Livro - Conhecer Terras de Portugal

 

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Crónicas de António Marques publicadas no Jornal do STAL

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Autor: António Marques Edição e paginação: Departamento de Informação Sindical do STAL Capa: Carlos Marques Impressão: Gráfica Central Mealhadense

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Índice 7 O País e o pulsar do povo ........................................................................ 9 Covilhã, Com o céu ali tão perto ................................................................. Arraiolos, Beleza a perder de vista .............................................................. 12 Óbidos, Regresso à idade média ................................................................. 14 Portalegre, A cada passo uma descoberta .................................................. 16 Viseu, Cidade da minha infância ................................................................ 19 Águeda, Tradição e progresso .................................................................... 22 Coimbra, Libertina e castiça ....................................................................... 24 Torres Vedras, Terra plena de história ......................................................... 27 Expo’98, Roteiro de um dia ........................................................................ 29 Elvas, Cidade entre muros .......................................................................... 34 Marvão, Sentinela avançada ..................................................................... 37 Faial, A ilha azul, terra de sonho e de lenda .................................................. 40 Silves, O meu coração é árabe ................................................................... 43 Funchal, Onde mora a Primavera ............................................................... 45 Porto, Onde se guarda o orgulho e a memória ............................................. 47 Porto 2001, Uma ponte de utopia .............................................................. 49 Serra da Estrela, Onde a terra alcança o céu ............................................... 53 Chaves, Capital do Alto Tâmega ................................................................. 56 Setúbal, A princesa do Sado ....................................................................... 59 Arcos de Valdevez, Na paisagem do Alto Minho ......................................... 62 Marvão, O ninho das águias ...................................................................... 65 Vila Real de Sto António, A matriz pombalina ........................................... 68 Bragança, Milénios a encantar ................................................................... 72 Parque de Montesinho, A criação de um mago .......................................... 76 Mértola, Museu vivo do Guadiana .............................................................. 80 Gerês, Um percurso pelo paraíso ................................................................ 83 Idanha-a-Velha, Cada pedra, um livro de história ........................................ 86 Marinha Grande, Memória viva da resistência e luta ................................... 89 Odemira, A grandeza do Alentejo ............................................................... 92 Serra da Estrela, A neve como cenário ....................................................... 95 Ria Formosa, Um bordado de pequenas ilhas num mar de veludo ................ 98 Sintra, Um capricho da natureza ................................................................ 101

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Alqueva, O Alentejo, a água e a liberdade ................................................... Santiago do Cacém, Um Alentejo diferente ................................................ Vila do Bispo, Um outro olhar sobre o Algarve ............................................. Carrasqueira, A aldeia palafita .................................................................. 104 108 112 116

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Conhecer – Terras de Portugal 7 O País e o pulsar do povo Grandes viajantes nos caminhos do passado ou das utopias de sempre, caminhantes do mundo inteiro na nossa diáspora pelos quatro continentes, raro conhecemos a nossa casa. Das Franças e Araganças até Calcutá, Timor, Macau, África ou Brasil, calcorreámos as terras alheias até aos mais inóspitos sertões, mas caso espantoso, raro é conhecermos os recessos fragosos dos nossos montes, do Caldeirão, da Estrela ou do Gerês, onde urzes e açucenas, crescem embaladas nas melopeias das ribeiras que saltando de fraga em fraga alcançam o mar imenso, fronteira de um País incrível, belo como os mais belos, o nosso Portugal. A viagem, concreta ou simbólica, recomeça todos os dias enquanto tivermos vida e há-de prosseguir rumo ao futuro, se em nós habitar a emoção do viajante que transforma a memória em lembranças, em narrativas, em imagens, porque assim, haverá sempre mais para ver, para sentir, para recordar. O fim duma viagem não existe porque significa sempre o recomeço de outra, onde é preciso ver o que não foi visto e rever outra e outra vez o que já conhecemos, agora sob o ângulo agudo da experiência adquirida. Ver na Primavera o que vimos no Verão, ver de dia o que já foi visto de noite, ver com Sol onde antes a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. Neste movimento pendular que nunca se detém, a nossa vida, repetimos os passos que foram dados para, de forma misteriosa, descobrir caminhos novos ao lado dos velhos caminhos. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Feita de partidas e chegadas, de passado e futuro, a viagem é também o pretexto para reflectir sobre uma época de tantas indignidades e até ignomínias, onde é sempre preciso recomeçar. Aqui e acolá, o olhar é lançado sobre o passado, interrogando os muros vetustos do cimo das ameias dos velhos castelos, os remotos vestígios arqueológicos ou as intemporais e sublimes paisagens desses tempos primitivos. Tantas outras vezes surgem imagens convencionais e convencionadas de um Portugal feito de monumentos, paisagens bucólicas, tradições seculares, que compõem todo o nosso pitoresco, folclórico,

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8 António Marques histórico e quantas vezes maltratado País. Desta maleita, a vossa indulgência me perdoará, porque o homem, que viaja com o sindicalista de Norte a Sul, sofre de muitos pecados, mas este é decerto venial. Todavia, nestes relatos de viagens reais e metafóricas por Seca e Meca, procuramos sobretudo o Portugal onde pulsa o coração de um povo que vive, sofre, trabalha e resiste. É por isso frequente abrirmos um parêntesis para descrever a vivência quotidiana das populações, o seu olhar perspicaz e finamente escrutinador, pejado de imagens poéticas e até seráficas. Nunca nos apartamos do mundo do trabalho, das artes, dos ofícios, das actividades e do bulício de homens e mulheres nas lides comuns, que se atrevem a desenhar, construir e transformar o Portugal do presente. Quando interrogo a nossa grei nesta caminhada, o passado não me responde, mas na voz colocada do presente consigo perceber que este País terá o futuro que cada um de nós lhe legar, se o fizermos sem temores, calçando todos os dias as sandálias do caminheiro, enfrentando a adversidade, recusando a escravização dos povos e lutando com dignidade e nobreza de valores, para no final da viagem podermos afirmar: Valeu a pena. António Marques Lisboa, 22 de Novembro de 2011

