Arte e espaço - uma situação política do século XXI

 

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Publicação digital - Inspire/EAD

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Bruno Oliveira Maria Helena Cunha Natacha Rena [Orgs.] uma situação política do século XXI

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A DUO Editorial tem um enorme prazer em apresentar, em meios digitais, a publicação Arte e Espaço: uma situação política do século XXI, um dos importantes resultados de organização do conteúdo do curso homônimo realizado em 2014. Tivemos a oportunidade de contar com três alunos estrangeiros e com representantes de dezoito estados das cinco regiões brasileiras, o que enriquece o debate com visões de diversas realidades do País. A Região Sudeste abarca um número considerável de inscritos (75%) em função de estarmos sediados em Belo Horizonte (MG), e realizamos o curso por meio da legislação municipal de incentivo à cultura, que nos levou ao compromisso de considerarmos, em percentuais, um número maior de vagas para a cidade e para o estado de Minas Gerais. No entanto, já na construção inicial da ideia do curso, baseados na lógica da educação a distância e na possibilidade de ampliação do espaço virtual, prevíamos dentro dos critérios de seleção um percentual de vagas que abarcasse pessoas de outras localidades e realidades diversas, incentivando a discussão e a construção coletiva do conhecimento capaz de gerar esta publicação ao final dos trabalhos. Dessa forma, a própria estruturação deste curso já nasceu com a perspectiva de publicar seus resultados, levando à organização dos conteúdos produzidos pelos professores e pelo conteúdo gerado durante a sua realização no fórum de discussão, ampliando exponencialmente seu alcance e sua capacidade de multiplicação e reverberação para um grande público. Esta iniciativa significa ampliar a capacidade de circulação de conhecimentos específicos para além dos alunos que tiveram a oportunidade de acesso gratuito ao curso, contribuindo para suprir uma deficiência no campo editorial de arte e cultura na contemporaneidade. Por fim, destacamos que, para a realização de projetos voltados para a formação cultural, estruturada em um curso a distância e em uma publicação on-line, de amplitude nacional, é preciso o desenvolvimento de um trabalho articulado e cooperativo, o que leva à construção de parcerias permanentes e propositivas. Por esse trabalho precisamos agradecer a todos os parceiros, patrocinadores, apoiadores, produtores, monitores, técnicos, professores, coordenadores e, principalmente, aos alunos participantes, que justificam nosso empenho e nosso trabalho. Maria Helena Cunha DUO Editorial 3

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Reconsiderar as possibilidades da arte e sua relação com o espaço é um importante desafio que nos apresentam a contemporaneidade e as variadas faces do século XXI. Num tempo de contradições cada vez mais latentes e alto desgaste de vários modelos institucionais estabelecidos, estamos diante de uma sociedade que recusa os limites estabelecidos, sejam eles físicos, geográficos, ideológicos ou de identidade. Não por acaso, os movimentos sociais e culturais assumem, deliberadamente, inúmeros papéis, não apenas reafirmando sua posição histórica de enfrentamento da ordem estabelecida. Ponto nevrálgico da crítica, esses movimentos superam o lugar da oposição para se assumirem como protagonistas estratégicos de uma reconfiguração espacial, econômica e criativa em andamento. Nesse sentido, discutir as múltiplas dimensões, dissonantes ou não, da estreita relação entre arte e espaço numa perspectiva política torna-se fundamental para o entendimento da livre expressão neste século. E, para além da reflexão, esta publicação se oferece como ponto de referência em que se estabelecem diálogos primordiais para esta e futuras gerações. Este livro apresenta o registro material das discussões entre artistas plásticos, educadores, arquitetos e designers, durante o curso a distância Arte e Espaço: uma situação política no século XXI, da DUO Editorial. No entorno das várias temáticas abordadas, direta e transversalmente, a oportunidade de realimentar de forma contínua o sentido crítico, a visão multidisciplinar e o fortalecimento da cultura por viés diferenciado e transformador, que transcende o fomento como único fator relevante à cadeia produtiva. Solanda Steckelberg Superintendente de Cultura do Banco Bonsucesso 5

