Mundocoop 59

 

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A REVISTA DE GESTÃO, FINANÇAS, PESSOAS E MARKETING DO COOPERATIVISMO 59 Ano 13 O cooperativismo brasileiro conquista espaço e credibilidade no mercado interno e em âmbito internacional Catálogo oficial start Internacionalização exige gestão bem estruturada GESTÃO Exportação: linhas de crédito abrem o mundo às cooperativas Confira no verso desta edição MUNDOCOOP FINANÇAS 1

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Educação Corporativa Há 17 anos, a PROFISSIONAIS ASSOCIADOS desenvolve projetos de treinamento e desenvolvimento de líderes, cooperados e equipes de cooperativas do Brasil. Desenvolvimento DE líderes batavo Desenvolvimento DE equipe copasul ms Desenvolvimento DE Líderes comitê copacol Desenvolvimento DE líderes unimed curitiba Desenvolvimento gerencial coamo Desenvolvimento DE liderança feminina copasul ms Desenvolvimento DE líderes comitê lar 2 MUNDOCOOP

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Profissionais especialistas JEFERSOM MACHADO Liderança, cooperação e mudança comportamental GUMERCINDO FERNANDES Administração rural e mercado futuro TENICE SILVESTRE Cooperativismo e gestão de projetos KÁTIA GOMES Desenvolvimento de equipes e líderes MIRIA ULIANO Qualidade de vida e desenvolvimento feminino ELCIO CHAGAS Comportamento empreendedor e administração rural GILMAR DEFREYN Gestão da qualidade e cultura organizacional SÉRGIO SPINATO Administração de conflitos e relacionamento interpessoal GERSON GRASSIA Atendimento, negociação e comunicação programas para cooperativas Desenvolvimento de Líderes Cooperativistas (96 horas) Desenvolvimento da Liderança Feminina (160 horas) Desenvolvimento de Talentos (80 horas) algumas Cooperativas que já nos contrataram Curitiba | Paraná | Tel (41) 3282-4660 www.profissionaisassociados.com.br MUNDOCOOP 3

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Expediente A REVISTA DE GESTÃO, FINANÇAS, PESSOAS E MARKETING DO COOPERATIVISMO Diretoria Douglas Alves Ferreira Luis Cláudio G. F. Silva Redação EDITORA / Katia Penteado - MTb 11.682/SP redacao@mundocoop.com.br Colaboração | Clarice Bombana e Nilton Tuna Arte DIRETOR DE CRIAÇÃO / Douglas Alves Ferreira ASSISTENTE DE ARTE / Guilherme Signorini revista@mundocoop.com.br Publicidade DIRETOR COMERCIAL / Luis Cláudio G. F. Silva ASSISTENTE COMERCIAL / Henrique P. Gouveia comercial@mundocoop.com.br Controle e Operações Wilma Zacharias Impressão Referência Gráfica TIRAGEM / 15 mil exemplares Fotos Arquivo MundoCoop e Shutter Stock Cooperativas brasileiras: a sociedade como inspiração Treze ramos e número de associados atual mais de 100% superior ao de 2001 apesar de o total de cooperativas ter decrescido em cerca de 0,6% devido à reorganização da atividade. As metas para o setor, as ações planejadas em âmbito institucional, assim como um panorama de cada ramo, com números, situação atual, necessidades e desafios, são o tema da matéria. A revista MundoCOOP é uma publicação da HL/Mais Editorial Ltda. Rua Atílio Piffer, 271 - Conj. 22 - Casa Verde 02516-000 - São Paulo/SP - Telefone (11) 4323-2881 www.mundocoop.com.br Os anúncios e artigos assinados são de responsabilidade dos autores. As opiniões emitidas pelos entrevistados não refletem, o pensamento da coordenação dessa publicação. 26 4 MUNDOCOOP

