Paraná - O Massacre dos Professores

 

Embed or link this publication

Description

Curitiba - 29 de abril de 2015

Popular Pages


p. 1

O Massacre dos Professores 29 de abril / 2015 Curitiba - Paraná - Brasil | Publicação Gratuita e Dirigida

[close]

p. 2

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil Professor do Paraná. Exemplo que inspira! Agradecimentos lucia helena martins nelson smythe jr. ricardo faria, joka madruga, rodrigo borgues e “zilhões” de amigos que nos apoiaram Não há como esquecer. Não, não há! - 2

[close]

p. 3

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil ... acabou em gás lacrimogênio Os versos que se seguem tem idade adulta. Lá se foram cerca de trinta e cinco anos desde que eles foram forjados da tinta da caneta e cresceram – embora não tanto – pelas teclas da máquina de escrever, uma olivetti, possivelmente. Findavam os anos 1970, iniciavam-se a década de 80 e o regime militar, instaurado a fórceps, começava a bambear. Já se fora o tempo do AI-5, da perseguição à guerrilha, já se fora o tempo em que o palácio do planalto e os quartéis viam fantasmas vermelhos em cada esquina, em cada sala de aula e fábrica... mas, ainda era a ditadura... a moribunda ditadura... Relendo-os, passado esse hiato de tempo, pasmem: creio que certas palavras, muitas delas, provavelmente – e infelizmente – se enquadram no enredo de um Centro Cívico (cívico?), de um certo 29 de abril de 2015. Francisco Rehme (Chicho) Professor Não há como esquecer. Não, não há! - 3

[close]

p. 4

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil Um mar de policiais: 2.516 Fotos: Levis Litz Não há como esquecer. Não, não há! - 4

[close]

p. 5

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil 29 de abril de 2015 “A operação policial que cercou a Assembleia Legislativa e ocasionou “a batalha do Centro Cívico”, (...) custou R$ 948,3 mil aos cofres públicos. (...). Ao todo, os 2.516 policiais designados para a ação dispunham de 2.323 balas de borracha e 1.413 bombas de fumaça, gás lacrimogêneo e de efeito moral, além de 25 garrafas de spray de pimenta (...). A munição era suficiente para disparar 20 balas de borracha por minuto. Também era possível arremessar 11 bombas no mesmo tempo. O conflito durou cerca de duas horas, na tarde do dia 29 de abril, e deixou mais de 200 feridos. As informações (...), constam de documento oficial enviado pela Polícia Militar do Paraná (PM-PR) ao Ministério Público de Contas, ao qual a Gazeta do Povo teve acesso.” Publicado no Jornal Gazeta do Povo em 29 de maio de 2015 Ministério Público do Paraná considera ações de 29 de abril como 'incompatíveis com deveres' “RPC teve acesso ao processo que investiga a responsabilidade do governo. Beto Richa foi responsabilizado pela ação que feriu mais de 200 pessoas. Além de ilegais, o Ministério Público do Paraná (MP-PR) classificou as ações da Polícia Militar (PM) no dia 29 de abril, no Centro Cívico de Curitiba, incompatíveis com os deveres de honestidade, de impessoalidade e de lealdade às instituições republicanas e democráticas. Improbidade administrativa Na segunda (29), o MP-PR ajuizou uma ação civil pública contra o governador Beto Richa (PSDB) por atos de improbidade administrativa por conta dos fatos ocorridos em 29 de abril. Além do governador, foram requeridos na ação pública o ex-secretário de Segurança Fernando Francischini, o excomandante da PM César Vinícius Kogut, o ex-subcomandante Nerino Mariano de Brito e o tenente-coronel Hudson Leôncio Teixeira – sendo estes dois últimos da Polícia Militar também. Eles foram apontados pelo MP-PR como os responsáveis pela operação policial realizada no dia do conflito. Entre as irregularidades cometidas pelos requeridos, conforme o Ministério Público, estão excesso de força e gastos indevidos.” Publicado no Jornal Gazeta do Povo em 03 de julho de 2015 Não há como esquecer. Não, não há! - 5

