Pensar(es)

 

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Revista Pensar(es) do agrupamento de Escolas João de Araújo Correia - Peso da Régua

Popular Pages


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ensar(es) 1999-2015 Revista Escolas | João de Araújo Correia Nº 20 - Maio 2015

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Escolas | João de Araújo Correia «Deparou-se-nos há dias (...) uma árvore feliz. Foi um acontecimento! Árvore feliz é coisa rara como homem feliz. (...) Ficaríamos a contemplá-la até ao fim do mundo se ninguém nos dissesse: vamos, que são horas.» João de Araújo Correia, Pátria Pequena (1961) AS ESCOLAS TAMBÉM PODEM SER FELIZES Imagem: http://www.webdesignhot.com/

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ensar(es) 01 Índice Editorial: A Solidariedade A. Marcos Tavares Ser Professor Conceição Dias A excessiva importância que... Carolina Monteiro A Família Nicole Vieira A adolescência Maria Catarina Magalhães Pátria do desejo Raia Serra O mundo pula e avança Ricardo Sequeira A propósito do Sermão de... Micaela Monteiro Liberdade de pensamento A. Marcos Tavares Carpe diem Diana Silva Ano novo vida nova Ana Gomes A complexidade do cérebro ... Rita Marques As malas, os homens e as... Fernanda Sousa Fundamentalismo Islâmico Tiago Alves As questões da participação... Manuel Ferreira As novas tecnologias Ana Rita Sequeira Tu! Carlota Pinto As palavras leva-as o vento Cátia Cardoso Violência Catarina Pimenta Subitamente, no horizonte... Agostinha Araújo Pedaços de Nada Ana Meireles Os dias e as palavras José Artur Matos 02 03 06 07 08 09 10 11 12 14 15 16 18 19 21 23 24 25 26 28 30 31 32 33 34 35 36 37 38 40 42 44 45 47 48 49 50 52 54 55 56 58 59 60 Os homens comem-se uns... Clara Magalhães Desabafos de um aluno surdo Cristóvão Pereira Terrorismo, ismo, ismo, ismo... João Alves Memórias Ana Catarina Xavier Desabafos Diogo Miguel Será que a conversa cara a cara... Filipa Gonçalves Uma questão de perspetiva Guilherme Lopes A vida de uma vida João Pedro Pereira Siriza e a Cultura Europeia João Rebelo Reflexão José Guedes As TIC na aprendizagem dos... Lina Aires Saber perder José Pinto Um lugar estranhamente vazio... Margarida Almeida Sociedade Joana Oliveira Objetivo cumprido Rogério Faceira E quando...? Maria Inês Alves A paz Maria Inês Santos Poder da imagem Ana Fernandes Ninguém se entende Inês Mesquita Biblioteca Colorida Marta Alves O preço das palavras Sara Peres World Press Photo 2015 Mads Nissen

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ensar(es) 02 Editorial Massimo Sestini in Sic Notícias A solidariedade D ois conjuntos de acontecimentos têm marcado os últimos tempos: o carrossel de atentados e a trágica morte de pessoas afogadas no Mediterrâneo. Ambos têm matado milhares de seres humanos e ambos resultam da insanidade de outros seres, que nem parecem humanos. Ou então são «demasiado humanos», como diria Nietzsche. A fúria devastadora dos radicais fundamentalistas estende os seus atentados às vidas e às próprias raízes culturais da Humanidade. Ceifa vidas humanas e arrasa patrimónios culturais universais, como as cidades de Nimrud e Hatra, no Iraque. Não só mas também por causa disto, milhares de pessoas provenientes da África e da Ásia, encurraladas às centenas em pequenos e velhos barcos de pesca por máfias impiedosas, são tragadas pelas águas do Mediterrâneo. Fugindo à violência, à fome e à guerra, crianças, mulheres e homens procuram uma vida mais digna na Europa, mesmo sabendo dos imensos perigos que enfrentam. Como dizia um deles, «é preferível morrer nas águas do Mediterrâneo à procura da liberdade, do que viver subjugado pelos senhores da guerra». A União Europeia tem sido muito parca nos apoios que presta. Os ricos do norte têm deixado aos pobres do sul (Itália e Grécia, sobretudo) a responsabilidade de prestar auxílio e de receber toda essa gente escorraçada das suas terras. A solidariedade entre os povos, um dos principais objetivos da UE, e tão proclamada em fóruns internacionais, pouco se tem exercido na prática. Por toda a sua história, a Europa devia estar mais atenta e solícita. A revista Pensar(es) deixa ainda uma palavra solidária para todos aqueles que, no dia 25 de abril, foram atingidos por violento sismo, sobretudo no Nepal. A. Marcos Tavares