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20 Gestão 10 | Entrevista Roberto Rodrigues, embaixador especial da organização das nações unidas para a alimentação e agricultura (fao) Internacionalização exige gestão bem estruturada 40 | Finanças Como exportar. Linhas de crédito abrem o mundo às cooperativas 62 | Pessoas Observatório do Cooperativismo estuda, avalia e aponta caminhos para o setor momento cooperar cresce e aparece 66 16 18 38 47 Marketing | 57 Quem decide exportar percebe que o marketing não se limita a propaganda e divulgação do produto, mas permeia toda a estratégia comercial e a própria estrutura da organização 60 68 ”ENTRE ASPAS As matérias da revista impressa têm complementos exclusivos na edição digital. No final de cada matéria, há a indicação com os seguintes ícones: MAIS CONTEÚDO Mais informação no site MAIS CONTEÚDO vídeos exclusivos MAIS CONTEÚDO galeria de fotos MAIS CONTEÚDO texto completo da matéria 6 MUNDOCOOP Sumário

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Melh o ualidade q r DECOOPERATIVAS COOPERATIVAS EXPORTADORAS Quase US$ 6 bilhões em vendas ao exterior. Esse foi o resultado obtido pelas 152 cooperativas brasileiras que atuam no segmento exportação. Quer conhecê-las? Acesse o Catálogo Brasileiro de Cooperativas Exportadoras – uma publicação anual do Sistema OCB, disponível em seis idiomas. www.brasilcooperativo.coop.br/site/cbcex CATÁLOGOBRASILEIRO CATÁLOGOBRASILEIRO ntia ra F a c i r ab o n do il s a Br Ga MUNDOCOOP 7

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Ao Leitor S Visibilidade er o Catálogo Oficial da 9ª Expocoop levou a equipe da MundoCoop a pensar uma edição especial, com matérias que relacionam-se de forma direta com o evento e seus objetivos. Desse modo, a edição atende a duas vertentes: diagnóstico do cooperativismo brasileiro, com necessidades e diretrizes futuras, e internacionalização. Servindo de ligação aos dois temas, entrevista especial e exclusiva com Roberto Rodrigues. Embaixador especial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) para o Cooperativismo, Roberto Rodrigues é o responsável pelos primeiros passos rumo à internacionalização do cooperativismo brasileiro. Em Entrevista, ele discorre sobre as experiências brasileiras que se destacam mundialmente, o relacionamento com cooperativas de outros países como promotor do desenvolvimento das cooperativas brasileiras e a forma de absorver e disseminar a cultura de outros países de forma a fortalecer as cooperativas brasileiras, entre outros assuntos. Capa apresenta a dinâmica do desenvolvimento do setor e as ações, de forma abrangente, que nortearão esse desenvolvimento para que o cooperativismo seja cada vez mais presente, afinal, as cooperativas atendem anseios e têm sempre a sociedade como inspiração. O presidente da OCB – Márcio Lopes de Freitas – é quem discorre sobre o futuro, ressaltando a importância da representação e da educação para que o setor se desenvolva e sejam reduzidas as disparidades entre os ramos. Eudes de Freitas Aquino, membro da Diretoria mundial da Aliança Cooperativa Internacional fala sobre as metas de sua representação. Ainda na matéria de capa, a redação da MundoCoop ouviu os coordenadores nacionais e os diretores dos 13 ramos que compõem o movimento cooperativista brasileiro. Números, situação atual, necessidades e desafios são listados pelos líderes de cada segmento. Com isso, atende-se a um dos objetivos da Expocoop: apresentar valores das cooperativas. Pensando em futuro, buscou-se a academia, através do Observatório do Cooperativismo, para saber como as universidades podem auxiliar nesse desenvolvimento, afinal, doutrina e atuação cooperativista ampliam dia a dia sua presença nos bancos e nas bancas das faculdades em todo o País. Confira em Pessoas. O objetivo da Expocoop também é atendido em outras seções desta edição da MundoCoop. Focando na possibilidade de realizar negócios e na conexão com líderes cooperativistas, compradores e fornecedores de todo o mundo que o evento proporciona, globalizando os negócios do cooperativismo, exportação é tema em Gestão, Finanças e Marketing. Internacionalização e os cuidados a serem tomados internamente à cooperativa na busca do mercado exterior são apresentados em Gestão, com orientações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos – Apex-Brasil. Em Finanças, são apresentadas as linhas de crédito que podem abrir o mundo às cooperativas, com informações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Caixa Econômica Federal. Mas, de nada adianta tudo isso sem comunicação com o mercado. Por isso, Marketing traz orientações e alerta para o fato de que essa disciplina vai muito além de propaganda e divulgação do produto, permeando toda a estratégia comercial e a própria estrutura da organização. Todo esse conteúdo torna essa edição também um guia de consulta rápida, sobre o setor e também para as cooperativas. Aproveitem e boa leitura! Izilda França Katia Penteado, editora redacao@mundocoop.com.br 8 MUNDOCOOP

