Revista Atuação - Março/2015

 

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Revista Atuação - Março/2015

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UMA PUBLICAÇÃO DA FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES EM EDUCAÇÃO DE MATO GROSSO DO SUL EDIÇÃO 11 | MARÇO 2015 Revista ATUAÇÃO | Março 2015 | 1

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EXPEDIENTE WWW.FETEMS.ORG.BR Rua 26 de Agosto, 2.296, Bairro Amambaí. Campo Grande - MS CEP 79005-030. Fone: (67) 3382.0036. E-mail: fetems@fetems.org.br Diretoria Presidente: Roberto Magno Botareli Cesar Vice-presidente: Sueli Veiga Melo Secretária-Geral: Deumeires Batista de Souza Rodrigues de Morais Secretário Adjunto: Marcos Antonio Paz Daz Silveira Secretário de Finanças: Jaime Teixeira (Licenciado) Sec. Adjunto de Finanças: José Remijo Perecin Sec. de Formação Sindical: Joaquim Donizete de Matos Sec. para Assuntos Jurídicos: Amarildo do Prado Sec. de Assuntos Educacionais: Joscemir Josmar Moresco Sec. dos Func. Administrativos: Wilds Ovando Pereira Sec. de Comunicação: Ademir Cerri Sec. de Administração e Patrimônio: Paulo Antonio dos Santos Sec. de Política Municipal: Ademar Plácido da Rosa Sec. de Políticas Sociais: Iara Gutierrez Cuellar Sec. dos Aposentados e Assuntos Previdenciários: José Felix Filho Sec. dos Espec. em Ed. e Coordenadores Pedagógicos: Sebastião Serafim Garcia Sec. de Relações de Gênero: Cristiane de Fátima Pinheiro Sec. de Combate ao Racismo: Maria Laura Castro dos Santos Sec. da Saúde dos(as) Trabalhadores(as) em Educação: Maria Ildonei de Lima Pedra Departamento dos Trabalhadores na Educação no Campo: Leuslania Cruz de Matos Suplente 1: Nilson Francisco da Silva Suplente 2: Rejane Eurides Sichinel Silva Suplente 3: Idelcides Gutierres Dengue Suplente 4: Elizabeth Raimunda da Silva Sigarini Suplente 5: Ivarlete Pinheiro Suplente 6: Maria Suely Lima da Rocha Vice-presidentes regionais: Amambai: Olga Tobias Mariano e Valério Lopes Aquidauana: Jefersom de Pádua Melo e José de Ávila Ferraz Campo Grande: Paulo Cesar Lima e Renato Pires de Paula Corumbá: Luizio Wilson Espinosa e Antonio Celso M. dos Santos Coxim: Thereza Cristina Ferreira Pedro e Onivan de Lima Correia Dourados: Anderci Silva e Apolinário Candado Fátima do Sul: Maria Jorge Leite da Silva e Nilsa Maria Bolsanelo Sales Jardim: Ludemar Solis Nazareth Azambuja e Sandra Luiza da Silva Naviraí: Valdecir Roberto Mandalho e Margareti Macena de Lima Nova Andradina: Edson Granato e Izabel Silveira da Rosa Paranaíba: Tânia Mara de Morais Silva e Tânia Aparecida da Silva Marques Ponta Porã: Joel Aparecido Barbosa Pereira e Luiz Carlos Marques Valejo Tacuru: Jandir Carlos Dallabrida e Elizeu Gomes da Silva Três Lagoas: Maria Aparecida Diogo e Maria Inês Anselmo Costa Delegados de base à CNTE: Campo Grande: Idalina Silva Miranda: Robelsi Pereira Nova Andradina: Maurício dos Santos Conselho Fiscal da FETEMS: Anastácio: Rodney Custódio da Silva Campo Grande: Alceu Wanderley Lancine Dourados: José Aureliano da Silva Costa Rica: Rosely Cruz Machado Nova Alvorada do Sul: Irene do Carmo Assessoria de Imprensa da FETEMS: Karina Vilas Boas e Azael Júnior Redação e Produção Íris Comunicação Integrada Rua Chafica Fatuche Abussafi, 200 Parque dos Poderes - 79036-112 Campo Grande/MS + 55 67 3025.6466 Diretora de criação: Nanci Silva Diretor de arte: Pedro Morato Jornalista responsável e editora: Laura Samudio Chudecki (DRT-MS 242) Revisão: Greice Maciel Fotos Wilson Jr. Fernando de Brito FETEMS Os textos assinados são de responsabilidade dos autores e não representam, necessariamente, a opinião da revista. 4 | Revista ATUAÇÃO | Março 2015

