Convite à Filosofia

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marilena chaui convite à filosofia ed Ática são paulo 2000.

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convite à filosofia sumÁrio introdução [01 para que filosofia unidade 1 a filosofi a [02 capitulo 1 a origem da filosofia [03 capítulo 2 o nascimento da filosofia [04 capítulo 3 campos de investigação da filosofia [05 capítulo 4 principais períodos da história da filosofia [06 capítulo 5 aspectos da filosofia contemporânea unidade 2 a razão [07 capítulo 1 a razão [08 capítulo 2 a atividade racional [09 capítulo 3 a razão inata ou adquirida [10 capítulo 4 os problemas do inatismo e do empirismo [11 capítulo 5 a razão na filosofia contemporânea unidade 3 a verdade [12 capítulo 1 ignorância e verdade [13 capítulo 2 buscando a verdade [14 capítulo 3 as concepções da verdade unidade 4 o conhecimento [15 capítulo 1 a preocupação com o conhecimento [16 capítulo 2 a percepção ­2­

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marilena chauí [17 capítulo 3 a memória [18 capítulo 4 a imaginação [19 capítulo 5 a linguagem [20 capítulo 6 o pensamento [21 capítulo 7 a consciência pode conhecer tudo unidade 5 a lógica [22 capítulo 1 o nascimento da lógica [23 capítulo 2 elementos de lógica [24 capítulo 3 a lógica após aristóteles [25 capítulo 4 lógica e dialética unidade 6 a metafísica [26 as indagações metafísicas [27 capítulo 1 o nascimento da metafísica [28 capítulo 2 a metafísica de aristóteles [29 capítulo 3 as avent uras da metafísica [30 capítulo 4 a ontologia contemporânea unidade 7 as ciências [31 capítulo 1 a atitude científica [32 capítulo 2 a ciência na história [33 capítulo 3 as ciências da natureza [34 capítulo 4 as ciências humanas ­3­

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convite à filosofia [35 capítulo 5 o ideal científico e a razão instrumental unidade 8 o mundo da prática [36 capítulo 1 a cultura [37 capítulo 2 a experiência do sagrado e a instituição da religião [38 capítulo 3 o universo das artes [39 capítulo 4 a existência ética [40 capítulo 5 a filosofia moral [41 capítulo 6 a liberdade [42 capítulo 7 a vida política [43 capítulo 8 as filosofias políticas 1 [44 capítulo 9 as filosofias políticas 2 [45 capítulo 10 a política contra a servidão voluntária [46 capítulo 11 a questão democrática ­4­

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marilena chauí introdução para que filosofia as evidências do cotidiano em nossa vida cotidiana afirmamos negamos desejamos aceitamos ou recusamos coisas pessoas situações fazemos perguntas como que horas são ou que dia é hoje dizemos frases como ele está sonhando ou ela ficou maluca fazemos afirmações como onde há fumaça há fogo ou não saia na chuva para não se resfriar avaliamos coisas e pessoas dizendo por exemplo esta casa é mais bonita do que a outra e maria está mais jovem do que glorinha numa disputa quando os ânimos estão exaltados um dos contendores pode gritar ao outro mentiroso eu estava lá e não foi isso o que aconteceu e alguém querendo acalmar a briga pode dizer vamos ser objetivos cada um diga o que viu e vamos nos entender também é comum ouvirmos os pais e amigos dizerem que somos muito subjetivos quando o assunto é o namorado ou a namorada freqüentemente quando aprovamos uma pessoa o que ela diz como ela age dizemos que essa pessoa é legal ­5­

