Revista Barbante - Ano IV - Num. 13 - 03 de abril de 2015

 

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oficina de criação de crônicas

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revista ANO IV - Nº 13 - 03 DE ABRIL DE 2015 ISSN 2238-1414 Oficina de criação: crônicas

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Apresentação Neste número da Barbante, apresentamos o resultado de parte do projeto “Oficina de criação: crônica e poema”, realizado durante o ano de 2014 no Colégio 28 de Janeiro, em Monte Alegre de Sergipe/SE. O projeto, proposto e implantado pela Profa. Christina Ramalho, da Universidade Federal de Sergipe, teve início com a formação de um grupo de estudantes de Ensino Fundamental e Médio do colégio interessados na produção de textos literários, em especial crônicas e poemas, com o objetivo de desenvolver atividades de leitura e criação de textos líricos (poemas) e narrativos (crônicas), a partir de “atividades-estímulo” que envolvessem filmes, matérias jornalísticas e reportagens em geral, obras de arte (pintura, escultura, arquitetura, fotografia, música, dança), história da literatura, história da arte e conceitos teóricos da criação literária. Por meio de encontros mensais e acompanhamento semanal à distância, realizado pelos membros da equipe montada pela Profa. Christina, o grupo foi desenvolvendo atividades e realizando troca de impressões sobre os textos produzidos. A produção das crônicas partiu de tarefas propostas a cada encontro mensal e gerou diversos textos. Aqui apresentamos uma seleção do que foi produzido, com orgulho do trabalho realizado. Antes de cada grupo de crônicas, descreveremos a tarefa proposta, de modo que os leitores possam acompanhar o próprio desenrolar do projeto. Agrademos aos alunos do Colégio Estadual 28 de Janeiro que se envolveram no projeto e buscaram, a cada mês, aperfeiçoar sua escrita. Esta edição é de vocês! As ilustrações que acompanham este número foram colhidas de outro projeto “Poesia Ilustrada”, também realizado no 28 de Janeiro, que envolveu, entre outros, a ilustração do poema “Marquesa de Cornualha”, de Raquel Naveira, e “Latinitudes”, de Márcia Leite. Antes da apresentação das tarefas relacionadas às crônicas, citamos os poemas ilustrados. Ariene Braz Palmeira Carlos Alexandre Nascimento Aragão Carmem Silvia de Almeida Éverton de Jesus Santos Jessica Mayara Lisboa Leite Organizadores

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Produção textual: um processo de interação Mestre em Letras, professor de Língua Portuguesa da rede estadual de ensino de Sergipe e professor tutor II da UNIT. Carlos Alexandre Nascimento Aragão Sabemos que muitas pesquisas relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa (doravante LP) vêm sendo desenvolvidas há muitos anos. Isso ocorre, principalmente, por conta dos procedimentos adotados pelos profissionais dessa área, nas salas de aula, ao ensinarem a língua a partir da Gramática Normativa. Observamos que, em algumas escolas, mesmo a Linguística já fazendo parte dos currículos dos Cursos de Letras desde 1960, a prática voltada para a Gramática Prescritiva ainda continua em voga. Entendemos que essa escolha se dá por os professores terem como referência tal perspectiva, a partir dos ensinamentos obtidos durante sua própria escolaridade e, consequentemente, registradas em uma memória discursiva (um processo coletivo, portanto). Além dessa perspectiva, trazemos à baila os postulados registrados pelo Ministério da Educação (MEC), nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), em 1997, segundo os quais: [...] o domínio da língua oral e escrita é fundamental para a participação social efetiva. [...] ao ensiná-la, a escola tem a responsabilidade de garantir a todos os seus alunos o acesso aos saberes linguísticos, necessários para o exercício da cidadania, direito inalienável de todos (PCNs 2001, p. 15). No entanto, percebemos que o direito a que os PCNs fazem referência, em alguns momentos, é negado ao estudante, quando o sujeito autorizado a ensinar a LP elege apenas a norma dita padrão como sendo a referência para esse ensino. Por conseguinte, o ensino de língua está centrado na concepção da linguagem como espelho do mundo, a partir da qual temos a impressão de que existe uma relação direta e imediata entre a linguagem, o pensamento e o mundo. Nesse caso, o aprendiz/falante não é considerado um protagonista do processo, mas um ser passivo que chega ao espaço escolar para aprender as normas; e o educador, em sua maioria, esquece que esse sujeito, no dia-a-dia, faz uso da língua em diferentes situações. Assim, a língua não é ensinada sob a perspectiva do seu uso, mas como um sistema fechado de regras impostas que deve ser ensinado aos seus falantes para que estes possam saber “falar e escrever corretamente”. Dessa forma, é necessário que o professor tenha o domínio de tal conhecimento, por ele ser o sujeito autorizado a transmiti-lo aos seus estudantes, produzindo o silenciamento das vozes dos sujeitos. Apesar desse quadro, é possível percebermos práticas que rompem com esse molde tradicional, colocando o aluno como centro e um ser ativo através da leitura e da produção textual. Nesse sentido, vale mencionar a “Oficina de criação: crônica e poema” que foi desenvolvida no ano letivo de 2014 no Colégio Estadual 28 de Janeiro, situado no município de Monte Alegre de Sergipe/SE pela Profa. Dra. Christina Bielinski Ramalho, do Departamento de Letras campus de Itabaiana da Universidade Federal de Sergipe (UFS). O colégio oferta o Ensino Fundamental e Médio nos três turnos e tem um total de 700 estudantes matriculados. A sua localização fica no alto sertão sergipano. A escolha da instituição deveuse ao fato de outros projetos terem sido lá desenvolvidos pela professora em parceria com