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ensar(es) 03 Ser Professor… Conceição Dias . Professora de Inglês ‘‘ Preocupa-me esta sociedade permissiva, perniciosa, este faz de conta, este desleixo com que as famílias criam os mais novos, tão cheios de direitos e tão vazios de deveres. É duro ser professor! É tão duro… Por vezes, no corredor da minha escola, ao passar apressadamente pelos meus colegas de trabalho, sinto-os cansados, como que desencantados da profissão ingrata que tanto exige deles, de mim e que pouco ou nada reconhece a labuta diária de quem, por natureza do ofício e vocação pessoal, decidiu abraçar esta profissão acreditando estar a prestar um serviço imprescindível ao desenvolvimento de cada jovem, afiançando estar a contribuir para uma sociedade mais critica, dinâmica e equitativa. Ser professor para mim e muitos tantos como eu é mais do que ensinar conceitos, matérias, regras, orientar raciocínios. Ser professor é formar mentalidades, é tornar fecunda e inquiridora a mente de todos os jovens que connosco se cruzam, alguns ávidos de saber, outros nem tanto, diga-se, mas todos à procura de novas experiências, novos desafios, de orientação, de carinho, de atenção… Um sábio ditado chinês profere que ao professor cabe abrir o portão do conhecimento, do discernimento, da lucidez mas é sempre, sempre ao aluno que compete atravessá-lo. Lembro constantemente este provérbio, constantemente o digo aos “meus meninos” na esperança que pelo menos alguns deles se esforcem por abrir e atravessar o dito portão… Há sempre alunos que o fazem, felizmente, que querem saber o que está para além dele, que querem sempre mais… São estes jovens que nos fazem caminhar nos corredores da escola, são eles que nos obrigam a dar sempre o nosso melhor, que não nos deixam desistir e colocam no nosso rosto um sorriso. São estes alunos que nos deixam mensagens carinhosas num registo de avaliação, que nos presenteiam com quadras, poemas, cartas de

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ensar(es) 04 despedida e agradecimento, que nos desejam boas férias e por fim, agora que voos mais altos se avizinham nas suas tenras vidas, esperam que tenhamos alunos que apreciem o nosso trabalho porque” A professora merece!” Eu tive alunos assim, eu tenho alunos assim que guardo nas minhas memórias, que lembro com carinho, que me procuram na escola para saberem de mim, para me darem a saber deles… São filhos da alma… Hoje, fruto de vários condicionalismos económico sociais e constantes alterações politico educativas tudo parece ter mudado…. Frequentemente deparo-me com jovens sem expetativas, sem objetivos de vida, em crise emocional, que deambulam numa sociedade decadente que parece não acreditar mais nos valores morais que a fundamentam, nem nos créditos que um trabalho consistente e perspetivado poderá trazer aqueles que diariamente labutam por “um lugar ao sol”. Tudo mudou em tão pouco espaço de tempo, tudo mudou e não foi para melhor, atrevo-me a dizer. Preocupa-me esta sociedade permissiva, perniciosa, este faz de conta, este desleixo com que as famílias criam os mais novos, tão cheios de direitos e tão vazios de deveres. Preocupa-me este “dolce far niente” em que a maioria dos nossos jovens vagueia, esta falta de visão e esforço que tanto os carateriza e que agem como se a sociedade lhes devesse alguma coisa, como se todos tivessem a obrigação de lhes assegurar alimentação, transporte e demais regalias sociais sem que eles tenham o dever de cumprir, minimamente, com as suas obrigações. Questionados sobre estes fatos as respostas são as mais variadas, pouco dignas mas variadas; uns acham que podem fazer tudo o que lhes apetece menos o que lhes é exigido. Que lhes

