Revista Pindorama Ed. II

 

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Revista Pindorama Ed. II

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SUMÁRIO A preguiça de Caymmi por Assis Bandeira 5 7 8 12 18 24 26 27 Quando o tempo era ontem por Ruy Espinheira Filho A vila das artesãs da palha A capoeira nas escolas, uma façanha de Palito A saga dos moradores de barco Aconchego por Bárbara Vivas Doenças do Coração e Espiritualidade por André Luiz Seixas Guia Pindorama

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R E V I S TA Editorial A receptividade da Pindorama Não foram poucas as mensagens de incentivo e de carinho que a Revista Pindorama colheu em sua primeira edição. A receptividade foi surpreendente desde o início, deixando a equipe muito feliz: não apenas pelo sentimento de ter realizado um bom trabalho, mas principalmente pela motivação que se firmou para fazer ainda melhor. Porque a realização não está na obra acabada e sim no desafio constante da superação. O elogio do leitor aumenta a responsabilidade: porque é necessário sempre aprimorar. O entusiasmo foi compartilhado pelos parceiros anunciantes. A satisfação deles coroa esta primeira etapa: a do lançamento. Porque acreditaram desde o início, confiaram na Equipe Pindorama antes mesmo da circulação da Revista, tínhamos de retribuir com uma boa distribuição, garantir o retorno que esperavam: eles mereciam a resposta positiva. Que, felizmente, logo veio. Os leitores de uma revista se fazem ao longo da leitura continuada, à medida que vão se envolvendo com o veículo. Mas os nossos já no primeiro número compreenderam os valores que nos guiam, como revelam as tantas mensagens. Sigamos então, revigorados pela boa receptividade, porque a Pindorama nos espera! E há muita terra ainda aguardando os nosso passos... Agosto 2015 | Edição 2 | Ano I Revista baiana de variedades com distribuição mensal gratuita dedicada à Cultura, ao Turismo, ao Meio Ambiente e ao Entretenimento. www.revistapindorama.com Jornalista Responsável Mario Espinheira - DRT: 4279 Diretora Executiva Janaina Seixas Espinheira (71) 8898-9598 janaina@revistapindorama.com Editor Mario Espinheira (71) 8797-2434 mario@revistapindorama.com Representante institucional e comercial Matilde Espinheira (71) 9924-7448 matilde@revistapindorama.com Colaboradores Gilka Bandeira, Ruy Espinheira Filho, Assis Bandeira, Valtério Sales, André Luiz Seixas e Bárbara Vivas. Diagramação e Design Gráfico ESC Tiragem 20 mil exemplares Impressão: Gráfica Santa Bárbara (Grasb) Distribuição Salvador, Litoral Norte da Bahia e Aracaju. Foto de capa iStock Contatos comercial@revistapindorama.com redacao@revistapindorama.com As matérias assinadas ou citações não representam necessariamente a opinião editorial. A Revista Pindorama não se responsabiliza por serviços ou produtos dos seus anunciantes. Apenas representantes institucionais/ comerciais têm autorização para a venda de anúncios. A reprodução de qualquer conteúdo desta edição requer autorização expressa do editor. 4 Revista Pindorama | Agosto de 2015