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9 15 22 76 100 128 154 174 199 Apresentação Prefácio Reginaldo Luiz Cardoso | Ricardo Macêdo Arte espaço e biopolítica Natacha Rena Arte, espaço e comunidade: modos de endereçamento e produção de singularidade Simone Parrela Tostes Arte e cotidiano: aproximações táticas Paula Bruzzi Berquó Isabela Prado Arte contemporânea, texturas, território Relações entre arte e tecnologia: traços históricos e desdobramentos atuais Eduardo de Jesus Artesanias do desejo Marcela Silviano Brandão Lopes Apontamentos sobre educação a distância e construções coletivas de conhecimento: a experiência do curso arte e espaço – uma situação política do século xx Patricia Faria | Maria Helena Cunha

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arte, espaço e política Este projeto Arte e Espaço: uma situação política do século XXI, apresentado nesta publicação on-line, acontece em um momento de amplo desenvolvimento de práticas interdisciplinares e indisciplinares no campo das artes e do ativismo urbano brasileiro. Para abordar essa temática criou-se, primeiramente, o uso de uma plataforma on-line que pudesse ativar discussões envolvendo a arte em seu campo expandido, como um modo constitutivo de espacialidades múltiplas, que possibilite a ampliação democrática do uso das cidades, assumindo a diversidade como presença ética fundamental para a ampliação das relações sociais e políticas territoriais. Foi objetivo desta iniciativa, entre pesquisadores e professores do Indisciplinar, profissionais da Inspire e outros parceiros, a constituição de um campo teórico que abordasse a potência presente no cruzamento da arte com ações políticas, produzindo novos campos de conhecimento, assim como formas híbridas de produção de modos de vida no território.   Aposta-se que há  um novo sujeito político multitudinário (nem povo, nem massa) que se recusa a participar como artista em processos que, de forma neutra ou alienada, possam simplesmente colaborar com a construção de espaços neoliberais produzidos pelo capitalismo global.  A ideia dessa proposta (que agregou um curso a distância on-line e esta publicação digital colaborativa) foi incentivar a constituição de uma cartografia composta por ações artísticas, ou estéticas, fortemente atravessadas por conteúdos políticos ativados por uma subjetividade que deseja explicitamente democracia real. Para traçar 9

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essa cartografia buscaram-se alguns eixos temáticos que pudessem criar platôs nos quais surgissem trabalhos e ações que fossem contaminados pelo desejo (do artista ou dos coletivos) de produzir de maneira menos autoral e mais colaborativa, muitas vezes anônima, configurando intervenções espaciais mais políticas ou, até mesmo, ativistas. Observa-se e experimenta-se a existência de uma condição criativa e de produção em redes ubíquas que acontecem de forma mais horizontal, produzindo espacialidades que possibilitam a existência de resistências positivas e afetivas, configuradas por uma lógica que não a das vanguardas combativas. Diferentemente das vanguardas, a grande maioria das referências cartografadas existe muito mais como produção singular-plural performática, que contamina ou ativa o ato artístico-político e social por meio de ocupações efêmeras, muitas vezes festivas, anônimas ou produzidas horizontalmente. Esse processo, envolvendo participantes de todo o Brasil, acabou por configurar uma cartografia realizada de forma colaborativa a partir de textos produzidos pelos professores do curso e da plataforma EAD, o que possibilitou o diálogo cotidiano entre professores e alunos. A cada momento em que um professor assumia um módulo do curso, a proposta era que todos lessem um texto produzido pelo professor, que o finalizava com três perguntas. Ao longo de 10 dias todos comentavam, respondendo às perguntas, e isto era acompanhado por respostas e comentários de todos, inclusive do professor. Após a finalização dessa etapa, iniciou-se um trabalho de coleta dos comentários mais significativos aos olhos de cada um dos professores para que estes compusessem o conteúdo da publicação do livro digital. Todos os textos dos professores que foram usados como base para as discussões cotidianas estão aqui presentes, assim como um prefácio redigido por alguns alunos selecionados como mais ativos pelos professores e posteriormente convidados para escrever conjuntamente na organização desta publicação. Também há um texto que finaliza o livro e analisa todo o processo do curso EAD, que vem sendo adotado pela Inspire ao longo dos últimos anos. 10

