Memórias de Dentro do Armário

 

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Ovelha, de Gustavo Magnani

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Cia. de Comédia Os Melhores do Mundo traz ao palco do Gustavo Leite, neste final de semana, “Tormentas da paixão”. B2 OVELHA. Em seu livro de estreia, Gustavo Magnani discute fé e sexualidade ao dar vida às memórias de um pastor gay debilitado pela Aids FOTOS:DIVULGAÇÃO Sábado 22/08/2015 MEMÓRIAS DE DENTRO DO ARMÁRIO FELIPE MIRANDA * ESTAGIÁRIO Ovelha é o romance de estreia do paranaense Gustavo Magnani Em cada lugar do planeta a homossexualidade é vista de uma forma diferente. Há quem condene, entenda, quem apoie, defenda, quem odeie e mate, quem prenda e julgue. Quem ame o próximo e respeite. A história até registra espaços no tempo em que ser gay era normal. Uma época em que o amor, ou o simples prazer, não despertava a ira de tantos Malafais e Felicianos mundo afora. É questionável criminalizar o relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo, quando o ato, o fato, só diz respeito a elas próprias. Nações africanas possuem penas de morte para a prática. Penas de morte. A sociedade do século 21 é tão moderna e mente aberta que já deveria ter deixado de lado o que cada um faz entre quatro paredes. Importa mesmo? Seja na TV , nos cinemas ou na literatura, a homoafetividade ainda é uma pauta tímida. Falta o debate, exageram nos clichês rasos. Quando a religião é o pilar para tecer comentários a respeito, fascículos e trechos avulsos da Bíblia são interpretados, muitas vezes, fora de contexto. É como se apenas uma parte importasse. Como se apenas um pecado fosse o responsável por desviar as almas de seu curso natural de luz. Beba, inveje, peleje, traia, compartilhe a ira, pratique a feitiçaria, tudo bem. Apenas os gays vão para o inferno. É essa sensação de receio e medo, de culpa enraizada tão lá no fundo, que faz com que o protagonista de Ovelha, romance de estreia do paranaense Gustavo Magnani lançado pela Geração Editorial, leve uma vida inteira dentro do armário. O li- vro, que tem pouco mais de 220 páginas, é um desabafo derradeiro. Um vômito existencial de alguém que nunca pode botar para fora tudo que sentia enquanto ainda sentia alguma coisa. Um pastor, sabendo de sua condição de enfermo à beira da morte, resolve escrever um diário externando todas as verdades que omitiu de cada um que conheceu. Uma espécie de documento para ser lido depois que ele se vá. Dos fiéis da igreja que tanto o ouviram, passando pelos poucos amigos e focando em duas mulheres, as revelações são cruas, nuas e explícitas para todos. Chocantes. As mulheres de sua vida, a esposa e a mãe, acabam sendo as mais afetadas. Tudo gira em torno delas. Como não? Um veado encubado pode incomodar muita gente, mas é óbvio, nem precisa procurar nas entrelinhas: dói muito mais para o pastor ser um pecador incontrolável, um mentiroso de si mesmo. Aos 20 anos de idade, Gustavo publicou uma das tramas mais corajosas e provocantes da atualidade. Um líder religioso gay, pai de dois filhos, que mantém uma vida dupla. Enquanto se rende lentamente aos prazeres da vida, ele tenta entender o que é certo e o que é errado. Até onde vai a sua fé? Que montanhas ele está disposto a mover? A rotina da igreja evangélica é o cenário. Um ambiente conhecido pelo autor. “A escolha foi motivada pelo meu conhecimento de causa que é maior. E, também, porque a igreja evangélica, hoje, grita bem mais alto do que a católica, o discurso dos pastores, hoje, ecoa muito mais do que o dos padres, isso por várias questões que renderiam uma mesa-redonda só para di- GUSTAVO MAGNANI ESCRITOR “Não posso ter vergonha ou medo de escrever uma sentença porque estou preocupado com o que acharão de mim. Alguns leitores perguntaram como eu, por ser hétero, havia sido capaz de descrever de maneira tão detalhada e, segundo esses leitores, tão bem, um universo diferente do meu. Ora, primeiro, essa é a função do escritor. Se eu for contar histórias que partam do ponto de vista de um cara de 20 anos, hétero, branco, classe média, meu universo seria limitadíssimo. Empatia é uma palavra muito importante para qualquer autor” ferenciarmos uma da outra”. Cristão, afirma que a palavra de Jesus é arrebatadora. “Ela ofereceu coisas e experiências maravilhosas na minha vida. Profissionais e pessoais. Eu fui católico até os 13 anos. Batizado, crismado etc, mas nunca participei. Por intermédio dos meus tios, conheci a igreja evangélica e adorei o que vi. Depois, passei a questionar. E, então, a me afastar”. Apesar de ter feito o uso de várias referências e passagens da Bíblia em sua obra, ele não se considera um especialista. “Leio o livro com uma certa frequência, quase que diária, mas não como leitura estudiosa. O problema dos grandes conhecedores da Bíblia é que eles sabem citar versículos