Conversas Desconversadas seguidas de Reverso

 

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Crónicas e versos de Adventino Amaro, publicados no Jornal do STAL

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Autor: Adventino Amaro Edição e paginação: Departamento de Informação Sindical do STAL Janeiro de 2012 Capa: Carlos Marques Tiragem: 1000 exemplares Impressão: Gráfica Central Mealhadense Depósito legal: 337796/11

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Contigo, sempre na luta Todos os leitores do Jornal do STAL, assíduos ou ocasionais, conhecem as mordazes crónicas publicadas na rubrica «Conversas Desconversadas», as acutilantes rimas do «Reverso» ou ainda as originais «Palavras Cruzadas», onde não falta o humor e a crítica política e social. O mesmo será dizer que conhecem necessariamente a escrita e o labor do autor deste livro. Adventino Amaro, cuja assinatura aparece apenas na rubrica «Conversas Desconversadas», tem sido também um quadro destacado num largo período da história do STAL, seja como membro da Direcção Regional de Lisboa ou da Direcção Nacional, seja como trabalhador empenhado nesta luta de todos nós pelos direitos individuais e colectivos, pelos salários, pelos serviços públicos, contra a exploração e por uma sociedade diferente, mais justa e solidária. E mesmo já aposentado, situação em que se encontra actualmente, continua a participar activamente nas acções e iniciativas do Sindicato e a escrever com regularidade para o nosso jornal. Por tudo isto, quando preparávamos o centésimo número do Jornal do STAL, discutindo a possibilidade de comemorarmos este acontecimento – que para a Direcção Nacional do Sindicato representa um marco no esforço de informação e formação dos trabalhadores –, surgiu com naturalidade a ideia de compilar todas as crónicas e versos de Adventino Amaro neste livro que agora se oferece aos leitores. Fizemo-lo com dois sentidos: Por um lado, porque vale a pena ler ou reler estes textos de Adventino Amaro, onde encontramos uma galeria de personagens satirizadas com mestria, nas quais reconhecemos imediatamente os protagonistas da demolição consecutiva das conquistas sociais, políticas e económicas da Revolução de Abril, muitos dos quais permanecem activos, quer em altos cargos políticos quer nas diferentes áreas da vida nacional, continuando a demonstrar peculiar desvelo pelos interesses dos grupos económicos e total desprezo pelos direitos de quem trabalha. 5

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Por outro lado, porque vale a pena homenagear o homem, o trabalhador, o camarada e o sindicalista Adventino Amaro, que, pela sua acção directa ou pela escrita, tem dedicado uma boa parte da sua vida à causa dos trabalhadores, causa também sempre presente nas suas colaborações para o Jornal do STAL, que tanto o têm enriquecido. Bem-haja por isso Adventino Amaro, continuamos a contar contigo porque a luta continua! Membro da Direcção Nacional do STAL e responsável pelo Departamento de Informação Sindical Lisboa, 16 de Dezembro de 2011 José Manuel Marques 6

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O autor Adventino (Pinheiro de) Amaro nasceu em 27 de Julho de 1943 na freguesia de Perre, concelho de Viana do Castelo. Décimo primeiro e último filho de um humilde casal (pai carpinteiro e mãe «doméstica»), viveu os primeiros anos, sem disso se aperceber, com as imensas dificuldades inerentes ao duplo drama que marcou aquela época: um governo fascista no poder e a II Guerra Mundial em pleno desenvolvimento. Aos seis anos de idade a família emigrou para Lisboa. Foi aí que frequentou a escola primária e teve a possibilidade de prosseguir os estudos, possibilidade esta só concedida aos dois membros mais novos da família, dadas as terríveis condições de pobreza, quase extrema, em que viviam. Após aprovação no exame de admissão aos liceus, ingressou no Liceu Passos Manuel. A sua carreira estudantil foi tudo menos famosa. No primeiro ano do então designado 1.º ciclo ainda se aguentou, passando à tangente, mas no segundo ano foi o desastre total. As horas que deveriam ser dedicadas ao estudo passava -as na rua a jogar à bola com a malta lá do sítio, e o resultado foi um chumbo clamoroso. A família continuava a viver com muitas dificuldades. Eram três ou quatro a trabalhar e doze a comer. Por isso, o seu destino imediato foi ir trabalhar na construção civil em obras da responsabilidade de um seu irmão mais velho, que iniciara a actividade do que na altura se designava por «mestre-de-obras» ou «construtor civil». Naquela profissão se manteve, com alguns curtos interregnos a experimentar outras actividades, que não resultaram, até chegar a altura de ir prestar o serviço militar obrigatório. Foi incorporado em Dezembro de 1964, fazendo a recruta no Regimento de Infantaria 3 em Beja e tirando a especialidade de Radiotelegrafista em Tancos. Colocado no RAAF em Queluz, aí foi mobilizado passados quinze dias para cumprir uma «comissão de serviço» em Angola. Embarcou para aquela ex-colónia em Julho de 1965, e regressou 7

