conta neste edição com algum desenvolvimento chamando a atenção para o próximo Encontro de primavera de iniciativa do Núcleo da Oralidade, Memória e Esquecimento (NUOME) a ter lugar já em Abril próximo no Museu Municipal de Aljustrel. A Direção MINOM PORTUGAL BOLETIM 2

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XXI JORNADAS SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DO MUSEU Peniche, 1 e 2 de novembro de 2013 XXI Jornadas do MINOM em PENICHE Conforme o programa previamente delineado em colaboração com a Câmara Municipal de Peniche, entidade anfitriã , tiveram início pelas 14h30m do dia 1 de novembro de 2013 as XXI Jornadas do Movimento Internacional para Nova Museologia (MINOM- Potugal), no Centro Interpretativo de Atouguia da Baleia (CIAB) com a sessão de abertura realizada pelo Sr. Presidente da autarquia de Peniche, António José Correia e Emanuel Sancho, presidente da Direção do MINOM Portugal. Iniciaram-se os trabalhos com intervenções, sobre as seguintes temáticas: Identidade e Liberdade; Fortaleza de Peniche: Resistência e Memória; Mar como Identidade; O Mar como elemento ativo de Desenvolvimento; Identidade e Museologia Social; Centro Interpretativo de Atouguia da Baleia; um Projeto Museológico Participativo. O programa da Jornada continuou com a constituição dos grupos de trabalho tendo encerrado no dia seguinte com a apresentação das conclusões. A iniciativa mereceu balanço positivo, nas amáveis palavras do Sr. Presidente da edilidade, secundadas e gratas pela direção do MINOM- Portugal. MINOM PORTUGAL BOLETIM 4

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XXI JORNADAS SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DO MUSEU Peniche, 1 e 2 de novembro de 2013 Fortaleza de Peniche: Resistência e Memória A Fortaleza de Peniche viu seu espaço utilizado de forma diversa de acordo com as necessidades e as vicissitudes históricas de cada época. Praça militar de vital importância estratégica até 1897, abrigo de refugiados Boers provenientes da África do Sul no início do séc. XX, cadeia do regime do Estado Novo entre 1934 e 1974, alojamento provisório de famílias portuguesas chegadas das antigas colónias ultramarinas em 1974, e a partir de 1984 albergue do Museu Municipal, a Fortaleza de Peniche assume especial relevância enquanto importante documento de uma diacronia histórica de índole local e nacional. Porém, sem dúvida, que desta longa história o capítulo que maior interesse parece despertar, pela proximidade temporal e simbolismo, remete para a vigência neste espaço de uma prisão política durante quarenta anos. A necessidade de perpetuar uma importante memória política, associada à resistência antifascista e, simultaneamente, valorizar e divulgar a cultura e história locais estão na génese da criação do Museu Municipal de Peniche. Este equipamento museológico, visitado anualmente por cerca de trinta e cinco mil visitantes, apresenta-se como depositário destas duas heranças, assumindo-se, duplamente, enquanto museu de sítio e de região. A necessidade de apropriação deste espaço pela população, e em particular pelos agentes políticos, impôs desde os anos 80 do séc. XX, uma forte dinâmica cultural a este imóvel histórico, alojando desde aí vários projetos artísticos e acolhendo uma programação cultural regular centrada na evocação da memória histórica da Fortaleza e do concelho, e na valorização dos atores culturais locais. O futuro desta fortificação seiscentista parece ser feito de dois grandes desafios: conservar e reabilitar o edificado, e valorizar e perpetuar uma memória histórica multitemática de fundo local e, paralelamente, nacional. Rui Venâncio 5 MINOM PORTUGAL BOLETIM