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DESTAQUES Interior ....................................................................................................................................................7 Paraíso das Águas, município mais novo de Mato Grosso do Sul, forma Sindicato Municipal dos Trabalhadores em Educação Entrevista ............................................................................................................................................10 Vice-presidente da FETEMS, Sueli Veiga Melo, conta sua história de vida e relembra os principais acontecimentos do movimento sindical da educação Mulher ...................................................................................................................................................16 Campo Grande ganha Casa da Mulher Brasileira e amplia serviços de atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica Capa ....................................................................................................................................................26 No Brasil, cerca de 30% dos estudantes estão envolvidos em casos de bullying, 20,8 % são agressores e 26,1% do sexo masculino Ditadura .............................................................................................................................................52 Comissão da Verdade é um marco libertador para a história do país e para as incontáveis vidas que foram afetadas pelos crimes cometidos na ditatura militar Revista ATUAÇÃO | Março 2015 | 5

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EDITORIAL Além dos limites da escola A 11ª edição da revista Atuação, março 2015, aborda em sua reportagem de capa um tema que ultrapassa os limites da escola, mas que tem consequência direta no ambiente da sala de aula. Coordenação pedagógica, professores, alunos e pais estão diretamente envolvidos nos processos do bullying e, na maioria das vezes, não sabem ou não dispõem de recursos assistenciais para lidar com a problemática. Sabemos que essa pauta já foi abordada diversas vezes pela mídia, e a nossa intenção não é ser redundante, mas chamar a todos para uma reflexão sobre um assunto que persiste no ambiente escolar e que ganhou uma nova perspectiva com o fenômeno das redes sociais. Um problema para o qual ainda não encontramos a solução é sempre atual e motivo de discussão. Se o bullying ultrapassa os limites do ambiente escolar é preciso refletir sobre ele além dos portões da escola. De quem é a culpa? Da escola, da educação ou da família? No caso do bullying, não existe uma origem certa, não existe um só culpado e nem uma só vítima. É um problema de ordem social, e, assim sendo, é uma questão que diz respeito a todos nós. Não acontece na escola X ou Y, com o filho do fulano ou do sicrano, pode acontecer com qualquer pessoa, em qualquer espaço onde as diferenças convivem. Podemos ter dentro de casa filhos agressores ou filhos vítimas de agressão. Por isso, é preciso que haja uma comunhão entre as partes envolvidas na busca de alternativas coerentes, respaldadas na civilidade, que possam ser ferramentas de enfrentamento do bullying e suas consequências. Ainda nesta edição, destacamos a história de pessoas de extrema importância para o movimento sindical da educação de Mato Grosso do Sul, como a entrevista da professora Sueli Veiga Melo, atual vice-presidente da FETEMS, e do professor de matemática José Félix Filho, que dedicou 30 anos de sua vida ao ensino público. A FETEMS acredita que preservar a história é garantir o presente e projetar o futuro. Em meio a tantos desafios e dificuldades que a educação pública enfrenta, surgem vitórias que merecem ser enaltecidas. Trouxemos a relação dos 112 medalhistas de Mato Grosso do Sul, alunos que conquistaram ouro, prata e bronze nas Olímpiadas Brasileiras de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). São essas conquistas que nos motivam a continuar lutando por uma educação pública cada vez melhor, capaz de abrir horizontes e promover a dignidade humana. No mais, desejamos que em 2015 possamos enxergar além dos limites e portões da escola, mudando paradigmas e entendendo que o que acontece dentro e fora do ambiente escolar são questões que dizem respeito a todos nós. 6 | Revista ATUAÇÃO | Março 2015 Roberto Magno Botareli Cesar Presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul