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/// Cultura A preguiça de Caymmi O amor de Dorival Caymmi à Cidade da Bahia era muito bem correspondido. Não há quem os separe mesmo agora, neste agosto em que se completam 7 anos da partida no “Ita” final. Ele próprio é fruto de um dos maiores símbolos de Salvador: seu avô italiano veio ao Brasil trabalhar na reforma do Elevador Lacerda. Mesmo tendo produzido apenas obras-primas de reconhecimento internacional, é sempre lembrado pela preguiça, alcunha que acabou emprestando a todos os filhos da sua amada Bahia. Certo que Caymmi vivia no ritmo dos deuses, movido pela brisa do mar e pelo molejo da vizinha. Mas, se nascera para a eternidade, qual pressa haveria de ter? No entanto, o compositor de João Valentão não vivia de sombra e água de coco. Começou a trabalhar aos 13 anos em um jornal e depois como vendedor de bebidas. Antes de se consagrar como compositor e cantor, Caymmi estudou e trabalhou como jornalista e desenhista no Rio de Janeiro. O que faltava mesmo não era coragem, mas tempo para as suas obrigações, como relatou em carta, certa vez, a Jorge Amado: “Visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro”. No ritmo dos sábios, Caymmi se realizou e ajudou a colorir a romântica Bahia, mística e mítica, que nos enriquece. Preguiça é coisa dos mortais... “ Por Assis Bandeira “Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí. Cadê tempo pra pintar?” ILUSTRAÇÃO VALTÉRIO SALES Revista Pindorama | Agosto de 2015 5

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E avançamos pelo segundo semestre deste estranho 2015. Ao menos para o Brasil, basta dar uma olhada nas notícias para conferir a estranheza. Mas falemos de outros meses, de outras épocas. Noutra cidade, sim, porque, tendo nascido em Salvador, no Amparo do Tororó, fui com as bagagens da família para Poções, no Sudoeste da Bahia. Acabava a Segunda Guerra Mundial e iniciávamos vida nova. Daquela cidade e daquele tempo datam as minhas primeiras memórias. E agora, mais uma vez, é tempo de agosto. Mês de ventos e, dizem, do cachorro doido. Bom, na infância ouvi falar de dois ou três casos de cachorros doidos, mas as raras menções a cachorros doidos não se ligam, em minhas lembranças, necessariamente ao mês de agosto. Quanto à terrificante hidrofobia, ao longo da vida a encontrei bem mais manifestada em outro bicho: o animal humano. Agosto. Era quando meu pai fazia as arraias. Ele trabalhava duramente, em sua iniciante advocacia, mas não perdera – e jamais perderia – o sentido do lúdico, da infância. Eu era bem pequeno e o vejo cortar e colar papéis, manejar tesouras, montar armações de madeira – e, magicamente, apresentar coloridas arraias retangulares, ou em forma de estrela, ou o grande couro-de-boi (assim chamado por lembrar os couros de bois que eram postos curtindo ao sol da caatinga). Sim, este era bem maior, em papel grosso e cinzento, que ele próprio empinava. Às vezes, sorrindo, me dizia para segurar um pouco o carretel – mas logo interferia para que eu não fosse arrastado... Eram, sem dúvida, as mais belas arraias da cidade. Nós as entregávamos ao vento no terreno que havia depois do quintal da casa – e a molecada logo era atraída e nos cercava, às vezes pegando um pouco também nos carretéis, meninos da classe média e pobres, encantados com as avoantes e com a estranha história de um pai empinando arraias com os filhos pequenos. Até adultos apareciam e abanavam a cabeça, como se se perguntassem: QUANDO O TEMPO ERA ONTEM /// Crônica “Dr. Ruy não tem mais o que fazer?” Tinha, sim, e muito, como já dito – e assim foi a vida inteira -, mas tinha também aquela sabedoria que as pessoas perdem quando perdem a infância. Falei destas coisas em outras prosas e alguns poemas – e sempre volto a elas com emoção. Como volto à época do São João, também mágica. Então era meu pai novamente cortando, arrumando, colando – e balões se enfileirando na mesa como se por magia. E era magia mesmo, pois já tentei fazer balões e saíram apenas monstrengos incapazes de voar. Ora, poderá alguém achar ruim tal hábito, lembrando que balões são proibidos. Já eram, naquele tempo, mas aquele tempo em Poções era um tempo diferente... Lembro um poema de Manuel Bandeira intitulado “Na rua do sabão”, onde se conta a história de um balão feito por meninos. Perto do fim do poema, este verso: “Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais.” Proibidos, sim, mas o balãozinho seguiu em seu voo. E o poema se fecha com este verso: “Caiu muito longe... Caiu no mar... nas águas puras do mar alto”. Grande Manuel Bandeira, que jamais perdeu a sua infância... E havia fogos e fogueira, uma festa completa – e que também atraía vizinhos e passantes. Fomos ensinados a usar os fogos com cuidado – e nunca aconteceu um acidente sério, só aqui e ali uma queimadurazinha superficial. Que doía, é claro, mas a alegria da festa compensava qualquer coisa. Depois havia São Pedro, quando uma fogueira menor era acesa para a minha avó materna, Matilde Sarno D’Andrea, que com o marido Giuseppe viera para o Brasil em 1914. Explicavam-nos que era uma fogueira para viúvas. Sim, muitas lembranças soprando nos ventos deste agosto. De como era a vida naquele tempo. Quando o tempo era ontem naquela cidade. Saudade. Ruy Espinheira Filho Escritor, membro da Academia de Letras da Bahia Revista Pindorama | Agosto de 2015 7

