Revista Ponto Jovem - Ano 4 - Ed. 06 - Junho/Julho 2015

 

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Ano 4 - Ed. 06 - Junho/Julho 2015

Popular Pages


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DISTRIBUIÇÃO GRATUITA Ano 4 - Ed. 06 - Junho/Julho 2015 CHAY SUEDE UM CASO DE AMOR INSTANTÂNEO COM AS CÂMERAS, A ARTE E O PÚBLICO E MAIS! PERFIL ROBSON TORINNI um operário da arte BELAS & FERAS LARISSA MACIEL GENTE DE TEATRO O adeus a VLADIMIR CAPELLA TODOS OS SONS BANDA TRIFÁSICA Um novo som surge na parada TÁ LIGADO? CÂNCER DE PÊNIS Um perigo silencioso FAZENDO HISTÓRIA DÉBORA QUEIRÓZ Da escola pública para universidade americana www.revistapontojovem.com.br 1

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apresentam Ganhador do Prêmio Pulitzer MÃE A TOCA DO COELHO De PAI David Lindsay-Abaire Direção Dan Stulbach MÃE MÃE Bianca Rinaldi Neusa Maria Faro NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS Anderson Di Rizzi Rafael De Bona Simone Zucato Bilheteria: 3255.1979  Terça a domingo a partir das 15h TEATRO ITÁLIA Avenida Ipiranga, 344 - República  Estreia 24 de abril Sextas 21:30h  Sábados 21h  Domingos 18h VENDAS: Apresentando www.compreingressos.com / 2122.2474 Patrocínio Transportadora Oficial Apoio Cultural  Valet na porta do Teatro Realização 2 Airton Valenti PONTO JOVEM

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Insistir, Persistir ou Desistir Para onde nossas escolhas nos levam? Para Calvin Coolidge, trigésimo presidente dos Estados Unidos a PERSISTENCIA era a espinha dorsal da humanidade ao afirmar que “Nada no mundo se compara à persistência. Nem o talento; não há nada mais comum do que homens malsucedidos e com talento. Nem a genialidade; a existência de gênios não recompensados é quase um provérbio. Nem a educação; o mundo está cheio de negligenciados educados. A persistência e determinação são, por si sós, onipotentes. O slogan “não desista” já salvou e sempre salvará os problemas da raça humana” e seguindo na mesma linha, Edward Eggleston, historiador americano finaliza ensinando que “pessoas persistentes começam seu sucesso onde os outros terminam com fracasso” Bill Gates, o homem mais rico do planeta e que começou sua vida empresarial sendo oriundo da classe média tornando-se um guru da era contemporânea, seguido, cultuado e incensado por milhares de pessoas no mundo todo, é incisivo quando se trata da importância de não DESISTIR diante das dificuldades, ao recomendar que “Tente uma, duas, três vezes e se possível tente a quarta, a quinta e quantas vezes for necessário. Só não desista nas primeiras tentativas, a persistência é amiga da conquista. Se você quer chegar aonde a maioria não chega, faça o que a maioria não faz.” A história da humanidade está repleta de exemplos de homens que optaram por deixar suas vidas marcadas como símbolos da não desistência diante das adversidades, apesar do cansaço, da exaustão ou do desânimo momentâneo porque segundo a jornalista Marilyn Vos Savant “Ser derrotado é frequentemente somente uma condição temporária. Desistir é o que a torna permanente”. Desejamos que você, caro leitor, estando em qualquer situação de desânimo, possa se lembrar de que vencedores são aqueles que continuam insistindo e persistindo mesmo quando todas as condições lhe são adversas, e já que hoje foi um dia de exemplos e citações, fica a dica do nosso poeta Paulinho da Viola em sua linda canção Argumento “Faça como um velho marinheiro Que durante o nevoeiro Leva o barco devagar” Boa sorte, boa leitura! Um abraço Dema de Francisco Editor 4 Editorial PONTO JOVEM Há algum tempo, publicamos em nossa fanpage a ilustração que encerra este editorial e observamos que dentre todas nossas postagens até então, esta foi a que obteve o maior número de curtidas e compartilhamentos. Sempre acreditamos que todos os seres humanos, especialmente os mais jovens ou aqueles em situação de vulnerabilidade emocional precisam de acolhimento, respeito e incentivo para seguirem adiante em seus projetos de vida e as palavras motivacionais costumam servir como um trampolim para novos momentos que conduzem a uma mudança de rumo ou de rota. Pensando na receptividade obtida pela imagem da ilustração, reunimos as três palavras mágicas capazes de mudar um destino e que já foram cantadas e decantadas centenas de vezes por pensadores e poetas de todas as épocas; Insistir, Persistir ou Desistir? Quando é necessário que uma delas tome a dianteira de nossas vidas e nos conduza para um vale ou para uma montanha? Mahatma Gandhi, um dos grandes mestres da humanidade nos diz o seguinte “Quem sabe concentrar-se numa coisa e INSISTIR nela como único objetivo, obtém, ao fim e ao cabo, a capacidade de fazer qualquer coisa.”.

