Um livro, um autor

 

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Crónicas de António Marques sobre literatura, publicadas no Jornal do STAL

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Autor: António Marques Edição e paginação: Departamento de Informação Sindical do STAL Março de 2012 Capa: Carlos Marques Tiragem: 1000 exemplares Impressão: Gráfica Central Mealhadense Depósito legal: 338701/12

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Índice Uma valiosa contribuição, por Francisco Braz.................................................... Ler, intervir, aprender, por António Marques ..................................................... João de Deus, A Cartilha Maternal ..................................................................... Aquilino Ribeiro, São Banaboião, Anacoreta e Martir.......................................... Camilo Castelo Branco, Anátema...................................................................... Ferreira de Castro, A Selva ................................................................................ António Aleixo, Este Livro Que Vos Deixo ............................................................ Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal... ......................................................... Jacques Cousteau, As últimas revelações ........................................................... Alves Redol, A Vida Mágica da Sementinha ........................................................ Camões, O lírico e a natureza ............................................................................. João de Barros, A Moral da Energia ................................................................... José Saramago, Salvé, Nobel Saramago ............................................................. Almeida Garrett, Folhas caídas ......................................................................... Antero de Quental, Odes Modernas .................................................................. Florbela Espanca, Charneca em Flor .................................................................. Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras .................................................................. Fernando Pessoa, Mensagem ........................................................................... Fernando Namora, Retalhos da Vida de Um Médico ........................................... Bocage, Rimas .................................................................................................. José Gomes Ferreira, Poesia IV .......................................................................... Manuel Tiago, Até Amanhã, Camaradas ............................................................ Agostinho da Silva, A liberdade ........................................................................ Fernando Lopes Graça, Canções Heróicas ......................................................... Miguel Torga, Os Bichos .................................................................................... Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães ................................................. Padre António Vieira, Sermões ......................................................................... António Gedeão, A Pedra Filosofal ..................................................................... Mário Dionísio, O Dia Cinzento .......................................................................... Baptista-Bastos, As Bicicletas em Setembro ........................................................ Soeiro Pereira Gomes, Esteiros ......................................................................... Jorge de Sena, Sinais de Fogo ........................................................................... José Saramago, Levantados do Chão ................................................................. Alexandre Herculano, História de Portugal ........................................................ Alves Redol, Gaibéus ........................................................................................ Manuel da Fonseca, Cerromaior ....................................................................... Gil Vicente, Auto de São Martinho ..................................................................... 7 9 11 13 17 21 25 29 33 35 37 39 43 47 51 53 57 59 61 63 67 71 75 79 85 89 93 97 103 107 111 115 119 123 127 131 135

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Um Livro, um Autor 7 Uma valiosa contribuição Desde meados da década de 90 que António Marques mantém com grande regularidade duas rubricas de inegável interesse no Jornal do STAL: «Um livro, um autor», que versa sobre literatura, e «Conhecer», que nos fala de terras e lugares do nosso País de visita obrigatória. A qualidade e simplicidade destas crónicas, a riqueza do seu conteúdo, o seu sentido crítico e preocupação social, depressa conquistaram muitos leitores, constituindo uma valiosa contribuição para a melhoria e diversificação do conteúdo do nosso jornal, dominado naturalmente por matérias de carácter político-sindical e reivindicativo. Quando a Direcção Nacional decidiu assinalar a publicação do centésimo número do Jornal do STAL, considerou-se que seria oportuno reunir todas as crónicas de António Marques, proporcionando aos nossos associados e leitores um agradável volume que nos lembra e desperta a atenção para um importante conjunto de figuras cimeiras das nossas artes e letras e nos leva em digressão por terras e lugares mais ou menos conhecidos do País. Mas ao fazê-lo quisemos também prestar uma justa homenagem ao homem e ao dirigente sindical de longa data. Membro fundador do STAL, António Marques foi presidente da sua Direcção Nacional, tendo permanecido sempre ligado aos órgãos nacionais do Sindicato, onde é actualmente presidente do Conselho Fiscal, entre muitas outras actividades profissionais e cívicas que desenvolve com assinalável energia. A par da sua prosa culta e esclarecida, que tanto tem beneficiado o nosso jornal, devemos também reconhecer-lhe aqui o empenho e dedicação à causa dos trabalhadores, à luta pelos direitos laborais e sociais, tendo em vista uma sociedade mais justa e democrática, num país moderno e desenvolvido. Francisco Braz Presidente da Direcção Nacional do STAL Lisboa, 1 de Março de 2012