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Especial /// A vila das artesãs da palha Além das belezas naturais e da tranquilidade, a bucólica vila de Santo Antônio preserva viva a tradição herdada dos seus ancestrais: o artesanato em palha. Mais do que gerar renda, é símbolo da identidade cultural do lugarejo. E 8 ntre a restinga, um extenso corredor de alvas dunas e o mar aberto, descansa a pacata vila de Santo Antônio, no Litoral Norte da Bahia. Ali, vivem cerca de 150 pessoas que formam uma grande família: são quase todos parentes. As ruas são de areia, animais andam soltos, crianças brincam livremente. Além do sossego e do ar bucólico que preserva, o lugarejo se destaca por manter viva a antiga tradição do artesanato de palha da piaçava (ou piaçaba, como é chamada na vila). Segundo os próprios moradores, a atividade é remanescente da cultura indígena e envolve todas as mulheres da comunidade. A artesã Sônia Mendes, com seus artesanatos de palha. FOTO: MARIO ESPINHEIRA Revista Pindorama | Agosto de 2015

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De acordo com a artesã Sônia Maria Mendes, 67 anos, o isolamento da vila ajudou a preservar costumes centenários: “Criada aqui neste lugar escondido, a gente só podia pescar, mariscar e fazer bolsa” – ri. Ela acredita que, mesmo com o desenvolvimento da região e com as nova interferências, a tradição se perpetuará. “Desde os 7 anos de idade que trabalho com a palha, mas naquela época a gente só fazia chapéu e esteira. Minha mãe que ensinava. Todo mundo aqui sabe fabricar as bolsas e as tranças, porque os mais velhos vão deixando para os mais novos” - explica. Originalmente, as peças eram para utilização própria e com pouca variedade. As principais eram bocapius, esteiras e chapéus. Com o tempo, começaram a ser comercializadas, principalmente após a construção de hotéis na região. “Antigamente, a gente botava as bolsas nos varandados das casas, mas era difícil vender, porque não havia turismo” – conta dona Sônia. Ela explica que foi a partir do complexo Costa do Sauípe, vizinho à comunidade, que as vendas se intensificaram: “Os turistas vinham pela praia andando ou chegavam de carro para comprar nossas bolsas. De uns tempos pra cá, diminuiu a procura na vila, porque agora tudo é vendido na praia de lá mesmo”. A artesã Eunice Mendes, 68 anos, conhecida na região como dona Nil, explica que pessoas de toda a redondeza vendem em Santo Antônio, por ser referência no artesanato de palha. “O pessoal traz e a gente compra estas bolsas menores para revender aqui. Eu não preciso sair da vila, mas uma filha minha vai vender na Costa do Sauípe” - explica. Segundo outra moradora de Santo Antônio, Noelma Jandaíra, não há uma associação de artesãos da vila, mas as que existem em localidades próximas conseguem vender as peças para outros estados, como Rio de Janeiro e São Paulo. Natural de Subaúma, ela diz que o artesanato de palha faz parte da cultura de toda a região, como Diogo, Massarandupió, Porto do Sauípe e de “Curralinho, comunidade que depende do artesanato para sobreviver”. O artesanato de palha não se limita ao incremento da renda local, também traduz a própria identidade cultural da comunidade e sentido de realização pessoal, artística. Dona Sônia faz tranças de palha há mais de 60 anos e, mesmo já aposentada, não pensa em parar um dia sequer. “Só vou deixar quando caducar, mas eu não vou caducar. Tá me distraindo. Quando as costas doem, vou me deitar. Depois volto e jogo duro novamente”. FOTO: MARIO ESPINHEIRA A entrada da bucólica vila de Santo Antônio. Revista Pindorama | Agosto de 2015 9