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ENT REVISTA ROBERTO RODRIGUES O Brasil no mundo: a opinião de quem fez (e faz) acontecer Roberto Rodrigues é o responsável pelos primeiros passos rumo à internacionalização do cooperativismo brasileiro As ações envolveram participação direta junto à Organização das Cooperativas da América – OCA, da qual foi vice-presidente, e filiação da Organização das Cooperativas do Brasil OCB à Aliança Cooperativa Internacional (ACI), instituição que presidiu de 1997 a 2001, configurando-se o primeiro não-europeu a assumir a Presidência daquela instituição. Em época de realização da Expocoop 2014 em Curitiba (PR), Roberto Rodrigues é a pessoa indicada para falar sobre a posição do cooperativismo brasileiro no cenário mundial. Nesta entrevista exclusiva para a revista MundoCoop, discorre sobre as experiências brasileiras que se destacam mundialmente, o relacionamento com cooperativas de outros países como promotor do desenvolvimento das cooperativas brasileiras e a forma de absorver e disseminar a cultura de outros países de forma a fortalecer as cooperativas brasileiras, entre outros assuntos. 10 MUNDOCOOP

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S ua presença no cooperativismo também é marcada pela Presidência da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) nos mandatos de 1985 e de 1991; e Presidência da Organização Internacional de Cooperativas Agrícolas e da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), de 1997 a 2001. Entre as realizações está a coordenação dos trabalhos que levaram à autogestão do sistema cooperativista, através das conquistas obtidas junto à Constituição de 1988, alcançadas pela Frente Parlamentar Cooperativista, estimulada por ele, então presidente da OCB. Seu destaque não se limita ao cenário cooperativista mundial. Estende-se, também, às áreas acadêmica e agrícola. Engenheiro agrônomo formado pela ESALQ USP em 1965, com cursos de aperfeiçoamento em administração rural e título de Doutor Honoris Causa pela UNESP, no campo acadêmico, é coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas e pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP. Qual a posição do Brasil no cooperativismo em âmbito mundial? Essa resposta não é uma trivial pelo seguinte: não existe o cooperativismo brasileiro. O Brasil é uma colcha de retalhos. Há realidades culturais, étnicas, tecnológicas díspares, que não permitem um Brasil uno. Essa realidade social se reflete no cooperativismo, que ganha as cores da região em que está instalado. Mesmo assim, temos cooperativas que são reconhecidas no mundo inteiro pela sua excelência, pela gestão e pela qualidade, além de organizações com trabalhos espetaculares. No Brasil, o cooperativismo é um antes e outro depois da Constituição de 1988. Minha eleição como presidente da OCB, em 1985, fez com que eu vivenciasse de perto o período da Constituinte, permitindo a inserção do tema da autogestão na Constituição, mundado o tom do diálogo e do movimento. A Ocepar [Organização das Cooperativas do Estado do Paraná], paraninfa da grande discussão sobre autogestão já no período que antecedeu a Constituição de 1988, destaca-se no cenário nacional. Essa instituição estadual montou todo o projeto pré-constitucional na Constituinte, deu provimento ao processo e tem hoje um modelo de autogestão fantástico: todas as cooperativas paranaenses são MUNDOCOOP 11

