Revista Barbante - Ano IV - Num. 15 - 25 de julho de 2015

 

Embed or link this publication

Description

revista de literatura, cultura e educação

Popular Pages


p. 1

revista ANO IV - Nº 15 - 25 DE JULHO DE 2015 ISSN 2238-1414 Uma nova geografia humana universal - NoGeHUn

[close]

p. 2

REVISTA BARBANTE - 1

[close]

p. 3

Editorial Em sua edição de julho de 2015, a Revista Barbante reúne, em sua primeira seção, uma série de artigos voltados para reflexões sobre a sociedade, a literatura e o ensino. Em “Uma nova geografia humana universal – NOGEHUN”, a escritora cabo-verdiana Vera Duarte, cuja obra é premiada e reconhecida internacionalmente, apresenta uma reflexão sobre as novas características da sociedade humana, e nos privilegia com a publicação de texto inédito apresentado recentemente nos Estados Unidos, em que lança a NOGEHUN. Vale conferir o que essa instigante siga quer dizer. Somam-se à seção: “Questões contemporâneas sobre o ser ou não ser da crítica literária”, de Christina Ramalho; “Um olhar sobre o poema Canção, de Cecília Meireles: em busca do sentido do texto”, de Ana Cláudia Silva Fontes; “As cartas da Sóror Alcoforado e a poesia de Bocage: reflexões sobre o amor”, de Edna Caroline Alexandria da Cunha Oliveira; “A produção de textos em ambientes de escolarização e a questão da subjetividade: articulando posições teóricas”, de Danillo da Conceição Pereira; e “Os Lusíadas em quadrinhos (Fido Nesti) e os recursos da adaptação”, de Marta G. Barreto Lima. Em seguida, na seção “Ensaios”, ampliando a abertura da Barbante a outros temas, encontram-se os textos “A persistência das formas góticas na arquitetura religiosa do Rio Grande do Norte”, de Márcio de Lima Dantas; e “Escolha profissional e suas questões”, de Mirtes Veiga. Também neste número, contamos com expressiva participação de poetas. Aqui estão poemas de Alexandra Vieira, Andrade Jorge, Carol Alexandria, Erilva Leite, Eurídice Hespanhol, Gilvânia Machado, João da Mata (Damata), Jorge Ventura, José Carlos (ZeCarlinho), José de Castro, Roberto Noir, Samuel de Souza Matos e Sérgio Gerônimo, presidente da APPERJ e colaborador constante de nossa revista, que, neste número, nos contempla com um poema bilíngue. Na seção de crônicas, J. G. Pascale, com “Rima impossível”, e João da Mata, presença importante da literatura do RN que também nos brindou com um poema, ratificam o charme da crônica brasileira. Os contos “A rua onde tudo podia acontecer”, do importante escritor cabo-verdiano Kaká Barbosa, que gentilmente aceitou integrar este número da Barbante; “Sem título”, de Marcio Carvalho da Silva; e “Na Cabeça”, de Tatiana Alves assinam a presença desse gênero tão apreciado. A Literatura de Cordel também tem espaço nessa edição, que reúne “Respeito à diversidade é a nossa obrigação”, de Rosa Regis; e “O Velho, o menino e o burro”, de Gélson Pessoa, que se baseia na obra de Monteiro Lobato. Fechamos o número com o conto “O menino e o sapinho”, de Rosângela Trajano, que, marcando o hibridismo que caracteriza as produções contemporâneas, foi todo escrito em versos. São 24 quadrinhas com rimas ABCB. As ilustrações desta edição nos foram cedidas pelo professor José Ramos Coelho, cujo talento para a fotografia é fácil de constatar! Nosso agradecimento ao fotógrafo! Desejamos boa leitura a todos! Christina Ramalho Rosângela Trajano Editoras REVISTA BARBANTE - 2