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FOTO: MARIO ESPINHEIRA Dona Nil, no quiosque no centro da vila, onde vende suas bolsas. Novos modelos – Com o tempo, os tipos de peças foram se diversificando, como informa Jandaíra: “Hoje temos pelos menos três tipos de trança. Fazemos bolsas pequenas; cesta (bolsa grande de praia); porta-revistas; chapéus abertos, grandes e pequenos; descansador de panela; chaveiros; tapetes; esteiras”. Segundo ela, antes só existia a tinta do urucum e as peças só podiam ser da cor natural (branca) ou vermelha. “Agora fazemos verde, amarelo, vermelho, azul, marrom e branca”. A grande parte das vendas é feita na própria vila e depende da visita de turistas que são atraídos pelas paisagens e tranquilidade que o lugar oferece. Poucas são as que saem para comercializar em locais mais movimentados, como Imbassaí e Praia do Forte. Os trançados diferentes, a mistura das cores e os detalhes de acabamento fazem com que cada peça seja única. Expostas em amplos quiosques cobertos de palha, compõe cenário colorido que alegra a pacata vila de Santo Antônio. Paz e sossego – A comunidade vive ao ritmo da brisa, que parece soprar de outros tempos. Os pescadores continuam enfrentando o mar aberto em jangadas a vela, embarcação também herdada dos indígenas. O charme da originalidade do lugarejo, por contribui para a preservação do artesanato, também atrai turistas, como revela o dono de um dos restaurantes, Tomaz Mendes. “A vila vive até hoje nesta paz. Os turistas vêm comprar artesanato, experimentar nossos restaurantes. Quem visita gosta. Sauípe é nosso turismo. Quando foi inaugurado, era uma epidemia de gringos. Com a crise diminuiu, mas tá dando para levar”. Pescador aposentado e vice-presidente da Associação de Moradores, Tomaz diz que a infraestrutura para o turismo melhorou só com a implantação da luz elétrica, em 2002, quando enfim pode abrir seu restaurante. “Antes vivia com luz de fifó e geladeira a gás”. Dona Sônia reforça o potencial turístico da localidade: “Quem vem pra cá não quer sair mais. Pessoas alugam casas, ficam nas pousadas, passam o fim de semana aqui. Tem comida, bebida, acham peixe fresco... Aqui é paz. Queria que fosse movimentado para a gente vender mais, mas devagarzinho tá dando para levar”. Enquanto as mulheres dedicam-se ao artesanato, os homens pescam ou trabalham em hotéis e condomínios da região, alguns fazendo “bicos”. 10 Revista Pindorama | Agosto de 2015