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INTERIOR Simted Paraíso das Águas é o mais novo sindicato filiado à FETEMS e já atua em defesa da educação Município, que foi emancipado em 2003 e teve o primeiro pleito eleitoral em 2012, ganha Sindicato Municipal dos Trabalhadores em Educação, no final 2014 Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (FETEMS) ampliou recentemente sua rede de sindicatos filiados. O novo membro é o Simted Paraíso das Águas, criado no final de 2014, por meio de assembleia extraordinária. O município, que politicamente é o mais jovem do estado, foi emancipado em 2003, teve seu primeiro pleito eleitoral em 2012 e instalou-se em 1º de janeiro de 2013. Antigo distrito do município de Costa Rica, Paraíso das Águas está localizado a 275 km de Campo Grande e tem população estimada em 5,2 mil habitantes (TC/MS). Em fase de constituição, o sindicato ainda não possui sede própria, mas já está atuando em defesa da educação pública. “Nosso objetivo é estruturar o sindicato e manter uma boa relação com o poder público Revista ATUAÇÃO | Março 2015 | 7 Conheça a diretoria eleita de Paraíso das Águas Leonardo Corniani Presidente A Josecarla Alves Rodrigues Vice-presidente Márcia Fuhr Bombard Secretária-Geral Kênia Aparecida Holsback Secretária Adjunta Luciane Denise Bento Secretária de Finanças Secretária Adjunta de Finanças Secretário de Formação Sindical Rozilda Pereira da Silva Maria José Mariana de Queiroz Secretária de Assuntos Jurídicos Carmo dos Santos Pinho Daniela R. de Souza Amorim Sec. de Assuntos Educacionais Claudete Rodrigues da Silva Sec. dos Func. Administrativos Secretária de Patrimônio Valdilene Pereira Borges Secretária de Comunicação Edilene de Melo Nelson Luiz B. de Albuquerque Secretário de Políticas Sociais Benvinda Maria Metela Costa Secretária dos Aposentados Jeórgia Patrícia B. T. Dias Sec. dos Esp. em Educação

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Se existem “ direitos, é porque alguém lutou por eles. Sempre tive essa consciência” Leonardo Corniani, presidente do Simted de Paraíso das Águas local. Nós queremos ser vistos como parceiros da gestão pública e não como uma ameaça. Nós queremos trabalhar em equipe”, diz o presidente do Simted, Leonardo Corniani. O sindicato conta com 103 filiados e diretoria completa. As metas iniciais da nova entidade visam o pagamento integral do piso salarial por 20 horas semanais; a criação de um plano municipal de cargos e carreira; a inclusão dos funcionários de escola na categoria de servidores da Educação; a integração dos trabalhadores em Educação dos distritos próximos (Bela Alvora- da e Pouso Alto), entre outras prioridades básicas. Atualmente, o piso salarial dos professores em Paraíso das Águas é de R$ 1.316,96 para 20 horas. O objetivo do sindicato é que a categoria receba o valor integral do piso de R$ 1.917,78 (novo valor). O piso nacional dos professores recebeu reajuste de 13,01% no início de janeiro deste ano. O aumento foi divulgado pelo Ministério da Educação e vem de acordo com a meta 17 do Plano Nacional de Educação (PNE), que estabelece prazo de seis anos para equiparação do salário dos professores aos dos Paraíso das Águas está localizado a 275 km de Campo Grande e tem população estimada em 5,2 mil habitantes demais profissionais com escolaridade equivalente. O presidente do novo sindicato, Leonardo Corniani, tem 38 anos, é natural de Ilha Solteira (SP), cursou Ciências Biológicas na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande, e foi aprovado no concurso público estadual para professor em Costa Rica, no ano de 2005. “Desde que assumi a vaga do concurso, já me filiei ao Simted de Costa Rica. Se existem direitos, é porque alguém lutou por eles. Sempre tive essa consciência”. Leonardo conta que a articulação para a criação do Simted começou em 2013. “Era preciso uma representação mais efetiva da categoria”. A eleição aconteceu no dia 29 de novembro de 2014, por meio de chapa única e por aclamação unânime. A diretoria eleita é composta por 15 membros, sendo 12 mulheres e três homens. Para o presidente da FETEMS, Roberto Magno Botareli Cesar, o novo sindicato só confirma que Mato Grosso do Sul é um dos estados da federação onde os trabalhadores em Educação estão mais bem organizados e articulados sindicalmente. “Isso é muito importante para nós, reforça a nossa força e a nossa credibilidade diante da sociedade”, diz. 8 | Revista ATUAÇÃO | Março 2015

