[GAZETA DE ALAGOAS] Fazer Popular - Mestres Artesãos das Alagoas - 2014

 

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Mestres Artesãos das Alagoas é uma incursão pelo universo do artesanato alagoano. Trata-se de uma leitura das habilidades e sensibilidades de inúmeros artistas anônimos que, através de sua arte, refletem a herança cultural de suas comunidades.

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Uma síntese do artesanato de raiz A coleção “Fazer Popular - Mestres Artesãos das Alagoas” consta de 10 fascículos que serão encartados semanalmente na Gazeta de Alagoas. Com ela será possível conhecer a produção de artesãos que criam obras de grande beleza e sensibilidade em diferentes locais do estado. Nesta coleção reunimos expressivas criações de artistas, muitas vezes anônimos, prova da força da nossa cultura popular. Trata-se de uma documentação de grande valor pela qualidade da pesquisa realizada por seus autores. CERÂMICA A argila, ou barro, tem forte presença em todas as culturas. Civilizações remotas usaram esse elemento da natureza para moldar objetos utilitários (ânforas, jarros e pratos) ou rituais (máscaras) da Grécia ao Egito, da China à América précolombiana. Em Alagoas, mestres artesãos cultivam uma tradição cerâmica que bebeu em fontes culturais indígenas, mas que mostra influências diversas. São criações feitas por gente simples, testemunhos de habilidades e talentos. CESTARIA Alagoas tem um rico artesanato que usa fibras naturais como o piripiri, o ouricuri e o cipó. Essa tradição remonta à cultura indígena. Esteiras, bolsas, cestas e tapetes são tecidos por artesãos com a paciência herdada dos antepassados. Essa tradição é forte no litoral e nas margens dos rios em que a matéria-prima é mais abundante, e onde a técnica é passada de mãe à filha. A atividade tem um forte papel na economia de subsistência desses grupos sociais. MADEIRA A madeira é matéria-prima para uma variada gama de objetos utilitários (canoas, móveis) e figurativos (esculturas diversas) em várias partes de Alagoas. Nesse cenário, um seleto grupo de artesãos de primeira linha se destaca por suas habilidades particulares, como Resêndio, das formas cheias, Aberaldo Costa, criador de rostos, e Fernando Rodrigues, da estética sinuosa. Essa matriz não obedece a escolas, mas bebe na fonte resistente da criatividade popular.

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COURO Em Alagoas, o couro foi introduzido com o ciclo do gado, no Brasil Colônia, formatando um modo de viver característico que permanece moldando o cotidiano de sua gente até os dias atuais. Artífices aprenderam a adaptar esse material às demandas locais, utilizando-o de diversas maneiras. Ainda hoje, mestres seleiros, sapateiros e chapeleiros exercitam suas habilidades, cada vez mais rarefeitas, pelo território alagoano. Vale a pena registrar essas técnicas manuais e seus produtos, que correm o risco de extinção. METAL Mestres ferreiros e funileiros gozaram de especial reconhecimento através dos tempos. Na paz ou na guerra foram sempre imprescindíveis. O século passado, com o triunfo da industrialização, colocou em contagem regressiva essas atividades. Mas elas subsistem em boa parte do interior de Alagoas, através de mãos hábeis e técnicas rudimentares. Facas, funis, fogões e lampiões, entre outros objetos, são vendidos em feiras e pequenos estabelecimentos, mostrando a força do passado em responder às demandas do presente. RENDA E BORDADO Nada é tão feminino como o bordado. Delicado, detalhista, a cobrar paciência de quem o faz, encontrou na mulher a criadora adequada. Alagoas apresenta grande diversidade de bordados, minuciosos, criativos, de rara beleza. Mais do que qualquer outro artesanato, ele gera grande sociabilidade técnica e cultural. Mestras bordadeiras alagoanas estão entre as melhores do Brasil. COCO E CABAÇA O coco, planta transplantada, aclimatou-se e alimentou uma cultura na franja litorânea de Alagoas. Além da música e da dança inspiradas nas fainas dos coqueirais, surgiu também um artesanato que usa o tronco do coqueiro e a casca do coco como matéria-prima. A cabaça, por sua vez, vem sendo utilizada em sua forma natural para vários fins, mostrando a adaptação do homem. É a simplicidade convertida em resultados. TECELAGEM Os indígenas que habitavam o imenso território nordestino deixaram como herança a tecelagem de redes, mantas e tapetes. A rede é resultante dessa cultura que via o ócio como uma consequência da convivência harmoniosa do homem com a natureza. Em Alagoas, embora se constate a redução do número de artesãos nessa atividade, ainda é possível encontrar trabalhos feitos em velhos teares, com técnicas antigas. O desaparecimento da cultura do algodão foi um fator limitante. MATERIAIS DIVERSOS O imaginário popular tem dado respostas criativas à realidade que nos cerca. Essa capacidade de transcender resulta numa imensurável variedade de artefatos como chapéus de guerreiro, adereços e máscaras, que são férteis testemunhos de uma visão mágica da vida e de enorme criatividade. Esses objetos estão intimamente ligados às formas de arte popular e trazem em sua materialidade elementos expressivos da nossa cultura.