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O pescador aposentado e dono de restaurante na vila, Tomaz Mendes. A artesã Noelma Jandaíra, trançando as palhas. FOTO: JANAIXA SEIXAS Segundo Tomaz, que é irmão de dona Sônia, foi seu avô paterno, João Mendes da Silva, quem fundou o vilarejo. “Nasci aqui. Meu pai nasceu, cresceu e morreu aqui. Por enquanto somos privilegiados. Sair, mais nunca, só se for levando as casas com todo mundo” – brinca Tomaz. De acordo com ele, as principais atividades incluíam plantação de cocos do seu avô, que também criava animais. “E a pesca, que essa ninguém pode descartar. Morar na praia e não saber pescar, não sobrevive. Menino com sete, oito anos eu já ia pescar”. As típicas bolsas feitas na localidade, expostas em um dos seus quiosques. FOTO: JANAIXA SEIXAS Processos da produção Assim dona Sônia descreve o processo de produção: “Vai para o mato, tira a palha, depura, puxa o olho dela: só serve o que está amarelinho, o novo. Traz pra casa, coloca na panela ou na lata de tinta, faz o monte de lenha e mete fogo embaixo. Faz aquela trempe e cozinha ela. Tira do fogo e agora vai abrir. Ela já sai branca. Pega a faca que é lisa, tira o talo e corta a ponta do pé. Coloca no fogo de novo com a anilina (tinta). Depois a gente faz as tranças e costura. É muito trabalho, mas é o que nos distrai”. Hoje Dona Sonia já não entra no mato para buscar a palha, pois consegue comprar na própria vila, mas faz todo o resto. FOTO: JANAIXA SEIXAS Como chegar à vila Entrar no Km 72 da Linha Verde (BA-099), direção leste, próximo à entrada da localidade Areal. Há uma placa indicando a via para a Vila de Santo Antônio. A estrada de cascalho de 3 km está em bom estado, mas faz lama quando chove. Revista Pindorama | Agosto de 2015 11

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Especial /// A CAPOEIRA NAS ESCOLAS, UMA FAÇANHA DE PALITO Há 50 anos, a capoeira chegava às escolas por intermédio do menino Aristides Mercês, quando ainda era Palito, bem antes de se tornar mestre e que ao longo da vida se revelou destinado ao pioneirismo no ensino e no trabalho social com a capoeira N FOTO: MARIO ESPINHEIRA o já longínquo ano de 1965, um adolescente, alto e magro, tão magro que o irmão lhe apelidou de Palito Monroe, veio a ser o vetor da entrada da capoeira nas escolas. Naquela época, o garoto começava a se destacar no Grupo Folclórico Afonjá, do qual fazia parte juntamente com os irmãos Paulo e Márcio Mercês, quando recebeu convite para treinar crianças, tendo em vista a realização de uma festinha na Escola Tomás de Aquino. Na verdade, o convite original fora dirigido a Romeu, outro integrante do Afonjá, por sua namorada que era professora da Escola, não tendo aceito perguntou se Aristides topava, o rapazinho magricela topou e “foi com a cara e a coragem”. Assim, há 50 anos a capoeira chegava às escolas. O garoto virou homem, o mestre de capoeira Aristides Pupo Mercês, hoje com 63 anos. Lembrando daquele momento, conta que quando viu as crianças, para as quais teria de ensinar capoeira, exclamou confuso: “O que fazer?” E com humildade falou para Silvia Lacerda, a diretora da Escola Tomás de Aquino, quem visionariamente tivera a ideia: “quero ensinar, mas não sei. Então Silvia me ensinou a dar aula, e virei professor de capoeira”. Da preparação para a festa, a capoeira passou a ser atividade regular na Escola. Naquela época, diz Aristides, “não havia nada sobre ensino da capoeira nas escolas e fui criando técnicas, desenvolvendo metodologia”. Experiência que o levou a escrever o Manual de Ensino da Capoeira, primeiro livro destinado a ensinar capoeira. 12 Revista Pindorama | Agosto de 2015