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convite à filosofia vejamos um pouco mais de perto o que dizemos em nosso cotidiano quando pergunto que horas são ou que dia é hoje minha expectativa é a de que alguém tendo um relógio ou um calendário me dê a resposta exata em que acredito quando faço a pergunta e aceito a resposta acredito que o tempo existe que ele passa pode ser medido em horas e dias que o que já passou é diferente de agora e o que virá também há de ser diferente deste momento que o passado pode ser lembrado ou esquecido e o futuro desejado ou temido assim uma simples pergunta contém silenciosamente várias crenças não questionadas por nós quando digo ele está sonhando referindo-me a alguém que diz ou pensa alguma coisa que julgo impossível ou improvável tenho igualmente muitas crenças silenciosas acredito que sonhar é diferente de estar acordado que no sonho o impossível e o improvável se apresentam como possível e provável e também que o sonho se relaciona com o irreal enquanto a vigília se relaciona com o que existe realmente acredito portanto que a realidade existe fora de mim posso percebê-la e conhecê-la tal como é sei diferenciar realidade de ilusão a frase ela ficou maluca contém essas mesmas crenças e mais uma a de que sabemos diferenciar razão de loucura e maluca é a pessoa que inventa uma realidade existente só para ela assim ao acreditar que sei distinguir razão de loucura acredito também que a razão se refere a uma realidade que é a mesma para todos ainda que não gostemos das mesmas coisas quando alguém diz onde há fumaça há fogo ou não saia na chuva para não se resfriar afirma silenciosamente muitas crenças acredita que existem relações de causa e efeito entre as coisas que onde houver uma coisa certamente houve uma causa para ela ou que essa coisa é causa de alguma outra o fogo causa a fumaça como efeito a chuva causa o resfriado como efeito acreditamos assim que a realidade é feita de causalidades que as coisas os fatos as situações se encadeiam em relações causais que podemos conhecer e até mesmo controlar para o uso de nossa vida quando avaliamos que uma casa é mais bonita do que a outra ou que maria está mais jovem do que glorinha acreditamos que as coisas as pessoas as situações os fatos podem ser comparados e avaliados julgados pela qualidade bonito feio bom ruim ou pela quantidade mais menos maior menor julgamos assim que a qualidade e a quantidade existem que podemos conhecê-las e usá-las em nossa vida se por exemplo dissermos que o sol é maior do que o vemos também estamos acreditando que nossa percepção alcança as coisas de modos diferentes ora tais como são em si mesmas ora tais como nos aparecem dependendo da ­6­

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marilena chauí distância de nossas condições de visibilidade ou da localização e do movimento dos objetos acreditamos portanto que o espaço existe possui qualidades perto longe alto baixo e quantidades podendo ser medido comprimento largura altura no exemplo do sol também se nota que acreditamos que nossa visão pode ver as coisas diferentemente do que elas são mas nem por isso diremos que estamos sonhando ou que ficamos malucos na briga quando alguém chama o outro de mentiroso porque não estaria dizendo os fatos exatamente como aconteceram está presente a nossa crença de que há diferença entre verdade e mentira a primeira diz as coisas tais como são enquanto a segunda faz exatamente o contrário distorcendo a realidade no entanto consideramos a mentira diferente do sonho da loucura e do erro porque o sonhador o louco e o que erra se iludem involuntariamente enquanto o mentiroso decide voluntariamente deformar a realidade e os fatos com isso acreditamos que o erro e a mentira são falsidades mas diferentes porque somente na mentira há a decisão de falsear ao diferenciarmos erro de mentira considerando o primeiro uma ilusão ou um engano involuntários e a segunda uma decisão voluntária manifestamos silenciosamente a crença de que somos seres dotados de vontade e que dela depende dizer a verdade ou a mentira ao mesmo tempo porém nem sempre avaliamos a mentira como alguma coisa ruim não gostamos tanto de ler romances ver novelas assistir a filmes e não são mentira É que também acreditamos que quando alguém nos avisa que está mentindo a mentira é aceitável não seria uma mentira no duro pra valer quando distinguimos entre verdade e mentira e distinguimos mentiras inaceitáveis de mentiras aceitáveis não estamos apenas nos referindo ao conhecimento ou desconhecimento da realidade mas também ao caráter da pessoa à sua moral acreditamos portanto que as pessoas porque possuem vontade podem ser morais ou imorais pois cremos que a vontade é livre para o bem ou para o mal na briga quando uma terceira pessoa pede às outras duas para que sejam objetivas ou quando falamos dos namorados como sendo muito subjetivos também estamos cheios de crenças silenciosas acreditamos que quando alguém quer defender muito intensamente um ponto de vista uma preferência uma opinião até brigando por isso ou quando sente um grande afeto por outra pessoa esse alguém perde a objetividade ficando muito subjetivo com isso acreditamos que a objetividade é uma atitude imparcial que alcança as coisas tais como são verdadeiramente enquanto a subjetividade é uma atitude parcial pessoal ditada por sentimentos variados amor ódio medo desejo assim não só acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem como ­7­