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professores e equipe diretiva. Os estudantes foram convidados e a oficina iniciou com 15 estudantes inscritos, pois houve limitação de inscrição para que o grupo não ficasse grande, o que tornaria impossível desenvolver a interação entre estudantes, mediadores e textos. Além dos estudantes e da professora coordenadora do projeto, contamos com o auxílio de dois acadêmicos do curso de Letras da UFS (Ariene Braz Palmeira e Jessica Mayara Lisboa Leite) e dois mestrandos da mesma instituição (Carmem Silvia de Almeida e Éverton de Jesus Santos). A oficina ocorreu no próprio colégio uma vez a cada mês. O seu início deu-se com a apresentação do gênero crônica. Muitos estudantes desconheciam os aspectos que caracterizam tal gênero, o que não quer dizer que nunca houvessem lido alguma crônica. Durante seis meses, foram ocorrendo várias discussões a partir de textos expostos e analisados, que funcionaram como crônicas-motivadoras para uma série de atividades. Após a exposição de cada texto, havia a solicitação de que os estudantes produzissem crônicas, que, em seguida, eram enviadas aos membros graduandos e mestrandos da equipe, que realizaram trocas virtuais com os estudantes do colégio. Após a jornada de produção de crônicas, chegou o momento de mudar de gênero. A poesia começou a aparecer e, embora não fosse tão desconhecida, o detalhamento do processo de criação lírica, ainda que mais complexo, começou a despertar a veia poética dos estudantes. A professora apresentou o gênero e nos demais encontros ocorreram produções e leitura das mesmas. Ao final do projeto, conseguimos constatar que os estudantes envolvidos conseguiram se constituir sujeitos do seu discurso, assumindo um lugar de sujeito-aluno, expressando, assim, a sua mundivisão. Nesse sentido, não existirá a criação de apenas um aluno que compreenda o que leu, mas que interpreta, que brinca com os sentidos, com as palavras. Aluno sujeito/ cidadão, produtor de sentidos e de novos mundos de palavras, possuidor de vez e voz no espaço escolar. Dessa forma, a concepção de linguagem como processo, como inter-ação não fica apenas entre os muros da academia, sem ultrapassá-los. Ela proporciona a interrelação entre os educandos, possibilitando o contato interpessoal, tão rejeitado pela ideologia neoliberal. Resta apenas reafirmar a necessidade de construção de leitores que sejam capazes de argumentar, negar, questionar e de criar, principalmente. É importante que alcem vôos em busca de países maravilhosos, mundos em que não haja silenciamento. É através da construção desses leitores/ cidadãos que conheceremos mundos novos e pessoas com reflexões prazerosas.

