Revista Barbante - Ano IV - Num. 14 - 15 de maio de 2015

 

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revista de literatura, cultura, educação e tecnologia

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revista ANO IV - Nº 14 - 15 DE MAIO DE 2015 ISSN 2238-1414 Gramsci e os estudos culturais

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Editorial Na edição número 14 da Revista Barbante, você encontrará uma homenagem à poesia, concretizada com a publicação de diversos poemas líricos e também do cordel “Três porquinhos brasileiros”, de Luiz Antonio Simas. Todos sabemos do poder que um poema tem de nos levar a reflexões intensas sobre o estar no mundo e o sentido da vida. Fazendo da metáfora seu recurso predileto. Além das produções líricas, um ensaio sobre “Anotações tomadas à margem de traduções de Sapho de Lesbos”, de Márcio de Lima Dantas. Temos também artigos com os seguintes temas “Gramsci e os estudos culturais”, de Fabiana Lisboa Ramos Menezes, “Nação e poesia: uma reflexão sobre a identidade nacional na poética de Tobias Barreto”, de Monique Santos de Oliveira, Danillo da Conceição Pereira Silva, Itana Virgínia Souza Cruz e Ricardo Costa Silva nos oferecem interessante abordagem sobre a linguagem cinematográfica, em “Teorias da linguagem e produções cinematográficas: diálogos sobre aquisição, leitura e poder”, enquanto Ariene Braz Palmeira e Christina Ramalho apresentam “As mulheres em Nordestinados, de Marcus Accioly”, considerações sobre a representação do feminino no universo nordestino retratado na epopeia do pernambucano Accioly. Desejamos que você desfrute da Barbante, realizando leitura prazerosa que o instigue a mergulhar cada vez mais fundo no mundo da literatura e, em especial, da poesia. Rosângela Trajano Christina Ramalho Editoras REVISTA BARBANTE - 2

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ÍNDICE ARTIGOS 06 AS MULHERES EM NORDESTINADOS, DE MARCUS ACCIOLY Ariene Braz Palmeira Christina Ramalho NAÇÃO E POESIA: UMA REFLEXÃO SOBRE A IDENTIDADE NACIONAL NA POÉTICA DE TOBIAS BARRETO 15 Monique Santos de Oliveira TEORIAS DA LINGUAGEM E PRODUÇÕES CINEMATOGRÁFICAS: DIÁLOGOS SOBRE AQUISIÇÃO, LEITURA E PODER 21 Danillo da Conceição Pereira Silva Itana Virgínia Souza Cruz Ricardo Costa Silva GRAMSCI E OS ESTUDOS CULTURAIS Fabiana Lisboa Ramos Menezes ENSAIO 33 ANOTAÇÕES TOMADAS À MARGEM DE TRADUÇÕES DE SAPHO DE LESBOS Márcio de Lima Dantas CRÔNICAS 42 PROBLEMATIZANDO A SAUDADE EM FINAL DE SEMANA Caio dos Santos Andrade OUTROS DE MIM OU SENTIMENTO DO MUNDO Danillo Pereira O INQUÉRITO 45 Leonardo Bezerra LITERATURA DE CORDEL 47 48 44 43 34 27 07 TRÊS PORQUINHOS BRASILEIROS Luiz Antonio Simas POESIAS 50 QUANDO JÁ NÃO SOMOS NÓS Alynne Scott TEORIA… POESIA 52 Andrade Jorge A ESTRADA 53 Arlete Moreira REVISTA BARBANTE - 3 51

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PARADOXO 54 Caroline Skaetta Alvarez ACEITAÇÃO 55 Eurídice Hespanhol - O QUE É QUE EU FAÇO COM VOCÊ? Fátima Costa ACABEI DE TOPAR COM DEUS Filipe Couto VERSO PERDIDO 58 Francisco Martins TEÇO-ME 59 Gilvania Machado ENSIMESMADA Gilvania Machado 60 61 62 57 56 VEJO ESTE VENTO Ivanildo Silva SONHO DE VIRGEM José Carlos (ZéCarlinho) COTIDIANO 63 José de Castro FEBRE 64 Lílian Maial LINHA DO TEMPO Lílian Maial 65 SÓMENTE A TERRA… Lourenço Paulo DIAS CINZAS 67 Marcelo Ignácio ABANDONO 68 Márcia Agrau TOTAL 69 Márcia Agrau A POESIA E A VIDA Maria Gabriella 70 66 UM SONHO DE SERTANEJO Mario Rezende REVISTA BARBANTE - 4 71