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XXI JORNADAS SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DO MUSEU Peniche, 1 e 2 de novembro de 2013 Centro Interpretativo de Atouguia da Baleia: Um projeto museológico participativo Integrado na Rede Museológica do Concelho de Peniche, inaugurou, a 17 de março de 2012, o Centro Interpretativo de Atouguia da Baleia. Este espaço museológico encontra-se sedeado num imóvel histórico do século XVIII – a igreja de S. José – e edifício anexo, em Atouguia da Baleia, concelho de Peniche. Tem uma gestão partilhada entre a Câmara Municipal de Peniche, a Junta de Freguesia de Atouguia da Baleia e a Fábrica da Igreja Paroquial de S. Leonardo de Atouguia da Baleia, contando igualmente com os contributos dos visitantes e populações do concelho. Para o desenvolvimento do seu programa museológico e expositivo, um dos contributos mais decisivos foi o “Inventário Participativo do Património Cultural de Atouguia da Baleia”, promovido pela CMP com o apoio das coletividades locais. Esta foi a designação do projeto através do qual se implementaram um conjunto de estratégias museológicas participativas desde início de 2010, junto das populações desta freguesia. Desta sequência de métodos participativos, fizeram parte tertúlias com a população nas sedes das associações, mapeamento participativo dos locais de interesse patrimonial da localidade, caminhadas de reconhecimento, visitas técnicas, recolha de histórias de vida e realização de entrevistas etnográficas, levantamento de manifestações de Património Cultural Imaterial e recolha de espólio fotográfico, entre outras iniciativas. Pretendeu-se, com este projeto, alcançar um conhecimento mais aprofundado dos ativos patrimoniais da freguesia; desenvolver a investigação etnográfica e histórica necessária à instalação do CIAB; implementar um centro interpretativo que favoreça o desenvolvimento local, com ações que abranjam todo o território da freguesia; permitir a interação museu-população e a construção conjunta e participada das várias ações de natureza museológica; estimular na população local um sentimento de pertença, através de um processo de cidadania ativa, sublinhando fatores de memória e identidade coletiva; aumentar a valorização pessoal e coletiva das comunidades envolventes, na sua identificação com as referências patrimoniais – expostas no museu e interpretadas in situ – qualificando os saberes, tradições e sítios como património cultural; e incentivar a valorização, preservação e (re)apropriação do património cultural. Raquel Janeirinho MINOM PORTUGAL BOLETIM 6

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XXI JORNADAS SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DO MUSEU Peniche, 1 e 2 de novembro de 2013 TEMA: Identidade e Liberdade Fortaleza de Peniche Resistência e Memória MESA-REDONDA 1 CONSTITUIÇÃO DO GRUPO: César Lopes, Mário Moutinho, Jaime Fernandes, Glória Marreiros, Rui Venâncio, Manuel Antunes, Domingas Cruz, Teresa Piedade, André Amador, José Soares, Diamantino Torres, João Neves, Manuela Costa, Alzira Revés, Alina Marcelino, Paula Mangerico, Olga Macedo, Manuela Cerol, José Romão, Tiago Alves, Maria Louro ABORDAGENS: Espaço de memórias/espaço de vivências Evocação do local/evocação do nacional Compatibilização do Museu de Sítio/ Museu de Região CONSIDERANDOS: RECOMENDAÇÕES: • Proceder à recriação do Museu Municipal enquanto equipamento polinucleado, descentralizado do espaço da Fortaleza; • Criar as condições para a instalação no espaço da Fortaleza de um Museu de Sítio, versando em particular a memória da resistência antifascista que teve lugar neste local; • Integração na Rede de Sítios de Consciência (movimento mundial), tendo como base a criação de uma comissão que envolva várias entidades; • Abertura de um concurso internacional de ideias versando a apresentação de propostas de intervenção no espaço da Fortaleza de Peniche; • A Fortaleza e as suas memórias assumem uma projeção que ultrapassa a esfera local, com uma dimensão vincadamente nacional e internacional; • Continuação da dinamização de uma programação cultural regular no espaço da Fortaleza, quer no domínio artístico quer em torno da valorização da memória da Resistência Antifascista. • Reconhecimento do trabalho desenvol- vido pelo município em torno do estudo da memória histórica associada à prisão política; • Perceção e preocupação pelo elevado estado de degradação da Fortaleza, em particular, do antigo espaço prisional; • Degradação e desatualização da área ex- positiva do Museu Municipal, não havendo uma coerência do discurso museológico. 7 MINOM PORTUGAL BOLETIM