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Da Escola à Faculdade – Nos dias atuais, pode-se dizer que a capoeira, este misto de luta, dança, música, arte, folclore, esporte, lazer e filosofia de vida, típico e genuinamente brasileiro, não tem mais nenhuma barreira a enfrentar. Do mato, chegou à universidade; de atividade marginalizada pela sociedade até grande parte do século XX, virou instrumento pedagógico e de inclusão sociocultural educacional, para pessoas com deficiências físicas e intelectuais, bem servindo aos “três domínios de aprendizagem do ser humano: psicomotor, afetivo social e cognitivo”, conforme explica o professor mestre Fábio André Castilha no artigo “Capoeira e sua importância pedagógica”. E boa parte desta abertura de caminhos resultou do pioneirismo de Aristides. Na tese de doutorado intitulada A capoeira na Universidade, uma história de resistência, Hélio de Campos (Mestre Xaréu) reconhece o pioneirismo de Aristides no ensino da capoeira em escola formal, dizendo que “Tudo indica que o Mestre Aristides seja um dos precursores da capoeira na escola, e o principal responsável pela disseminação do seu ensino na pré-escola e no 1º grau no Brasil”. Também no caso da introdução da capoeira no currículo do curso de Educação Física, Aristides esteve na vanguarda. Ele tinha entrado para Facul- dade de Educação Física da Universidade Católica de Salvador, em 1974. Dois anos depois, surgiu a proposta de se introduzir a capoeira no currículo da Faculdade e Aristides, que se formaria no ano seguinte, protelou a conclusão do curso, esperando a reforma curricular. Diz ele: “Fiquei devendo a matéria Prática de Ensino, enquanto brigava, juntamente com George Alkoama, Hélio Campos e outros colegas para efetivar a implantação da capoeira no curso. Por fim, recebi ultimato para em dez dias arranjar um professor capoeirista com mais de dois anos de formado para ensinar na Faculdade. Indiquei o Mestre Saci, Joseval Lima de Jesus, que ainda hoje continua ensinando lá. Desta forma, em dezembro de 1980, a capoeira, pela primeira vez no mundo, passou a fazer parte do curso de Educação Física. E em janeiro de 1981, eu me formei” - conta Aristides. Ainda hoje Aristides abre portas para a capoeira. Atualmente é professor de ginástica laboral e de capoeira para os funcionários da Assembleia Legislativa, através da Escola do Legislativo da qual é professor de Educação Física concursado desde 2013, o que também é inédito, sendo a primeira vez que a capoeira é praticada numa assembleia legislativa. FOTOS: ARQUIVO MESTRE ARISTIDES Revista Pindorama | Agosto de 2015 13