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convite à filosofia ainda acreditamos que são diferentes e que a primeira não deforma a realidade enquanto a segunda voluntária ou involuntariamente a deforma ao dizermos que alguém é legal porque tem os mesmos gostos as mesmas idéias respeita ou despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes hábitos e costumes muito parecidos com os nossos estamos silenciosamente acreditando que a vida com as outras pessoas família amigos escola trabalho sociedade política nos faz semelhantes ou diferentes em decorrência de normas e valores morais políticos religiosos e artísticos regras de conduta finalidades de vida achando óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta possuem valores morais religiosos políticos artísticos vivem na companhia de seus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferentes dos quais discordam e com os quais entram em conflito acreditamos que somos seres sociais morais e racionais pois regras normas valores finalidades só podem ser estabelecidos por seres conscientes e dotados de raciocínio como se pode notar nossa vida cotidiana é toda feita de crenças silenciosas da aceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais óbvias cremos no espaço no tempo na realidade na qualidade na quantidade na verdade na diferença entre realidade e sonho ou loucura entre verdade e mentira cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade na existência da vontade da liberdade do bem e do mal da moral da sociedade a atitude filosófica imaginemos agora alguém que tomasse uma decisão muito estranha e começasse a fazer perguntas inesperadas em vez de que horas são ou que dia é hoje perguntasse o que é o tempo em vez de dizer está sonhando ou ficou maluca quisesse saber o que é o sonho a loucura a razão se essa pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas suas afirmações por outras onde há fumaça há fogo ou não saia na chuva para não ficar resfriado por o que é causa o que é efeito seja objetivo ou eles são muito subjetivos por o que é a objetividade o que é a subjetividade esta casa é mais bonita do que a outra por o que é mais o que é menos o que é o belo em vez de gritar mentiroso questionasse o que é a verdade o que é o falso o que é o erro o que é a mentira quando existe verdade e por quê quando existe ilusão e por quê se em vez de falar na subjetividade dos namorados inquirisse o que é o amor o que é o desejo o que são os sentimentos se em lugar de discorrer tranqüilamente sobre maior e menor ou claro e escuro resolvesse investigar o que é a quantidade o que é a qualidade ­8­

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marilena chauí e se em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas idéias os mesmos gostos as mesmas preferências e os mesmos valores preferisse analisar o que é um valor o que é um valor moral o que é um valor artístico o que é a moral o que é a vontade o que é a liberdade alguém que tomasse essa decisão estaria tomando distância da vida cotidiana e de si mesmo teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam silenciosamente nossa existência ao tomar essa distância estaria interrogando a si mesmo desejando conhecer por que cremos no que cremos por que sentimos o que sentimos e o que são nossas crenças e nossos sentimentos esse alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude filosófica assim uma primeira resposta à pergunta o que é filosofia poderia ser a decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas as idéias os fatos as situações os valores os comportamentos de nossa existência cotidiana jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido perguntaram certa vez a um filósofo para que filosofia e ele respondeu para não darmos nossa aceitação imediata às coisas sem maiores considerações a atitude crítica a primeira característica da atitude filosófica é negativa isto é um dizer não ao senso comum aos pré-conceitos aos pré-juízos aos fatos e às idéias da experiência cotidiana ao que todo mundo diz e pensa ao estabelecido a segunda característica da atitude filosófica é positiva isto é uma interrogação sobre o que são as coisas as idéias os fatos as situações os comportamentos os valores nós mesmos É também uma interrogação sobre o porquê disso tudo e de nós e uma interrogação sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira o que é por que é como é essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica a face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos de atitude crítica e pensamento crítico a filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso comum e portanto começa dizendo que não sabemos o que imaginávamos saber por isso o patrono da filosofia o grego sócrates afirmava que a primeira e fundamental v erdade filosófica é dizer sei que nada sei para o discípulo de sócrates o filósofo grego platão a filosofia começa com a admiração já o discípulo de platão o filósofo aristóteles acreditava que a filosofia começa com o espanto admiração e espanto significam tomamos distância do nosso mundo costumeiro através de nosso pensamento olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes ­9­