[close]

p. 4

Sumário REVISTA BARBANTE - 3

[close]

p. 5

SUMÁRIO ARTIGOS UMA NOVA GEOGRAFIA HUMANA UNIVERSAL – NOGEHUN Vera Duarte 7 QUESTÕES CONTEMPORÂNEAS SOBRE O SER OU NÃO SER DA CRÍTICA LITERÁRIA Christina Ramalho 9 UM OLHAR SOBRE O POEMA CANÇÃO, DE CECÍLIA MEIRELES: EM BUSCA DE SENTIDOS NO TEXTO Ana Cláudia Silva Fontes 21 AS CARTAS DA SÓROR ALCOFORADO E A POESIA DE BOCAGE: REFLEXÕES SOBRE O AMOR Edna Caroline Alexandria da Cunha Oliveira 29 A PRODUÇÃO DE TEXTO EM AMBIENTES DE ESCOLARIZAÇÃO E A QUESTÃO DA SUBJETIVIDADE: ARTICULANDO POSIÇÕES TEÓRICAS Danillo da Conceição Pereira Silva 39 OS LUSÍADAS EM QUADRINHOS (FIDO NESTI) E OS RECURSOS DA ADAPTAÇÃO Marta G. Barreto Lima 51 ENSAIOS A PERSISTÊNCIA DAS FORMAS GÓTICAS NA ARQUITETURA RELIGIOSA DO SERTÃO DO RIO GRANDE DO NORTE Márcio de Lima Dantas 71 ESCOLHA PROFISSIONAL E SUAS QUESTÕES Mirtes Veiga 78 POESIAS HORIZONTE - Alexandra Vieira 83 APERREIO - Carol Alexandria 84 ESPERA - Erilva Leite 85 ACEITAÇÃO – Eurídice Hespanhol 86 CANÇÃO DE AMOR PARA UM ETERNO NAMORADO – Eurídice Hespanhol 87 QUARTO CRESCENTE – Gilvânia Machado 88 VELHA FOTOGRAFIA – Gilvânia Machado 89 COSE CHE ABBIAMO IN COMUNE COM ZYGMUNT BAUMAN – João da Mata (Damata) 90 LIBERTAÇÃO – Jorge Ventura 91 INTERIORES – Jorge Ventura 92 REVISTA BARBANTE - 4

[close]

p. 6

“CAZUZA E CRISTO” – José Carlos (ZéCarlinho) 93 GÊNEROS – José de Castro 95 MULTIPLICAÇÃO – José de Castro 96 DESEJOS DIVINOS – Roberto Noir 97 CTRL+C, CTRL+V – Samuel de Souza Matos 98 MEU ERRO – Samuel de Souza Matos 99 QUIJOTE – Sérgio Gerônimo 100 QUIXOTE – Sérgio Gerônimo 101 DESENCANTO – Andrade Jorge 102 REDENÇÃO – Leonardo Bezerra 103 CRÔNICAS DA MASTURBAÇÃO João da Mata 115 RIMA IMPOSSÍVEL J. G. Pascale 116 CONTOS A RUA ONDE TUDO PODIA ACONTECER Kaká Barboza 119 SEM TÍTULO Marcio Carvalho da Silva 121 NA CABEÇA Tatiana Alves 123 LITERATURA DE CORDEL RESPEITO À DIVERSIDADE É A NOSSA OBRIGAÇÃO Rosa Regis 126 O VELHO, O MENINO E O BURRO (Baseado na obra de Monteiro Lobato) Gélson Pessoa 137 LITERATURA INFANTIL - CONTO O MENINO E O SAPINHO Rosângela Trajano 145 EXPEDIENTE 151 REVISTA BARBANTE - 5

[close]

p. 7

Artigos REVISTA BARBANTE - 6

[close]