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Um Livro, um Autor 9 Ler, aprender, intervir Escrever sobre literatura num jornal sindical não é um acto abstracto mas uma forma de militância assumida, que nos obriga a ver na literatura e na arte em geral o seu carácter social interactivo. Nestas crónicas, publicadas no Jornal do STAL ao longo das duas últimas décadas, procurámos mostrar a obra literária como influenciadora das mutações sociais através dos tempos, por vezes de forma decisiva. Numa época em que os hábitos de leitura voltaram a ser em geral apanágio das elites dominantes (que exercem o seu poder também através da hegemonia cultural), e se tornaram pouco frequentes entre as amplas camadas da população, crescentemente submetidas à influência totalitária e redutora dos audiovisuais, a abertura de uma rubrica literária num órgão de imprensa sindical, podendo parecer deslocada e seguramente invulgar, visou desde o início reavivar e alargar o interesse pelos nossos grandes escritores. Foi assim que, em prosa corrida e breve, fotografámos alguns dos maiores nomes da nossa literatura, relacionando sempre cada autor e a sua obra com a época e as condições sociais em que se inserem e às quais necessariamente se referem. Ao esboçarmos estes retratos, confirmámos a intervenção relevante do escritor, do intelectual, do artista, como intérprete da sociedade, das suas classes e interesses. Mas identificámos também a sua acção transformadora, quando devolve ao mundo a realidade por si percepcionada, descortinando o sentido profundo da saga dos povos, da sua labuta diária, dos seus anseios e aspirações. Como escrevemos na primeira desta série de crónicas, publicada em Junho de 1995, «A formação do associado e do homem integrado no grupo (sociedade) processa-se numa relação estreita com a sua actividade linguística, e é fundamental para a sua identificação pessoal a “história” que a língua lhe transmite. É através da paisagem linguística que chegamos à nossa origem.» Desse passado que a língua nos transmite, chega-nos nomeadamente o legado luminoso de uma plêiade de escritores e artistas excepcionais – de Redol a Soeiro Pereira Gomes, de Manuel da Fonseca a Vergílio Ferreira, de José Gomes Ferreira a Fernando Lopes Graça, de

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10 António Marques Júlio Pomar a José Dias Coelho, sem esquecer o grande Aquilino Ribeiro, entre tantos outros – que, desafiando a opressão e a mordaça do fascismo, se colocaram ao lado do povo, desvendando-lhe um futuro sem grilhetas, assente nos ideais da justiça, solidariedade e progresso social – os ideais inspiradores do 25 de Abril de 1974. As suas obras precursoras, continuadas depois por vários outros nomes cimeiros das nossas artes, de que se destaca o Nobel da Literatura português, José Saramago, despertaram gerações inteiras para a luta e continuam hoje mais actuais que nunca, incitando-nos à transformação da sociedade. Ouçamos a sua voz e sigamos o seu exemplo nos trilhos do presente. António Marques Lisboa, 1 de Fevereiro de 2012 Nota biográfica António Lopes Marques, 63 anos, casado. Completou o curso de Gestão Turística e Hoteleira (Berna, Suíça) e o Curso Superior de Língua Francesa (Sorbonne, Paris). Ex-deputado da Assembleia da República e ex-director da CGT francesa, é membro fundador do STAL e foi presidente da sua Direcção Nacional. Integrou o Conselho Nacional da CGTP, foi director da Escola Bento de Jesus Caraça (CGTP) e do INOVINTER (CGTP). Foi director-adjunto do Centro de Formação – CFA de Saint Lambert (Paris) e director-adjunto da ECOTEC – Escola Superior de Economia e Técnicas de Construção (Paris), continuando a integrar o respectivo Conselho de Administração. É presidente do Conselho Fiscal do STAL, vice-presidente da Direcção da AHBVCR – Bombeiros das Caldas da Rainha, director da Liga dos Bombeiros Portugueses, director executivo do Centro Empresarial do Oeste – Centro de Feiras e Exposições e eleito autárquico.