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convite à filosofia como se não tivéssemos tido família amigos professores livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é por que é e como é o mundo e precisássemos perguntar também o que somos por que somos e como somos para que filosofia ora muitos fazem uma outra pergunta afinal para que filosofia É uma pergunta interessante não vemos nem ouvimos ninguém perguntar por exemplo para que matemática ou física para que geografia ou geologia para que história ou sociologia para que biologia ou psicologia para que astronomia ou química para que pintura literatura música ou dança mas todo mundo acha muito natural perguntar para que filosofia em geral essa pergunta costuma receber uma resposta irônica conhecida dos estudantes de filosofia a filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual ou seja a filosofia não serve para nada por isso se costuma chamar de filósofo alguém sempre distraído com a cabeça no mundo da lua pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis essa pergunta para que filosofia tem a sua razão de ser em nossa cultura e em nossa sociedade costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática muito visível e de utilidade imediata por isso ninguém pergunta para que as ciências pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica isto é na aplicação científica à realidade todo mundo também imagina ver a utilidade das artes tanto por causa da compra e venda das obras de arte quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade ninguém todavia consegue ver para que serviria a filosofia donde dizer-se não serve para coisa alguma parece porém que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem as ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento pretendem agir sobre a realidade através de instrumentos e objetos técnicos pretendem fazer progressos nos conhecimentos corrigindo-os e aumentando-os ora todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade de procedimentos corretos para bem usar o pensamento na tecnologia como aplicação prática de teorias na racionalidade dos conhecimentos porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados ­ 10 ­

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marilena chauí verdade pensamento procedimentos especiais para conhecer fatos relação entre teoria e prática correção e acúmulo de saberes tudo isso não é ciência são questões filosóficas o cientista parte delas como questões já respondidas mas é a filosofia quem as formula e busca respostas para elas assim o trabalho das ciências pressupõe como condição o trabalho da filosofia mesmo que o cientista não seja filósofo no entanto como apenas os cientistas e filósofos sabem disso o senso comum continua afirmando que a filosofia não serve para nada para dar alguma utilidade à filosofia muitos consideram que de fato a filosofia não serviria para nada se servir fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade econômica obtendo lucros com eles consideram também que a filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica para quem pensa dessa forma o principal para a filosofia não seriam os conhecimentos que ficam por conta da ciência nem as aplicações de teorias que ficam por conta da tecnologia mas o ensinamento moral ou ético a filosofia seria a arte do bem viver estudando as paixões e os vícios humanos a liberdade e a vontade analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos a filosofia teria como finalidade ensinarnos a virtude que é o princípio do bem-viver essa definição da filosofia porém não nos ajuda muito de fato mesmo para ser uma arte moral ou ética ou uma arte do bem-viver a filosofia continua fazendo suas perguntas desconcertantes e embaraçosas o que é o homem o que é a vontade o que é a paixão o que é a razão o que é o vício o que é a virtude o que é a liberdade como nos tornamos livres racionais e virtuosos por que a liberdade e a virtude são valores para os seres humanos o que é um valor por que avaliamos os sentimentos e as ações humanas assim mesmo se disséssemos que o objeto da filosofia não é o conhecimento da realidade nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer mesmo se disséssemos que o objeto da filosofia é apenas a vida moral ou ética ainda assim o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos pois as perguntas filosóficas o que por que e como permanecem atitude filosófica indagar se portanto deixarmos de lado por enquanto os objetos com os quais a filosofia se ocupa veremos que a atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas independentemente do conteúdo investigado essas características são perguntar o que a coisa ou o valor ou a idéia é a filosofia pergunta qual é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa não importa qual ­ 11 ­