p. 8

Uma nova geografia humana universal - NoGeHUn A new universal human geography - NUHUG Vera Duarte Nos últimos tempos, o drama da imigração clandestina tem aberto telejornais, tem sido manchete de rádios e jornais, tem objetivado a realização de inúmeras reuniões em nível nacional, regional e internacional, mas, sobretudo, tem levado a morte, o sofrimento e a precariedade a um número demasiado elevado de seres humanos, oriundos, na sua grande maioria, desta nossa África, continente de condenados da terra, no dizer impressivo de Franz Fanon. Quem não viu as fotos dilacerantes de dezenas, senão centenas, de seres humanos amontoados em precárias embarcações, tornadas navios negreiros da modernidade, que, de olhar perdido e rostos esquálidos, procuram desembarcar nas “terras da promissão”, quando essas mesmas embarcações não se transformam em cemitérios flutuantes, sem sequer um porto aonde ancorar? Na origem do problema, estão já identificadas causas como as guerras e outros conflitos armados, a má governação, a fome, a doença, a pobreza, a corrupção nas instituições públicas e privadas, a intolerância política e religiosa, os desastres naturais, todos fatores geradores de miséria e de falta de oportunidades de emprego nos países de origem. Os imigrantes são então atraídos pelos eldorados, onde supostamente irão encontrar salários mais altos, melhores oportunidades de emprego, saúde e educação, melhor comportamento entre as pessoas, estabilidade política, tolerância religiosa, relativa liberdade, características normalmente encontradas em países que gozam de boa reputação. Do muito que já se disse, sem se conseguir encontrar a solução do problema, que é extremamente complexo, importa reter que os imigrantes são, em primeiro lugar e acima de tudo, seres humanos com direitos. Além disso, há duas ou três ideias que cabe realçar, pela justeza do raciocínio que lhes está subjacente: a primeira é que há que criar condições para que as pessoas não tenham de deixar a sua terra natal em busca de poder trabalhar e viver com um mínimo de dignidade; a segunda é que há que garantir o direito de ir e vir a todos, e que os países que são demandados pelos imigrantes não podem simplesmente “barricar” as suas fronteiras, mas sim definir políticas migratórias corretas que correspondam aos seus interesses económicos mas salvaguardem os direitos humanos dos imigrantes; e a terceira é que há que reprimir o crime transnacional organizado e o tráfico de pessoas que fomenta as redes de imigração clandestina, aproveitando-se da vulnerabilidade das vítimas. A intensificação dos fluxos migratórios que tem ocorrido por razões diversas, quer económicas, políticas, humanitárias, religiosas, tem também levantado preocupações do ponto de vista dos direitos humanos, em especial a migração clandestina ou irregular, pelas violações e abusos aos direitos humanos desse grupo vulnerável a que dá azo. Muito haveria para dizer sobre este flagelo que se exponenciou no dealbar do século XXI, mas a reflexão que eu gostaria de fazer é absolutamente outra e, dando um salto no futuro, questionar se esses desesperados que procuram por todos os meios deixar os seus países de origem para chegar às terras prometidas da Europa e da América, não serão, afinal, os pioneiros de uma nova ordem universal em que a mobilidade, enfim erigida em direito inalienável, irá determinar uma emergente comunidade mundial de maior mestiçagem, de maior tolerância, REVISTA BARBANTE - 7

[close]

p. 9

que possa promover uma distribuição mais equitativa da riqueza dentro e entre as nações e resultar na erradicação da pobreza como um imperativo ético. Ampliando este fenômeno para a emigração tradicional que já ocorre no mundo e para o expatriamento, de ocorrência frequente na atualidade, teríamos mais africanos na Europa, mais latinos na África, mais americanos na Ásia, mais asiáticos na África, mais europeus na Austrália, ou seja, cada continente terá uma maior percentagem de gente oriunda de outros continentes, o que irá gerar, necessariamente, um novo diálogo entre culturas e a tal nova geografia humana universal mais tolerante que ativamente desejamos. Não seria a primeira vez que a África e os africanos protagonizariam movimentos do tipo. Relatos históricos dão-nos conta de que a África tem como singularidade absoluta o facto de os seus povos autóctones terem sido progenitores de todas as populações do planeta, o que faz do continente africano o berço da humanidade. Segundo alguns historiadores, a população humana ancestral que deixou o continente africano pela primeira vez, há aproximadamente cem mil anos, tinha apenas dois mil indivíduos e migrou progressivamente para os outros continentes, atingindo a Ásia e a Austrália há quarenta mil anos, a Europa há cerca de trinta e cinco mil anos e, finalmente, a América há dezoito mil anos. Outra singularidade haveria de marcar o continente africano com tremendas repercussões no seu destino e determinando a África com as vulnerabilidades que tem hoje: trata-se da escravidão racial e do tráfico transoceânico de seres humanos em grande escala. Efetivamente, durante cerca de um milénio, o continente africano foi transformado em verdadeiro terreno de caça humana e as deportações massivas de africanos foram metodicamente organizadas desde o século VIII, primeiro pelos árabes do Médio Oriente e, a partir do século XV, pelos povos da Europa Ocidental, que realizaram, através do oceano Atlântico, um horrendo, devastador e humilhante tráfico negreiro. O impacto negativo da escravidão e do tráfico negreiro sobre o desenvolvimento do continente foi catastrófico e está na génese de grande parte dos males com que a África se debate atualmente, maxime o drama da imigração clandestina. Seria, no mínimo desejável que, ao menos por uma vez, se pudesse encontrar a solução para um problema que aflige a humanidade com um pouco menos de sofrimento e dor para uma parcela já muito maltratada dessa mesma humanidade na circunstância a africana. Acreditamos, assim, que uma nova geografia humana universal está emergindo silenciosamente dos fenómenos supracitados e propugnamos ativamente que esse encontro se realize sem os preconceitos de superioridade racial, cultural e civilizacional que até agora vêm enformando as relações entre os povos. Cada protagonista, na posse da sua língua e da sua cultura, estabelecerá um diálogo com o outro na medida de suas especificidades e em estatuto de igualdade. Na minha concepção, esta é a nova geografia humana universal. Em consonância com a sigla NoGeHUn, somos todos UM. Praia, 9 de Julho de 2015. REVISTA BARBANTE - 8