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DISTRIBUIÇÃO GRATUITA Ano 4 - Ed. 06 - Junho/Julho 2015 CHAY SUEDE UM CASO DE AMOR INSTANTÂNEO COM AS CÂMERAS, A ARTE E O PÚBLICO E MAIS! Expediente PERFIL ROBSON TORINNI um operário da arte BELAS & FERAS LARISSA MACIEL GENTE DE TEATRO O adeus a VLADIMIR CAPELLA TODOS OS SONS BANDA TRIFÁSICA Um novo som surge na parada TÁ LIGADO? CANCER DE PÊNIS Um perigo silencioso FAZENDO HISTÓRIA DÉBORA QUEIRÓZ da Escola Pública para Universidade Americana EDITOR Dema de Francisco MTB 75409-SP dema@revistapontojovem.com.br EDITORA CHEFE E DIRETORA DE REDAÇÃO Viviani Alves MTB 54636-SP vivi@revistapontojovem.com.br TELEVISÃO, CINEMA E MATÉRIAS ESPECIAIS Colaboração : Alexandre Novaski alexandre@revistapontojovem.com.br CONTROLE OPERACIONAL Leandro Oliveira leandro@defrancisco.com.br PORTAL DE NOTICIAS E EDIÇÕES ONLINE TrinityWeb www.trinityweb.com.br thiago@trinityweb.com.br PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO: Voilà! Estúdio Criativo www.voilaestudio.com.br contato@ voilaestudio.com.br CONSELHO EDITORIAL Dulce Muniz Débora Cecília Carnevalli Santos Roberto Ascar Leda Maria N. Bednarski COMERCIAL E MARKETING Lauro dos Santos Junior junior@defrancisco.com.br Helena Maria de Almeida helena@defrancisco.com.br DE FRANCISCO EDITORA E EVENTOS LTDA. www.revistapontojovem.com.br (11)- 3791-7749 ASSESSORIA E CONSULTORIA JURÍDICA Achcar Advogados Dr.Antonio Roberto Achcar achcar-advogados@uol.com.br A revista PONTO JOVEM é uma publicação bimestral da De Francisco Editora e Eventos, e sua distribuição é gratuita através de pontos estratégicos nas principais capitais e cidades brasileiras, incluindo teatros, escolas, universidades, academias, condomínios residenciais e comerciais, eventos e também através de mailing especial. Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da revista e são de responsabilidade dos articulistas. “É permitido a reprodução total ou parcial de qualquer matéria sem prévia autorização por escrito desta editora, desde que citada a fonte”. Sua opinião é muito importante para nós. Por favor, envie-nos seus comentários, críticas, opiniões ou sugestões para que teremos prazer em responder-lhe. contato@revistapontojovem.com.br Para sugestão de pauta ou indicação de matérias, entre em contato com nossa redação através do e-mail: redacao@revistapontojovem.com.br Siga-nos também nas redes sociais: facebook.com/revistapontojovem Linked in: Revista Ponto Jovem Twitter: @revistapontojov www.revistapontojovem.com.br 5