[close]

p. 6

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil Paz ou Guerra? O que era aquilo? Seria o céu embotado de lágrimas como prenúncio... Uma garoa fina começa a se fazer presente. Guarda-chuvas e sombrinhas se abrem. Gotas caem do alto! Seria o céu embotado de lágrimas como prenúncio do que estaria para acontecer? Não demora muito e… cessam. O tempo torna-se firme novamente. “Quantos policiais!”, estarreci... Diante da minha pacata e querida cidade natal... Diante de um país que se diz pacífico, diante da minha pacata e querida cidade natal, fiquei impressionado pelo o que presenciava. Atiradores de elite no telhado, helicóptero, tropas de choque – várias, por todos os cantos.. Impressionante... Impressionante mesmo para quem já viveu no Oriente Médio, nas fronteiras com a Jordânia – país que parece viver em estado de guerra permanente.  Impressionante para quem já foi paraquedista militar nos anos 80 e viveu entre militares, num regime militar que já ia se definhando. Impressionante para quem viveu na Grã-Bretanha na época dos atentados do Ira – bombas explodiam quase que “religiosamente” a cada semana – inclusive em seu local de trabalho. Impressionante aos que estudam as atrocidades das ditaduras – aqui e em horizontes não tão longínquos assim. Impressionante até aos que conseguem ser insensívels aos fatos da História – semelhantes aquele em que ocorreram brutalmente em Belfast, Irlanda. Mas… Porém... Contudo... Todavia... No Entanto... Impressionante por quê? Não há como esquecer. Não, não há! - 6 Fotos: Levis Litz “Os 2.516 policiais designados para a ação dispunham de 2.323 balas de borracha e 1.413 bombas de fumaça, gás lacrimogêneo e de efeito moral, além de 25 garrafas de spray de pimenta.” Caminhei por aqui e acolá e, próximo ao Tubo do ônibus ligeirinho, “Que horas são?”, perguntei. “Cinco para as três”, ouvi. “Quanta gente!”, pensei. “Quantos policiais!”, estarreci. E o mar de policiais militares: uma visão ímpar... Decidi então calmamente andar em meio às vozes de protesto: “Fora Beto Richa!” Quem não é Richa, pula!” Fui em direção ao Palácio Iguaçu, bem até o limite em que os alambrados – que separavam os professores – me permitiam ir. Vi muitos jovens e muitos não tão jovens assim. E o mar de policiais militares: uma visão ímpar…

[close]

p. 7

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil Tumulto... Confronto... Massacre... Seria pela razão de haver atiradores de elite no telhado mirando nos professores? Seria pelo motivo de haver “um número infinito” de policiais militares fortemente armados até os dentes – muitos vindos sucateados, em pé, em ônibus do interior do Estado do Paraná? Seria pela razão de haver atiradores de elite no telhado mirando nos professores? Seria pelos diversos grupos da Tropa de Choque estrategicamente posicionados, prontos para atacar, como se fossem terroristas de alta periculosidade, professores e pessoas indefesas que utilizavam como armas suas vozes? Seria talvez pelo voo do helicóptero a baixa altitude com policiais apontando suas armas para a população lá embaixo? Seria por estas “obsoletas” razões? Tumulto... Confronto... Massacre... Na posição em que eu estava, de frente ao Palácio Iguaçu, caminhei ao longo do alambrado – para o lado direito, agora fazendo uma curva – frente da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP). Continuei avançando mais um pouco, até chegar na divisa com o estacionamento. Notei outro pequeno grupo da Tropa de Choque e um veículo: um “caveirão”. Fotos: Levis Litz Foi então anunciado que os Deputados Estaduais, insensíveis aos apelos dos professores, iriam começar a votação do projeto do Governador. A história corroborou depois que eles pouco estavam se importando com o povo – que estava prestes a apanhar lá fora. Tumulto Foi ali, um momento forte, que testemunhei o TUMULTO de um grupo de manifestantes forçarem aqueles “alambrados” móveis, de baixa altura. “A munição era suficiente para disparar 20 balas de borracha por minuto. Também era possível arremessar 11 bombas ao mesmo tempo.” Confronto Alguns entraram e a Polícia Militar, que estava à frente, interveio e tentou impedi-los, dando origem ao CONFRONTO. Massacre Foi quando olhei à minha direita e vi o pessoal da Tropa de Choque da Polícia Militar do Paraná, lá atrás - distantes, chamando aqueles policiais para saírem da frente… E foi aí que começou o MASSACRE. Não há como esquecer. Não, não há! - 7