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em Setembro de 1967, tendo pisado de novo o solo português a 2 de Outubro desse ano. Após a desmobilização do serviço militar, arranjou emprego nos serviços administrativos da firma Carrasqueiro&Teixeira, Lda, onde se manteve até Fevereiro de 1974, altura em que foi despedido por promover um abaixo-assinado de protesto contra as discriminações salariais ali existentes. Aderiu ao MDP-CDE em 1969, participando activamente na campanha deste movimento de oposição ao fascismo nas eleições desse ano para a então designada Assembleia Nacional. Contactado para aderir ao Partido Comunista Português em 1971, aceitou com entusiasmo e nele se mantém como militante, orgulhoso por pertencer ao que considera ser o único partido que, para além de um passado heróico, tem um presente coerente, indispensável à luta pela construção do futuro que o povo português merece. Em Maio de 1974 integrou, como secretário, a primeira Comissão Administrativa da Junta de Freguesia de Odivelas, vindo mais tarde a ocupar um lugar nos quadros de pessoal desse órgão do emergente poder local democrático. Em 1981 foi eleito para a Direcção Regional de Lisboa do STAL, onde se manteve até ser eleito para a Direcção Nacional deste sindicato, em 1983. Fez parte da Comissão Executiva, como responsável pela organização, voltando ao seu local de trabalho em 1987. Nos anos 90 regressa às lides sindicais a tempo inteiro, de novo como membro da Direcção Regional de Lisboa. Já aposentado, mantém a sua colaboração no Jornal do STAL, com os escritos que agora são dados à estampa no livro que vos é presente. Foi colaborador «espontâneo» do jornal Notícias da Amadora, onde foram publicados vários textos seus na década de 90. Todo este livro é constituído por crónicas e versos escritos entre 1992 e a actualidade. O conteúdo é datado e aparentemente efémero. Aparentemente efémero porque muitas das situações relatadas, em vez de terem desaparecido de cena comidas pela voragem do tempo e da decência, aí estão, dramaticamente, mais actuais do que nunca. 8

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E as figurinhas e figurões caricaturados nestes textos continuam a andar por aí sem decoro nem vergonha. Uns em altos cargos do Estado (como é flagrante exemplo o actual Presidente da República), outros encaixados em conselhos de administração de grandes empresas públicas ou privadas, outros ainda em cargos europeus que lhes facultam algum prestígio junto dos amigos e, sobretudo, belos ordenados, e todos eles a dar a receita para o País sair da crise para que eles nos empurraram, a mando dos seus patrões (o grande capital nacional e estrangeiro). Alguns dos textos, porque são baseados ou fazem alusão a personagens de telenovelas em exibição e ou a programas de televisão da altura, poderão ter menor legibilidade para alguns leitores, sobretudo os mais novos. Na medida do possível, damos alguma desta informação em notas de rodapé. Adventino Amaro 25.de Novembro de 2011 9