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PRISÃO 72 Miguel de Souza ESPÓLIO 73 Mozart Carvalho UM ENTRE-TEXTO COM A POESIA DE MARIA DO CARMO BOMFIM E A DE LUIZ OTÁVIO OLIANI 74 Luiz Otávio Oliani O DIA DAS MÃES Rosa Regis ACORDO Sérgio Gerônimo 77 78 79 80 81 76 A DOR E O ESPANTALHO Tatiana Alves MOLEQUE TRAVESSO Yoran Santos LITERATURA INFANTIL O CONTADOR DE HISTÓRIAS Rosângela Trajano EXPEDIENTE 84 REVISTA BARBANTE - 5

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Artigos REVISTA BARBANTE - 6

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AS MULHERES EM NORDESTINADOS, DE MARCUS ACCIOLY Ariene Braz Palmeira (Mestranda PPGL/UFS) Christina Ramalho (DLI/PPGL/UFS) Ao contrário da maioria dos poetas e poetisas de sua geração (60) e de gerações anteriores, Marcus Accioly, desde a primeira publicação (Cancioneiro, de 1968), destacou a intencionalidade épica de sua produção literária. Por essa razão, os poemas Íxion, Nordestinados, Narciso, Sísifo e Latinomérica são poemas de epicidade evidente, cada qual, contudo, abrangendo dimensões mítico-históricas peculiares e estruturados de modos igualmente peculiares. O último deles, por exemplo, é obra vultosa, fruto de anos de pesquisa, o que relembra a elaboração trabalhosa das epopeias clássicas, medievais e renascentistas. Neste artigo, buscamos verificar as formas de representação das mulheres especificamente na obra Nordestinados (1971), de modo a reconhecer em que medida a figura feminina se insere na problematização da cultura nordestina proposta pelo poema e se às mulheres também se pode relacionar o heroísmo coletivo pressuposto no termo “nordestinados”. Para isso, lembramos que Joseph Campbell, definindo o perfil dos heróis de narrativas míticas de origens as mais diversas, destacou que os heróis: São pessoas que se afastaram da sociedade que poderia protegê-las e ingressaram na floresta densa, no mundo do fogo e da experiência original. A experiência original é aquela que ainda não foi interpretada por você; assim, você tem que reconstruir sua vida por você mesmo. Você pode encará-la, ou não, e não precisa afastar-se demais do caminho conhecido para se ver em situações muito difíceis. A coragem de enfrentar julgamentos e trazer todo um novo conjunto depossibilidadesparaocampodaexperiênciainterpretável,paraseremexperimentadasporoutraspessoaséessaafaçanhadoherói(2001,p.43-44). Como se vê, a atuação heroica pressupõe um deslocamento espacial, uma predisposição e uma competência para atuar fora dos “lugares sagrados”, fora da dimensão aconchegante do “lar”, e se lançar ao espaço desconhecido da “floresta densa”. A atuação no espaço físico desconhecido acentuava o caráter nômade e a originalidade das façanhas heroicas. Do herói primitivo, que saía pelo mundo matando monstros, ao herói espiritualizado, como Moisés, cuja atribuição era divulgar novos conhecimentos a seu povo, a missão heroica mais arcaica incluía o enfrentamento das dualidades da sobrevivência. Sobre isso, afirma Campbell: O herói é aquele que participa corajosa e decentemente da vida, no rumo da natureza e não em função do rancor, da frustração e da vingança pessoais. O âmbito de ação do herói não é o transcendente, mas o aqui e o agora, na esfera do tempo, o âmbito do bem e do mal, dos pares opostos. Sempre que alguém se afasta do transcendente, cai na esfera dos opostos. Comeu-se da árvore do conhecimento do bem e do mal, e também do masculino e do feminino, do certo e do errado, disso e daquilo, da luz e da treva. Tudo na esfera do tempo é dual: passado e futuro, morto e vivo, ser e não-ser. Mas o par supremo, que somos capazes de imaginar, é macho e fêmea. Sendo o macho agressivo e a fêmea, receptiva; sendo o macho guerreiro e a fêmea, o sonhador. Temos aí o reino do amor e o reino da guerra, Eros e Tanatos, como diz Freud (2001, p. 69). Essa afirmativa de Campbell, ratificando a visão dicotômica de raízes patriarcais, remonta às injunções culturais que condicionaram a existência da mulher ao imobilismo. Embora, na afirmativa anterior, Campbell tenha definido heróis como “pessoas”, a nova afirmativa remonta, implicitamente, a um veto natural ao deslocamento REVISTA BARBANTE - 7