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Presidente Carlos Alberto Mendonça Presidente do Conselho Estratégico Carlos Alberto Mendonça Diretor Executivo Luis Amorim Fazer Popular Mestres Artesãos das Alagoas Coordenação Geral Leonardo Simões Coordenação Editorial Farol Editora Apresentação Douglas Apratto Tenório Apresentação Cícero Péricles de Carvalho Pesquisa e Textos Cármen Lúcia Dantas Revisão Ivone dos Santos Fotografia em cores Ricardo Lêdo Fotografia em P&B Celso Brandão Direção de Arte e Diagramação Wellington Charles Cavalcanti Tratamento de Fotos Victor Paiva Impressão - Gráfica Moura Ramos Tiragem - 15.000 Exemplares Instituto Arnon de Mello (82) 3326-1604 M386m Mestres Artesãos das Alagoas: Fazer Popular. 2 ed. Cármen Lúcia Dantas – Pesquisa e Textos; Douglas Apratto Tenório, Cícero Péricles de Carvalho – Apresentação; Leonardo Simões – Coordenação Geral; Ivone dos Santos – Revisão; Ricardo Lêdo, Celso Brandão – Fotografias. Maceió: Instituto Arnon de Mello, 2014. 221p. Ill. Conteúdo dos Fascículos ( 1 Apresentação; 2 Cerâmica; 3 Cestaria; 4 Madeira; 5 Couro; 6 Metal; 7 Renda e Bordado; 8 Coco e Cabaça; 9 Tecelagem; 10 Metais Diversos) 1 Cultura Popular – Alagoas. 2 Arte Folclórica – Alagoas . I Dantas, Cármen Lúcia – Pesquisa e Textos. II Tenório, Douglas Apratto – Apresentação. III Carvalho, Cícero Péricles – Apresentação. IV Santos, Ivone dos - Revisão. V Alagoas, João das – Capa . VI Lêdo, Ricardo – Fotografia. VII Brandão, Celso – Fotografia . VIII Cavalcanti, Wellington Charles – Direção de Arte e Diagramação. IX Instituto Arnon de Mello. CDD 306.4.813.5

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Xilogravura - 1978 . Enéias Tavares dos Santos Álbum sobre o Sururu - MTB/Ufal Capa: João das Alagoas

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Irinéia - cerâmica do Muquém União dos Palmares - Foto: Celso Brandão

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M estres Artesãos das Alagoas é uma incursão pelo universo do artesanato alagoano. Trata-se de uma leitura das habilidades e sensibilidades de inúmeros artistas anônimos que, através de sua arte, refletem a herança cultural de suas comunidades. Esta vasta obra, dinâmica e ao mesmo tempo conservadora de tradições técnicas e artísticas, representa um enorme tesouro. Talentos oriundos das distintas regiões do estado têm em comum o fato de representarem a capacidade de tradução lúdica da relação do homem com o seu entorno.