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sumário PÉ NA ESTRADA Felipe Pereira BELAS E FERAS 8 Larissa Maciel PERFIL 18 Robson Torinni TÁ LIGADO? 24 Câncer de Pênis PARAÍSOS BRASILEIROS 30 Curitiba 38 PRIMEIRA PESSOA Pais de Primeira Viagem PROFISSÕES 46 Chay Suede 64 CAPA Solange Castro Neves TODOS OS SONS 52 70 NOVATOS NA ÁREA Fabio Audi Banda Trifásica Douglas Sampaio FAZENDO ARTE 56 Sabrina Petraglia Brenda Haddad Cristiane Bortolossi 76 NOVATOS NA ÁREA 60 80 VENCEDORES 86 EMPREENDEDORES JOVENS ESCRITORES 90 Bianca Sousa 94 FAZENDO HISTÓRIA Ano 4 - Ed. 06 - Junho/Julho 2015 Débora Queiróz Sandra Paes 100 MADE IN BRAZIL 104 6 PONTO JOVEM Vladimir Capella INTERVALO POÉTICO GENTE DE TEATRO Autora Homenageada - Ana Cristina César 74, 84 Revis

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www.revistapontojovem.com.br 7 Revista Ponto Jovem 4º edição.indd 3 03/08/2013 11:35:54

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PE NA ESTRADA FOTOS: FELIPE PEREIRA Felipe Pereira QUANDO SEUS SONHOS SÃO MAIS VELOZES QUE OS SEUS PÉS E VOCE É JOVEM O SUFICIENTE PARA COLOCAR A ALMA NA ESTRADA 8 PONTO JOVEM

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Dando aula em uma escola primária, de bermuda e descalço - Indonésia www.revistapontojovem.com.br 9

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Brincando com um nativo de um arquipélago caribenho - Honduras Em lugares pouco visitados, eram as criancas que vinham atrás de mim - Laos O entusiasmo da garotada diante de um máíquina fotográfica - Laos Garoto da etnia garfuna, com sua coleção de tazos Um sonho de criança que virou realidade e que agora virou livro. Assim pode ser definida a viagem pelo mundo do estudante e escritor Felipe Pereira, de 21 anos, que há dois anos e meio trancou o curso de publicidade e saiu do Brasil em uma jornada por 32 países, realizando um desejo que tinha desde os 13 anos de idade. De alma leve e espírito aventureiro e destemido que desde muito cedo o impeliu a viajar, Felipe se propôs a entrevistar crianças que encontrava pelo caminho. “Queria ouvir as palavras, os sonhos, a visão de mundo delas, e recuperar um pouco da juventude que eu e todo mundo perdemos a cada dia”, diz o rapaz tão jovem e tão maduro, mas extremamente consciente do mundo que o cerca e da vida futura que quer para si. Agora, de volta ao Brasil, ele reuniu sua experiência num fascinante livro onde através de fotos e relatos das conversas que teve com os pequenos em três continentes (Ásia, Europa e América Central) sua trajetória pelo mundo é compartilhada com seus leitores de maneira muito peculiar e enriquecedora. A publicação, batizada de “Jovem o Suficiente”, foi bancada por uma campanha de financiamento coletivo na internet. Ela foi escrita originalmente como uma carta para o melhor amigo de Felipe, que na adolescência compartilhava com ele o sonho da viagem, mas acabou se distanciando quando atingiu a maioridade. “De repente ele parou de conviver com os amigos, se isolou em um lugar distante sem comunicação”. Temos visões de mundo muito diferentes hoje, e eu queria contar para ele as experiências e o que estava aprendendo na viagem”, diz Felipe. 10 PONTO JOVEM Entretanto, para realizar seu intento, um longo caminho foi necessário ser percorrido entre a alma sonhadora e a jornada mundo afora de Felipe que financiou a aventura com as economias que juntou desde a adolescência, muitas delas obtidas em concursos culturais. Sabendo desde muito cedo o que desejava para si, não media esforços para ganhar e juntar algum dinheiro que permitisse concretizar seus sonhos e ele conta que participava de todas as promoções que ficava sabendo, acabando por ganhar cerca de vinte delas, onde eram escolhidas as respostas mais criativas, e vendia na internet os prêmios que recebia (TVs, videogames etc.) economizando tudo o que podia para sua então futura volta ao mundo. Ao traçar seu itinerário, deu preferência a cidades pequenas e vilas fora do circuito turístico tradicional, porque queria saber como as pessoas viviam “de verdade” , com seus costumes e tradições locais, longe do assédio do turismo comercial dos grandes centros. Locomovia-se de avião, ônibus e também de carona. No início, dormia em hostels, mas depois começou a se hospedar na casa de pessoas que conhecia pelo caminho, em busca de uma experiência mais “autêntica”. Parte dessa experiência foi ter dormido também em lugares públicos, como uma ruína grega, um trailer abandonado, na praia e na encosta de um morro, entre outros locais pouco “usuais”. Nem tudo na sua jornada foram apenas flores; Enfrentou também momentos difíceis. Passou por uma cirurgia na Bulgária, viu um menino morrer A pu Nat cria