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Telenovélicas* Lázaro, chefe do governo da família Venturini, andava preocupado com os conflitos sociais que se tinham avolumado na sua mansão, para os quais não vislumbrava saídas airosas que garantissem a manutenção da sua intocável autoridade. Ele era o Eduardo Costa Brava que entrou em greve por tempo indeterminado na efervescente fabriqueta da sua netinha Vitória, sem se dignar apresentar o obrigatório pré-aviso com a necessária antecedência. Ele era a sua nora Isadora que resolveu fazer lock-out, impedindo o acesso ao seu local de trabalho ao André Peito Manso com quem acabara de celebrar um contrato válido para toda a vida, enquanto que, de vez em quando, um tal de Ricardo Miranda ia pela surra fazer umas horas extraordinárias. Ele era a mana Valentina que contratou, com assinatura reconhecida no notário e tudo, um assalariado remunerado muito acima do ordenado mínimo nacional, que não dava o rendimento desejado dentro do horário de trabalho mas andava fora de horas a biscatear por tudo quanto era sítio. D Lázaro, depois de meditar na melhor forma de ultrapassar a situação, resolveu aconselhar-se: * Baseado na telenovela brasileira «Meu Bem, Meu Mal» 11 D.

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– Porfírio – chamou com voz pausada. – Liga-me aí para a Europa, para Portugal, para Lisboa, para S. Bento, e diz que eu, D. Lázaro, chefe do governo Venturini, desejo falar com o professor Silva, chefe do governo de lá. – Chefe Silva? – exclamou o Porfírio. – Aquele dos refogados, dos panelões, da frigideira, dos tachos, dos... – Cale-se, seu idiota! Quais refogados, panelões e frigideiras. Quem eu quero é o Aníbal, aquele que é descendente da antiquíssima e distintérrima família dos Silvas de Boliqueime. – Certamente, D. Lázaro – emudeceu o Porfírio. E fez a ligação, passando de imediato o telefone ao patrão. – Alô... alô... Aníbal? Daqui fala D. Lázaro. O quê, não me conhece? Essa é boa, cara! Eu sou aquele que aparece todos os dias na vossa televisão, na telenovela de cá e que dá logo a seguir à telenovela de lá. (…) Cinzas? Quais cinzas? Não, meu chapa. Refiro-me ao telejornal, a telenovela realizada pelo Moniz na qual você é o actor principal (…) isso mesmo, meu bem. Meu mal é que na telenovela de cá a oposição está a ter muito tempo de antena. Sei (…) Sei (...) Claro, claro, o Collor foi uma besta, não soube abafar os escândalos como você tão bem sabe fazer (…) Sim (…) Sim (…) Ai você também tem aí uma mula? Na Madeira? Fugiu da cooperativa e anda no jardim aos coices à gente da oposição? (…) Ah, Jardim é o nome (…) sim, sim, compreendo (…) e zurra ao som da música Pop? Ponha-lhe o freio, Aníbal, antes que seja tarde (…) há, já não é preciso (…) ganhou as eleições ainda com mais votos? (…) É o que eu sempre digo, Aníbal. Uns coices dados a tempo impõem sempre muito respeito ao povoléu. Parabéns, Aníbal. Aliás, isso só vem provar que eu estava certo quando me lembrei de lhe telefonar para pedir uns conselhos sobre a governação aqui da Venturini. (…) O quê? Se também temos mulas? Temos, temos e não são poucas, mas o problema não é bem esse. Olhe, é o seguinte: – O que é que você faz quando alguém entra em greve sem pré-aviso? (…) Polícia? (…) Prisão? (…) Porrada, despedi (…) Ó Aníbal, você não está a perceber. A minha netinha, que é a proprietária da fábrica onde a greve foi declarada, não quer prender nem despedir o grevista. (…) Serviços mínimos (…) Sei (…) Sei, (…) Requisição civil? Ó Aníbal, como é que eu posso requisitar civilmente ou impor serviços mínimos a alguém que ninguém sabe onde está? (…) 12