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O valor da inteligência das Alagoas É um privilégio, além de uma honra especial, poder participar das páginas deste magnífico trabalho – “Mestres Artesãos de Alagoas”, uma reedição ampliada, revisada e atualizada da obra inicial, cujo sucesso encheu de orgulho a todos nós que fazemos a Organização ARNON DE MELLO e o Instituto ARNON DE MELLO, agora, depois de esgotada, exigida no Brasil inteiro. Assim, esta valiosa obra, com nova feição, deverá atender aos reclamos da nossa sociedade, de estudiosos do nosso Brasil e, inclusive, de outros países. É este um trabalho produzido com a inteligência e o carinho especial de estudiosos que somente aprenderam a fazer o “bem feito”, a exemplo do Professor Doutor Douglas Apratto Tenório, com a sua descrição sobre a “A Arte Popular dos Brinquedos – Uma Herança nunca esquecida em Alagoas”, onde renova a verdadeira valorização do artesão da nossa terra, mulheres e homens capazes e inteligentes que continuam no anonimato. A valiosa participação do Mestre Cícero Péricles de Carvalho, que trata, com maestria, do valor do Artesanato na Economia do nosso estado. Aliás, diga-se, em tempo, sem dúvida alguma, uma grande parcela da economia de Alagoas é extraída da capacidade de criação dos nossos artesãos: mulheres e homens com especial criatividade e habilidade, capazes de produzir obras belíssimas com apenas um pouco de barro, uma peça de linha ou uma velha tábua. Está, ainda, nesta obra, um esplendoroso ensaio do prestigiado fotógrafo Celso Brandão, em preto e branco, com textos bem produzidos pela Museóloga Cármen Lúcia Dantas, com artesãos expressivos de cada uma das atividades abordadas. As imagens coloridas desta obra são do mestre Ricardo Lêdo, experiente e dedicado fotógrafo da Gazeta de Alagoas, cuja capacidade de encontrar o ângulo correto, é incomparável. Sem dúvida alguma, na montagem e na estrutura deste tabalho, deve ser lembrada a participação decisiva do Diretor Leonardo Simões. Finalmente, sem a decisão firme do Diretor Executivo da OAM, Dr. Luiz Amorim, que viabilizou os recursos humanos e financeiros, não seria possível uma só linha aqui impressa. Maceió, novembro de 2014 Carlos Alberto Mendonça Presidente do Instituto ARNON DE MELLO

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2ª Edição 2 0 14

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10 Pássaros - Aberaldo Ilha do Ferro (Pão de Açúcar)

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Alagoas, engenho e arte O artesanato é a expressão mais autêntica da criatividade popular, em que o criador se serve de habilidades manuais para dar forma à leitura do mundo que o cerca. A essas habilidades se agrega a sensibilidade de cada um desses artistas, que materializam os valores de seu meio. Um artesão, portanto, é a mediação mais autêntica entre seu entorno e o objeto por ele criado. Num mundo unívoco, em que a uniformidade é a regra, o artesanato de raiz tem sua própria representatividade. Elaborado em condições de semi-isolamento em relação às influências urbanas, esse fazer reflete fortes componentes de seus ambientes, recuperando elos perdidos da cadeia histórico-cultural. O termo raiz, segundo definição da professora Cármen Lúcia Dantas, autora dos nove textos acerca dos diferentes tipos de artesanatos, se refere àquela obra de forte vínculo com a comunidade onde vive o artesão, em que seu meio exerce uma influência maior do que as forças culturais e comerciais externas. Esse artesanato cheio de autenticidade, que bebe nas fontes da criatividade popular, é mais pujante em áreas que experimentam um certo isolamento geográfico. Revelando o contraditório das experiências sociais, é possível que esse tipo de obra se beneficie da carência de educação formal em certas faixas da população, “impermeabilizando” o artista contra as influências da igualdade oriunda da sociedade manufatureira. Esses artesãos são, invariavelmente, pessoas simples, de profunda inserção em seus ambientes. Mostram densos elementos de criatividade e de personalidade. Encontraram caminhos próprios e estabeleceram marcas. Há, também, produções mais utilitárias, de fortes técnicas pessoais, como é o caso dos seleiros e ferreiros, em que a habilidade se tornou a marca desses artífices, hoje em processo de extinção. Alagoas é rica em artesanato de qualidade. Mestres são encontrados em todos os quadrantes de seu território, do Litoral à Zona Mata, do Agreste ao Sertão. Este trabalho tem o mérito de documentar artesãos e obras que mostram uma Alagoas diversificada, autêntica, uma verdadeira matriz de engenho e arte. Stefani B. Lins 11