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espacial da mulher. É, por isso, conveniente refletir sobre os impedimentos culturalmente impostos à mulher no trânsito para o heroísmo épico. Desde o início da formação cultural clássica do Ocidente até a vigência do sujeito cartesiano, não seria possível atribuir a função heroica épica à mulher, embora a mulher até assumisse posturas guerreiras. Um exemplo disso, na dimensão mítica, está contido nos relatos mitológicos greco-romanos que destacam as ações das deusas do Olimpo. Mesmo na dimensão da realidade, podem-se destacar mulheres que romperam com os paradigmas do “comportamento feminino” e se lançaram no caminho da “floresta densa”. A História e a própria Literatura, contudo, reproduziram em larga escala as versões de conquistas históricas e míticas que se referiam às façanhas heroicas masculinas, enquanto, muitas vezes, ignoraram versões menos ortodoxas, nas quais as façanhas femininas obscureciam certos paradigmas. O papel da mulher na façanha heroica, em geral, era a de ser depositária do referente doméstico, apaziguadora dos sentimentos que pudessem permear a experiência heroica do homem, tais como o medo, a fraqueza, o tédio, a dúvida (BOWRA). Saber que o “lugar sagrado” mantinha-se guardado pela mulher facilitava o cumprimento do percurso cíclico do herói: partida, realização e retorno, além de lhe suavizar a superação das provações. Atuando, pois, como cossujeito da ação, a mulher não vivia a plenitude do deslocamento nem sequer experimentava o desafio do desconhecido. Culturalmente, entretanto, a ideia do enfrentamento e superação do desafio era perpetuada como forma de crescimento, merecimento e salvação. Estagnada, a mulher cumpria sua sina de subserviência e silêncio. Na nossa cultura de religião fácil, atingida sem esforço, parece que esquecemos que as três grandes religiões ensinam que as provações da jornada heróica são parte significativa da vida, e que não há recompensa sem renúncia, sem pagar o preço. O Alcorão diz: “Você acha que pode ter acesso ao Jardim das Delícias sem passar pelas mesmas provações daqueles que o antecederam?” E Jesus diz, no Evangelho de São Mateus: “Grande é a porta e estreito o caminho que conduz à vida, e poucos os que o encontram”. E os heróis da tradição judaica enfrentam duros testes antes de chegar à redenção (CAMPBELL, 2001, p. 134). Superar uma provação tinha, e ainda tem, na perspectiva heroica, um caráter de “proeza”. De natureza física, quando o desafio representa a necessidade de fazer uso de uma força extraordinária, muitas vezes envolvendo o salvamento ou o resgate de vidas; ou de natureza espiritual, quando o desafio consiste na competência para lidar com “o nível superior da vida espiritual humana” (CAMPBEL, 2001, p. 131) e converter a experiência em mensagem a ser divulgada, a proeza heroica, até o século XVIII, exigia um espírito aventureiro explicitamente associado ao masculino. A passividade e a estaticidade da mulher, portanto, negavam a ela a possibilidade de enfrentar as provações heroicas, cabendo-lhe apenas as provações domésticas, que, obviamente, não tinham o mesmo status das primeiras. Por outro lado, todas as ações de diferentes mulheres em direção à quebra desse condicionamento dicotômico foram histórica e culturalmente veladas. Em vista disso, a construção da identidade épico-heroica do sujeito recebia uma adjetivação masculina, e, para essa construção, havia ainda as exigências básicas para uma carreira heroica: lealdade, temperança e coragem. A partir de suas façanhas ou aventuras, ficava marcada não só a identidade individual, mas a nacional, ou seja, a atuação heroica do sujeito revestia-se também de uma atribuição cultural: estabelecer o vínculo entre o indivíduo e sua terra. Daí ser também compreensível que, em função da necessidade de construção e reafirmação das identidades nacionais, muitos dos heróis épicos, quase todos homens, retratados em epopeias neoclássicas e românticas tenham passado a ser extraídos do contexto histórico e não mais do mítico. REVISTA BARBANTE - 8