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convite à filosofia perguntar como a coisa a idéia ou o valor é a filosofia indaga qual é a estrutura e quais são as relações que constituem u coisa uma idéia ou um ma valor perguntar por que a coisa a idéia ou o valor existe e é como é a filosofia pergunta pela origem ou pela causa de uma coisa de uma idéia de um valor a atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele pouco a pouco porém descobre que essas questões se referem afinal à nossa capacidade de conhecer à nossa capacidade de pensar por isso pouco a pouco as perguntas da filosofia se dirigem ao próprio pensamento o que é pensar como é pensar por que há o pensar a filosofia torna-se então o pensamento interrogando-se a si mesmo por ser uma volta que o pensamento realiza sobre si mesmo a filosofia se realiza como reflexão a reflexão filosófica reflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movimento de retorno a si mesmo a reflexão é o movimento pelo qual o pensamento volta-se para si mesmo interrogando a si mesmo a reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do pensame nto sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo para indagar como é possível o próprio pensamento não somos porém somente seres pensantes somos também seres que agem no mundo que se relacionam com os outros seres humanos com os animais as plantas as coisas os fatos e acontecimentos e exprimimos essas relações tanto por meio da linguagem quanto por meio de gestos e ações a reflexão filosófica também se volta para essas relações que mantemos com a realidade circundante para o que dizemos e para as ações que realizamos nessas relações a reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntas ou questões 1 por que pensamos o que pensamos dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos isto é quais os motivos as razões e as causas para pensarmos o que pensamos dizermos o que dizemos fazermos o que fazemos 2 o que queremos pensar quando pensamos o que queremos dizer quando falamos o que queremos fazer quando agimos isto é qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos dizemos ou fazemos 3 para que pensamos o que pensamos dizemos o que dizemos fazemos o que fazemos isto é qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos dizemos e fazemos ­ 12 ­

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marilena chauí essas três questões podem ser resumidas em o que é pensar falar e agir e elas pressupõem a seguinte pergunta nossas crenças cotidianas são ou não um saber verdadeiro um conhecimento como vimos a atitude filosófica inicia-se indagando o que é como é por que é dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam são perguntas sobre a essência a significação ou a estrutura e a origem de todas as coisas já a reflexão filosófica indaga por quê o quê para quê dirigindo-se ao pensamento aos seres humanos no ato da reflexão são perguntas sobre a capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir filosofia um pensamento sistemático essas indagações fundamentais não se realizam ao acaso segundo preferências e opiniões de cada um de nós a filosofia não é um eu acho que ou um eu gosto de não é pesquisa de opinião à maneira dos meios de comunicação de massa não é pesquisa de mercado para conhecer preferências dos consumidores e montar uma propaganda as indagações filosóficas se realizam de modo sistemático que significa isso significa que a filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos busca encadeamentos lógicos entre os enunciados opera com conceitos ou idéias obtidos por procedimentos de demonstração e prova exige a fundamentação racional do que é enunciado e pensado somente assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiência cotidiana nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si mesmas não se trata de dizer eu acho que mas de poder afirmar eu penso que o conhecimento filosófico é um trabalho intelectual É sistemático porque não se contenta em obter respostas para as questões colocadas mas exige que as próprias questões sejam válidas e em segundo lugar que as respostas sejam verdadeiras estejam relacionadas entre si esclareçam umas às outras formem conjuntos coerentes de idéias e significações sejam provadas e demonstradas racionalmente quando o senso comum diz esta é minha filosofia ou isso é a filosofia de fulana ou de fulano engana-se e não se engana engana-se porque imagina que para ter uma filosofia basta alguém possuir um conjunto de idéias mais ou menos coerentes sobre todas as coisas e pessoas bem como ter um conjunto de princípios mais ou menos coerentes para julgar as coisas e as pessoas minha filosofia ou a filosofia de fulano ficam no plano de um eu acho coerente ­ 13 ­