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ARTIGO A implantação dos planos municipais de educação nutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef). O problema é maior para o município que busca atender preferencialmente os anos iniciais e finais do Ensino Fundamental e deixa de atender com qualidade os alunos da Educação Infantil e da Educação para Jovens e Adultos (EJA) – esta última visa sanar o problema do analfabetismo e do abandono escolar (estima-se em 54 milhões o número de adultos que não concluíram o Ensino Médio). A questão não é deixar de atender o Ensino Fundamental, mas estabelecer convênios com os estados para repasses suplementares ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) com relação a essas matrículas. Financiamento da educação – como dito, a imensa maioria dos municípios não tem condições de atender a demanda prioritária da Educação Infantil, sobretudo porque pulveriza parte significativa de seus impostos em matrículas que já foram ou deveriam ser estadualizadas. O prejuízo financeiro para o município é direto, pois, ao priorizar mais matrículas no Ensino Fundamental, o ente municipal deixa de elevar o investimento per capita na Educação Infantil através dos recursos extras que não compõem a cesta do Fundeb (IPTU, ISSQN, ITBI, IRRF e Dívida Ativa). Um dos principais desafios do novo PNE consiste em avançar largamente nas matrículas de creche e pré-escola, e é preciso também, nos casos que se mostrarem necessários, elevar o percentual de vinculação constitucional de 25% para 30% da receita de impostos. Valorização profissional (professores, especialistas e funcionários) – trata-se de política ligada à capacidade de arrecadação e à forma como o município atende sua demanda de acordo com as prioridades constitucionais. Atualmente, as condições básicas para a valorização consistem em: I) pagar o piso salarial profissional nacional aos professores; II) reconhecer profissionalmente e incluir os(as) funcionários(as) da Educação nos planos de carreira da categoria (de forma unificada ou própria); III) investir na profissionalização dos(as) funcionários(as) e na formação inicial e continuada de todos os profissionais; e IV) promover avanços nos planos de carreira para motivar o ingresso de novos profissionais e a permanência dos atuais – evitar achatamentos dos PCCs e contemplar pautas dos sindicatos. Investimento em infraestrutura – o tema associa-se ao planejamento tributário do município e ao atendimento da demanda escolar. Para tanto, é necessário instituir o Custo Aluno Qualidade, que indicará os insumos (físicos, didáticos e profissionais) indispensáveis para cada unidade escolar. Muitos gestores alegam falta de recursos para novos investimentos – invocando os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal, entre outras justificativas –, mas essa é uma realidade que terá de ser alterada caso queiramos uma nova escola pública comprometida com a construção de um país justo e igualitário. Gilmar Soares Ferreira Secretário de Formação da CNTE Revista ATUAÇÃO | Março 2015 | 9 m dos maiores avanços em termos de educação, previsto na Constituição Federal de 1988, é o Planejamento Decenal da área, e o novo Plano Nacional de Educação (PNE) estabeleceu prazo até junho de 2015 para que estados e municípios elaborem seus planos decenais. O vício mais comum nas administrações públicas consiste em não planejar. E as ações rotineiras se voltam sempre ao princípio da economicidade: arrecadar mais e “gastar” sempre menos. Um dos resultados perversos desse sistema reflete a concorrência cega entre estados e municípios por alunos, ou mesmo, a desresponsabilização do Estado, que transfere matrículas para municípios com baixa capacidade gestora e fiscal. Seguindo a orientação do PNE, os planos municipais e estaduais de educação devem priorizar a universalização das matrículas com qualidade, atentando-se, entre outras coisas, para o seguinte: Novas matrículas – estamos vivenciando nas redes municipais de ensino os efeitos de uma política de municipalização/prefeiturização sem precedentes, desencadeada pela União e os estados desde o Fundo de Ma- U

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ENTREVISTA 10 | Revista ATUAÇÃO | Março 2015