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Poema de Raquel Naveira Marquesa de Cornualha A marquesa da Cornualha Vivia trancada num castelo De onde só via o pátio de pedra E os pássaros pousados na muralha. A Marquesa de Cornualha Vivia ao pé da roca de fiar Tecendo fibra e malha Para o berço E para a mortalha. A Marquesa de Cornualha Vivia sonhando com um cavaleiro andante, Com sua espada, Sua cruz, Seu gosto pela batalha. A Marquesa de Cornualha Vivia perto da lareira E mesmo na noite fria Seu coração ardia Como uma fornalha. Para a Marquesa de Cornualha O amor era um punhal, Desses que a pele retalha.

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Poema de Márcia Leite Latinitudes a latinidade está enraizada nos corações em malmequeres ávidos por identidade somos filhas das lendas de iemanjás e erês pererês e  dos encantos das nanãs de quadris largos que preparam — pés na terra, mãos no barro cheirosas pajelanças de  suor camarão dendê em rituais de seios ofegantes como maracas enluaradas para salsas românticas mulheres competentes companheiras mestiças de tantas raças valentes (que recusam os recursos dos sais para o viço mortiço do oportunismo e da auto-piedade) guerreiras nos fogões herdados das ‘sinhás’ nos pregões das bolsas de valores éticos ou nos bastidores de melhor sorte - daqui ou mais ao Norte todas cúmplices (sem alarde) das palavras nuas pró dignidade brancas, caboclas, pardas e negras em senzalas modernas sem água sem praças sem jardins sem rosas nos jarros sem imagens de querubins dourados num horizonte azul-papel — mas com anjos da guarda atentos e vigilantes, como o Céu a latinidade é muito mais que o sangue quente gotejando de testas nas urbanas ladeiras da desesperança (perdição das nossas crianças) é berro que derrete o ferro nos sorrisos sem dentes - grilhões da ingenuidade é passo certo, esperto, consciente, requebrado - por que não, se Graça de latinidade?-. (Curtos & Definitivos, Oficina Editores, 2000, Rio/RJ)

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TAREFA 1 A tarefa 1 teve a seguinte proposta: “Partindo de título semelhante a ‘Um pé de milho’ (crônica de Rubem Braga estudada no primeiro encontro), e buscando estimular a curiosidade do leitor, criando algum suspense sobre o que vai escrever, produza uma crônica em que fale sobre alguma coisa que lhe chama a atenção em seu cotidiano. Use os recursos da hipérbole (exagero) e a símile (comparação), tal como fez Rubem Braga, para dar mais destaque a seu tema”. Vejamos as crônicas produzidas.

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Um pé de tamarindo Álvaro Silva Os portugueses, por meio de embarcações, descobriram o Brasil e nele suas riquezas, o que não deixa de ser um fato importante. Mas um fato mais interessante aconteceu, alguns séculos depois, com o meu pé de tamarindo. Aconteceu que, no fundo da minha casa, através de uma semente que o vento trouxe e a chuva enterrou, nasceu alguma coisa que parecia ser um simples pé de mato, mas descobri que se tratava de um pé de tamarindo. Cerquei-o para os animais não o comerem, e passei a regá-lo todos os dias. Uma semana depois, em uma terça-feira pela manhã, vi que o cercado havia sido derrubado pela metade pelos animais, me preocupei, mas, ao me aproximar, vi que felizmente nada havia acontecido com o pé de tamarindo. Passaram-se algumas semanas e ele cresceu vinte centímetros. Um amigo, ao vê-lo, afirmou ser uma árvore típica do sertão conhecida pelos sertanejos por “algaroba”. Sou um homem teimoso e confiante nas coisas que acredito que sei. Por fim, eu tinha razão. Ele cresceu e está com sete metros de altura e com uma copa gigantesca. É um lindo e gigante pé de tamarindo. Aquele pé de tamarindo gigante e solitário, com suas folhas suculentas e flores parecidas com pequenos bonecos de desenho animado, e com suas grandes e grossas raízes, parecia de noite com um monstro, ou, quando o vento balançava suas folhas, com super-herói voando. Hoje pela manhã aconteceu o que eu mais esperava, e que era óbvio de acontecer, ele, para a minha extrema felicidade, estava cheio de pequenos tamarindos. Não é uma das frutas mais belas e nem das mais saborosas do mundo, mas aqueles tamarindos de cor marrom balançando com a brisa da manhã, trouxeram alegria para o meu dia e mais vida para o meu quintal. Um sentimento bom que se pode declarar com toda certeza me invadiu naquele momento. Meu pé de tamarindo é um belo presente da natureza. Agora já não sou mais um simples trabalhador e admirador da natureza: sou um feliz e rico produtor de tamarindos.