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A façanha convencional do herói começa com alguém a quem foi usurpada alguma coisa, ou que sente estar faltando algo entre as experiências normais franqueadas ou permitidas aos membros da sociedade. Essa pessoa então parte numa série de aventuras que ultrapassam o usual, quer para recuperar o que tinha sido perdido, quer para descobrir algum elixir doador da vida. Normalmente, perfaz-se um círculo, com a partida e o retorno. Mas a estrutura e algo do sentido espiritual dessa aventura já podem ser detectados na puberdade ou nos rituais de iniciação das primitivas sociedades tribais, por meio das quais uma criança é compelida a desistir de sua infância e se tornar um adulto “para morrer, dir-se-ia, para a sua personalidade e psique infantis e retornar como adulto responsável. E essa é uma transformação psicológica fundamental, pela qual todo indivíduo deve passar. Na infância, vivemos sob a proteção ou a supervisão de alguém, entre os quatorze e os vinte e um anos” e caso você se empenhe na obtenção de um título universitário, isso pode prosseguir talvez até os trinta e cinco. Você não é, em nenhum sentido, auto-responsável, um agente livre, mas um dependente submisso, esperando e recebendo punições e recompensas. Evoluir dessa posição de imaturidade psicológica para a coragem da auto-responsabilidade e confiança exige morte e ressurreição. Esse é o motivo básico do périplo universal do herói ele abandona determinada condição e encontra a fonte da vida, que o conduz a uma condição mais rica e madura. (2001, p. 131-132). Quando essa atuação heroica revestia-se do caráter épico, ou seja, quando essas façanhas ou aventuras extrapolavam o plano histórico e ganhavam aderência mítica, o heroísmo era ainda mais valorizado culturalmente, uma vez que as conquistas do herói épico tornavam-se conquistas de uma coletividade nele e por ele representada. Como se vê, alijada do deslocamento, a mulher ficava psicologicamente estagnada e dependente, imatura, portanto, para a descoberta de si mesma. Por outro lado, ficava também neglicenciada a inscrição histórica da experiência feminina, visto estar a mesma impossibilitada de agenciar as dimensões real e mítica de que se constitui uma identidade cultural. Foi a partir das conquistas apontadas por Stuart Hall que a identidade do sujeito descentrou-se do masculino e se abriu às experiências múltiplas de existência, nas quais se incluiu a conquista da mulher ao espaço e ao deslocamento. Hoje, o deslocamento do sujeito, passível de ser alegoricamente representado tanto pelo herói quanto pela heroína épicos, parece ratificar o que Homi K. Bhabha (1998) chama de “estranhamento”. “Além” dos limites do “lugar sagrado”, até porque este “lugar sagrado” diluiu-se na constatação do espaço híbrido globalizado, o herói épico e a heroína épica podem viver a experiência do insólito, do unhomelinesse (conceito de Homi K. Bhabha), atuar, conforme registrou Anazildo V. da Silva (1984), no sentido de “vivenciar o caos”. Vejamos agora de que trata a obra Nordestinados para, em seguida, aprofundarmos as reflexões sobre a relação entre o heroísmo do povo nordestino e a inserção da mulher no âmbito do heroico. 1. Sobre a obra Tendo o Nordeste como tema, o autor desenvolveu essa obra compondo poemas em uma epopeia dividida em quatro cantos, respectivamente intitulados e com seus eixos temáticos: “Pedra lavrada” – no qual se encontra uma descrição dos elementos geográficos e culturais do sertão, “Sertão-sertões” - com poemas inspirados nos fatos históricos ocorridos em solo sertanejo; “Feira de pássaros” - cujos poemas retratam os encantos do sertão e “Poética dos violeiros” – em que as características dos diversos tipos de versos utilizados por violeiros em suas disputas são usados para compor o poema. Esta obra foi publicada em 1971 e abrange o universo mítico-histórico do sertão nordestino, sertão este referenciado nas citações de abertura de autoria de Virgílio, João Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade. Segundo Nelly Novaes Coelho, em análise crítica incluída na edição de 1978, apesar do recurso de integrar ao poema a voz musical do nordestino (aparentemente improvisada, como é o repente), Marcus Accioly fez um projeto de elaboração poética bastante racional, fato que se nota desde o título que, segundo Nelly, é um neologismo “radicado do genitivo grego, presente em Os Lusíadas e na Eneida”. Além disso, por exemplo, corroboram para a arquitetura do poema, o uso, em “Pedra lavrada”, de oitavas com sete sílabas e estrutura rítmica à camoniana. O poeta de Nordestinados não nos dá apenas um puro nexo de continuidade ao épico, ele renova certas estruturas do estilo. Para Saulo Neiva REVISTA BARBANTE - 9