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esmagado por um trem na Índia e conheceu uma criança que depois foi vítima de um atentado terrorista na Ásia. “Vi gente perdendo a vida mais de uma vez” e isso é sempre uma experiência dolorosa. Mas as lembranças são, em sua maioria, positivas, como quando passou um mês em um vilarejo na Indonésia, dando aulas de inglês em uma escola, surfando e jogando bola. “Era o paraíso”, diz. Felipe conversou com crianças de todas as classes sociais, religiões e idades – moradores de rua na Romênia, habitantes de arquipélagos isolados em Honduras ou de um condomínio de luxo na Espanha. Para superar a barreira de não falar o idioma local, muitas vezes se aproximava brincando com bolinhas de malabares. “A criançada se aglomerava em volta e começava a interagir. Sempre aparecia uma alma boa que falava inglês ou espanhol para me ajudar a traduzir”, conta. As perguntas que ele fazia eram variadas. Entre elas, “em que acreditavam?”, “de que tinham medo?”; “com o que sonhavam?” e “o que esperavam do futuro delas e do planeta?”. Segundo ele, alguns relatos o fizeram chorar. “Os sonhos delas variavam muito, desde ser paleontologista a tirar o pai da prisão, conhecer a internet, coisas que são tão comuns e banais para nós”, diz. Algumas respostas também o fizeram rir, como a de um menino no Camboja que disse que quando crescesse queria ser “peludo” como ele. “Lá eles não têm muitos pelos no corpo. Eu estava em uma cachoeira, tirei a camisa e todo mundo começou a tirar foto. Esse menino passou a tarde toda abraçado na minha perna”, explica. Felipe diz que todas as crianças que encontrou o marcaram de alguma forma. “Todas elas tinham uma contribuição para dar, fosse uma palavra ou mesmo um gesto” , afirma. De volta para casa, Felipe, o nosso inquieto jovem viajante, observador atento e cuidadoso do ser humano sabe que em breve uma nova expedição o levará para outra aventura, afinal, os seus sonhos nunca couberam apenas numa gaveta e ele tem os pés, o coração e a alma nas estradas porque para si, o mundo é uma grande cabana onde se encontram todas as respostas para as inquietações daqueles que conservam a alma de menino para entender a vida. Conheça um pouco mais sobre esse admirável jovem brasileiro que fez o seu sonho se tornar realidade com garra, força, foco e determinação. a A pureza de uma ciranda de crianças - Índia Nativos de ilhas isoladas costumam ter a habilidade de criar qualquer coisa a partir de um baldinho de areia www.revistapontojovem.com.br Uma pequena cigana - Romênia 11