[close]

p. 10

QUESTÕES CONTEMPORÂNEAS SOBRE O SER OU NÃO SER DA CRÍTICA LITERÁRIA Christina Ramalho (UFS) O facto de a verdade ser, segundo Nietzsche, um ‘valor que se dissolve’, não pode deixar de se relacionar com o fenómeno que se designa como ‘morte de Deus’, uma vez que é com ele que se introduz a suspeita em relação ao sentido último, à existência de um lugar exterior ao mundo, no qual o cientista se podia colocar à semelhança de Deus, tomando o seu olhar pelo olhar deste. Surge, assim, a necessidade de se encontrar uma verdade que não seja nem objectiva, nem subjectiva, no sentido que damos a estas palavras quando falamos de uma concepção de verdade como adequação ou da verdade construída com base de projecções subjetivas. A verdade não pode partir de um olhar exterior ao mundo, mas apenas formar-se no interior deste. (SILVINA RODRIGUES LOPES, 1994, p. 86) O pensamento teórico-crítico acerca da literatura tem sua origem na busca por respostas a questões que estão permanentemente a pôr em xeque formulações que não conseguem e jamais conseguirão abarcar a “verdade do texto” como sentido uno e fechado em si mesmo. Não há, inclusive, motivo para a instauração de uma verdade, já que a ambiguidade é o que faz a arte ser arte, ou seja, um texto crítico, sendo metalinguagem, absorve a natureza do objeto ao qual se refere. Assim, a “verdade científica” no campo da literatura tem que se assumir ambígua, polissêmica, aberta, ainda que científica ou sistemática como forma de investigação, pois a Verdade, em si mesma, é uma abstração ilegível. Não há, pois, uma “funcionalidade” na obtenção de respostas para as questões literárias. Há, sim, um processar de questionamentos que, por sua vez, tornam-se fontes geradoras de pensamentos tais que engrandecem ainda mais o leque de possibilidades de leitura que o texto literário oferece, indiscriminadamente, ao leitor, e que cada leitor gerencia discriminadamente a partir de seu próprio pensamento. Aqui, relaciono algumas das questões mais comuns que a crítica literária costuma discutir, com o objetivo de propor um reprocessamento dos questionamentos de modo a possibilitar que o próprio texto crítico seja um valorizador da ambiguidade do literário. Para atingir o objetivo, relacionarei, no decorrer das reflexões, os pensamentos de diversos teóricos e críticos, nacionais e internacionais, que representam tendências relativamente recentes ou mesmo contemporâneas de abordagem literária. É claro e indispensável, entretanto, que um pensamento resulte de escolhas que se fazem no decorrer do encaminhamento de certas formulações. Estabelecer o “lugar de onde se fala”, muito mais que um posicionamento político-ideológico, é uma necessidade do pensamento coerente, ainda que este verse sobre a própria incoerência como fator para as mutações que o mesmo pensamento sofre no decorrer da existência do homem. Portanto, ser coerente não significa ser absoluto, significa apenas ser portador de uma construção engajada de idéias que, em determinado momento, são inscritas no arcabouço de nossa bagagem crítica pessoal. Vamos às questões. 1. Literariedade Minha opinião é que seria mais útil ver a “literatura” como um nome que as pessoas dão, de tempos em tempos e por diferentes razões, a certos tipos de escrita, dentro de um campo daquilo que Michel Foucault chamou de ‘práticas discursivas’, REVISTA BARBANTE - 9