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... a permanência da epopeia só é possível na medida em que o poeta abandona a ilusão de poder transpor fielmente à sua época o modelo épico clássico, para se contentar em tomar emprestado a essa tradição genérica os elementos precisos que a definem – atribuindo-lhe novas funções a fim de responder, ao mesmo tempo, aos “desejos antigos” e às aspirações características de sua época (2009, p. 210). Afora essa peculiaridade formal, o universo regional enfocado pelo poeta é vastíssimo em referências e especificidades culturais dignas de investigações mais aprofundadas. Na medida em que Accioly traz o passado histórico do Nordeste à tona, inova a função da literatura, pois, conforme Bhabha, .../... o que é teoricamente inovador e politicamente crucial é a necessidade de passar além das narrativas de subjetividades originárias e iniciais e de focalizar aqueles momentos ou processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais” (1998, p. 20). Portanto, através do quadro histórico que Accioly apresenta, notamos o quanto o épico possui relevância, pois traz pontos principais que revelam a relação entre épica e história, uma vez que, a “dimensão mítica da representação do passado encenada nesses poemas épicos é contrabalançada por uma dimensão autobiográfica” (NEIVA, 2009, p. 132). Dessa forma, é notável a relevância que a leitura literária ganha quando é interpretada de forma tanto cultural quanto estética. Para isso, contamos com a análise dos aspectos culturais e históricos de uma região através de uma obra épica, para que as reflexões em torno desta se tornem uma prática interdisciplinar inovadora, proporcionando um trabalho com a leitura que aborde a importância de se estudar a interdisciplinaridade literária e cultural, abandonando-se interpretações que dialoguem apenas com preceitos estéticos, em sua maioria, inclusive, importados. Esse tipo de ação configura o que Bhabha chamou de “embate cultural”. Segundo Bhabha, .../... os termos do embate cultural, seja através de antagonismos ou afiliação, são produzidos performativamente. A representação da diferença não deve ser lida apressadamente como o reflexo de traços culturais ou étnicos preestabelecidos, inscritos na lapide fixa da tradição. Os embates de fronteira acerca da diferença cultural têm tanta possibilidade de serem consensuais quanto conflituosos; podem confundir nossas definições de tradição e modernidade, realinhar as fronteiras habituais entre o público e o privado, o alto e o baixo (BHABHA, 1998, p. 21). Dentro dessa perspectiva, observa-se que a leitura literária feita a partir das contribuições das obras épicas ganha relevância, pois, tal estudo pode proporcionar ou gerar uma leitura politizada, uma vez que os valores hegemônicos são questionados, na medida em que incluímos a alteridade e outros temas dentro do processo da leitura literária. Entretanto, são esses “entre lugares” que irão “fornecer o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação singular ou coletiva - que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria ideia de sociedade” (BHABHA, 1998, p. 20). Em seu trabalho Poemas épicos: estratégias de leitura, Ramalho discorre sobre as histórias contidas nas epopeias e diz que .../... a poesia épica, ao coletar histórias, ainda que na concepção fragmentada da épica contemporânea, contribui para a consolidação e para a compreensão de uma identidade que se não pode ser caracterizada propriamente como individual, dadas as injunções das interpenetrações culturais de nossos tempos, pode, ao menos, pautar uma representação cultural legítima que, nesse contar de histórias, acaba se traduzindo (2013, p. 115). REVISTA BARBANTE - 10