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FOTOS: ARQUIVO MESTRE ARISTIDES Sempre Voluntário – Aristides, provavelmente por herança da sua mãe, dona Margarida Matheus Mercês, ainda bem jovem se dedicou ao trabalho voluntário, principalmente com crianças e adolescentes carentes e deficientes físicos ou intelectuais. Tudo começou em 1970. “Eu já dava aulas de capoeira no Colégio Antônio Vieira e o padre Barturi me chamou para ajudar pessoas desabrigadas dos Alagados”. Estas pessoas haviam sido levadas para uma escola em São Caetano, a qual precisou ser arrombada para que elas pudessem entrar. Alguém tinha ido à Secretaria de Educação pedir a chave, mas não houve permissão e tiveram de arrombar e entrar de qualquer jeito. “A Polícia Federal foi chamada, as pessoas foram acusadas de subversão, mas o padre deu testa” e os desabrigados ficaram por três a quatro meses. “Havia muita criança lá dentro e eu comecei distraí-las 14 Revista Pindorama | Agosto de 2015 com a capoeira. Fiquei indo uma vez por semana dar aulas aos meninos. Depois o governo deu casas na parte aterrada dos Alagados e eles voltaram. Como não existia lugar na comunidade, não pude prosseguir com o trabalho” - relata. Dois anos depois, já casado, foi morar no Alto das Pombas e começou a trabalhar com as crianças carentes dali. Em 1974, mudou-se para Ondina e passou também a atuar na comunidade do Calabar, trabalho que fez durante 20 anos. Quando saiu, deixou no seu lugar o ex-aluno César, que permanece até hoje no Projeto Social do Calabar. Ainda em 1972, passou a ser voluntário do Instituto Pestalozzi, onde ficou até 1992, quando se tornou voluntário do Centro de Educação Especial da Bahia (Ceeba). Nestas instituições, realizou mais um trabalho inovador com crianças e pré-adolescentes com síndrome de down, displasia mental entre outras condições especiais. “No princípio foi só aprendizado. Foram os maiores professores da minha vida. Fui adaptando técnicas de acordo com a necessidade de cada um, criando metodologia específica. Eram 50 a 100 em várias turmas de 10 a 15 alunos. Coisa muito do coração. Nas universidades não ensinavam nada disso. Tive de aprender por conta própria, dando aulas. Foi uma experiência pioneira nacionalmente e com tanta dedicação que ganhamos o 1º lugar no Festival Nacional de Cultura e Danças Folclóricas, em 1975”. Alzira de Castro, diretora do Ceeba, conta que conheceu Aristides em 1992, “já fazendo esta proposta bem interessante. Falo como pedagoga o quanto é importante a atividade física e o lazer para o desenvolvimento. De Aristides só tenho de falar coisas positivas. Normalmente, depois de um tempo os voluntários desanimam, mas ele não desanima nunca. Há anos e mais anos continua sendo voluntário com o mesmo ânimo”. Ainda hoje, prossegue com trabalho social, dando aulas gratuitas à noite no Ceeba para toda a comunidade de Ondina. Também elaborou e desenvolveu vários projetos, entre os quais o Projeto Saramandaia, destinado a crianças em situação de risco. Realizado durante dois anos, conseguiu tirar algumas crianças da marginalidade. “Conquistei a comunidade toda, até os traficantes apoiavam, porque queriam tirar os filhos do tráfico, chegando a vir agradecer”.

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Trajetória em balanço - Assim, ao longo dos 50 anos como professor, Aristides formou sete mestres, entre eles uma filha, tendo milhares de alunos. Só registrados na Academia são 7.800. Já com o trabalho voluntário na Pestalozzi, no Ceeba, Calabar e Alto das Pombas, ele diz ser impossível calcular. A experiência como capoeirista, professor e voluntário levou-o a escrever. Além do Manual de Ensino de Capoeira, também é autor da Cartilha para Federação Baiana de Capoeira, um aperfeiçoamento do Manual; As peripécias de Palito, um boneco de pano que vai contando uma história e dando aula de capoeira, sendo ensinamento teórico e prático, com muita ênfase na musicalidade; e Memórias de um Capoeira, em elaboração. Mestre Aristides, formado pelo mestre Canjiquinha, foi iniciado nos dois estilos de capoeira pelos seus irmãos: Angola, através de Márcio que havia sido aluno do Mestre Pastinha e Regional por Paulo que fora aluno do Mestre Bimba. E foi em cima destas influências que sistematizou o ensino da capoeira. Paralelamente à prática como capoeirista e professor, Aristides buscou a qualificação profissional, e, além da Licenciatura em Educação Física, é Pós-graduado em Esporte e Cultura Afro-brasileira, Psicomotricidade e em Análise Transacional. Aristides se sente feliz e realizado. Orgulha-se de ter criado a família com quatro filhos (três capoeiristas) somente com a capoeira, dando aulas em inúmeras escolas, tantas que em determinada época quase tinha de fazer sorteio para se decidir quais atender, e também na sua Associação de Capoeira Arte e Luta (Acal), fundada em 1973, na qual só deixou de trabalhar no ano passado. Alugou a academia e deixou as aulas do Ceeba para sua filha, a mestre Elea. FOTOS: MARIO ESPINHEIRA Ao lado, Mestre Aristides com o boneco “Palito”, que ele criou para ensinar passos de capoeira às crianças. Acima, mostrando desenvoltura e técnica nos golpes. Revista Pindorama | Agosto de 2015 15

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