[close]

p. 11

e que se alguma coisa deva ser objeto de estudo, este deverá ser todo o campo de práticas e não apenas as práticas por vezes rotuladas, de maneira um tanto obscura, de “literatura” (EAGLETON, 1983, p. 220) O ser ou não ser da questão literariedade ainda está conceitualmente relacionado à categoria de juízo de valor implícita na palavra “crítica”. Não existe uma “instância superior” à qual se possa atribuir a função de qualificar e inscrever um texto na categoria de “arte”; há, entretanto, uma série de relações, como: história e literatura; gêneros e literatura; sociedade e literatura e etc., às quais um texto é submetido e que acabam por definir sua “literariedade”. Além dessas relações, por assim dizer, externas, há também as implicações das relações internas, que dinamizam a condição de produção de sentido do texto, inscrevendo-o, ou não, no literário. Assim, como resultado das articulações das relações externas e internas que interagem com e no texto, recolhe-se a sua “literariedade”. A dedução, feita a partir da definição de literatura como uma escrita altamente valorativa, de que ela não constitui uma entidade estável, resulta do fato de serem notoriamente variáveis os juízos de valor (EAGLETON, 1983, p. 226). Contudo, não se pode neglicenciar o fato de que, seja no âmbito das relações internas, seja no âmbito das relações externas, a “literariedade” conferida resulta num status em que está implícita a categoria “valor” e, sendo esta categoria mutável e, principalmente, “manipulável” pela ideologia, torna-se infecundo para a crítica literária insistir em transitar pelo campo da “verdade”. Por outro lado, não existe uma necessidade premente de se discutir a literariedade de um texto, uma vez que ela flui a par das predisposições conceituais de estética, principalmente por ser o conceito de estética, um conceito pós-texto, também renovável e mutante. Acerca deste tema, diz Silvina Rodrigues Lopes: No núcleo de qualquer problema de legitimação está a questão “O que é?”, que pode ser considerada tanto do ponto de vista da investigação das essências, como do da investigação das funções. A primeira, tradicionalmente atribuída à filosofia, à qual compete fundar e delimitar disciplinas e instituições - circunscrevê-las garantindo a identidade dos seus objetos, assinalar-lhes uma origem - tem sido, no que se refere à literatura, um dos objetivos da teoria literária. A segunda, a investigação da função, não pertence apenas à filosofia ou à teoria literária, mas também a outras disciplinas como a crítica da cultura, a crítica literária, a sociologia, etc./.../ Mas há um outro aspecto fundamental a ter em conta: a literatura como algo não-situável faz vacilar as interrogações sobre a essência e a função em geral, o que não quer dizer que as destitua ou lhes retire pertinência, mas, sim, revela a precariedade de qualquer circunscrição (LOPES, 1994, p. 18) A meu ver, considerando-se a “precariedade de qualquer circunscrição”, problematizada por Lopes, torna-se mais eficaz redimensionar o lugar da legitimação do texto como literário, deixando que seja o próprio texto, posto em relação com o leitor, o agente para a sua legitimação. Entretanto, e de forma paradoxal, o crítico não pode abster-se de um posicionamento político e, ainda que ciente da institucionalização do literário, e desejoso de fazer oposição a essa institucionalização, também não pode perder-se do objetivo principal da crítica que é contribuir para “a emancipação humana, para a produção de homens melhores” (EAGLETON, 1983, p. 210). E tal objetivo só se concretiza com a prática dessa crítica. Assim, ao relacionarmos os diferentes aspectos que atribuímos às relações externas e internas que constróem ou configuram o processo de legitimação em literatura, estamos apenas buscando uma postura que, sem perder seu objetivo de promover transformações, defina uma estratégia de abordagem. REVISTA BARBANTE - 10

[close]