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XXI JORNADAS SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DO MUSEU Peniche, 1 e 2 de novembro de 2013 TEMA: Identidade e Museologia Social: “Os desafios da Museologia Participativa no Centro Interpretativo de Atouguia da Baleia (CIAB)” MESA-REDONDA 2 CONSTITUIÇÃO DO GRUPO: Raquel Janeirinho, Áurea Pinheiro, Manuela Palma, Leandra Vasconcelos, Emanuel Sancho, Lorena Querol, Ânia Pedrosa, Mafalda Garcia, Ana Dias, Teresa Piedade, Jorge Martins, António Pires, Preciosa Neves, Suzete Laranjeira, Cácia Moura, Maria da Luz e João Moital. ABORDAGENS: RECOMENDAÇÕES: Contrariando os processos de homogeneização cultural, invisibilizacão da diversidade e distanciamento dos usos e saberes tradicionais relacionados com a sustentabilidade ambiental, o grupo reunido em torno deste tema recomenda o aprofundamento dos trabalhos em curso a quatro níveis: 1. Na qualidade de “Museu Ponte”. O CIAB deverá assumir-se como elo de ligação entre pessoas, associações e demais organizações locais, colaborando com a população na concretização de objetivos individuais ou coletivos. 2. Na condição de “Museu Acolhedor”. O CIAB deverá ter as suas portas abertas a iniciativas promovidas pela comunidade nas áreas e interesses relacionados com os diferentes segmentos da população local, tendo em conta as características sociais, culturais e ambientais do território onde se insere, contribuindo assim para um desenvolvimento equilibrado. 3. Na função de “Museu Educador”. O CIAB deverá constituir-se como um espaço de educação alternativa a diferentes níveis, interagindo, entre outros, com os órgãos de educação formal locais. 4. Exercendo o seu poder de “Museu Inspirador”. Neste entrelaçar de processos, interesses e desafios à escala local, o CIAB poderá abrir a porta a novos caminhos, iniciativas, atividades e ideias, resultantes de um crescimento conjunto museu-comunidade. • A experiência do CIAB e os desafios da Museologia participativa em tempos de mudança. • A experiência do CIAB como inspiração para a construção de um corpus de princípios em torno da ideia de MUSEU ÚTIL. CONSIDERANDOS: • No atual contexto de mudança, a Cultura, o Museu e o Património constituem eixos essenciais de um desenvolvimento sustentável que reafirma a relevância da dimensão local. • Os espaços museológicos de pequenas comunidades, pela sua origem, natureza, desafios e compromissos, quando construídos com base em metodologias participativas ocupam um lugar essencial nos processos de empoderamento destas comunidades. MINOM PORTUGAL BOLETIM 8

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XXI JORNADAS SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DO MUSEU Peniche, 1 e 2 de novembro de 2013 9 MINOM PORTUGAL BOLETIM