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Diante disso, Saulo Neiva afirma que diversos “autores identificam a epopeia com épocas passadas, com o objetivo de legitimar a valorização de diferentes gêneros. Estes se colocam, assim, no centro de um processo de “defesa e ilustração” de um gênero específico, sempre apresentado como mais bem adaptado ao espírito da modernidade” (2009, p.34). 2. As mulheres em Nordestinados No que tange à presença das mulheres na contextualidade mítico-histórica da obra, não há muito o que se apontar. Epopeia de heróis masculinos, no primeiro canto, descritos em poemas específicos, seguem-se a terra (sertão, caatinga, agreste, mata-seca, mata-úmida, litoral); o homem (o sertanejo, o gaúcho, o vaqueiro, o jagunço, o cangaceiro, o camponês, o pescador e o violeiro); as casas (do sertão, do agreste, da mata-seca, da mata-úmida, do mangue, da praia, da cidade); o ferro (da enxada, do arado, do machado, da estrovenga, da foice, da faca); os verdes (da cana, do gravatá, da bananeira, do bambu, dos avelós, do juazeiro, do cacto, do cajueiro,); os rios (São Francisco, Moxotó, Pajeú, Ipojuca, Una, Sirinhaém, Persinunga); os bichos (onça, boi, jumento, cavalo, carneiro, cabra, cobra, cachorro); as aves (galo, papagaio, pavão, ema, gavião, urubu); e as paisagens (casa-de-morar, casa-de-farinha, casa grande, capela, engenho-banguê, lavoura, espingarda-decaça, carro-de-bois, cambiteira, feira-de-vender, cemitério). Em todo esse primeiro canto, a imagem da mulher surge apenas quatro vezes: no espaço da mata-seca, quando os pássaros “pousam nos cabelos/das palhas e das moças” (p. 39); na praia, onde a lua é “mãe-madrinha” (p. 42); na casa-de-farinha, onde se ouve a ”voz das moças” (p. 71); e, finalmente, no cemitério, que apresenta a imagem das velhas rezadeiras “amarrando/os pássaros das almas nos cabelos” (p. 76). Como se percebe, no espaço descritivo do primeiro canto, a mulher é elemento discretamente decorativo que ganha algum destaque no último poema, quando aparece como mediadora da vida terrena e da vida espiritual. No segundo canto - sertão-sertões -, essa presença é ainda discreta. Nos cinco poemas de que é composto esse canto, a imagem da mulher não aparece no primeiro poema - guerrilha das caatingas -, já que “A flora da caatinga/É flora masculina” (p. 87); mas surge quatro vezes no segundo (de mesmo título que o canto): “benção de rezadeiras”; “De amor não sei nem nada/Amor é ruim cantiga,/Tem vez que a gente dorme/Em cama larga, amiga/Mas deixa, que é trabalho,/Mulheres são da vida.” (p. 95) (trecho que explicita uma voz coletiva masculina); “E em noite sem mulher/Me deito mais os pássaros.” (p 100); e “Cigana muito sábia/De Vale-do-Retiro/Me disse, pelas cartas,/Meu tempo mais menino,/E adivinhou futuro/Na mão do meu destino” (p. 100). No terceiro poema - história-estórias -, a mulher aparece uma vez: “as avós conversam/Sobre as safras da cana/Com suas almas-vivas/No alpendre da varanda.” ( p.108) Já o quarto poema - os ossais aparece subdividido em “homem” e “mulher”. Em “homem”, apresenta-se a primeira voz de um diálogo. O interlocutor de uma voz masculina que narra sua experiência na lida e na seca é “minha comadre” (p. 113), vocativo que abre o trecho. “Mulher” (p. 115) é a réplica da comadre ao compadre. Em dez sextetos, a voz feminina assume a enunciação lírico-narrativa. Nesses dez sextetos, a comadre expressa uma visão de mundo coletiva ou comunitária sobre o tempo e a memória. Não há, todavia, espaço para qualquer colocação específica de um “estar no mundo” inerente às condições psico-sócio-culturais das mulheres. Ela faz, sim, uma projeção sobre os sentimentos do homem: “Dentro do homem, Sertão,/Olho-de-sol, cabra-cega./Memórias do tempoverde,/Poetação na certeza,/Porteira aberta, janela,/Chorado, aboio, peleja,/Sino-trovão, rio-d’água,/Moçamulher, pedra-acesa.” (p. 116). Em “prosação”, último poema do canto, é relatada a história de Lampião, sem que se mencione Maria Bonita. Mais uma vez, o destaque fica por conta da mulher idosa, “alma-viva”, e da cigana, ou seja, associa-se a imagem da mulher à dimensão mítica. Em “Feira de pássaros”, a única imagem que se repete três vezes é a da lavadeira, surpreendida em três REVISTA BARBANTE - 11