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O conteúdo do curso Arte e Espaço: uma situação política do século XXI foi estruturado de maneira transversal, assumindo-se que a produção artística não está mais contida exclusivamente em uma esfera particular e limitada. Torna-se fundamental, portanto, perceber as práticas disciplinares e técnicas anteriormente associadas ao campo da arte que não mais comportam a produção multitudinária. O primeiro debate, proposto para a turma pela professora Natacha Rena sobre Arte, espaço e biopolítica, tem como base a percepção da metrópole como palco de disputa: seria nesses territórios, cujo controle dos corpos e as ações biopolíticas se articulam de maneira intensiva e estruturante, que se poderiam perceber expressões potentes de resistência para além dos conceitos de representação e identidade. O texto afirma, ainda, que “há uma construção em tempos táticos e estratégicos de resistências mundiais contra o urbanismo neoliberal, que se configura performaticamente nas ruas e nas redes, utilizando ao mesmo tempo processos destituintes (via ação direta, manifestações, ações judiciais) e constituintes (via ocupas e acampadas, produção de cultura, arte, textos, vídeos, imagens e novos modos de vida)”. O módulo seguinte, articulado pela professora Simone Parrela Tostes sobre Arte, espaço e comunidade: modos de endereçamento e produção de singularidade, se desenvolve a partir das noções de comunidade e diferença. É necessário perceber, nesse ponto, como diversas ações desenvolvidas em prol de uma ideia de comunidade são articuladas como estratégicas para interesses corporativos e institucionais. A dimensão autêntica, potente e livre do compartilhamento do comum é tanto o vetor de desvio e subversão da lógica mercadológica quanto o ponto de captura utilizado pelo capital. A ideia de participação, configurada como um processo com metas, propostas e expectativas bem definidas, é um exemplo desse esvaziamento da capacidade de criar e produzir diferença da comunidade, reduzindo a potência do outro a um receptor de comandos por parte de uma determinada ordem e determinado poder. E sendo possível, ainda assim, operar nas brechas das estruturas de controle, a partir de reinvenção e reconstrução de novas relações. 11

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Nesse sentido, a professora Paula Bruzzi, no texto Arte e cotidiano: aproximações táticas, discorre sobre as práticas comuns e a dimensão política: o cotidiano, em contraponto a um domínio estratégico da vida, se articula a partir de uma potência tática, sem limites de dentro e fora. Ao rastrear diversas iniciativas de apropriação das superfícies urbanas, das ocupações coletivas e graffitis anônimos à produção dos iconoclassistas, podemos encontrar iniciativas que não se reduzem a lógicas de achatamento da pluralidade e das diferenças, e contribuem para a ativação de redes de partilha de um mundo comum. Em Arte contemporânea, texturas, território, a professora Isabela Prado contextualiza o debate sobre especificidade e orientação aos sites no campo da arte. Nessa perspectiva torna-se necessário considerar o território com suas dimensões tanto simbólicas quanto materiais: ao apresentar obras de artistas como Gabriel Orozco, Mona Hatoum, Cildo Meireles e Francis Alÿs, pode-se perceber maior complexidade no debate desse lugar da arte em relação às ordens de homogeneização do território e à crítica institucional. O penúltimo módulo do projeto propõe uma discussão sobre as interações entre a tecnologia e o campo da arte. Relações entre arte e tecnologia: traços históricos e desdobramentos atuais, do professor Eduardo de Jesus, constrói um panorama dessas aproximações, desde os procedimentos fotográficos aos instrumentos de comunicação a distância e às redes sociais. Também relevante é o processo de subversão desses instrumentos e seus usos como suportes artísticos por artistas como Marcel Duchamp, Walter Ruttman e René Clair. Com os novos suportes e processos artísticos, desestruturando-se as formas tradicionais das obras de arte, “tornou-se necessário reivindicar outras formas de compreensão” para as mesmas: provocavam outro tipo de experiência, ainda mais complexa, do mundo e da arte. Por fim, em Artesanias do desejo, a professora Marcela Silviano Brandão discute as expressões menores das respostas cotidianas, “subversivas em relação àquelas designadas pela ciência”. Em contraponto à técnica e às construções de saberes 12