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NUOME Núcleo da Oralidade, Memória e Esquecimento http://www.nuome.blogspot.pt/ NUOME: Mundos de palavras que acordam memórias O Núcleo da Oralidade, Memória e Esquecimento (NUOME) surgiu em 2012, no início de um novo capítulo na vida do MINOM Portugal (triénio 2012-2014), e em resposta aos desafios relacionados com a construção de um desenvolvimento social, cultural, ambiental e economicamente mais equilibrado, onde o museu local se posiciona como agente privilegiado de mediação e ação, na ótica da Sociomuseologia. Neste contexto, a nova direção do MINOM português lançou o desafio de criar pequenos grupos temáticos, que permitissem trabalhar áreas estruturais para a nossa sociedade através do museu e visando valorizar a diversidade local nas suas várias expressões. Pensamos então que seria interessante adotar o conceito de “núcleo”, associando-o à ideia de laboratório de experiências, para conhecer melhor os nossos museus; explorar as suas debilidades e os seus potenciais; dar espaço a outras narrativas, a outros patrimónios e a outras formas de cultura; desenvolver projetos em rede e alimentar a reflexão… em suma, gerar caminhos de uma museologia alternativa. Associado ao conceito emergiram logo, numa primeira recolha, quatro áreas essenciais: a Educação Patrimonial, o Empoderamento, a Memória e o Turismo Cultural. Foi assim que um pequeno grupo de pessoas ligadas ao pensar e ao fazer museológico, procedentes do Museu da Ruralidade1 (Castro Verde, Alentejo), do Museu do Trajo2 (São Brás de Alportel, Algarve) e do Centro de Estudos Sociais3 (Universidade de Coimbra), conscientes da riqueza e do potencial que transportam as memórias locais, decidiu criar o NUOME, dando vida a este 1 Museu da Ruralidade: http://museudaruralidade. primeiro hub de museologia nómada, que abria a `era polinucleada no MINOM Pt´. Na nossa mira perfilava-se um objetivo central: trabalhar as luzes e as sombras da memória, a partir do museu, das pessoas, dos lugares, e do correr do tempo4, utilizando metodologias participativas que privilegiassem a copresença, a coprodução e a coautoria, contribuindo assim para a construção de um presente melhor. Nómadas da Memória: de museu em museu alimentando a rede Com este objetivo, o Museu da Ruralidade aceitou o desafio de ser a nossa sede informal, acolhendo a iniciativa e ajudando-nos a construir o caminho com a sua experiência, o seu saber territorial e a sua prática sociomuseológica. Destaca-se a experiência de construção das genealogias da memória, um projeto de registo de gestos e saberes representativos da comunidade, que se disponibiliza no Centro de Documentação do Museu. A partir daí, e em sucessivas reuniões de diversa natureza e localização geográfica, fomos dando forma à estrutura do Núcleo, à sua missão e aos objetivos que guiariam a nossa atuação. Em aberto tem ficado a questão da sustentabilidade económica do processo, que esta a ser pensada com os organismos representados na coordenação do NUOME e também com os museus que se blogspot.pt/ 2 Museu do Trajo: http://www.museu-sbras.com/ 3 Núcleo de Estudos sobre Cidades, Culturas e Arquitetura (CCArq), Centro de Estudos Sociais (CES): http:// www.ces.uc.pt/nucleos/cca/pages/pt/apresentacao.php 4 Outras informações sobre a missão, os princípios e os objetivos do NUOME, podem ser consultados na nossa Carta de Princípios em: http://nuome.blogspot.pt/p/ nuome.html 5 Ver: http://nuome.blogspot.pt/ MINOM PORTUGAL BOLETIM 10