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ensar(es) poderá acontecer? Nada. Por mais que agridam com palavras e ações continuam a usufruir das benesses que o estado social lhes oferece, que o ensino para todos lhes proporciona. São estes os futuros adultos que querem viver do rendimento mínimo, tal como muitos dos seus progenitores e que chegam aos dezoito, dezanove, vinte anos sem curso e sem ofício. A escola é tida como um passatempo, um local de encontro de pares e os professores e demais comunidade educativa joguetes das suas vontades. Passou a ter graça medir forças, desafiar regulamentos, infringir ou não cumprir sanções; são os maiores da escola, é assim que se veem e sentem, “pequenos” déspotas que fazem valer a sua vontade ou pelo menos acreditam que sim. Pobres diabos inconsequentes, pobres diabos… Pergunto-me, como professora reflexiva que sou, se a culpa será só deles, dos genes que lhes não coube escolher, dos pais que fingem não ver, dos professores tão preocupados que estão em cumprir metas. Que metas, questiono-me? As metas do sucesso educativo imposto pela tutela ou as metas da formação integral do seu humano? Temo que as primeiras se sobreponham às segundas por imposição de um ministério alienado da realidade vigente e que sentado no conforto do seu gabinete legisla, determina, altera programas e adultera regras de jogo, sem qualquer consideração por aqueles que o servem. Também aqui os professores são joguetes da vontade ministerial; postos à prova apesar das provas dadas; humilhados publicamente; responsabilizados pelos fracos resultados escolares. É-lhes exigido que formem cidadãos responsáveis mas que o façam sem autoridade, sem ferir suscetibilidades, sem cadeia hierárquica, sem princípios orientadores do trato social. É desgastante ser professor. É assim que me sinto por vezes, desgastada e impotente perante situações que diariamente acontecem e que fogem ao meu controle…Sinto pena destes alunos “difíceis”, destes seres tumultuados que nascidos em estado bruto se foram, sucessiva e lentamente, tornando “civilizados selvagens”. 05 Sinto pena de mim por não saber mais o que fazer… Hoje ao chegar ao pavilhão C embato, literalmente, em duas ex-alunas, jovens lindas, de mente sã, olhar vivo e curioso… “Tenho saudades suas, professora”- diz uma delas. ”Dê-me um abraço”- diz a outra. E abraçou-me, a mim, à carteira, à pasta, à pressa com que me dirigia para a sala de aula… Ali fiquei abraçada por ambas, reconfortada no meu cansaço, apaziguada no meu desencanto, tonificada no meu desgaste. Como estava a precisar deste abraço…

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ensar(es) 06 A excessiva importância que a sociedade dá à imagem Carolina Monteiro . Aluna do 11º A ‘‘ A A procura da perfeição física pode ser tão intensa que as pessoas sentem mesmo necessidade de cirurgias para retocar partes do corpo que consideram imperfeitas. busca incessante da imagem perfeita é um assunto da atualidade. A sociedade faz de tudo para alcançar aquilo que considera a “perfeição”. O corpo magro é sinónimo de beleza, poder e sensualidade e esse ideal leva cada vez mais pessoas (adolescentes e adultos) a grandes regimes, sendo o principal foco estar bonito e ser aceite pela sociedade. Alcançar este ideal de beleza tornou-se, então, um objetivo, uma verdadeira corrida contra o tempo. Nos nossos dias, vemos homens e mulheres insatisfeitos com o seu aspeto e com o seu físico. De todos os lados - revistas, jornais, televisão, redes sociais… - nos chegam imagens que mostram corpos lindos e perfeitos. Na minha opinião, o aumento da publicidade focando modelos magras e esbeltas faz com que cada vez mais adolescentes desencadeiem transtornos alimentares, colocando a sua saúde em risco. Por outro lado, mulheres e homens, com seus corpos gastos pela gravidez ou pelo trabalho e com a autoestima reduzida ou mesmo extinta, utilizam vários cosméticos para obterem uma imagem ideal, pois, no caso específico da mulher, esta, ao usar maquilhagem ou outros produtos de beleza e ao tomar comprimidos para emagrecer, sentese mais bonita, desejada, atraente e completa, não pensando que pode pôr a sua saúde em risco. A procura da perfeição física pode ser tão intensa que as pessoas sentem mesmo necessidade de cirurgias para retocar partes do corpo que consideram imperfeitas. É fácil encontrar na Internet fotos de várias celebridades que gastam muito dinheiro para se submeterem a cirurgias plásticas, mas que acabam por ficar com o rosto desfigurado. Concluindo, estamos a viver numa sociedade onde o consumo é muito valorizado e onde os valores materiais e estéticos governam as nossas vontades. Essa ânsia da perfeição faz com que homens e mulheres escravizem os seus corpos, contraindo, muitas vezes, doenças e, outras vezes, tendo baixa autoestima. A corrida para o “belo” leva as pessoas a não se importarem com as consequências, visando somente a beleza exterior.