de cor, mas esquecem das perguntas elementares, dos ensi- namentos básicos, das histórias mais maravilhosas, para focarem em trechos absolutamente questionáveis. É meio ridículo que alguns pastores, até hoje, defendam certas premissas religiosas. Parece que leem, mas não interpretam, infelizmente”. A narração em primeira pessoa é ágil, feita em capítulos curtos planejados para o vício. É difícil tê-lo em mãos e conseguir não devorá-lo em poucas horas. A peregrinação nostálgica do pastor nos leva a uma série de questionamentos sobre nós mesmos. É uma ficção que poderia ser verídica. De que adianta passear pela Terra, nos campos verdes criados por Deus, se no final do dia você não estará vivendo uma verdade? A sua verdade? Altos e baixos permeiam a consciência do pastor. Em momentos ele deseja ser livre, se assumir para o mundo, gritar pela janela o quão é bom ser passivo. Em outros, ele acredita numa cura, numa saída que o leve até o quarto, onde sua esposa, a mãe de seus filhos, espera-lhe na cama para consumar as vontades carnais aprovadas pelos céus. É uma busca sem fim. Segundo Gustavo, ele não quis ditar regras, verdades ou levantar bandeiras. “Bem, minha intenção principal foi contar uma história que amo. Essa é a mais importante. Sou, antes de tudo, escritor. A segunda, mostrar como a religião pode ser cruel com a mente de um ser humano. E ela é, usada de forma terrível como muitos a usam. Mas, também, aprofundar no universo evangélico, que é tratado sempre com uma caricatura ridícula, por novelas e vários outros livros. Existe muita coisa positiva dentro da igreja. Infelizmente, as negativas se sobras- sem, porque são violentas, causam sofrimento e mortes, fugindo do que o Cristo prega”. Agressivo. Irônico. Furioso. São as melhores formas de descrever o protagonista dessa história. Ao jorrar seus arrependimentos nas páginas do diário, ele se aproxima de Deus como nunca em toda a sua trajetória de pregador. O ambiente familiar é típico. A mãe finge não ver os sinais, castiga, repreende, exclui, apaga. Seu filho poderia ter sido feliz. Seguido outro caminho, ainda assim abençoado por Deus. Ela não permitiu. O pastor, ao refletir sobre suas memórias, percebe que poderia ter feito diferente. E é aqui que o leitor se sensibiliza. Abraça a trama. O pastor, nada mais é, que uma vítima. “Eu, como pessoa pública, pensador, digamos assim, obviamente, estou do lado em que todos devem respeitar a vida alheia. Não há debate com isso, é uma questão muito óbvia. Ninguém tem que palpitar se fulano e sicrano podem se beijar, se casar e adotar crianças. É ridículo ver o Malafaia subindo no púlpito pra encher o saco de quem só quer ser feliz. É ridículo e muito triste, também, quando você pensa nos sermões de Jesus”, conta o jovem escritor. Proprietário do maior site de Literatura da América Latina, o Literatortura, Gustavo explica que as obras que lê variam com seu humor. “Vivo em fases. Leio em ciclos. Clássicos brasileiros, depois escritores de terror, escritores policialescos, latinos, norte-americanos... dentre todos esses, os que mais me marcam são Machado de Assis e Gabriel García Márquez”. E se todo autor deposita algo de si naquilo que escreve, Gustavo não foi diferente. “Não sei quantificar… em termos de biografia, quase nada. Em termos de pensamento, alguma coisa sempre converge. Isso não quer dizer que o que ele diz é dito por mim, ou o que ele pensa é o que eu penso. Meu papel como escritor é mergulhar e traduzir a realidade daquele personagem, e minha ética como autor me faz ser extremamente honesto com meus leitores e comigo mesmo. Existem coisas horríveis ditas ali, que eu não poderia discordar mais”. Ele deixa claro que os leitores precisam separá-lo do personagem que criou. Não. Gustavo não é gay. “Não posso ter vergonha ou medo de escrever uma sentença porque estou preocupado com o que acharão de mim. Alguns leitores perguntaram como eu, por ser hétero, havia sido capaz de descrever de maneira tão detalhada e, segundo esses leitores, tão bem, um universo diferente do meu. Ora, primeiro, essa é a função do escritor. Se eu for contar histórias que partam do ponto de vista de um cara de 20 anos, hétero, branco, classe média, meu universo seria limitadíssimo. Empatia é uma palavra muito importante para qualquer autor”. Ovelha é a leitura perfeita para os preconceituosos. Suja, poética, inteligente e libertadora. É um mergulho na mente de alguém que sofreu ao lutar e tentar fugir daquilo que sempre foi. Uma corrida sem ponto de chegada. Uma batalha perdida entre fé e religião. “O leitor capaz de ler além do óbvio perceberá uma história extremamente sensível, belamente triste, como tenho gostado de chamar”, conclui o autor. Não existe pecado algum em viver a sua loucura. ‡ * Sob supervisão da editoria de Cultura.

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