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Ponto Jovem – Nós vamos começar esta entrevista fazendo a você as mesmas quatro perguntas iniciais que você também fez às crianças que entrevistou pelo mundo. A primeira delas. Em que você acredita? Felipe – Acredito, sobretudo no poder da fé. Tive a oportunidade abençoada de poder conviver com povos de diferentes religiões, durante minhas viagens, e isso abriu meus olhos para o fato de que ninguém está mais ou menos certo quanto àquilo em quê acredita, desde que acredite em alguma coisa. Como acreditar somente em si mesmo é um pouco egocêntrico demais, é natural dirigirmos nossas crenças para algo que nos seja exterior. E o poder que emana de alguém que acredita de verdade em alguma causa é capaz de superar qualquer obstáculo. iluminadas e que me façam enxergar o mundo de um jeito novo. Quanto ao futuro do planeta, tenho duas grandes esperanças. A primeira é que consigamos entender a dimensão daquilo que estamos fazendo com a Mãe Natureza, e que paremos de desrespeitá-la antes que seja tarde demais. A segunda é que sejamos sábios em relação à tecnologia, e que as “façanhas das máquinas” jamais nos ceguem para as virtudes que são únicas ao ser humano. Espero que, mesmo em tempos de comunicação instantânea e internet onipresente, nunca desaprendamos a olhar no olho, a brincar na rua e a nos encantar com uma boa história. Ponto Jovem - Entre o despertar do desejo por essa viagem e a realização dela, quanto tempo foi necessário? E quanto tempo demorou sua viagem no total para percorrer 32 países? Ponto Jovem - Do que você tem medo hoje e o que temia quando colocou os pés na estrada para essa jornada? Felipe - O desejo tomou forma muito cedo, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos. Parti quando completei 19, então foram seis anos de idealização e um pouco mais de um semestre de planejamento, mesmo. A viagem em si durou dezesseis meses. Felipe – Tenho medo de perder o apetite por explorar o novo. Envelhecer, para mim, é isso, e é algo que não quero que aconteça jamais. Quando comecei a viajar, tinha medo de viajar de avião (ainda me desespero com uma ou outra turbulência) e de me sentir muito só. Ambos os medos eu tive que superar logo para não ficar paranoico! Ponto Jovem - Por onde anda o seu amigo que foi a inspiração para essa aventura? Ele soube da realização da sua viagem? Sabe do livro? Felipe - Não conto muito sobre o paradeiro dele porque esse é justamente um dos “mistérios” que norteia a narrativa do livro, e não quero estragar a surpresa de nenhum leitor. O fato é que perdemos o contato e o convívio por alguns anos, de súbito. Ele soube sim da minha viagem, por mais que estivéssemos sem nos falar havia algum tempo. E ele também ficou sabendo do livro, uma vez que uma das primeiras coisas que fiz, assim que voltei pra casa, foi tentar reencontrá-lo. De novo, não vou falar muito pra não revelar mais do que devo! Min Ponto Jovem - Com o que você sonhava antes da viagem e ainda sonha agora? Felipe – Sonhava com tanta coisa que é difícil de listar! Queria surfar na Indonésia, conhecer as cachoeiras da Croácia, fazer alguma trilha na cordilheira do Himalaia... E escrever um livro. Hoje sonho em passar um tempo na Papua Nova Guiné, em descobrir uma onda perfeita e sem ninguém por perto, em conviver com uma tribo indígena brasileira... E só não digo (ainda!) que sonho em fazer um filme porque aí também já é pretensão demais. Ponto Jovem - Como seus pais e sua família reagiram ao saber dos seus desejos e de que forma te apoiaram? Conte-nos um pouco sobre sua vida em família. trouxe, além de lembranças de lugares longínquos, histórias que fascinariam qualquer criança. Lembro-me até hoje de quando voltou do Japão (eu tinha sete anos), e me contou que as privadas dos banheiros de alguns lugares onde esteve eram cheias de botões que moviam o assento, ativavam Ponto Jovem - O que você espera do seu futuro e do futuro do planeta? Felipe - Minha mãe sempre viajou bastante, e Felipe – Espero que meu futuro nunca caia na monotonia, e que meu anjo da guarda continue colocando no meu caminho pessoas incríveis, PONTO JOVEM 12