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Um Livro, um Autor 11 João de Deus A Cartilha Maternal O Jornal do STAL abre uma nova janela, desta feita aventura-se pelos terrenos movediços da crítica literária. Em cada número do nosso jornal, vamos escrever acerca de um livro e do seu autor. Porquê? Perguntarão alguns. Tão simples como ser aceite por todos que a formação do associado e do homem integrado no grupo (sociedade) se processa numa relação estreita com a sua actividade linguística e é fundamental para a sua identificação pessoal a «história» que a língua lhe transmite. É através da paisagem linguística que chegamos à nossa origem. Ao reconhecer o caminho da variada e rica literatura, não apenas lusa, mas também afro-americana de expressão portuguesa, abarcamos «um todo» mais vasto. Confesso que tive muitas dúvidas ao iniciar este trabalho. Tarefa difícil mas aliciante. Mesmo de maneira breve, vamos conhecer um pouco dos clássicos e dos modernos, tendo em síntese necessariamente modestos ensaios, um juízo sobre os autores e os livros escritos nesta unidade linguística maravilhosa que dá pelo nome de Português. O autor que hoje vos apresento é o poeta algarvio, nascido em 8 de Março de 1830, em S. Bartolomeu de Messines e que viria a morrer em Lisboa, em 11 de Janeiro de 1896, João de Deus de nome completo Nogueira Ramos.

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12 António Marques Partiu para Coimbra em 1849 e por lá andou dez anos até se formar em Direito. Foi boémio, poeta, desenhador, músico (violinista), foi quase idolatrado pelos companheiros da Academia. Torna-se director do jornal de Beja (O Bejense) em 1862, exerce advocacia na sua terra natal, é eleito para a Assembleia Nacional em 1868. Fixa-se a partir daí em Lisboa, e começam a surgir as edições da sua obra poética. Flores do Campo (colectânea) e Ramo de Flores (1869). Folhas Soltas é editado no Porto em 1876. Esta data é a mais importante na vida de João de Deus. Neste ano, um dos mais simples e grandiosos livros jamais editados em português é publicado com estrondo e polémica. Trata-se da extraordinária Cartilha Maternal, encomenda feita pelo sr. Rovere da Casa Editora Rolland, que pretendia um método de leitura em português, simples e eficaz. João de Deus aceita o desafio. Estuda com muito cuidado as dificuldades da língua e sistematiza as suas particularidades. Leva cerca de nove anos nesta luta e consegue o milagre de nos legar uma obra que foi fundamental no desbravar do analfabetismo em Portugal. João de Deus, na Cartilha pela qual se guiaram os nossos avós, os nossos pais e nós próprios, trabalha a língua como um escultor talha a pedra. Na Cartilha não há letras, há palavras. Tudo é racional, lógico e intuitivamente dedutivo, o que representa uma enorme vantagem para a formação de estruturas mentais. Lemos a Cartilha decifrando um jogo que se compreende. A unidade linguística para João de Deus é a palavra e não a sílaba. O homem corre atrás da palavra e, de pulo em pulo, em 90 lições, partindo do nada, aprende-se a ler. Ser homem é saber ler, dizia o poeta. Teve muitos detractores, teve grandes vultos a render-lhe homenagem. Como democrata, que sempre foi, João de Deus legou a seu filho, João de Deus Ramos, a preocupação de dotar as crianças portuguesas de uma educação pré-primária que englobasse todas as classes sociais sem distinção. A Cartilha Maternal é sem sombra de dúvidas um dos mais belos livros escritos em português. Jornal do STAL, n.º 39, Junho de 1995