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momentos: no trabalho (“O canto se lavando/Nas mãos da lavadeira” (p. 116)); no rio que continua a cantar à noite (“Pois mesmo quando é noite/Seu canto não se esgota,/E dizem ser o canto/Das lavadeiras mortas” (p, 148)); e na orfandade (“E as lavadeiras órfãs/De pais e de maridos/Não lavam roupas brancas/Mas tingem vestidos.” (p. 150)). Observa-se aqui, simultaneamente, a nova incursão da mulher na dimensão mítica (lavadeiras mortas que cantam) e a ordem patriarcal, já que “não ter marido” é uma forma de orfandade (realidade do sertão). Como o título prenuncia, é no último canto, no qual se dá voz à “poética dos violeiros”, que a imagem da mulher é mais representativa. Ela é a amante do violeiro (“Não lhe falta o carinho e a companhia/De mulher que se entrega ao violeiro.” (p. 183)); a “sereia”, que ouve os lamentos do violeiro; é a “deusa sereia” que mora na viola (“Pois quando eu aperto nos braços as bordas/Da minha viola, que a deusa sereia/Lhe estira os cabelos que servem de cordas”(p. 185)); é a viola, de corpo bonito, “ilharga delgada”( p. 186), que a faz semelhante à “moça na beira do mar” (p. 186); é a manhã que chega trazendo consigo a imagem de “uma moça saindo do banho”: “A moça é uma Vênus que vem me encontrar,/Trazendo nos seios pedaços de lua,/Cantando galope na beira do mar.” (p. 188), é, enfim, a mulher-viola, a mulher-sereia, a mulher da beira do mar, pois o “fraco” do violeiro é “gostar de moça bonita” (1971, p. 191). A única referência histórica que o violeiro faz da mulher reside na citação do nome de Maria Dea ou Bonita, “rainha das lutas” (1971, p. 209). No poema “cocopraieiro”, o violeiro relembra a história da moça que, ao nascer do sol, ...colhe um sonho Aceso de passarinhos E no seu sonho conta a eles suas mágoas Que nos seus pés viram águas E as águas viram caminhos. E nos caminhos vira pedra a sua mágoa E da pedra um olho d’água Nasce aceso em seu olhar, Que lhe desperta do seu sono e seu receio Com a mão prendendo o seio Que no sonho quis voar. Deixando a moça De lado, deixando o sonho Da moça, deixando o banho Do dia, deixando a moça. Deixando a moça Sem sonho, deixando o sonho Sem moça, deixando o banho Sem dia, deixando a moça. (1971, p. 215) A esse se sucede novo canto de novo violeiro e o poema fica definitivamente “sem a moça”. Praticamente exilada na dimensão mítica, a mulher nordestina não integra o cenário dos “nordestinados” como voz de testemunho, mas como imagem visual (a moça da praia) e sonora (as lavadeiras que cantam), ora projetada no objeto amado, a viola, ora na sedução da sereia, da Vênus. Interessante, nesse caso, observar a referência mitológica clássica inserida no contexto nordestino e a associação mulher/pássaro, que remonta à forma clássica original das sereias. Por tudo o que foi exposto, Nordestinados é, sem dúvida, um canto épico fortemente masculino. REVISTA BARBANTE - 12