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ENTREVISTA ROBERTO RODRIGUES analisadas pela Ocepar voluntariamente. E isso acabou gerando cooperativas no Paraná que são referências no mundo todo por sua excelência de gestão e comportamento com relação aos cooperados, como Coamo, Cocamar, Castrolanda e tantas outras. A Ocepar é um grande modelo brasileiro. Esse modelo vem sendo transladado para a OCB em âmbito nacional e, com isso, alguns modelos de cooperativas que saíram do Paraná ou que não têm nada que ver com o Paraná estão adotando os mesmos procedimentos e são referências, como o sistema Unimed, reverenciado no mundo inteiro como modelo de saúde extraordinário e que está entre as maiores cooperativas do mundo. As cooperativas Comigo (GO), Cotrijal de Não-Me-Toque (RS), Credicitrus (de Bebedouro-SP), as cooperativas de crédito rural de Nova Petrópolis (RS) e de Carlos Barbosa (RS), também são des- o ajuste mais duro, mais rigoroso, ao contrário dos setores industriais, que não se adequaram. A situação piorou com o Plano Real, em 1994. Ora, por que a agricultura fez ajuste tão interessante? Em grande parte por causa da tecnologia. Com a economia estabilizada e a abertura comercial, os produtores foram obrigados a buscar tecnologias avançadas, para aumentar a produtividade, e instrumentos de gestão, para concorrer no Exterior. O cooperativismo ajudou muito, porque as cooperativas sofreram enorme paulada com o Plano Collor e também com o Plano Real, mas elas tinham começado a buscar informações lá fora. Fica até chato falar isso, mas a filiação da OCB à Aliança Mundial de Cooperativas, em 1989, foi feita por mim, no evento em Nova Déli, onde novamente convivi com 1.000 líderes do mundo todo. inteiro As cooperativas do mundo a educação têm um problema comum: taque. O Sescoop, como braço educacional do cooperativismo brasileiro, também desenvolve um trabalho de formação de Recursos Humanos notável, que se compara ao existente em poucos países. Como o cooperativismo praticado no Brasil pode se desenvolver na relação com cooperativas de outros países? O que o motivou nessa decisão e quais as consequências imediatas? da Cocamar e do Sicredi-RS, além de Ronaldo Scucato, que hoje preside a Ocemg, e muitos outros que ainda estão no segmento cooperativista. Eu queria três coisas: criar um banco cooperativo, ver a reforma agrária através do cooperativismo e saber como se formavam Recursos Humanos no cooperativismo. Nesses 40 dias na Europa, esses líderes viram que tinha um mundo lá fora e trouxeram muitas informações. O Brasil acordou sobre o que tinha lá fora. Na Alemanha, por exemplo, vimos como se formava gente no cooperativismo, dando origem ao Sescoop. Logo em seguida, em 1992, eu fui eleito presidente da Organização Internacional de Cooperativas