p. 12

As teorias literárias não devem ser censuradas por serem políticas, mas sim por serem, em seu conjunto, disfarçada ou inconscientemente políticas; devem ser criticadas pela cegueira com que oferecem como verdades supostamente ‘técnicas’, ‘auto-evidentes’, científicas’ ou ‘universais’, doutrinas que um pouco de reflexão nos mostrará estarem relacionadas com, e reforçarem, os interesses específicos de grupos específicos de pessoas, em momentos específicos (EAGLETON, 1983, p, 210). No âmbito das relações externas, postas em prática pelo exercício da crítica são múltiplos os indícios que inscrevem um texto no literário, tais como: a capacidade de sintonizar-se com outros textos literários sincronicamente, pela concepção, e de forma diacrônica, pela evolução; a capacidade de dialogar “simbolicamente”, ou seja, através de construções sígnicas simbólicas e/ou alegóricas, com pensamentos sociológicos, psicanalíticos, antropológicos, lingüísticos, históricos, etc.; a capacidade de dialogar com todos esses pensamentos atemporalmente; a capacidade de transgredir o espaço, o tempo e a língua, universalizando-se; a capacidade, enfim, de escapar à razão e dialogar com a loucura. Segundo Foucault, “A loucura começa ali onde se perturba e se obnubila o relacionamento entre o homem e a verdade” (1987, p. 241). Não seria esta uma visão possível da própria literatura? Concluindo a visita ao tema literariedade, não posso deixar de enfatizar ser esta uma questão um tanto quanto elitizada. Afinal, quem, senão aqueles que fazem da literatura uma profissão, seja no campo da criação, seja no campo da crítica, têm interesse na fundamentação de um corpus identificável como literário? Fundamentado o “literário” dessa forma, segundo J. Culler, poderíamos concluir que a literatura não é senão aquilo que uma dada sociedade trata como literatura: isto é, o conjunto de textos que os árbitros da cultura ¾ os professores, os escritores, os críticos, os acadêmicos ¾ reconhecem como pertencendo à literatura (CULLER, 1995, p. 46). No entanto, sabemos que a literatura, ou o texto literário, é muito mais do que um corpus crítico, é um corpus “do dispêndio”, um corpus de fruição e prazer, logo, muito menos do que uma tentativa de avaliar a literariedade do texto escolhido, este estudo, processando a questão literariedade, instaura e dinamiza a crítica à crítica, dinâmica esta que talvez possa nos desembaraçar do elitismo e nos projetar no agradável prazer da rescrita. A título de conclusão, e de possível advertência, cito Eagleton, mais uma vez: Uma das razões pelas quais precisamos investigar a dinâmica do prazer e do desprazer é a necessidade de sabermos qual o volume de repressão e de adiamento da satisfação uma sociedade pode tolerar; como o desejo pode ser desviado de finalidades que consideramos dignas para outras que o menosprezam e degradam; como homens e mulheres concordam por vezes em tolerar a opressão e a indignidade, e em que pontos essa submissão pode falhar (EAGLETON, 1983, p.208). Talvez seja a hora de se ampliar o corpus e, por que não, as mentes. 2. Sujeito e Autoria Sujeito e autoria instauram duas categorias que podem ser distintas ou não, dependendo da abordagem que se dá aos termos. Segundo Wladimir Krysinski, REVISTA BARBANTE - 11

[close]

p. 13

Etmologicamente, o sujeito remete para o termo subjectus, particípio passado do verbo subjicere cujos diferentes sentidos convergem na idéia de submissão, de subordinação e de sujeição. O sujeito é assim determinado por uma ação que lhe é exterior e à qual ele tem de se submeter (KRYSINSKI, 1995, p. 289). Um texto literário é decorrente de uma ação — a de escrever, logo, podemos concluir que um escritor ou sujeito-autor, apesar de agente, está subordinado à escrita, ou sobredeterminado pela lógica própria do texto enquanto obra, embora seja, obviamente, um elemento fundamental para a existência da própria obra. Não há dúvida de que o sujeito é um agente primordial da obra, que nela está representado, que é uma de suas componentes fundamentais (KRYSINSKI, 1995, p. 290). Seguindo, ainda, essa visão, reforço a idéia de que o sujeito/agente/autor está “representado” na obra e que, por ser uma representação, não poderia mais ser compreendido no seu caráter de ser histórico, ainda que se levasse em conta as facetas eu, consciência, pessoa, inconsciente, interioridade, identidade, ideologia, etc., pois tudo isso remonta a esse “autor/ser histórico”. Contudo, ao nos depararmos com a seguinte afirmativa de Baudelaire É um prazer muito grande e muito útil o de comparar os traços de um grande homem com as suas obras. As biografias, as notas sobre os costumes, os hábitos, o físico dos artistas e dos escritores sempre provocaram uma curiosidade bem legítima. Quem não procurou algumas vezes a acuidade do estilo e a clareza das idéias de Erasmo no gume de seu perfil, o calor e o rumor de suas obras na cabeça de Diderot e na de Mercier, onde um pouco de fanfarrice mitura-se com a bonomia, a ironia obstinada no sorriso persistente de Voltaire, sua máscara de combate, a potência de comando e de profecia no olho lançado ao horizonte, e a sólida figura de Joseph de Maistre, águia e boi ao mesmo tempo? Quem não se esforçou para decifrar a Comédia Humana na fronte e no rosto potentes e complicados de Balzac (BAUDELAIRE, 1993, p. 25). Seríamos no mínimo desonestos se não nos confessássemos curiosos acerca de informações que nos façam conhecer um pouco sobre a pessoa do autor. E, sabedores de detalhes acerca da biografia deste ou daquele autor, também não podemos deixar de confessar que nos parece , ou já nos pareceu em determinada época, instigante a aventura de, como um detetive, buscar no texto resquícios da pessoa do autor, como se pudéssemos, ao final, dizer: “Ah... ele escreveu isso porque passou por aquilo...”, ou “Ah... isso ele só escreveu porque leu aquele outro, ou então porque tinha aquele problema...” Essa atitude, entretanto, é decorrente muito mais de uma necessidade, de certa forma patológica, de se desconstruir a figura mítica do artista, tanto que é uma atitude comum também em relação a atores, compositores, pintores e etc., do que uma instância para melhor compreensão do texto ou da arte em si. Contudo, excluída obviamente a hipótese da “patologia”, que, apesar de merecer uma boa investigação da psicanálise ou da sociologia, não é objeto de interesse deste estudo, podemos considerar que, sob certo aspecto, a biografia de um autor permitenos fazer certas correlações entre o residual ideológico que, por algumas vezes, podemos extrair de um texto literário. Essa visão, porém, só é possível se considerarmos que a literatura pode refletir uma voz engajada, principalmente aquelas produções literárias que são frutos de períodos onde a militância política da classe artística e intelectual é representativa. Há, entretanto, que se tratar esse tipo de abordagem do texto como uma investigação crítica muito específica, que em nada sobredetermina a neutralidade da escrita. E escrita é esse neutro, esse compósito, esse oblíquo para onde foge o nosso sujeito, REVISTA BARBANTE - 12