[close]

p. 8

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil PM atira em professores sem dó Cenas de horror, covardia extrema O palco daquela garoa de outrora – que cedeu lugar ao tempo bom – tornou-se alvo de uma chuva de bombas. Bombas de gás lacrimogêneo, bombas de spray de pimenta e bombas de efeito moral. Bombas e mais bombas caíam do céu – era mesmo uma chuva – nunca vi coisa igual. Como eu estava bem à frente, vi as bombas passarem sobre minha cabeça, lá no alto, muito alto, rasgando o céu e atingindo os manifestantes. Muitas caíram ao meu lado, na frente, atrás… por todos os lados. Presenciei e filmei um “fogo amigo deles”, ou seja, uma bomba que eles atiraram neles mesmos – só que a origem dessa, foi diferente, veio de cima, do céu, do helicóptero.   Atônito com o avanço dos soldados, como se toda essa parafernália da Polícia Militar não fosse o suficiente, vieram as balas de borracha. Não apontadas para a linha abaixo da cintura, como demanda a lei internacional, mas sim de policiais em pé, com suas armas sendo disparadas nas alturas de seus ombros e olhos. Cenas de horror, covardia extrema, militares atirando pelas costas de um público que corria deles. Tiveram seus 10 minutos de repressão intensa para repelir de forma dantesca as pessoas, já muito feridas. 10 minutos, em momentos de terror absoluto, que pareciam nunca acabar.  E não acabou mesmo… A covardia se estendeu muito além dos 10 minutos. Não há como esquecer. Não, não há! - 8 Passaram-se 20 minutos e as bombas vinham. 30 minutos e os estalidos dos diparam continuavam. Mais ou menos naquele momento, pensei: “O Governador do Estado do Paraná tem o poder e autoridade maior no Estado para pedir aos seus subordinados, Fernando Francischini - Secretário da Segurança Pública e o Coronel Cesar Kogut - Comandante da Polícia Militar do Paraná, que parem este massacre imediatamente.”

[close]

p. 9

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil E o Governador, nada! Chuva de bombas E não é que, por um momento, os tiros cessaram! + Spray de pimenta um funcionário, ligado direto ao Governador, dizia ao telefone: “Meta bomba! Meta bomba!”. Triste isso, não? Achar isso tudo um exagero? O que dizer da creche que teve que retirar às pressas suas crianças por causa dos efeitos das infindáveis nuvens de bombas de gás que chegaram ao estabelecimento? = Professor desmaiado trabalhador e incapaz de fazer mal a uma pessoa. E quanto aos outros, seriam professores ou um “GRUPO DE BADERNEIROS”? Assim mesmo, título como se referiu a eles, horas depois, vociferando o Governador.  Bem… era evidente que entre aquelas dezenas ou centenas de pessoas não tão jovens – a maioria “esmagada” eram de professores, facilmente identicáveis pelas marcas dos seus rostos e o terror dos seus olhares, não eram “ARRUACEIROS”, palavra também que escapa muito facilmente dos lábios do Governador. Eles - os professores passavam por mim, indignados, feridos no corpo e na alma, assombrados assim como eu estava. Seus pensamentos, entre querer “sobreviver” e “fugir dos ataques”, também questionavam: “O que estava acontecendo ali? Por que os policiais não param de atirar? Mas que covarde este Governador! Mas que covarde esses policiais militares do Estado do Paraná!”. Cessaram sim, mas foi para recarregarem suas armas. O massacre continuou e os policiais também – sufocando os seres humanos a sua frente e aos arredores.  Ah! Não esqueçamos, os tiros continuaram além dos 40 minutos, dos 50 minutos, dos 60, 70, 80, 90, 100 minutos; foi o que registrei, disseram depois que chegou a 120 minutos de tiros. Duas horas, isso mesmo, DUAS HORAS sob fogo cerrado! E O GOVERNADOR, NADA!  “Meta bomba! Meta bomba!” Dias depois, um vídeo foi mostrado no qual alguns de seus funcionários riam das janelas - em prédios adjacentes, enquanto os professores apanhavam lá fora. O deputado Tadeu Veneri (Comissão de Direitos Humanos e da Cidadania), indignado com tamanha atrocidade, revelou mais tarde que, enquanto alguns policiais recuavam, Em meio a correria, num vai e vem, gente tentando não atropelar ou não ser atropelada pelos que fugiam das bombas, vi um professor – um professor? Como saberia eu que era um professor, podia ser um integrante dos “black blocks”, como afirmaria o Governador mais tarde? O que me dava a certeza de ser um professor, aquele indivíduo que, afinal, estava vestido de preto?  Mesmo a distância, “horror!”, eu o reconheci – caído no chão, atordoado, sendo socorrido por pessoas ao seu redor. Era um professor de Filosofia de um renomado Colégio de Curitiba. Uma pessoa de fala mansa, pacata e da paz. Ele sim é íntegro, honesto, Não há como esquecer. Não, não há! - 9