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Incentivada pelos pais, Sueli Veiga Melo venceu as dificuldades da vida, estudou, tornou-se professora e sindicalista, e hoje ocupa a vice-presidência da maior entidade sindical do estado ulher, professora e sindicalista, Sueli Veiga Melo completa 31 anos dedicados à educação pública. De origem simples, nasceu, cresceu e estudou na roça. É a primogênita de uma leva de cinco filhos do casal Adauto Ferreira Melo e Delzuite Veiga. Nasceu no dia 23 de julho de 1965, em Bataguassu, no então estado de Mato Grosso, e, ainda pequena, mudou-se com a família para Taquarussu. Começou a lecionar antes mesmo de completar o Magistério e sempre esteve engajada no movimento sindical da Educação. É filiada ao sindicato desde 1985 e sempre defendeu as principais bandeiras de luta da categoria. Viu várias lutas se consolidarem em direitos, garantindo mais dignidade aos(às) trabalhadores(as) em Educação. Esteve presente nos acontecimentos mais importantes da educação pública, como a aprovação do Plano de Cargos e Carreira do Magistério Estadual, a criação do Fundeb, a promulgação da Lei do Piso Salarial Nacional e, mais recentemente, a aprovação do Plano Nacional da Educação (PNE). Depois de uma longa trajetória no caminho da licenciatura e do sindicalismo, Sueli diz sentir-se realizada, e tem segurança em falar quando o assunto é educação pública. Para ela, a participação feminina no movimento sindical ainda é singela porque M as mulheres optam pela família e pelos filhos. Veja a entrevista: Atuação - Onde começa sua história de vida? Sueli - Sou filha aqui do estado mesmo. Meus pais moravam em Bataguassu e depois mudamos para Taquarussu. Foi lá que comecei a estudar e depois lecionar. Naquela época, a maioria das pessoas morava em sítios, no campo. As crianças estudavam apenas nas escolas rurais, até o 4º ano do Ensino Fundamental, depois paravam de estudar porque era muito difícil ir à cidade. Contudo, meus pais acreditavam que os filhos precisavam estudar. Minha mãe conseguiu concluir o “Ginásio” e foi professora de escola rural. Meu pai não estudou formalmente, ele aprendeu a ler e a escrever com os irmãos mais velhos que tinham estudado. Ele sempre gostou muito de ler. Quando entrei na 5ª série, só tinha aula no período da noite, na cidade. Então meu pai me levava todas as noites e ficava me esperando dentro de um Fusca que nós tínhamos. Eu saía às 23 horas. Durante um bom tempo foi assim. Até que um vizinho que tinha uma Kombi passava para pegar os alunos. Depois que terminei o Ensino Fundamental, logo entrei no Magistério, único curso disponível na cidade. Quando estava terminando Revista ATUAÇÃO | Março 2015 | 11