[close]

p. 14

o preto-e-branco aonde vem perder-se toda a identidade, a começar precisamente pela do corpo que escreve (BARTHES, s/a, p. 53). É inegável a pertinência da visão de Barthes, mas, da mesma forma, é inegável a veracidade da afirmação de Baudelaire. O que vai, por isso, importar para a melhor compreensão da questão sujeito/autoria é a inscrição da mesma em dois campos distintos: o campo da construção textual e o campo da desconstrução textual. ...o scriptor moderno, tendo enterrado o Autor, já não pode portanto acreditar, segundo a visão patética de seus predecessores, que a sua mão é demasiado lenta para o seu pensamento ou a sua paixão,e que em conseqüência, fazendo uma lei da necessidade, deve acentuar esse “atraso” e trabalhar indefinidamente; para ele, ao contrário, a sua mão, desligada de toda a voz, levada por um puro gesto de inscrição (e não de expressão), traça um campo sem origem ¾ ou que, pelo menos, não tem outra origem para lá da própria linguagem, isto é, exatamente aquilo que repõe incessantemente em causa toda origem (BARTHES, s/a, p. 51). Partindo desse pensamento de Barthes, entendemos que o sujeito/autor da escrita relacionase à construção da mesma, ou seja, o escritor é o arquiteto do texto e nele imprime não sua personalidade histórica, mas sua personalidade artística. Assim, ao se investigar o processo de construção do texto, que, chamo de “investigar as condições de produção do signo literário”, não poderemos inserir na análise uma “identidade autoral histórica” que é externa ao processo. Além do que, segundo Eagleton, “A intenção de um autor é, em si mesma, um ‘texto complexo’, que pode ser debatido, traduzido e interpretado de várias maneiras, como qualquer outro” (1983, p. 75). Sendo a arte uma manifestação do homem, um autor é um canal semiotizante, um “narrador semiótico” (Idem, ibidem) que, no momento da criação, perde sua identidade histórica para que, integrandose ao criado, torne possível o esvaziamento do signo realidade em prol de um signo artístico, ou, neste caso, literário. Daí, a suposta condição neutra da escrita, preconizada por Barthes e que, a nosso ver, predispõe o texto literário a uma “adoção simbólica” pelo leitor. Assim se revela um o ser total da escrita: um texto é feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar em que essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se tem dito até aqui, é o leitor: o leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade de um texto não está na sua origem, mas no seu destino, mas este destino já não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história, sem biografia, sem psicologia: é apenas esse alguém que tem reunidos num mesmo campo todos os traços que constituem o escrito (BARTHES, s/a, p. 53). Por esse ângulo, podemos compreender que o sujeito da leitura, ao processá-la agora por meio da desconstrução, torna-se também autor, um novo sujeito para uma nova escrita, gerada pela leitura e não mais neutra, pois foi, agora sim, contaminada por uma individualidade, embora essa “individualidade” seja metonímica, ou representativa de uma coletividade de idéias a partir das quais se processa a leitura. O leitor, portanto, não pode ser uma categoria individualizada já que nela insere-se todo e qualquer sujeito da leitura, ou seja, todo e qualquer sujeito “submetido” à ação de ler. E, por um processo de reação, o ler gerará o “rescrever”, ainda que essa “rescrita” esteja manifesta apenas empiricamente no “não-escrito”. A existência de um texto não escrito resultando de uma leitura deixa-nos compreender melhor a sobredeterminação sofrida pelo sujeito/autor como agente do REVISTA BARBANTE - 13