Agrícolas da ACI e presidente do Conselho Continental da ACI para as Américas. Passei a viajar pelo mundo e trazer o mundo para cá; fazer eventos dessa organização aqui no Brasil, revelando o Brasil para o resto do mundo. Acabei sendo eleito presidente da Organização Mundial do Cooperativismo em 1997. Em 14 anos, fui a 80 países, levando comigo as cooperativas brasileiras e trazendo cooperativas de outros lugares, sinergia essa muito bem aproveitada pelos líderes das cooperativas brasileiras. Que avanços proporcionados por essas ações iniciais perduram? Essa é uma outra questão relevante, inclusive porque o Brasil, até os anos 1980, era um país fechado, realmente isolado; a própria economia brasileira era praticamente autossuficiente; a agricultura, então, nem se fala. Éramos fora do mundo e, com o plano Collor, em 1990, ocorreu mudança significativa abrindo – eu diria até arrombando – comercialmente o País. O Brasil passou a ser exposto à concorrência, à competição, inclusive sem nenhum tipo de proteção interna. Alguns setores estavam preparados e outros, não, gerando desequilíbrios na economia brasileira. Alguns setores fizeram ajustes poderosos internos, mas os demais sofrem ainda hoje. O setor agrícola foi o que fez Em 1988, eu fui ao congresso da ACI em Estocolmo, Suécia, e lá o mundo se abriu para mim. Eu conhecia o Exterior como turista e não como um representante de classe, um líder cooperativista, que olhasse negócio, oportunidade, desafios, etc. Aquilo para mim foi uma verdadeira enciclopédia de cooperativismo, eu me apaixonei, nem dormir, dormia. Os 15 dias, em Estocolmo, foram uma revelação para mim e propus a filiação da OCB à ACI para mostrar ao Brasil que havia um mundo diferente lá fora. Simultaneamente, depois daquela revelação, eu consegui com a Comunidade Econômica Europeia – hoje União Europeia – um financiamento e levei 30 líderes cooperativistas de diversos Estados brasileiros, com as mais diferentes visões com relação ao Brasil e ao mundo, para visitar a Europa. Entre eles estavam os atuais presidentes da Coamo, Tem um caso que ilustra bem isso. Após um evento em Cingapura, em 1997, organizei uma reunião de compras e consumo para o sudoeste asiático com as cooperativas brasileiras agrícolas. A meta foi mostrar a produção que as cooperativas do Brasil tinham para oferecer a eles, como soja, suco de laranja, carne. Todos trocaram cartões. Foi maravilhoso. Passado um ano mais ou menos nada tinha sido feito, porque nas cooperativas não tinham pessoas que falassem inglês para poderem abrir essa discussão. As cooperativas se deram conta de que tinham uma lição de casa para fazer e fizeram, dando um salto rumo à internacionalização, pois se não trocar cartão de visita, não souber quem é o interlocutor do outro lado, não faz coisa 12 MUNDOCOOP