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A casa velha Elenir Medeiros O nordeste é uma região grande e quente, onde existem várias paisagens apreciáveis. A paisagem mais bela é a casa velha. Observando uma grande comunidade, cheia de construções por todas as partes, havia algo de espetacular em uma pequena casa velha, que logo chamou minha atenção. Fui em direção a ela para apreciar tamanha beleza. Busquei informações para saber quem viveu naquela casa. Uma pessoa disse que era de uma família, outra, que todos eram donos, porque a casa já fazia parte da comunidade, outro, ainda, acrescentou que não sabia contar a história daquele imóvel. Desanimada, sem saber a história, de repente, desce um fenômeno do céu e fala: “Esta casa é preciosa, nela encontra-se um livro de história, com milhares de folhas escritas à mão, um baú, que quando aberto, reflete o brilho do seu ouro em seu olhar”. Em seguida, perguntei para o fenômeno (não sei como chamá-lo): “Por que tanta preciosidade nesta medíocre casa velha?”. Minha pergunta foi em vão, pois ele não respondeu. Ontem, presenciei uma grande guerra entre ela (a casa) e uma terrível tempestade. Pensei que não iria vê-la mais de pé. Mas quando cheguei, deparei-me com aquela heroína, com um brilho infinito, toda maltratada. Hoje, estou aqui com pouco tempo de vida, mas nunca vi algo igual a isso, ainda estou sem acreditar no que vi diante dos meus olhos, e que, por isso, carrego em minha memória.

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Brilho dos olhos Eduarda Ketilly Mãe morena, com filho loiro, é abordada por PM como suspeita de sequestro, o que não deixa de ser interessante. Mas um fato mais importante aconteceu comigo. Em um belo dia ensolarado, eu estava à procura de emprego, mas fui rejeitado por onde passei. É espantoso saber que, em pleno século XXI, as pessoas usam a cor da pele como pretexto. Elas me olhavam da cabeça aos pés, porém, parecia que nada viam, nada ouviam. Trataram-me como um cão sem dono, ouvi risos, olhos esbugalhados, mas nada será capaz de tirar o que levo comigo: que é a minha dignidade. Não que eu goste de falar, mas... Tenho a certeza de que, ao voltar, alguém estará à minha espera, com aqueles olhos flamejantes, com aquele alvejado sorriso. Ah, minha amada, como és bela. Na sociedade, sou visto como um ignorante, um pobre homem sem caráter, cujos valores não poderão ser vistos enquanto as pessoas ousarem olhar para o brilho da minha pele, em vez de olhar para o brilho dos meus olhos.