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Polícia de informações (…) Sim, sim, estou a ouvir (...) Prisão (...) Porrada (…) Outra vez? Então não haverá outra forma? (…) Autoridade, claro (…) Sim, compreendo, está no programa do governo (…) Sim, maioria absoluta, pois claro. Está bem, vou ver se consigo adaptar isso aqui. Agora outra coisa: – Um assalariado com contrato sem prazo anda numa de mandriagem nas horas de serviço e a fazer biscates lá por fora. Ainda por cima anda sempre a pedir aumento de ordenado. Que é que eu faço? (…) Sei (…) Sei (…) Despedimento? (…) Com justa causa (…) Ó Silva, mas a mana Valentina gosta muito dele, não o quer despedir (…) Sim, estou a perceber, polícia, prisão, porrada, autoridade democrática, tá bom. Mas, e o aumento de ordenado, como é que o vou impedir? (…) Ah, a concertação social (…) Sim, sim, estou a ouvir perfeitamente (…) Um Torres Couto ou um Proença (…) claro, claro, é uma óptima ideia. Não há dúvida, Aníbal, você é o máximo! E já agora, para terminar: – A minha nora Isadora fez lock-out ao André Peito Manso, como você já deve ter visto. Sempre que ele quer entrar na fábrica, encontra a porta fechada. Ela diz que é da arca frigorífica que congela a fechadura mas eu sei que não é verdade. E o André também sabe. Até porque há um bastardo que lá vai de vez em quando e a porta está bem aberta. Ora eu quero acabar com o lock-out e (…) O quê? (…) Comunista, eu? (…) Você está a chamar-me comunista? (…) Espere aí, não grite que eu não sou surdo (…) Quê? (…) Quem? Ó seu grande ffffff’ À hora em que isto é relatado, D. Lázaro ainda se encontra em estado de coma na cama de um hospital. E o seu conselheiro Aníbal, dos Silvas de Boliqueime, é ainda a principal personagem da telenovela portuguesa que todos os dias vai para o ar. Não perca. De segunda a segunda-feira, às 20 horas, RTP, canal 1. Bom apetite e melhor estômago para a digestão. Jornal do STAL, n.º 27, Novembro de 1992 13

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Concertação «brigadinho» O subsídio é boé, é estrórdinário e o escalão (des)congelado está nos trinques! Trincaram o escalão do meu salário e nem sequer me convidaram para os drinques. Ficou no congelador o meu escalão e é no congelador que descongela! Os dez por cento iam ser mas já não são porque, claro, nunca há senão sem bela... Todos tiveram os oito da portaria e já gozaram, pois então. O resto é léria! À Lei dos dois, já dizia a minha tia, falta-lhe um para ser menina séria. Quem é que ainda vai nisto? Quem aceita os dejectos da orgia, seja traque ou seja arroto? Na hora da (in)digestão é que se vê a maleita, seja cavaco comprido ou simplesmente um co(u)to... Quem gostar de sorver gases tire disso bom proveito. Cheire, inspire, faça as pazes porque isso, às vezes, dá jeito... A Melga Jornal do STAL, n.º 25, Maio de 1992 14

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«Futebolística» A Dinamarca é campeã europeia tanto do chuto na «chincha» como do voto na urna. Contra tudo e quase todos, mostrou ser um povo fixe! Deu um tratado de bola e, ao tratado de Maastricht, deu um belo tratamento, mostrando à gente soturna que não quer viver à sombra de uma qualquer panaceia. E nós, no nosso cantinho, somos campeões de quê? Com um primeiro-ministro* que não sabe, que não lê uma obra censurada por um seu lugar tenente e que em vez de ter vergonha da sua árida mente vem a público gabar o seu espírito vazio... E nós, nas margens da Europa, queremos ganhar o quê? Cantatas e melopeias, um outro discurso pífio, mais de cem mil «disponíveis», o desprezo da TV, carreiras estagnadas, contratos a termo certo, perspectivas de futuro plantadas no deserto onde passeiam camelos de muitas e lindas bossas? E nós, mendigos da Europa, que esperanças são as nossas? Quando o nosso futebol não passa dos ameaços, quando nos querem roubar as armas da nossa luta, quando uns são filhos da mãe e outros filhos da... outra, quando somos governados por alguns chicos vivaços, quando já não há Eusébio e na Espanha joga o Futre, quando estamos à mercê de tudo o que é abutre... * Cavaco Silva 15

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