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o Magistério, comecei a dar aulas, tinha 15 anos. Primeiro, comecei a substituir, depois, aos 16 anos, peguei uma sala de aula na zona rural. Eram salas multisseriadas. Em 2015, completo 32 anos como professora. Em 6 de fevereiro de 2015, comemoro 30 anos como efetiva no Estado. Quase tudo o que aconteceu na educação pública de Mato Grosso do Sul, eu acompanhei. Atuação - Como era lecionar há 30 anos? Sueli - Quando comecei a lecionar na escola rural, só tinha uma salinha. Muitas vezes não tinha nem água para beber. Tinha um poço no pátio da escola e, quando chovia, não dava para beber água porque a enxurrada caía dentro do poço. Imagina, um poço no pátio da escola, a professora com 17 anos, a meni- oportunidades e os meios para o ensino-aprendizagem. Atuação - E a sua vida sindical, como começou? Sueli - Sempre fui muito participativa. Participava de vários cursos e também de todas as atividades do sindicato. Vim para Campo Grande em 1996. Foi um ano de muita mobilização e também foi o ano em que a professora Fátima Silva foi eleita presidente da FETEMS. O Biffi [Deputado Antônio Carlos Biffi – PT/MS] me fez o convite para vir para cá. Eles precisavam de alguém do interior, alguém que conhecesse bem os municípios do estado. Quando cheguei, fui trabalhar com a formação sindical. Nas eleições seguintes da FETEMS, assumi a Secretaria de Formação Sindical, onde fiquei por muitos anos. Também já estive na Secretaria dos Especialistas em Educação e agora estou na vice-presidência. Atuação - Que importância a formação sindical tinha para o movimento que se iniciou nos anos de 1980? Sueli - O estado tem 35 anos, e eu já tenho 32 anos na área de Educação em Mato Grosso do Sul. Tudo que aconteceu aqui, no que diz respeito à Educação, eu e os colegas da minha geração vivenciamos. Somos de uma época em que começávamos a trabalhar no início do ano e íamos receber o primeiro salário no mês de setembro. Nós tínhamos uma vida funcional totalmente desorganizada, não tínhamos um plano de cargo e carreira, nem adicional, não recebíamos salário em dia, os direitos não eram líquidos e certos como são hoje. Tudo isso exigia da categoria lutas e enfrentamentos constantes e nos levava ao movimento sindical com muita disposição. A FEPROSUL (que reunia os professores) e depois a “Nós tínhamos uma vida funcional totalmente desorganizada, não tínhamos um plano de cargos e carreira, nem adicional, não recebíamos salário em dia, os direitos não eram líquidos e certos como são hoje. Tudo isso exigia da categoria lutas e enfrentamentos constantes e nos levava ao movimento sindical com muita disposição” Atuação - Quando passou no concurso do Estado? Sueli - Passei em 1984. Eu ainda era estudante do Magistério. Em 1985, assumi o cargo de professora. Na minha cidade, passaram apenas três pessoas, eu e mais dois professores. Eu não sabia que havia passado no concurso, fiquei sabendo um mês depois. Naquele tempo, não chegava Diário Oficial e não ficávamos sabendo de nada. O secretário de Educação do município, José Carlos Perigo (aposentado e residente em Nova Andradina), foi à escola para me avisar. Estava terminando o Magistério. Trabalhei vários anos com alfabetização, depois comecei a trabalhar na educação especial. Em 1992, fiz um curso de especialização para trabalhar com alunos com deficiência auditiva. O Estado liberou alguns professores para irem estudar no Rio de Janeiro. Ficamos um ano estudando no Instituto Nacional de Educação de Surdos. Voltei e continuei trabalhando com educação especial. 12 | Revista ATUAÇÃO | Março 2015 nada toda solta, e os pais confiavam na gente! Às vezes, eu ou a merendeira levávamos um pouco de água. Eu fazia tantas coisas com aqueles alunos, muitas atividades que hoje, até por segurança, não é possível fazer mais. Eu fazia competições, corrida de bicicleta, gincanas, festinhas, teatros, etc. Era muito legal. Atuação - Na época em que você começou a lecionar, o professor era mais criativo, uma vez que não havia muitos recursos? Sueli - Acho que o termo não seria mais criativo, mas muito “inventivo”. Não existiam os recursos audiovisuais e tecnológicos de hoje. Todo o material didático utilizado para dinamizar o trabalho pedagógico era confeccionado pelos(as) próprios(as) professores(as): álbum seriado, cartaz, flanelógrafo, gravuras, mapas, mural, ábaco, jogos de encaixe e outros materiais. Lembro bem, nós tínhamos muita liberdade para planejar e criar as

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FETEMS (que reúne professores, funcionários e especialistas em Educação) foi construída assim, à custa de muitas e muitas lutas. Nós lutávamos para garantir os direitos básicos. Tudo que conseguíamos conquistar era com muita briga e muito sacrifício. Eu me lembro de que no primeiro governo do Wilson Martins (1983-1986) poucas vezes recebemos salários em dia. Quase todos os meses, os salários atrasavam. Nós fazíamos greve para receber, e havia meses em que não recebíamos. Eu participei várias vezes dos comandos de greve da FETEMS. gica para os nossos sindicatos, embora tenha diminuído. Atuação - O que mudou no movimento sindical nos cenários federal e estadual? Sueli - Quando começamos, era outro momento. Primeiro era preciso acabar com a ditadura, depois, organizar o movimento sindical. A CUT nasceu na raça. Legalmente, era proibido esse tipo de organização. Nossos sindicatos foram sendo construídos no dia a dia. Nossas lutas estavam calcadas em pautas imediatas e em necessidades vitais. O PT [Partido dos “Nós ganhávamos muito mal. Quando o Zeca do PT assumiu como governador, ele organizou a nossa vida. Foi criado o Estatuto dos Profissionais da Educação, ou seja, o nosso Plano de Cargos e Carreira. Além da categoria dos(as) trabalhadores(as) em Educação, muitas outras foram valorizadas” Era um movimento baseado nas necessidades básicas, nós tínhamos que garantir o salário. Isso tudo tornava as pautas mais urgentes, como reivindicar o Piso, o adicional, o recebimento do salário até o quinto dia útil do mês, aposentadoria e mais uma série de reivindicações. A formação sindical sempre foi fundamental para a organização dessas lutas. Com o chamado novo sindicalismo, que nasceu no período pós-ditadura, e com a fundação da CUT [Central Única dos Trabalhadores], investia-se muito em formação sindical. Era preciso porque estávamos nos organizando. As pessoas precisavam entender por que era necessário o movimento, a luta, o sindicato. A CUT foi formada com base em três pilares: comunicação, independência financeira e formação política. A formação sindical ainda continua sendo uma política estratéTrabalhadores] também nasceu nesse contexto, um pouco antes da CUT. O PT nasceu em 1980, e a CUT em 1983. Contudo, a CUT nasceu para defender os interesses imediatos (salário, jornada de trabalho, reajustes) e históricos (saúde, educação, moradia, segurança, trabalho, renda) dos(as) trabalhadores(as) e organizar as lutas corporativas das categorias, além de organizar a classe trabalhadora como um todo. Já o PT nasceu para defender as lutas gerais da sociedade. Em Mato Grosso do Sul, a eleição do governador Zeca do PT foi de extrema importância, porque mudou a forma como vinha sendo governado o Estado, passando de governos que desrespeitavam totalmente os(as) trabalhadores(as) para uma gestão mais democrática e de valorização dos(as) trabalhadores(as). Foi o governo de Zeca do PT que deu digRevista ATUAÇÃO | Março 2015 | 13