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A arrogância da chuva Geyvson Cardoso Parece filme, mas não é. Tampouco tenho certeza se foi um sonho absurdo, como costumam ser os sonhos, mas que sempre servem para alguma coisa. Aconteceu que uma escuridão apocalíptica tomou o céu azul-marinho e engoliu a fênix Sol, que, sem o menor esforço, cedeu. E um frio mortal congelou o último raio de calor que restava vivo. Em seguida, um estrondo assustador reverberou entre os algodões negros, encharcados, e o chão tremeu. Neste momento, trovões soaram como lamentos pavorosos do além, e relâmpagos rasgaram o céu, em gritos ensurdecedores e roucos. Então, as nuvens escuras se espremeram e não resistiram. E uma força minúscula, fina, cristalina e reluzente, começou a cair. É a chuva. A chuva que bate no meu telhado como granizo caindo mansamente. A chuva que deixa o clima fresquinho e que faz as plantas desta nossa terra madrasta ­­ – mas fértil – nascerem. A chuva que enche os rios, as barragens, os tanques – e até irrigaria o canal de Transposição do Velho Chico que o nosso digníssimo Governo Federal prometeu, com tanto ardor, aos pobres infelizes e desafortunados nordestinos da região setentrorial. A chuva que os mais desesperados imploram ao Deus-Pai, Todo Poderoso. Mas não era apenas uma chuvinha mansa de verão. Agora, o céu esta Eclipse do amor Graziele Oliver   Queria eu estar lá, observando de perto aquele espetáculo. Não, não era um espetáculo de marionetes, nem de balé, porém algo mais incrível ainda. Era um fato muito interessante que me deixava de olhos brilhando a observar, a cada instante, uma face, quem diria, da maravilha no céu! Aquela madrugada foi de grandes amores, com uma imagem que  nos mostraria os significados de várias situações, e, em cada face, uma fase do amor. Fiquei observando do meu quintal o espetáculo da vida. Embora eu seja uma amante conhecida como fria, naquele momento eu tinha razão de apelar para a emoção, pois não havia outra explicação para aquilo: o tal fenômeno físico não poderia se resumir em nada além do amor. Amor, este de que você pode fazer a sua própria interpretação, afinal, não somos donos de um só pensamento, de um só amor. Era uma lua escura e solitária, conhecida como “lua de sangue”. Dia 15 de abril de 2014, a lua em sua primeira fase, estava, como em todas as outras, linda, e mostrava que, com o passar do tempo, o amor vai se desgastando. Mas nessa primeira fase, a lua é pequena, vamos dizer que se veja 1/3 dela, nada que pudesse abalar a sua beleza singela e sublime, pois a lua, mesmo pela metade, consegue ser graciosa, bela e extraordinariamente extravagante. Em cada fase do acontecido, a lua mostrava consequências do amor que só um amante poderia enxergar. E, de repente, a lua, após suas numeradas fases, resolveu ficar vermelha, sim, Vermelha da cor do amor, mas não parou. Ela conseguiu mostrar-nos a última fase de um amor que só pode ser entendido por quem ama de verdade. Às 04h57, aconteceu que a lua, que estava vermelho-alaranjada, ficou totalmente preta. O céu escureceu. Imaginávamos não mais veríamos a lua, mas logo depois percebi que ela voltou ao seu normal fazendo-me constatar que sua última face era totalmente a explicação do amor. Enfim, a lua, de um lado, me dizia que o amor verdadeiro pode passar por qualquer fase, seja ela boa ou ruim, fazendo com que ele mude de cor e chegue ao túnel mais escuro; e, de outro, que ele também pode dar a volta por cima e recomeçar. Foi daí que eu percebi que não

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sou uma pobre amante fria, mas sim uma eterna enamorada a observar o amor em tudo que se vê. Afinal, tudo é vida, é AMOR.   Monte Alegre de Sergipe, maio de 2014. va muito escuro e ameaçador. Uma assustadora tempestade ganhara fôlego, relâmpagos e trovões, ainda mais poderosos, irrompiam em volta, com violência. Súbito, senti algo úmido se espalhar, aos poucos, entre minhas pernas. Sorri e revirei-me na cama, aliviado! Mas aquilo continuou pertinente e o que mais incomodava a mim era... O barulho. Então, eu estranhei. Não, eu não havia mijado na minha deliciosa cama! Acordei num sobressalto, e logo descobri a origem do mal: quando olhei para o teto não havia uma cobra – como da última vez –, e também não era nenhum “Romeu, Raul, Well” do meu gato, que usara o meu telhado como um motel a luz do luar, algumas noites atrás (creio que Shakespeare acharia isso romântico). Era, na verdade, uma praga, uma desgraça incontrolável, uma catástrofe de proporções maiores que o terremoto do Haiti ou o desabamento nas favelas do Rio de Janeiro (pobres desabrigados!) – era uma goteira. Uma infeliz goteira. Tão minúscula – e quase sutil (senão pelo barulho irritante que causava) –, mas perversa, frívola e pertinaz. Levantei rapidamente. Havia várias goteiras por toda casa, mas aquela era a pior. A maldita goteira que me acordara, que me fizera de tolo, ao achar que eu tivesse mijado na cama (o que não acontecia há anos) e que me perturbara sem dó nem piedade. Eu, um pobre moço, só queria uma boa noite sono. Mas isso já não importava mais. Peguei uma vasilha GIGANTESCA, tirei meu short ensopado e coloquei-o dentro dela, em símbolo de protesto. Assim, abriguei a bandeira de paz e revolta em minha cama. Então, a maldita goteira se acalmou. Era mais alguém com quem eu teria de dividir a minha cama. Mas eu voltei a dormir. E quantos estavam na cama já não me interessava mais. Afinal, entre eu e a goteira pérfida, meu sono era mais importante.

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