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Minha casa durante a estadia no norte da Grécia jatos d’água, e por aí vai... Imagina o fascínio de um garoto que nunca usou um computador antes e que escuta isso! Desses causos foi surgindo meu desejo em vivenciar culturas diferentes e “caçar” histórias que me tocassem de certa forma. Meu pai, por outro lado, sempre foi muito caseiro e encantado com os prazeres simples da vida. Gosto de pensar que com um eu aprendi a gostar de viajar, e, com outro, a gostar de voltar pra casa. O que os dois têm em comum é a paixão por aprender: minha mãe, do seu jeito mais metódico e pragmático; meu pai, de uma maneira mais artística e subjetiva. Talvez por enxergarem esse impulso curioso naquilo que eu planejava, eles nunca questionaram meu sonho, ou se opuseram a ele. Minha casa sempre foi um celeiro de estímulos! Nunca faltaram livros, filmes, espaço pra conversa, e carinho. Meus pais sempre reagiram e me apoiaram como se esse sonho fosse deles também (e era!), e, por isso, eu vou ser eternamente grato. Felipe - A viagem demorou dezesseis meses. Saí do Brasil rumo a Europa Ocidental, que é uma área mais fácil de viajar devido à infraestrutura turística estabelecida. De lá, fui para a Europa Oriental, e depois para a Ásia. Por isso, o “choque cultural” foi acontecendo aos poucos. O que mais me surpreendeu quando cheguei a Portugal, primeiro país que visitei, foi que, muitas vezes, eu mal e mal conseguia entender o que era dito pelos portugueses! Se no nosso país-irmão a diferença cultural já se manifestava de imediato, o que me aguardava, lá na frente, seria ainda mais imprevisível e desafiante. Essa constatação logo me encheu de entusiasmo . Ponto Jovem - Como você “se infiltrava” nas comunidades locais? Tinha algum guia ou era tudo sozinho, na raça? Felipe – Em alguns lugares era muito difícil de chegar sem guia. É o caso, por exemplo, de algumas vilas nas montanhas da Bósnia-Herzegovina, onde as estradas ainda são rodeadas de minas terrestres remanescentes da guerra, e qualquer www.revistapontojovem.com.br Ponto Jovem - Quanto tempo demorou sua viagem? Qual foi seu primeiro destino ao sair do Brasil e o que mais te surpreendeu ao chegar lá? 13

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Lycian Way uma trilha de longa duração que oferece momentos de contemplação como este - Sul da Turquia desvio pode ser fatal. No entanto, quando não era muito perigoso, eu sempre preferia chegar a esse tipo de lugar sozinho. Penso que quando se está só (e vulnerável!) há menos resistência por parte do povo nativo, a recepção é mais afetiva, e toda interação flui com mais naturalidade. Geralmente, eu chegava à região em que me pretendia “aprofundar” e começava a juntar dicas de viajantes e moradores locais. Era uma questão de tempo até encontrar as comunidades autênticas que sempre me fascinaram. Mas aí é que fica o X da questão: a maioria dos viajantes não chega a esses recantos justamente porque não tem tempo o suficiente. Em um feriado de duas semanas, tu preferes explorar a fundo o interior rural da Romênia ou passar um par de dias na capital da República Checa, da Alemanha, da Itália, da Suíça e da Grécia? Acho que é tudo uma questão de prioridade, e, de maneira alguma, existe um jeito certo e um jeito errado de se viajar. Ponto Jovem - Para qual país você voltaria hoje? Qual deles mais te surpreendeu? Felipe – Eu voltaria para todos de olhos fechados. A região que mais me surpreendeu foi a do Tibete, e talvez seja para lá que eu tenho mais vontade de regressar o quanto antes. O povo é oprimido cultural e politicamente, mas não por isso deixa de expressar com orgulho todas as suas tradições. As vestes são coloridas de um jeito que não dá pra imaginar, a geografia é provavelmente a mais impressionante da Terra, os preços são ridiculamente baixos e a curiosidade dos nativos, em algumas zonas mais isoladas, te faz sentir como um alienígena. Quando saí de lá, senti que aquele lugar tinha mudado a minha vida de alguma maneira. voltaria? Explique o porquê, por favor. Ponto Jovem - E para qual deles você não Felipe – Não há nenhum para o qual eu não Ponto Jovem - Durante essa expedição houve tempo para algum romance? Pintou algum amor? Felipe – Sempre há tempo! 14 PONTO JOVEM voltaria de jeito nenhum. Mas tenho receio de voltar para a Índia. Testemunhei algumas cenas