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nidade para o servidor público. Atuação - Como vocês faziam para sobreviver com os salários atrasados? Sueli - Nós terminamos o ano de 1998 com três meses de salários atrasados mais o 13º. Era muito difícil. Nós vivíamos da solidariedade dos colegas, da família, dos comerciantes, da sociedade. Eu lembro que nos períodos de greve, nós fazíamos vaquinhas, feiras, bazares, rifas e outras arrecadações para ajudar os colegas. Nós ganhávamos muito mal. Quando o Zeca assumiu o governo, ele organizou a nossa vida. Foi criado o Estatuto dos Profissionais da Educação, ou seja, o nosso Plano de Cargos e Carreira. Além da categoria dos(as) trabalhadores(as) em Educação, muitas outras foram valorizadas. Lembro-me de que, quando o Zeca assumiu o governo, o professor Biffi assumiu a Secretaria de Administração, e lá havia 26 mil processos de vida funcional parados, só dos servidores da Educação. A secretaria não implantava os direitos dos servidores. Havia processos de aposentadoria, mudança de letras, mudança de nível, etc. Alguns servidores pediam para aposentar e ficavam até três anos esperando, mas trabalhando. O professor Biffi conversou com a FETEMS, e fizemos um mutirão com pessoas de vários municípios para organizar esses processos e conceder os direitos. Os profissionais que vieram depois do governo Zeca acompanharam muitas lutas, mas, de 16 anos para cá, quem entrou na Educação já pegou a casa organizada, salário no quinto dia útil, Plano de Cargos e Carreira e outras conquistas. Eu penso que muitos dos profissionais que chegaram depois acreditam que sempre foi assim, uma carreira organizada. Não conhecem a história 14 | Revista ATUAÇÃO | Março 2015 das lutas enfrentadas para garantir o que temos hoje. Não podemos esquecer que tudo é fruto de muita perseverança, muita luta, muita mobilização, muitas passeatas e muitas greves. Nem um direito que temos hoje foi ganho, tudo foi duramente conquistado. mulher sempre prioriza a família. No meu caso, sempre pude participar porque era solteira e depois casei com alguém que é do movimento sindical e entende o trabalho. Também não tenho filhos. Já a mulher casada que tem filhos encontra muita dificuldade para se dedicar ao “Quando o Zeca assumiu o governo, o professor Biffi foi para a Secretaria de Administração, e lá havia 26 mil processos de vida funcional parados, só dos servidores da Educação. A secretaria não implantava os direitos dos servidores ” Atuação - Quais são as atuais pautas do movimento sindical da Educação? Sueli - Penso que a luta mais estratégica é aumentar os recursos destinados para a Educação. Recentemente, conseguimos garantir mais recursos com a aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), que destina 10% do PIB para a área. Se analisarmos os últimos 10 anos, os recursos para a Educação aumentaram apenas de 2% a 3%. Se nos próximos 10 anos subir para 10%, já estamos mais do que dobrando os recursos. Com isso, será possível melhorar os salários, equiparar as carreiras. Mais do que o piso, é importante equiparar os salários dos(as) professores(as) aos dos demais profissionais com a mesma formação. No caso dos administrativos, a luta é pela profissionalização de nível médio, e já existe uma reivindicação do Profuncionário para nível superior. Desta forma, é possível que os administrativos tenham um piso salarial para nível médio e outro para nível superior. Atuação - Como é a participação feminina no movimento sindical? Sueli - Ainda é muito difícil. A movimento sindical, que exige de você disponibilidade para viajar e fazer reuniões fora de hora. Além disso, o machismo é muito presente. Atuação - Existe machismo dentro do movimento sindical? Sueli - Sim, existe. Os homens que estão no movimento sindical da Educação são homens que têm a mesma formação e cultura da sociedade. Eles não vão cuidar de casa ou dividir as tarefas para a mulher participar ou atuar no movimento. Contudo, a mulher cuida da casa e dos filhos para que o homem/ marido possa realizar suas atividades. Raramente encontramos um marido que desempenhe esse papel para que a mulher se envolva em outras atividades fora do lar. Penso que o movimento sindical precisa buscar alternativas para que as mulheres possam estar mais presentes. Como, por exemplo, oferecer creche durante as assembleias. A FETEMS sempre defendeu a participação das mulheres no movimento, inclusive com cursos e seminários sobre igualdade, Aulas da Cidadania sobre gênero, etc. A presença e a participação das mulheres no movimento vêm aumentando. Temos muitas mu-