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NUOME Núcleo da Oralidade, Memória e Esquecimento http://www.nuome.blogspot.pt/ fossem juntando a este construir e partilhar caminhos. Desta forma, e tendo em conta a nossa natureza - um núcleo temático integrado na seção portuguesa de um organismo internacional - o tema que nos move é o da necessidade de cruzar olhares entre museus, experiências e comunidades, mas também o de questionar as nossas características estruturais. Neste contexto, optámos pelo desenvolvimento de uma dinâmica própria que tomava como ponto de partida a criação de duas linhas de ação: um espaço virtual autónomo para uso coletivo5, e um ciclo de encontros temáticos em museus locais. Ao mesmo tempo que nos permitia conhecer de perto as estruturas museológicas interessadas em agir connosco, esta dupla ação dar-nos-ia pistas sobre os passos a dar no imediato para tornar o nosso Núcleo mais útil à sociedade e aos nossos museus. Ficou sobre a mesa - e na Carta de Princípios entretanto criada - o desejo de criar também uma Rede de Museus, Memórias e Oralidades com aquelas instituições que se fossem juntando à nossa causa, para alargar o compromisso e explorar outros potenciais da relação Museu-Memória no presente. O que nos leva a encontrar-nos? A partir de aqui, e enquanto o nosso blogue ganhava vida, iniciámos a organização dos Encontros NUOME. Os critérios foram definidos conforme a experiência foi avançando, tendo em atenção as características e modelos de gestão dos museus locais em Portugal, as lacunas detetadas na sua relação com a memória social e, sobretudo, as inércias, trabalhos e vontades a materializar em cada Encontro. Da parte das entidades acolhedoras esperamos recetividade para uma intensa construção coletiva em todos os sentidos. Da mesma forma, decidimos que a escolha de cada Museu interessado em acolher-nos, seria uma escolha coletiva, feita no encontro anterior, privilegiando a iniciativa e a vontade de trabalhar no projeto. Com este objetivo, optámos por definir uma média de dois encontros anuais, organizados segundo um sistema de alternância associado às estações do ano. As temáticas são selecionadas em função do museu que nos acolhe, dos trabalhos e desafios que tem entre mãos, mas também dos usos museológicos que as memórias, saberes e conhecimentos relacionados com a experiência social do seu território, podem ter no presente, quando associamos Museu à criatividade social e a desenvolvimento local. Como resultado, ao longo dos dois anos de vida do NUOME, temos sido acolhidos por diversos museus com “vontades de memória” que, desde a sua especificidade e percurso: – se atrevem a mostrar-nos o caminho realizado, seus sucessos, insucessos, projetos e sonhos; – aceitam que questionemos, no plural e no singular, o lugar e a função da memória nos seus projetos museológicos; – querem reposicionar a memória no museu, o museu na sociedade e as memórias sociais no presente, dando espaço às narrativas contra-hegemónicas para reconhecerem o lugar e função de um saber plural. Dois anos de NUOME… e uma “crise” que nos fortalece na partilha A primavera começará dentro de alguns dias, e com ela chega o nosso primeiro encontro NUOME de 2014. À procura das entrelinhas da memória, encontrar-nos-emos no Museu Municipal de Aljustrel, o MuMA, para debatermos as memórias e as contramemórias de um 25 de abril, que atinge agora a sua maioridade absoluta, embora que por momentos não tenhamos essa sensação. Até aqui, já nos acolheram quatro museus de mui diferentes perfis, todos eles com o compromisso da memória entranhado no seu quotidiano; todos eles construindo um diálogo transversal com o território; todos eles à procura de respostas para superar uma fase em que os museus se debatem pela sua sobrevivência, enquanto procuram outros modelos de sustentabilidade, outro direito a ser, mas também novas formas de agir no território. Para quem ainda não apareceu nos nossos encontros, cá fica o percurso até agora realizado: 11 MINOM PORTUGAL BOLETIM

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NUOME Núcleo da Oralidade, Memória e Esquecimento http://www.nuome.blogspot.pt/ 2012 – Encontro de primavera: Museu da Ruralidade Tema do encontro: “Oralidade, memória e Esquecimento” (Pontapé de partida para uma reflexão coletiva sobre a criação do NUOME) – Encontro de outono: Museu do Trabalho Michel Giacometti (MTMG) Tema: “Experiências e desafios do Centro de Memórias do MTMG” (A experiência de trabalho do primeiro museu do pais, com um centro de estudo sobre as memórias locais) 2013 – Encontro de inverno: Museu Municipal de Coruche (MMC) Tema: “Um Museu: diferentes Memórias, diferentes Patrimónios” (A Museologia polinucleada no século XXI e o lugar e função da população local no/s Museu/s) – Encontro de verão: Museu Marítimo de Ílhavo (MMI) Tema: “Pluralizar as memórias do Mar em contexto museológico” (A construção de um arquivo de memória oral sobre a faina do bacalhau, no contexto da história marítima portuguesa) 2014 – Encontro de primavera: Museu Municipal de Aljustrel (MuMA) Tema: “Abril de 74: Ressonâncias contemporâneas no Alentejo” (As memórias da revolução de abril, as suas leituras e aprendizagens contemporâneas a través do Museu) – Encontro de outono: Museu da Guarda Tema: “As memórias do contrabando e os usos sociais da fronteira” (Programa em definição) Contra ventos e marés… pés firmes no Museu! 2014 será um ano de mudanças para os museus, um ano para trabalhar abordagens alternativas no contexto do panorama cultural português, seu primeiro e principal território de ação. Emerge de novo a palavra desafio, mas desta vez da mão de uma outra: “sentido”. A memória é um bom lugar para refletir. Refletir sobre o que fizemos até aqui e o que queremos fazer. Refletir sobre o modo como agimos, sobre o espaço de ação, sobre os territórios da diversidade, da criatividade e da partilha, ainda imberbes em muitos dos nossos museus. Qual o sentido da nossa ação museológica? A polissemia da palavra “sentido” leva-nos primeiro até aos sentidos do corpo, e o que com eles sentimos. Permite-nos questionar o que faz sentido, e também refere a direção de um caminho. No NUOME achamos que faz sentido caminhar com o olhar firme no outro, para com ele pensar numa fórmula que nos permita desenvolver essa sustentabilidade que ainda está a nascer e que já queremos vestir de festa. Sabemos que uma parte fundamental da nossa ementa é a economia criativa e queremos aprender a utilizá-la, por isso aceitamos novas colaborações nesta área. No NUOME sentimos que o sentido natural dos processos passa por Encontrar-nos em cada estação do ano, e não apenas em duas delas. No NUOME estamos conscientes de que as memórias não são lineares, e ainda, que a linearidade não nos serve para percorrermos um caminho plural como o que aos poucos e poucos estamos a desenhar. Cada voz, cada ideia, cada experiência, forma parte da nossa linearidade ondular, onde a baixa-mar e a preamar se complementam. No NUOME queremos contribuir para a construção de museus onde as memórias circulem sem atacadores, e onde a partilha seja a ferramenta chave de uma narrativa construtora de bons presentes. Obrigada por caminhar connosco! Lorena Sancho Querol, em sintonia com a equipa NUOME. MINOM PORTUGAL BOLETIM 12