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chocantes, lá, e discordo de muito o que é feito no país. A rigidez social, a desigualdade econômica e ausência de saneamento básico me deixaram atônito, como se penetrassem olhos até então virgens para esse tipo de realidade. Foi bom para expandir um pouco a minha visão de mundo, mas foi intenso, bem intenso, e não sei se já estou pronto para voltar lá. No entanto, tem muita gente que diz que a Índia é como o Hotel Califórnia: “you can check out any time you want, but you can never leave” (você pode fazer check out a hora que quiser, mas nunca pode ir embora). Apesar do temor, tenho certeza de que regressarei. Ponto Jovem - Sente que o seu desejo e o seu propósito foram cumpridos? Missão terminada ou ainda vem mais surpresa por aí? Felipe – Meu desejo foi sim cumprido. Quanto ao propósito, acho que funciona que nem a humildade: quando a gente acha que tem, já não tem mais. Se eu achar que ele “se realizou”, corro o risco de perder o entusiasmo e a curiosidade de continuar desbravando a vida, e não quero nem pensar nisso. Uma vez me disseram que para a pessoa se manter jovem, ela precisa continuar realizando sonhos; que, a cada sonho realizado, rejuvenesce-se um bocado. É que nem andar de bicicleta: se parar cai. Então, respondendo: não! Continuo correndo atrás desse propósito e desse ideal de juventude. Quanto a surpresas, bem... Sempre há surpresas esperando por aí. Já viu o vídeo novo que eu lancei, mostrando a tentativa de reencontrar um dos meninos com quem convivi durante minha viagem, dois anos mais tarde? É um exemplo. Daqui a pouco aparecem outros desdobramentos da história... Recordar é viver! Ponto Jovem - Quais sãos os seus planos agora que está de volta ao Brasil? Felipe – Continuar escrevendo: meu segundo livro, um romance com uma proposta bem diferente, está sendo parido aos poucos. Seguir fotografando: tenho tocado uma série aqui em São Paulo, e continuo levando a câmera para onde quer que ela possa encontrar rostos desconhecidos e cheios de vida. Trabalhar com produção audiovisual: preciso aprender mais sobre o mercado e a prática. E terminar a faculdade: se não, meus pais me deserdam. Ponto Jovem - Como tem sido a receptividade do seu livro? E como o leitor da Revista poderá adquiri-lo? Ponto Jovem - Depois dessa experiência você pensa em ir para o mercado de trabalho convencional ou novas ideias profissionais e pessoais estão ocorrendo? Felipe – Ele recém chegou aos apoiadores que encomendaram o livro na pré-venda, pelo projeto de financiamento coletivo, então estou começando a receber feedbacks agora. Tem sido uma experiência incrível! Tem gente que vem falar comigo sobre todo tipo de emoção que sentiu, enquanto acompanhava o desenrolar da história: empolgação, medo, alegria, tristeza, dor e êxtase. Eu acho isso o máximo: para mim, o papel de qualquer expressão artística é o de fazer sentir, sendo que a intensidade da emoção é mais importante do que o teor dela. O quanto se sente me interessa mais que o quê se sente. No entanto, apesar de dar atenção e carinho a todo tipo de comentário, tento não me deixar afetar por eles: o ego é fácil de seduzir, e traiçoeiro. O leitor da Revista pode encontrar o livro Jovem O Suficiente nas lojas físicas das maiores livrarias do país, como Saraiva, Cultura e Curitiba, e nas lojas virtuais também, como nesse link: http://bit.ly/1FEPqmm Menino se diverte com a pedra recém-lapidada por seu avô escultor Um primeiro encontro com crianças locais - Tibete www.revistapontojovem.com.br 15

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