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lheres no movimento sindical como presidentas de sindicatos. Mesmo assim, nas eleições de sindicatos, quando as mulheres precisam ocupar cargos, elas, quase sempre, abrem mão dos cargos em virtude da família e dos filhos. Atuação - Por que as mulheres são maioria na Educação? Sueli - É uma questão cultural. Quando as mulheres começaram a estudar, os pais permitiam apenas que as filhas estudassem cursos na área da Educação, antes era o Curso de Normalista [Magistério]. As mulheres não deviam fazer cursos como Direito ou Engenharia porque estes eram considerados cursos para homens. Elas só podiam ser professoras, porque ser professora é um papel associado ao trabalho de “cuidar”. Se as mulheres cuidavam provedora do lar, era o homem que sustentava a casa, sendo assim, quando as mulheres começaram a trabalhar no Magistério, elas não precisavam ganhar muito porque não eram as provedoras, era um salário complementar. E essa cultura de baixos salários continua para as mulheres, não só na Educação, mas em diversas áreas. Atuação - Olhando para trás, você se sente realizada com sua história de vida? Sueli - Iniciei como professora e, durante estes anos como servidora pública, professora e sindicalista, passei por inúmeras experiências que fortaleceram e fortalecem a minha ação e atuação. Nesse processo e nessa caminhada não sei se fui eu que escolhi a profissão de professora ou se foi a profissão que “De 16 anos para cá, quem entrou na Educação já pegou a casa organizada, salário no quinto dia útil, Plano de Cargos e Carreira, e outras conquistas. Eu penso que muitos dos profissionais que chegaram depois acreditam que sempre foi assim, uma carreira organizada. Não conhecem as lutas enfrentadas para garantir o que temos hoje” dos filhos e dos idosos, então, naturalmente, podiam ser professoras ou atuar na área da saúde. Mais uma vez, a cultura do machismo determinando o perfil da sociedade e o papel das mulheres. Quem cuida dos filhos? A mãe. Se a mãe cuida dos filhos em casa, ela pode cuidar na escola também. E tem mais uma situação do passado que reflete até hoje no mercado de trabalho, a disparidade entre os salários de homens e mulheres. A mulher não era vista como a principal me escolheu. Não sei se fui eu que escolhi ir para o movimento sindical ou se foi o movimento que me escolheu. O fato é que sou professora e sindicalista e tenho um imenso orgulho dessa trajetória, das minhas origens, da minha vida, da minha história e da minha profissão. Além disso, tenho o privilégio de contar com familiares, mestres(as), amigos(as) e companheiros(as) que compartilharam comigo seus conhecimentos para que hoje eu pudesse ser quem sou e estar onde estou. Revista ATUAÇÃO | Março 2015 | 15

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