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NUOME Núcleo da Oralidade, Memória e Esquecimento http://www.nuome.blogspot.pt/ 13 MINOM PORTUGAL BOLETIM

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NUOME Núcleo da Oralidade, Memória e Esquecimento http://www.nuome.blogspot.pt/ NUOME Missão missão e princípios de atuação Princípios de atuação O NUOME estrutura a sua existência e atuação em três princípios de base que, adaptados à natureza do núcleo, se apresentam da seguinte forma: 1.  O  Princípio da Participação, entendido como o direito de todo o ser humano a intervir nos processos de identificação e construção dos conceitos, valores e significados das diversas manifestações da oralidade, da memória e do esquecimento, através do museu, com vista ao desenvolvimento “glocal”, privilegiando uma atuação pautada: – na Copresença, para estabelecer as bases de um processo de construção coletivo e plural; – na Coprodução dos processos, com base em dinâmicas de inclusão centradas na prática do diálogo intergeracional e multicultural; – na Coautoria dos conhecimentos que resultam do processo de estudo e valorização da memórias e das oralidades e, consequentemente, da sua revitalização, resignificação, e reutilização contemporâneas. 2. O Princípio da Sustentabilidade , defendendo a sustentabilidade integral dos processos de ação, nas mais diversas vertentes, mas com particular acuidade nas componentes económica, social e ambiental. Procurará assumir-se como uma comunidade autofinanciada, ajustando e pautando a sua intervenção às dinâmicas dos processos, dos seus atores e atoras. 3.  O  Princípio da Pluralidade, tendo como premissa que todos os processos de ação se regem pelos princípios éticos da aceitação da diferença e da pluralidade de olhares.  O Núcleo de Oralidade, Memória e Esquecimento (NUOME), integra a estrutura polinucleada do MINOM Portugal (Movimento Internacional para uma Nova Museologia), e tem como principal objetivo explorar o potencial das oralidades, das memórias e do esquecimento nos processos museológicos. Sediado no Museu da Ruralidade – em Entradas, Castro Verde – o NUOME agrupa museólogos/as, investigadores/ as, atores/as e outras pessoas interessadas nas áreas da oralidade, da memória e do esquecimento no contexto do mundo contemporâneo e sob a inspiração da Museologia Social. O NUOME pretende contribuir de uma forma ativa para a identificação e a valorização das diversas expressões, manifestações e territórios da memória e da oralidade, numa escala o mais abrangente possível, colocando o museu como mediador dos processos de discussão dos modelos de construção das narrativas sobre memória e esquecimento. O NUOME procura ligar pessoas, conhecimentos e experiências através dos espaços museológicos e da utilização de metodologias participativas, com o intuito de contribuir para o reconhecimento da diversidade cultural e natural dos territórios. MINOM PORTUGAL BOLETIM 14

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