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ensar(es) 07 A Família… Família são laços… Laços de sangue, laços de amor! É aquilo que nos faz viver, É aquilo que nos une, Que nos faz o medo esquecer! Que nos dá alegria e força! Que nos faz os sonhos procurar, E os verdadeiros caminhos encontrar! Família são aqueles que nós escolhemos, E que não queremos largar! São aqueles que é difícil esquecer, E que momentos nos fazem lembrar. A família que queremos proteger… E que por tudo isso, É-nos tudo na vida. A família que queremos surpreender… A família que não queremos perder, Mas que algum dia irá desaparecer. A família que nos faz crescer, E nos faz pensar, Em tudo o que vamos aprender! Nicole Vieira . Aluna do 11º C

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ensar(es) 08 A adolescência Maria Catarina Magalhães . Aluna do 7º B ‘‘ Durante a adolescência (…) tentamos sempre dar nas vistas Diambra Mariari in http://www.diambramariani.it/ N este texto, vou refletir um pouco sobre mim e sobre a adolescência, uma das piores fases da vida. Durante a adolescência, tentamos sempre ser melhores que os outros, tentamos sempre dar nas vistas… Será assim para o resto da vida ou será só nesta fase? Todos os adolescentes tentam seguir as modas, são todos iguais, muito monótonos… Além disso, vão atrás dos “maiores”, só para serem mais conhecidos… Por mim, eu só quero é ser diferente deles todos! Gosto de me sentir especial, gosto de me sentir diferente, não ser igual a todos os outros, e fazer a diferença. Quando estamos na fase da adolescência, pensamos, também, as piores coisas acerca dos nossos pais e não damos valor ao que eles fazem por nós… e não confiamos neles… guardamos sempre segredo de tudo, mas eles acabam sempre por descobrir e ainda é pior para nós… Eu aconselho todos os adolescentes a serem eles próprios, a não se importarem com a opinião dos outros e a fazerem aquilo de que gostam. E quanto aos pais, têm de se lembrar que, um dia, eles não estarão cá para nos ajudar, por isso aproveitem o seu apoio e sejam felizes!

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ensar(es) 09 Pátria do desejo Rosa branca que rasgas a noite na invisível mão de um anjo A tua luz surge como o deslumbre de um parto Inunda a pulsante infância do amor Sob a materna mudez de uma macieira na sombra Alimenta a minha doce e vertiginosa mendicidade Uterina razão dos meus exilados dias Encanta-me com a tua suplicante lucidez de pássaro Traz-me lábios que a ninguém pertençam Enquanto dura o delírio da absoluta pátria do desejo Acerta o teu corpo no relógio da incerteza Muda a genética cor dos meus olhos Ou então celebra comigo a biografia do silêncio. Raia Serra

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ensar(es) 10 O mundo pula e avança* Ricardo Sequeira . Aluno do 12º C ‘‘ S Devemos, por isso, aceitar que tentar nem sempre é sinónimo de conseguir, contudo quem conseguiu certamente arriscou. uperior a uma simples e bela ilusão, o sonho é deveras ‘uma constante da vida’ que pode ser encarado como o ponto fulcral de todas as conquistas da sociedade. Mais que a estulta base do ambiente que nos envolve, é o leme do progresso que não causa aborrecimento, conforme manifestou Fernando Pessoa: “De sonhar ninguém se cansa”. Num momento ou outro ao longo do nosso percurso, aspiramos seguramente a alcançar um determinado patamar, patenteando-se assim a avidez. E se porventura nos questionarmos sobre a motivação de tal objetivo, essa será sempre a necessidade de superação que se encontra latente em cada um dos mortais. Vejamos o caminho universitário por onde estamos a procurar enveredar: é decerto uma pretensão pela qual lutamos durante largos anos, e este pode ser o caminho para que o mundo acelere, para que cada um de nós viva e se transforme. Diversas são as conjunturas relatadas na História que fizeram a sociedade sofrer metamorfose. Atentemos no caso do povo lusitano que, por cobiçar não só riqueza como também por buscar evidenciar-se como uma nação imperante, se lançou à conquista dos novos mundos, o que implicou reformas a diferentes níveis, não só aos habitantes do velho continente, como também aos dos povos dominados. Fixou-se um intercâmbio de saberes que abriu horizontes e se veio a traduzir em puro e irreversível progresso. Lamentavelmente, há objetivos nos quais receamos apostar, o que implica um descrédito das nossas capacidades. Devemos, por isso, aceitar que tentar nem sempre é sinónimo de conseguir, contudo quem conseguiu certamente arriscou. Escolher caminhos sinuosos, arquitetar planos açambarcadores e resguardar a sua concretização não significa necessariamente fracasso. Apenas neste sentido é possível atingir a tão apetecida realização pessoal, e só assim ‘O mundo pula e avança’. * ‘Sempre que o homem sonha O mundo pula e avança’ (António Gedeão)