[close]

p. 10

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil Que o Paraná nunca esqueça Parece exagero? Será? Entretanto, quando alguém num microfone de um carro de som suplica inúmeras vezes em bom tom e audível a quilômetros: “Policiais, parem de atirar, queremos apenas retirar os feridos!” E os policiais, mesmo assim, não paravam de atirar. Isso denota sim um ato de covardia. Ali teria sido um campo de batalha? Claro que não! Foi uma ação desproporcional, desmedida e desumana. Muita “sorte” (nossa e deles) ninguém ter morrido. Contudo, muitos ficaram com sequelas corporais e emocionais. Dias depois a Assessoria de Imprensa da Polícia Militar, em entrevista a BBC Brasil, declarou: “Não foi um massacre, nem usamos balas letais!”. Sabe, aquelas balas que matam você. Nunca vi tamanha barbaridade e raiva (seria vingança?) contra professores. Lembrei-me daquele fato histórico com semelhante covardia, o "Domingo Sangrento" que ocorreu em Belfast. A diferença é que lá as balas (projéteis) eram de verdade, mas a ação e o ato da covardia, fria e cruel, foi a mesma que se repetiu neste ano, 2015, no dia 29 de abril, aqui na Cidade de Muitos Pinheiros. Finalmente veio o cair da tarde, meus olhos lacrimejavam e a garganta doía - efeito das bombas. Com o semblante entristecido, perplexo, me dei conta, que eu acabara de testemunhar um massacre com centenas de feridos. Fui então arrebatado por um forte sentimento de vergonha - a de pertencer a mesma raça daquele que causou e provocou, de forma tão intensa, o ódio e o pavor entre os cidadãos do Paraná. A História há de registrar que o responsável maior daquele massacre foi o Governador do Paraná, Carlos Alberto Richa, vulgo Beto Richa. Que o Paraná jamais esqueça daquele dia! Eu não vou! Levis Litz Jornalista Profissional Diplomado Professor e Repórter Fotográfico O que é MASSACRE? “ “Os netos perguntarão um dia: você sabia que o Paraná já massacrou seus professores? Foi em 29/04/2015. Está no meu livro de História.” ”Um massacre (...) caracteriza-se especialmente porque as vítimas são indefesas antes que o ataque que são objeto, ou seja, não têm a possibilidade de defender-se. Em geral é perpetrada por uma pessoa. A principal característica é a desigualdade de condições entre agressor e vítima, desde que indicamos sempre o último em condições inferiores. Outra característica é que eles geralmente têm uma enorme carga de traição, crueldade e violência “. Não há como esquecer. Não, não há! - 10