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Foto: Ricardo Lêdo / Artesão: Mestre Benon (Guerreiro) Apresentação História, Cultura e Arte 13

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O Fazer Popular das Alagoas Douglas Apratto Tenório* Alagoas é um lugar onde a história e a cultura encontraram campo fértil para semeadura. Apesar das dificuldades, do quadro imenso de exclusão, cada momento da vida de seus habitantes e cada instante da sua trajetória no tempo se ritualizam em ondas de encanto e brilho, desde o exemplo de seus heróis até o suor de seus operários, do nascimento à morte, desde o duro trabalho na terra até a pesca nos seus rios, lagos e mares de infinito azul, ao toque de sensibilidade dos artistas, com a alma dos antepassados e a fé dos vivos. 14 Há uma coalescência histórica entre Alagoas e o Brasil. Alguém já afirmou – talvez até com não muito boa intenção, diante de tantos fatos de repercussão acontecidos em suas paragens – que este estado é um verdadeiro laboratório sociológico, histórico e antropológico para os estudiosos e pesquisadores. O fato inquestionável é que, por uma série de razões, ultrapassamos os limites geográficos e geopolíticos, e passamos a ocupar um lugar de destaque na história e na mídia em nosso país. A berlinda da chamada “terra dos marechais” não vem de agora. Nem dos primeiros presidentes da nossa República, após a queda do Império, em 1889 - Deodoro da Figura popular Irinéia do Muquém (União dos Palmares) *Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco, membro da Academia Alagoana de Letras, da Academia Brasileira de História, do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e do Instituto Histórico Brasileiro.

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Pássaro em madeira (Vieira - Ilha do Ferro) Fonseca e Floriano Peixoto, um o proclamador, o outro, o consolidador do novo regime implantado. Isso é apenas um grande entreato histórico. Com o final do regime militar, o primeiro presidente da República escolhido em eleições diretas, em 1989, foi o ex-governador alagoano Fernando Collor de Mello. Nossa vocação para a notícia vem de muito antes, vem dos tempos coloniais, desde que por aqui passaram as naus lusitanas chefiadas pelo piloto italiano Américo Vespúcio, que atingiu os rios São Francisco e São Miguel em 1501. Talvez até pelo próprio Pedro Álvares Cabral, pois há gente séria que acredita ter sido aqui o primeiro ponto tocado pelo navegador português. A vocação de Alagoas para a notícia e a controvérsia vem desde o descobrimento, portanto. Como disse Octávio Brandão em seu livro Combates e Batalhas: “Alagoas é uma terra de raízes profundas na História do Brasil. É berço de tradições heróicas e imortais, patriotas e progressistas. É um manancial de poesia – lírica e épica”. Por isso é que podemos dizer, parodiando Fernand Braudel, diretor da Casa das Ciências do Homem e da famosa revista historiográfica Annales, que, acerca do seu glorioso passado, dos muitos vultos alagoanos que tiveram atuação destacada na cultura e na política brasileira, o mais belo testemunho é o da própria história. Isto tem que ser dito e redito. É preciso 15

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