[close]

p. 15

texto/escrita. Ao mesmo tempo, e por correlação de idéias, podemos entender o ensaio literário como a concretização lingüística dessa “rescrita” abstrata. O texto lido, contudo, não abarca o texto escrito anterior, este continua neutro e aberto a um sem número de sujeitos da leitura e potenciais “novos autores”. Do mesmo modo, o ensaio literário, como objeto de leitura, ganha uma neutralidade e se abre para outros sujeitos da leitura, num processo dinâmico e infindo. Também podemos afirmar que nem todo sujeito da leitura torna-se um autor em potencial, já que sabemos ser possível ler sem interceder, sem interagir. É a leitura vazia, o não-ler, problemática importante principalmente para a área educacional. A partir do raciocínio desenvolvido, temos ainda que levar em consideração duas diferentes relações entre sujeito e escrita. A questão sujeito da escrita problematiza a criação e a recepção do texto literário, ou seja, sobre o sujeito da escrita incide um sujeito estético. Já a questão sujeito na escrita relaciona-se à subjetividade no texto, internalizada na construção, tematicamente, o que é diferente da subjetividade do texto, externalizada na desconstrução crítica pelas correlações com outros códigos. A subjetividade no texto relaciona-se ao que foi dito anteriormente acerca do residual ideológico (psicológico, filosófico, etc.), proveniente de uma corrupção no esvaziamento do autor/ser histórico durante o processo de criação, que emana de alguns textos. Segundo Krysinski, a isotopia do sujeito torna-se central em certos textos poéticos ou narrativos de primeira importância como os de Santo Agostinho, Petrarca, Leopardi, Höderlin, Baudelaire, Pessoa, Artuad, Celam, Clarice Lispector... O sujeito em posição assumptiva tematiza a sua demanda de identidade, o seu eu e a sua interioridade, tal como o seu inconsciente (KRYSINSKI, 1995, p. 303). Da mesma forma, a presença da subjetividade no texto acaba respaldando a literariedade das autobiografias, dos diários íntimos, das memórias e das biografias em geral. Entendo, assim, que a “simbólica do autor” acaba tornando-se a “simbólica do sujeito”, já que, por sua morte, esvazia-se o termo “autor” ganhando um sentido mais ambíguo a figura do sujeito, uma vez que este compreende semanticamente categorias como autor, leitor, identidade, subjetividade, eu, enunciação, etc., ficando o termo “autoria” restrito principalmente ao campo da investigação histórica, em que a história literária abarca o inventário de tudo aquilo que foi escrito, publicado, lido e também o estudo da “vida literária”, isto é, de todo o contexto biográfico da escrita, quer individual, quer coletivo; e de tudo aquilo a que hoje chamaríamos o campo e a instituição literários (KUSHNER in ANGENOT, 1995, p. 153). Concluo, ainda com Krysinski, quando diz que: ...o paradoxo do sujeito quer que, sob formas diferentes, empíricas, sociais, filosóficas, ele possua um modo de existência polivalente, ou até mesmo ambígua, e não possa escapar a interpretações cujos parâmetros confirmam a instabilidade da relação entre o observador e o sujeito, seja este uma personalidade, um eu, uma interioridade ou um inconsciente (KRYSINSKI, 1995, p. 292). 1.3 Análise e Interpretação Os pensamentos abaixo transcritos revelam haver, em relação ao fenômeno da leitura, divergências conceituais e empíricas acerca da forma através da qual um texto deve ser abordado: REVISTA BARBANTE - 14

[close]

Comments

no comments yet