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maiores, a experiência cotidiana se apresenta como um escape a um sistema político-corporal conformado pelo capitalismo cognitivo. “O que é produzido [...] não são apenas bens materiais, mas relações sociais e formas de vida concretas” (NEGRI; HARDT, 2005, p.135). Alerta, ao final, para os riscos de captura por processos de capitalização da experiência e da vida: constituir linhas de fuga torna-se, portanto, um exercício essencial. Em tempos de capitalismo cognitivo, criativo, flexível, conseguiu-se levantar, durante todo o processo, uma miríade de ações potentes que constituem os espaços das cidades em seu cotidiano. Acreditando-se que, principalmente nas metrópoles contemporâneas, detectam-se práticas biopolíticas glocais que acabam por gerar ações portadoras de experiências biopotentes e de estruturas que se instauram para além dos limites do público e do privado, ou seja, dentro de uma possibilidade de imaginar-produzir o espaço passando pela produção intensiva do comum. A lógica seria a de um pensamento a partir de um ser-em-comum que não possui relação com o sentido de comunhão ou com uma identidade que é única e exclusiva, mas com a exata inexistência de um discurso homogeneizador e o próprio compartilhamento da ausência deste fundamento. Finalmente, incentivou-se pensar a importância da arte como vetor fundamental na configuração desses espaços contemporâneos a partir do encontro com temas envolvendo política, comunidade, modos de fazer do cotidiano (design e artesanias), tecnologia e território urbano. Portanto, esperamos que esta publicação possa contribuir para a ampliação do debate que intencione ativar e ampliar o caráter político e transformador da arte conectada ao território em constante disputa. Bruno Oliveira Natacha Rena 13

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Querida imaginação, o que amo, em ti, é que não perdoas. (André Breton) Etimologicamente, prefácio vem do latim, praefatio, que significa preâmbulo, prólogo, aquilo que se diz no princípio. Indo mais longe, Otto Maria Carpeaux, em seu ensaio O artigo sobre os prefácios, chegou ao ponto de dizer que o prefácio tinha alcançado foro de gênero literário independente. Isso é uma verdade se formos ao Prefácio Interessantíssimo, que Mário de Andrade fez, em 1921, para sua obra Paulicéia Desvairada. Lá, um dos pais do modernismo brasileiro abre o prefácio declarando que estava fundado o “desvairismo”. Isso em um momento em que ninguém compreendia bem o que era o dadaísmo, o surrealismo procurava seus rumos, o cubismo era visto com espanto e inúmeros outros “ismos” ainda estavam por se fazer. Mas, afinal, de que se tratava tal “desvairismo”? De uma proposta de abordagem artística, a qual, rompendo com as categorias aristotélicas da natureza — a matéria, a energia, o espaço e o movimento —, procurava preencher as lacunas do mundo de maneira sincrônica. Essa visão viria a estar muito próxima daquela desenvolvida por Anne Cauquelin, já na virada do segundo milênio, decupada dos estoicos — filósofos pós-aristotélicos — e na qual define os incorporais: o tempo, o lugar, o vazio e o exprimível. É através dessa abordagem que Cauquelin acredita que possamos discutir, com melhor chave de percepção, a Arte Contemporânea, toda aquela criada 15

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