[close]

p. 11

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil A democracia perdeu muito Eu vinha acompanhando a greve dos professores e passava de tempos em tempos na Praça Nossa Senhora de Salete para ver como estava o movimento. As bombas eram lançadas de forma ininterrupta, os policiais atiravam na direção dos manifestantes e as pessoas corriam desesperadas. O gás pairava sob forma de nuvem no ar e incomodava muito. Por volta das 18h00 retornei ao local, chovia e ainda havia pessoas feridas sendo socorridas, algumas chorando, desnorteadas, em todos a tristeza e certeza de que ocorrera um massacre que significava uma perda para toda a sociedade – menos pareceu, para os que deveriam nos representar (Governador e Deputados da base aliada) que aprovaram o que queriam para um fim que satisfez apenas seus próprios interesses. A democracia perdeu muito – a casa que é do povo, que deve ser aberta a todos foi violentamente fechada, pressupondo-se que protestos ocorreriam e, em nome de uma suposta “ordem e preservação do patrimônio público”, se promoveu um verdadeiro massacre. No dia 29 me dirigi ao Centro Cívico e caminhei, vindo As cenas eram surreais, do prédio do Ministério Público professores sendo atacados por sentido Assembleia – era por policiais, colegas, servidores do volta das 16 horas e o som das Estado e que educam muitos dos bombas e fumaça do gás sendo filhos daqueles. lançado, e a visão do helicóptero dando voltas em baixa altitude A democracia perdeu muito alcançava já grande – a casa que é do povo, que deve distância. ser aberta a todos foi Vi policiais cercando o prédio da Assembleia Legislativa do Paraná - ALEP, pessoas próximas os chamavam, em coro, de covardes, as ambulâncias estavam estacionadas e a tensão era muito grande. violentamente fechada, pressupondo-se que protestos ocorreriam e, em nome de uma suposta “ordem e preservação do patrimônio público”, se promoveu um verdadeiro massacre. Quando me dirigi ao cordão de isolamento me deparei com um soldado que conheço, músico, e quando nos encaramos, baixou os olhos, envergonhado; nos reconhecemos. Tentei passar pelo cordão, mas não consegui, fui então em direção ao Palácio das Araucárias e fiquei, a distância, em meio a correria, entre um grupo de professores e a Tropa de Choque da Polícia Militar do Paraná... Lembrei de imediato do “Domingo Sangrento”... as cenas, o absurdo, a covardia e o imoderado e desproporcional uso de forças era idêntico... Felizmente não houve as mortes. Fiquei no local por cerca de quarenta minutos, as pessoas se refugiavam na Prefeitura mas as ambulâncias não conseguiam recolher os feridos, pois as bombas eram lançadas naquela direção, impiedosamente. Que todos aprendamos com o evento e que essa onda reacionária que assola o país – com chancela e conivência da grande mídia, que encontra campo tão fértil no Paraná, e que mostrou na figura do Senhor Governador do Estado o que entende por Democracia -, não dê mais frutos e reste apenas em nossas memórias e que não esqueçamos deste dia tão caro e tão triste. Almério Carvalho Jr Advogado / Professor Não há como esquecer. Não, não há! - 11

[close]

p. 12

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil 29 de Abril - Massacre Sim! Foto: Joka Madruga/APP-Sindicato Em destaque: professor Fabiano Pinkner Rodrigues. Não há como esquecer. Não, não há! - 12

[close]