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convite à filosofia mas o senso comum não se engana ao usar essas expressões porque percebe ainda que muito confusamente que há uma característica nas idéias e nos princípios que nos leva a dizer que são uma filosofia a coerência as relações entre as idéias e entre os princípios ou seja o senso comum pressente que a filosofia opera sistematicamente com coerência e lógica que a filosofia tem uma vocação para formar um todo daquilo que aparece de modo fragmentado em nossa experiência cotidiana em busca de uma definição da filosofia quando começamos a estudar filosofia somos logo levados a buscar o que ela é nossa primeira surpresa surge ao descobrirmos que não há apenas uma definição da filosofia mas várias a segunda surpresa vem ao percebermos que além de várias as definições parecem contradizer-se eis porque muitos cheios de perplexidade indagam afinal o que é a filosofia que sequer consegue dizer o que ela é uma primeira aproximação nos mostra pelo menos quatro definições gerais do que seria a filosofia 1 visão de mundo de um povo de uma civilização ou de uma cultura filosofia corresponde de modo vago e geral ao conjunto de idéias valores e práticas pelos quais uma sociedade apreende e compreende o mundo e a si mesma definindo para si o tempo e o espaço o sagrado e o profano o bom e o mau o justo e o injusto o belo e o feio o verdadeiro e o falso o possível e o impossível o contingente e o necessário qual o problema dessa definição ela é tão genérica e tão ampla que não permite por exemplo distinguir a filosofia e religião filosofia e arte filosofia e ciência na verdade essa definição identifica filosofia e cultura pois esta é uma visão de mundo coletiva que se exprime em idéias valores e práticas de uma sociedade a definição portanto não consegue acercar-se da especificidade do trabalho filosófico e por isso não podemos aceitá-la 2 sabedoria de vida aqui a filosofia é identificada com a definição e a ação de algumas pessoas que pensam sobre a vida moral dedicando-se à contemplação do mundo para aprender com ele a controlar e dirigir suas vidas de modo ético e sábio a filosofia seria uma contemplação do mundo e dos homens para nos conduzir a uma vida justa sábia e feliz ensinando-nos o domínio sobre nós mesmos sobre nossos impulsos desejos e paixões É nesse sentido que se fala por exemplo numa filosofia do budismo esta definição porém nos diz de modo vago o que se espera da filosofia a sabedoria interior mas não o que é e o que faz a filosofia e por isso também não podemos aceitá-la ­ 14 ­

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marilena chauí 3 esforço racional para conceber o universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido nesse caso começa-se distinguindo entre filosofia e religião e até mesmo opondo uma à outra pois ambas possuem o mesmo objeto compreender o universo mas a primeira o faz através do esforço racional enquanto a segunda por confiança fé numa revelação divina ou seja a filosofia procura discutir até o fim o sentido e o fundamento da realidade enquanto a consciência religiosa se baseia num dado primeiro e inquestionável que é a revelação divina indemonstrável pela fé a religião aceita princípios indemonstráveis e até mesmo aqueles que podem ser considerados irracionais pelo pensamento enquanto a filosofia não admite indemonstrabilidade e irracionalidade pelo contrário a consciência filosófica procura explicar e compreender o que parece ser irracional e inquestionável no entanto esta definição também é problemática porque dá à filosofia a tarefa de oferecer uma explicação e uma compreensão totais sobre o universo elaborando um sistema universal ou um sistema do mundo mas sabemos hoje que essa tarefa é impossível há pelo menos duas limitações principais a esta pretensão totalizadora em primeiro lugar porque a explicação sobre a realidade também é oferecida pelas ciências e pelas artes cada uma das quais definindo um aspecto e um campo da realidade para estudo no caso das ciências e para a expressão no caso das artes já não sendo pensável uma única disciplina que pudesse abranger sozinha a totalidade dos conhecimentos em segundo lugar porque a própria filosofia já não admite que seja possível um sistema de pensamento único que ofereça uma única explicação para o todo da realidade por isso esta definição também não pode ser aceita 4 fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas a filosofia cada vez mais ocupa-se com as condições e os princípios do conhecimento que pretenda ser racional e verdadeiro com a origem a forma e o conteúdo dos valores éticos políticos artísticos e culturais com a compreensão das causas e das formas da ilusão e do preconceito no plano individual e coletivo com as transformações históricas dos conceitos das idéias e dos valores a filosofia volta-se também para o estudo da consciência em suas várias modalidades percepção imaginação memória linguagem inteligência experiência reflexão comportamento vontade desejo e paixões procurando descrever as formas e os conteúdos dessas modalidades de relação entre o ser humano e o mundo do ser humano consigo mesmo e com os outros finalmente a filosofia visa ao estudo e à interpretação de idéias ou significações gerais como realidade mundo natureza cultura história subjetividade objetividade diferença repetição semelhança conflito contradição mudança etc ­ 15 ­

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