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3. Identidade cultural do Nordeste em Nordestinados A obra traz, em seu bojo, semelhanças e diferenças entre os sujeitos do Nordeste, e esse procedimento utilizado pelo autor procura estabelecer uma síntese entre opostos que viabiliza a proposta estética deste para a instauração do realismo-épico como um convite à reelaboração crítica da própria natureza. No entanto, o que parece contradição é uma continuidade, porque em toda criação material humana existe a natureza como elemento ou criação” (ACCIOLY, 1977, p. 13). Dessa maneira, o estudioso destaca as diferenças existentes entre homens tais como o sertanejo, o vaqueiro, o jagunço, o cangaceiro, o violeiro, o pescador, dentre outros, sem, contudo, deixar de agregá-los ao conjunto dos “nordestinados”. Hall defende que .../... não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional busca unificá-los numa identidade cultural, para representá-los todos como pertencendo à mesma e grande família nacional. Mas seria a identidade unificadora desse tipo, uma identidade que anula e subordina a diferença cultural? (HALL, 2001, p. 59). De forma sintética, a obra Nordestinados apresenta o Nordeste brasileiro a partir de suas personagens e cenários, compondo, epicamente, um repertório cultural e simbólico, que não só ratifica a presença do épico, como o renova através de recursos criativos, como a dimensão simbólica e temática da divisão em cantos, o uso da linguagem, cuja intencionalidade de valorização dos aspectos regionais é visível. O elenco de referências históricas e míticas é vasto, e convida a uma análise mais abrangente e aprofundada. Contudo, neste breve recorte, objetivo apenas despertar o interesse pela obra e convidar a outros recortes críticos que, pouco a pouco, possam dar conta do vasto repertório simbólico e cultural nela representado. Sobre o épico, afirma Saulo Neiva: .../... a permanência da epopeia só é possível na medida em que o poeta abandona a ilusão de poder transpor fielmente à sua época o modelo épico clássico, para se contentar em tomar emprestado a essa tradição genérica os elementos precisos que a definem – atribuindo-lhe novas funções a fim de responder, ao mesmo tempo, aos “desejos antigos” e às aspirações características de sua época (2009, p. 210). Nesse sentido, o poeta Marcus Accioly realizou, com Nordestinados, um percurso épico mais adiante alargado com outras produções que partiu de sua própria realidade cultural, o que o tornou um “rapsodo” pós-moderno, um cantador da realidade e dos mitos nordestinos. Nordestinados ratifica o que diz Saulo Neiva sobre o poema épico, em que a “rememoração do passado mítico é acompanhada de uma outra preocupação: a de estabelecer os laços entre esse passado evocado e o presente” (NEIVA, p. 132). Ao perceber que o foco através do qual Marcus Accioly configura sua obra localiza-se, de forma aberta e não unilateral, nos aspectos culturais e históricos, percebemos que ele, revigora a função social da literatura. Ramalho defende que .../... a importância cultural da poesia épica, da época independentemente da época em que cada obra se inscreva, explicase pela viabilidade de, através dela, realizar-se um recorte crítico e artístico aprofundado de questões histórico- culturais regionais, nacionais, continentais ou universais (2013, p.111). Os referentes culturais e históricos destacados na obra em destaque ampliam a capacidade que Nordestinados tem de romper com imagens, por vezes, estereotipadas e recorrentes do sertão e sua cultura. Dessa maneira, Nordestinados (1971) revela um Nordeste simultaneamente marcado pela realidade do sertão e pela explosão de manifestações artísticas que brotam dessa vivência. REVISTA BARBANTE - 13

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O épico, portanto, ao conciliar referentes históricos e míticos, pode alcançar, caso haja um viés crítico caracterizando uma voz social e culturalmente engajada, uma expressão realmente estimuladora e mobilizadora de novos olhares para determinado contexto social. Referências ACCIOLY, Marcus Moraes. Narciso. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife: Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984. ACCIOLY, Marcus Moraes. Sísifo. São Paulo: Quíron, 1976. ACCIOLY, Marcus Moraes. Íxion. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978. ACCIOLY, Marcus Moraes. Nordestinados. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978. ACCIOLY, Marcus Moraes. Latinomérica. Rio de Janeiro: Topbooks, 2001. BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998. BOWRA, C.M. Heroic Poetry. London: Macmillan Press Ltd., 1952. CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus. Mitologia primitiva. São Paulo: Palas Athena, 1992. CAMPBELL, Joseph. & MOYERS, Bill. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 2001. NEIVA, Saulo. Avatares da epopeia na poesia brasileira do final do século XX. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Ed. Massangana, 2009. RAMALHO, Christina. Poemas épicos: estratégias de leitura. Rio de Janeiro: UAPÊ, 2013. SILVA, Anazildo Vasconcelos da. Semiotização literária do discurso. Rio de Janeiro: Elo, 1984. REVISTA BARBANTE - 14

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