p. 13

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil Uma luta que deve continuar 2015 29 DE ABRIL O MASSACRE DOS PROFESSORES UMA LUTA QUE DEVE CONTINUAR... ESQUECER JAMAIS! “... EXISTINDO E ACTUANDO DE FACTO, A BONDADE SERIA TALVEZ, NESTE MUNDO, A MAIS INQUIETANTE DE TODAS AS COISAS...” JOSÉ SARAMAGO. JOSÉ SARAMAGO LEVANTADO DO CHÃO / ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA “(...) E à frente, dando os saltos e as corridas da sua condição, vai o cão Constante, podia lá faltar, neste dia levantado e principal.” Fecha-se desse modo a narrativa das lutas dos camponeses do Alentejo por melhores condições de trabalho, de vida. “(...) Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.” Assim é o último diálogo entre o oftalmologista e sua mulher. As reflexões realizadas sobre as narrativas dessas duas obras tentam manter um diálogo entre o social e o indivíduo. Mostram como o caminho de Levantado do Chão é o mesmo percorrido em Ensaio sobre a Cegueira: o caminho em busca do homem livre de máscaras, liberto para novas realizações, para caminhos mais dignos. O surgimento do homem consciente do que é e do papel que pode desempenhar. As duas obras marcam uma distância entre o indivíduo e as conquistas sociais desse mesmo indivíduo. Duas obras que encerram no fundo uma preocupação única: entender o que move o ser chamado homem. Porque dos absurdos sociais nasce a necessidade de se compreender o que causa esses absurdos. Na obra Ensaio sobre a Cegueira, Saramago cria a mais diversa situação. Assim como o imprevisível futuro. Vê-se como se comporta o homem na sua mais imediata necessidade: sua Não há como esquecer. Não, não há! - 13 sobrevivência. Quando o supérfluo desaparece e apenas se tem pele e osso, já não há mais o que esconder – somos menos do que supúnhamos, mais do que poderíamos imaginar. Em Levantado do Chão, Saramago conta a história da difícil luta dos camponeses por seus direitos. Conta a esquecida luta de trabalhadores que têm como inimigo principal a falta de consciência do que representam e do que são capazes. A difícil conscientização de

[close]

p. 14

O Massacre dos Professores - 29 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil Esquecer Jamais! que o indivíduo deve romper seus temores egoístas para poder criar uma consciência coletiva. A difícil apreensão do coletivo, ou, quem sabe, a difícil destruição de uma ordem inventada, de uma visão de mundo que cega e impede o surgimento de novas formas, de alternativas. Como o homem, cego de sua real condição ou do que pode realizar em conjunto, pode saber olhar para si e reparar no que vê? Como “o dia levantado e principal” pôde surgir da luta de indivíduos que antes de tudo necessitavam vencer suas próprias dúvidas e temores para arrombar depois as portas da natureza injusta do social? Como fica a história dessas pessoas? Quem sabe de todas as pessoas, de cada indivíduo, que se vê esquecido de tudo e de todos? Até que ponto sua luta é a luta de todos? Ou, existe uma luta de todos? A greve dos professores da educação pública do Paraná e a luta que continua a cada dia de aula demonstrou mais uma vez a cegueira e a difícil missão de fazer valer a justiça. No dia 29 de Abril de 2015 mais uma vez ficou claro que alguns se apoderam daquilo que deveria ser de todos e massacram qualquer tentativa de mudança da ordem desigual estabelecida. Com uma lição de união e consciência de seu papel social, os professores expuseram quem é Beto Richa e quem são os deputados que trabalham para ele. Não para o povo. Para ele. Aos que participaram fica a lição: derrotados foram os que covardemente bateram e apoiaram o massacre. Ganhou mais uma vez a ideia de que unidos, educados, conscientes e atuantes, é possível uma classe fazer valer sua história de luta. O dia levantado e principal só será viável dessa forma. Esquecer jamais! Somos todos professores! Fabiano Pinkner Rodrigues Professor “No dia 29 de Abril de 2015 mais uma vez ficou claro que alguns se apoderam daquilo que deveria ser de todos e massacram qualquer tentativa de mudança da ordem desigual estabelecida.” “Com uma lição de união e consciência de seu papel social, os professores expuseram quem é Beto Richa e quem são os deputados que trabalham para ele. Não para o povo. Para ele.” Não há como esquecer. Não, não há! - 14

[close]

p. 15

O Massacre dos Professores - 25 de Abril de 2015 - Curitiba, Paraná, Brasil Quem votou contra os professores Para lembrar nas próximas eleições - Não importa o partido Não há como esquecer. Não, não há! - 15

[close]

Comments

no comments yet