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Um Livro, um Autor 13 Aquilino Ribeiro São Banaboião, Anacoreta e Martir «Alcança quem não cansa» Ex-libris de Aquilino Ribeiro quilino Ribeiro é porventura o maior escritor da língua portuguesa. A sua vastíssima obra é menos divulgada porque ainda hoje assusta a crítica e os poderes instituídos. Imerecidamente, os grandes livros que retratam a alma lusitana nas suas grandezas e nos seus abismos continuam a não se abrir, nem aos jovens nem aos menos jovens, porque as catacumbas onde se encerram as «pequenas» vontades culturais deste País fingem desconhecer o gigante que escreveu mais de «meia grosa» de obras cuja dimensão deveria suscitar outro respeito. Aquilino Ribeiro nasceu em 13 de Setembro de 1885, em Carregal da Tabosa – Sernancelhe. Durante várias décadas foi um vulcão solitário que deu à linguagem castiça e rural uma torrente de lava plebeia, onde se retrata pela voz do povo a vida dos campos e das cidades numa tamanha riqueza verbal que não possui similar na literatura portuguesa, nem mesmo na ficção camiliana. Influências bebeu-as, como todo o talhador de palavras, em Anatole France e mais ao longe em Flaubert, dos quais retira o seu gosto pela evocação filosófico-histórica e pelas aventuras de cunho sensual que transbordam dos seus romances ou das suas novelas. A grande sinfonia panteísta produziu-a Aquilino ao longo dos seus grandes romances, dando aos seres vegetais e aos bichos recorte de A

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14 António Marques gente como na abertura de A Casa Grande de Romarigães, de que me atrevo a reproduzir parte de um parágrafo: «Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores e toda a ordem a povoá -la. No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar». E a música suave da palavra a recordar-nos Bernardim Ribeiro outra grande influência de mestre Aquilino. Em 1913 casa com Grete Tiedemann, depois de ter fugido em 1908 da prisão, onde tinha ido parar em consequência do seu envolvimento nas movimentações do Partido Republicano e após a forte explosão no seu quarto, por má manipulação do arsenal ali guardado, que ceifou as vidas do dr. Gonçalves Lopes e de Belmonte de Melo. O seu primeiro livro, publicado ainda em 1913, é dedicado à sua primeira mulher que vem a falecer em 1927. «A Grete, doce e propícia sombra do meu trabalho». Chama-se Jardim das Tormentas, foi prefaciado por Carlos Malheiro Dias e editado por Júlio Ailland. Nesta primeira obra de 12 novelas surge o triunfar da vida que nos abre o apetite para o conjunto opulento que Aquilino gravou nas palavras portuguesas. Mas dos seus títulos, que dezenas são, e só por manifesta falta de espaço os não apresento, um há que se destaca pelo seu carácter monumental – S. Banaboião, Anacoreta e Mártir (1934). Aqui, o mestre folheia o Flos Sanctorum, produzindo uma lição de retórica à maneira dos padres de seiscentos, cujo resultado sublime pede explicações à Tentação de Santo António, de Anatole France. Em Banaboião Anacoreta e Mártir, Aquilino traduz o conflito do espiritual e do humano. A imaginação solta-se como se um sátiro viesse, pé ante pé, distrair o escritor dando à alma deste Anacoreta toda a força do mundo, não o deixando ser nem hermético, nem misterioso, nem arredado da vida e do seu máximo prazer, o amor. Este servo de Deus quis Aquilino talhá-lo de frente, batido pela luz escaldante, lembrando-nos que mesmo os anacoretas têm raízes que os agarram à terra de onde brotaram e que no cair de um dia qualquer lhes acena com volúpia. Ler Aquilino é ler na alma do povo português. De propósito não falei de Quando os Lobos Uivam (1958), que o leva à prisão e à grande movimentação de escritores portugueses.

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Um Livro, um Autor 15 Aqui nasce a chama que vai arder lentamente até 1974. Apenas mais duas notas para a sua cronologia. Casou, em segundo casamento, em Paris, com Jerónima Dantas Machado, filha do presidente Bernardino Machado, exilado na capital francesa. Morre a 27 de Maio de 1963, ao meio-dia e trinta, no hospital da CUF. Um dia, Portugal será justo para com O Homem que Matou o Diabo (1930). Jornal do STAL, n.º 40, Setembro de 1995

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