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ensar(es) 11 A propósito do Sermão de S. António aos peixes Micaela Monteiro . Aluna do 11º E ‘‘ Vivemos numa sociedade onde importa mais o ter do que o ser. V de obtenção de objetos, onde o consumo é o combustível que polui tantas vezes as nossas vidas! Já dizia o grande filósofo Descartes: “Eu penso, logo existo”, não sabia ele que estas necessidades fúteis nos bloqueiam o pensamento. Atualmente a tão célebre frase seria “ Eu tenho, logo existo”: parece que são as necessidades fúteis que comandam a nossa existência. Vamos supor que o dono de uma loja convoca dez pessoas para uma entrevista. Há grandes possibilidades da pessoa que for escolhida ser aquela que se apresenta mais bem vestida, porque “ a aparência é a primeira ideia que temos sobre uma pessoa que não conhecemos”. Acho que se o trabalho fosse feito da maneira correta, como alguns dizem, de facto esses problemas já estariam resolvidos. Há algumas instituições, tais como a UNICEF, a ONU, a APAV (em Portugal), que se esforçam, mas não é o suficiente! Recentemente, o dono de uma marca de roupa de alta-costura, Abercrombie, declarou á impressa que preferia deitar os seus produtos ao lixo a dar aos mais carenciados. O mundo reagiu às desumanas declarações, com profunda perplexidade e reprovação, mas se pensarmos bem, quantas vezes não nos livrarmos de algo que poderia ser aproveitado por alguém? Para finalizar, acho que o mundo ainda precisa de muita mudança, talvez a utopia seja inalcançável, mas é preciso trabalhar mais nesse sentido, é necessário acabar com muitas injustiças, mesmo que não seja possível acabar com todas. ivemos num mundo cada vez mais consumista em que os tradicionais valores de respeito, solidariedade, e justiça, foram substituídos pelo desejo de poder sobre os mais pobres. Na minha opinião, a sociedade não está a desenvolver um trabalho de cooperação. Se houvesse cooperação não existiria tanta pobreza e tantas pessoas em situações extremas: sem habitação e sem rendimento. Haveria um equilíbrio entre a população e não tanta desigualdade, na medida que alguns são muito ricos e outros muito pobres. Para explicar como a ganância dos poderosos acaba com o sonho dos humildes, o Padre António Vieira dizia que “ Os grandes comem os pequenos”. Na utopia o consumismo é apresentado em segundo plano. Ora, como esperamos estabelecer uma aproximação aceitável da civilização ideal, quando nos dias de hoje, o Homem perdeu o domínio de consumo, e o consumo ganhou domínio sobre o Homem? Uma sociedade onde importa mais o ter do que o ser, onde as pessoas são influenciadas por marcas e o desejo infindável