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ENTREVISTA nenhuma. E o Brasil fez isso graças ao trabalho desses líderes brasileiros de cooperativas exemplares que foram lá fora, colocaram a cara para bater e aprenderam o que estava acontecendo. Ao sair da ACI, no meu lugar no conselho, deixei o Américo Utumi – um líder cooperativista extraordinário – e ele saiu no ano passado, depois de três mandatos, sendo substituído por outro brasileiro, o Eudes de Freitas Aquino. Tivemos, assim, uma continuidade dos trabalhos no Brasil na visão internacional e vice-versa. A OCB mantém o ritmo, é líder da Aliança das Cooperativas Agrícolas nas Américas e tem a participação internacional aqui. Os brasileiros continuam indo para o Exterior todos os anos. Essa porta aberta a partir da ACI está totalmente arrombada, nem tem mais porta, só tem o umbral, o batente, o pessoal vai e vem com muita facilidade, ganhando experiência, trazendo para cá o que foi aprendido e ampliando a participação no mercado internacional, porque o papel das cooperativas tem sido cumprido pelas lideranças da OCB, das OCEs e dos presidente de cooperativas. Olhando o cooperativismo ao longo da história, que problemas podem ser considerados comuns independentemente do país? Eu diria que as cooperativas do mundo inteiro têm um problema comum: a educação. Vamos voltar um pouquinho nos conceitos e na história. Embora a Doutrina Cooperativa seja muito antiga, as cooperativas só surgiram como instrumento da doutrina quando a Revolução Industrial, no século XIX, na Europa, produziu exclusão social e concentração da riqueza, fenômenos que eventualmente trouxeram infelicidade às pessoas. Incluindo as pessoas excluídas, surgiram as cooperativas inglesas, dando corpo à Doutrina Cooperativista. Da Inglaterra, o cooperativismo espalhou-se pela Europa e pelo mundo e passou a ser chamado de terceira via para o desenvolvimento social e econômico, situando-se entre o Capitalismo e o So- cialismo. Eu sempre dizia para os meus alunos e os meus companheiros de cooperativismo que nós éramos como um rio fluindo entre duas margens, Capitalismo e Socialismo. Isso foi assim até cair o muro de Berlim, quando as duas margens se desmancharam. O Socialismo sofreu um desmaio profundo, o Capitalismo virou liberalismo e surgiu uma certa perplexidade com o cooperativismo no mundo todo. Até então as cooperativas eram um álibi tanto do capitalismo contra o socialismo, quanto do socialismo contra o capitalismo. O cooperativismo era a terceira via, fluía entre dois fogos, tinha um relacionamento bilateral interessante. Extinto o conceito de terceira via, as empresas capitalistas passaram a ver o cooperativismo como adversário, concorrente, levando a ACI a fazer uma longa discussão mundial durante alguns anos, que culminou com a criação do 7° princípio - Preocupação com a comunidade, durante o congresso do centenário em Manchester, na Inglaterra, em 1995. Isso gerou um papel adicional nas cooperativas que não era mais olhar para os seus cooperados e prestar serviços para que pudessem avançar socialmente e economicamente, mas, também, preocupar-se com a localidade onde estavam inseridas, à medida que não era possível se desenvolver um pedaço da sociedade sem a outra parte continuar a avançar. Deu, portanto, às cooperativas um papel mais difícil, a depender de questões ambientais, educacionais, saúde pública, defesa de emprego decente. Passou, também, muito mais do que no passado, a exigir o conhecimento do que é cooperativismo e do papel da cooperativa. Educação, mas não no sentido formal – conhecer os princípios de cor e salteado, entender os valores decorados, saber a Lei – mas comportar-se como tal. Não é educação, é cultura cooperativista. Como equacionar essa situação no Brasil? Que ajustes são necessários? Implantação de cultura não é uma coisa que se resolva do dia para noite, é um processo longo. Esse foi um caminho difícil no Brasil e nos países em desenvolvimento em geral, porque há uma contradição intrínseca no cooperativismo: é uma doutrina que visa o social através do econômico e que é ideal para países onde há disparidade. No entanto, o cooperativismo é exitoso onde esse problema já foi resolvido, como no Japão, Alemanha, Canadá, EUA. Por quê? Por causa de cultura. Nesses países em que a educação esteve à frente dos processos de desenvolvimento, os conceitos de solidariedade, união, participação ou articulação existiam no modelo educacional. Essa realidade se reflete como uma contradição na medida em que uma doutrina, para corrigir os desvios sociais e econômicos, é vitoriosa onde esses desvios não existem mais. Contudo, se olharmos para trás, compreenderemos que essa doutrina nesses países é importante hoje porque foram feitos os ajustes culturais que nós ainda estamos fazendo. Esse, então, é o grande aprendizado, o grande tema, e o Sescoop é fruto de tudo que vimos na Alemanha sobre formação de recursos humanos no cooperativismo MUNDOCOOP 13