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ensar(es) 12 Liberdade de pensamento A. Marcos Tavares . Professor de Filosofia ‘‘ 1 Em circunstância alguma é justificável um ataque à liberdade de pensamento. parece questionar a racionalidade humana e faz pensar sobre se, de facto, o ser humano caminha para uma fase de realização superior ou estará a cavar a sua própria ruína. O séc. XVIII trouxe a afirmação do iluminismo, da racionalidade e da liberdade. O séc. XIX começou a circunscrever a racionalidade a uma mentalidade egocêntrica, totalizante, cientificista e positivista, abominando em certa medida o diverso e o diferente. No séc. XX, assistiu-se ao falhanço da modernidade como pretensão de fundamentação universal dos grandes valores: foi o século das mais destrutivas guerras de que há memória. Face a estas dolorosas experiências e confiando ainda na sensatez humana, esperava-se que, no século XXI, ressurgisse a interioridade, que o ser se impusesse ao ter; a esperança era tal que, nos finais do séc. XX, alguns pensadores falavam mesmo de um próximo século de espiritualidade. E ao que se assiste? Ao radicalismo, ao fundamentalismo, ao fanatismo, à mais insana . Neste ainda jovem séc. XXI, tem imperado um monstruoso carrossel de atentados, que já ceifou milhares de vidas. O ciclo do ódio não para, desde que dois aviões foram lançados contra as torres do World Trade Center, matando 3.017 pessoas e ferindo mais de 6.300. Um dos atentados mais mediáticos pelo seu simbolismo, por ter ocorrido na tradicional capital europeia da cultura e por ter juntado, em grandes manifestações de repúdio, intelectuais, artistas e políticos, foi o ocorrido naquela fatídica manhã do dia 7 de janeiro de 2015, em Paris, quando três homens armados entraram na sede da revista semanal “Charlie Hebdo” e mataram 12 pessoas. Este assalto assassino, que passou a simbolizar todo a tentativa de silenciar a liberdade de pensamento, é o mote para o presente texto, onde se procura apresentar uma leitura sobre a raiz e o significado de tanta violência. 2. Todo este terror, que se vem multiplicando,

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ensar(es) irracionalidade. Os fanáticos do ódio não param. 3. Por muito que se queira compreender este ódio, por muito que se tente explicar pelos excessos do imperialismo ocidental, não é possível aceitar tais monstruosidades impiedosas. Confesso que fiquei chocado com a posição de alguns, que procuravam justificar o atentado de 7 de janeiro, em Paris, com o principal argumento de que o hebdomadário, ao publicar as caricaturas de Maomé, teria violentado as convicções religiosas de outros. Dito de uma forma sem enfeites: a revista estaria mesmo «a pedi-las». Como se o invocado desrespeito pelas convicções religiosas de uns fosse motivo válido para destruir o valor fundamental em qualquer sociedade que se pretenda verdadeiramente humana: a liberdade de pensamento! Prefiro falar aqui de liberdade de pensamento em vez de liberdade de expressão; com efeito, julgo aquela mais ampla do que esta. Porque não há pensamento sem linguagem e porque o pensamento quer manifestar-se na vida e na realização das pessoas, a liberdade de pensamento concretiza-se na liberdade de expressão, na liberdade de opção, na liberdade de associação. Decerto que tanto a liberdade de pensamento como o respeito pelas convicções dos outros são valores. Mas o problema de fundo que aqui se coloca é este: numa situação de conflito, qual deles é mais valioso? Qual deles deve prevalecer? Todos os valores «valem», mas, em situações extremas de confronto, não será legítimo estabelecer uma hierarquia? Penso que a liberdade de pensamento, que no caso presente se materializa na liberdade de expressão, é a mais fundamental. Na verdade, é à sua luz que se explica o respeito pelos outros – pelas suas ideias, crenças, convicções. Como tal, e esta é a minha tese, em circunstância alguma é justificável um ataque à liberdade de pensamento. Por duas razões essenciais: em primeiro lugar, porque sem liberdade de pensamento 13 também não seria possível respeitar as ideias dos outros, pelo simples motivo de que a força bruta (seja a de poderes instituídos, seja a de grupos fundamentalistas) se encarregaria de anular qualquer veleidade de ideias diferentes; em segundo lugar, porque atentar contra a liberdade de pensamento, por pretensamente não se estar a respeitar as crenças próprias, para além de contraditória, é uma atitude redutora, etnocêntrica e absolutista – é querer impor à força a própria opinião a todos os outros, tomando-a como superior e inquestionável. 4. Em suma, não se vê justificação eticamente aceitável para a atitude assumida por aqueles que, por não concordarem com o conteúdo das publicações da revista, intentaram silenciar pela violência mortífera a liberdade de pensamento/ expressão. É uma posição dogmática e totalitária, própria de quem considera que os únicos valores «valiosos» são os seus e que, portanto, todas as demais pessoas devem aceitar, nem que para tanto seja necessário impô-los pelo recurso à violência e à morte. Acresce que, sendo o «Charlie Hebdo» um semanário humorístico, mais ferve a fúria dos fundamentalistas. É que, como diria Umberto Eco, «O fundamentalista é desprovido de sentido de humor, porque o humor é um instrumento crítico». Helena Almeida, Ouve-me

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