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ENTREVISTA ROBERTO RODRIGUES rente Precisamos ter política dife s para as diferentes demanda e sobre gestão, que se transformou aqui na autogestão. Ao criar o Sescoop nós montamos um projeto à imagem e à semelhança do que o mundo desenvolvido fez. Desse modo, a OCB foi crescendo e, hoje, é uma liderança, projeta planos que são seguidos com vigor pelos sistemas cooperativistas. Estamos avançando de maneira significativa, mas formar gente é um processo lento. Aonde a cooperativa inspira a sociedade, o cooperativismo é um exemplo maravilhoso. Que orientação dá para os órgãos representativos do cooperativismo brasileiro com relação à internacionalização das cooperativas? Eu não tenho nada para ensinar para ninguém porque a OCB e as OCEs vêm fazendo isso. Porém, eu diria que nós precisávamos trabalhar um pouco mais enfaticamente em duas linhas. Uma é junto ao próprio Itamaraty, que, apesar de o Itamaraty ser um pouco mais forte na área cultural do que na comercial, é responsável pela negociação internacional, por acordos com a OMC [Organização Mundial do comércio] etc. e assim precisa ser um pouco mais forte na abertura de acordos bilaterais. A OCB faz isso, mas, como os problemas internos são tantos e tão grandes, ela tem de escolher prioridades e colocar a energia dela na formação de pessoas. Por isso, acaba não agindo com a ênfase adequada. No meu tempo na OCB, não tinha um departamento de assuntos internacionais, eu criei essa área com duas pessoas competentíssimas formadas no próprio Itamaraty e por ai internacionalizei as cooperativas brasileiras. Como isso já está feito, como a OCB mantém profissionais na área internacional trabalhando muito bem, recebe delegações todo o tempo, eu acho que poderia enfatizar junto ao governo brasileiro a necessidade de ações na área de relações internacionais. A segunda linha a ser trabalhada envolve ampliar o número de parcerias internacionais das próprias cooperativas. Isso não tem nada a ver com a OCB. Alguns acordos já existem. O Sicredi-RS mantém acordo inédito com o Rabobank, que abre um potencial de cres- cimento formidável para o crédito rural cooperativo. No ramo crédito, poderiam haver outras parcerias internacionais das cooperativas, tornando-as mais fortes do que são hoje. As cooperativas agrícolas de consumo também podem realizar ações diretas junto a outros países, como os países nórdicos, que têm cooperativas de consumo poderosíssimas. Várias cooperativas caminham para isso, mas ainda timidamente, até porque, como povo brasileiro, não temos a cultura da internacionalização, mas o Brasil está aprendendo, e as cooperativas também. Atualmente, há grupos que defendem a hipótese de o Governo gerir as cooperativas familiares e a OCB dedicar-se àquelas com vocação empresarial. Qual sua posição sobre esse tema? a unicidade. A OCB e a ACI são universais. O cooperativismo tem de ser nacional. Qual a sua sugestão para conciliar interesses tão díspares de uma agricultura familiar com uma cooperativa de médio ou grande porte? Não concordo com essa possibilidade. É uma divisão. Cooperativismo é doutrina com princípios doutrinários universalmente conhecidos. Vou comparar com o Catolicismo, que é uma doutrina, tem um igreja única, com um papa só, cujos valores são referidos em qualquer lugar do mundo, não importa o regime político, econômico e religioso do local. O Catolicismo tem uma linha única, se forem permitidos dois Vaticanos, o catolicismo se enfraquece, com consequências para o Cristianismo de uma maneira geral. Penso que dividir o cooperativismo é um cisma que vai enfraquecê-lo. Isso, infelizmente, interessa a quem é contra o cooperativismo, seja por questões ideológicas, românticas, seja por questões comerciais, práticas. Então, essa divisão me preocupa muito, porque enfraquece o sistema. Eu defendo Políticas diferentes. O Brasil já fez um erro lá atrás, no governo do Fernando Henrique Cardoso, quando criou duas agriculturas: o MAPA [Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento] para agricultura empresarial e outro ministério para agricultura familiar [Ministério do Desenvolvimento Agrário]. Fizemos uma bobagem, e o Brasil é o único país em que isso acontece. Essa divisão, inclusive, gera ressentimentos entre irmãos: agricultor pequeno, agricultor grande, todos são agricultores, ninguém nasceu grande, o grande é o pequeno que deu certo. Na verdade, precisamos ter política diferente para as diferentes demandas. Claro, vamos ter o pequeno que tem uma demanda muito diferente da de um grande. Uma pequena cooperativa de subsistência precisa de coisas que a grande não precisa mais. Então, políticas diferentes, porém dentro de um conjunto único, senão está criando ódio, ressentimento, brigas ideológicas e oportunismo para jogadas chamadas como sociais, mas que não são tanto assim. MAIS CONTEÚDO Revista Digital acesse www.mundocoop.com.br 14 MUNDOCOOP

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