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Conhecer – Terras de Portugal 9 Com o céu ali tão perto Ao chegarmos à Covilhã, logo que a beleza da Serra nos deixa respirar, depressa concluímos que foi por certo um Deus maior que um dia a fez nascer para deleite dos sentidos, onde a mãe natureza tudo subjuga. O grande Miguel Torga, ao visitar a Covilhã, escreveu um dia: «– Do lado nascente da Serra, aquele que é mais soalheiro e mais espectacular, é a Covilhã que tem a chave que abre a porta da Estrela. O meu avô tinha razão, quem vai à Covilhã aproxima-se do céu.» O poeta sentiu o peso e ao mesmo tempo a beleza de um dos santuários paisagísticos mais atraentes de todo o Portugal. Muitos escreveram sobre a Covilhã, de Gil Vicente (Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela) ou Frei Heitor Pinto, Frade Jerónimo, filho da terra preso nas cadeias de Toledo por ser apoiante do Prior do Crato, que gritou alto e bom som: «– Filipe pode meter-me dentro de Castela, mas não poderá meter Castela dentro de mim.» Covilhã, a Cava Juliana dos Romanos, é berço do ilustríssimo sr. Pêro que, defronte do edifício camarário, possui em sua homenagem um conjunto escultórico de discutível gosto. Pêro da Covilhã, o descobridor de mundos lembrado nas altas serranias beirãs, atesta que a gesta dos Descobrimentos tem raízes por aqui. D. João II enviou este desbravador de caminhos recolher Covilhã

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10 António Marques informações que permitiram a Vasco da Gama chegar à India. Aqui nasceu outro Portugal. Todos os nossos reis a honraram. D. Sancho I entrega-lhe foral em 1186, e pela sua importância como cidade fortifica-a com uma muralha em granito da região. Nesse tempo a Guarda ainda não existia. D. Dinis alarga a cintura amuralhada cerca de 1300. D. João I dá a cidade de presente a seu filho o Infante D. Henrique. Com as pedras da muralha, muito danificada pelo terramoto, construíram-se fábricas e palácios e o Marquês de Pombal fez nascer a Real Fábrica de Panos. Terra da lã da neve, como escreveu Ferreira de Castro, nesse livro marcante como símbolo das ancestrais lutas entre os exploradores e os explorados (leitura obrigatória), a cidade e a região tudo deveu a essa significativa indústria dos lanifícios, hoje a apresentar sérios problemas. Boa cozinha A Covilhã tem bons hotéis, boa cozinha, uma gastronomia típica (açorda de bacalhau, perdiz com beringelas, míscaros com ovos, caldo da panela) uma doçaria antiquíssima (broinha com requeijão, massapães, talassas, carolos) vinhos famosos, aguardente de zimbro e o melhor queijo do mundo. O artesanato e as festas fazem um açafate repleto. Vá à Covilhã e suba à Torre. São 15 quilómetros até atingir o céu de Portugal. O parque natural da Serra da Estrela tem um excelente guia. Leia-o com prazer, e pronto, lá vamos montanha acima dos 600 metros de altitude, tantos quantos possui a Covilhã, em cinco quilómetros atingimos os mil metros. Passamos pelo parque florestal do município, com óptimas condições para piqueniques, ultrapassamos Sete Fontes e a Rosa Negra e paramos no Pião, já perto da Varanda dos Carqueijais e os nossos olhos querem saltar das órbitas. Daqui faremos a mais linda fotografia da chamada Cova da Beira. Ultrapassamos o antigo sanatório dos ferroviários e depois do brevíssimo planiplanalto, chegamos às Penhas da Saúde, nos 1500 metros de altitude. Descemos ao Covão da Mulher e já estamos na subida da Torre. Ao chegar ao alto, do lado direito, cortada no granito, vemos uma obra escultórica de grande significado e valor, a Senhora da Estrela do

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Conhecer – Terras de Portugal 11 mestre António Duarte, (felizmente ainda vivo e de quem sou admirador e amigo), que nasceu e possui em Caldas da Rainha um Museu dedicado à sua obra. Mais duas curvas, e surge a Torre da Serra da Estrela. Atalaia plantada pelo homem para chegar aos dois mil metros. A neve é a prenda para os que, agasalhados, subam a estrada no Inverno. Um passeio que não esquece. Conheça a Covilhã e a sua região. Jornal do STAL, n.º 39, Junho de 1995

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12 António Marques Beleza a perder de vista Visto do Castelo de Arraiolos, o Alentejo não é seco e amarelo como conta a geografia, é verde e encarnado, matizes das suas planícies. Lá dentro o lugar está cheio de mulheres incansáveis tecendo os mais belos tapetes do mundo. Entramos pela Fonte da Pedra, e este barulho suave da água fresca brotando da montanha vai-nos dizendo: estamos no Alentejo. É uma surpresa... Tudo é imaculado em Arraiolos, como se os caprichos dos deuses teimassem em responder às falácias lisboetas que traduzem o Alentejo em anedotas. Por todo o lado, beleza a perder de vista, e por todo o lado os omnipresentes tapetes de Arraiolos – os mais belos tapetes do mundo. Entramos na Sala de Exposições Permanentes e ficamos maravilhados. Quantos séculos de cultura, quantos povos, quantas gentes, para que possamos colher este resultado assombroso. Mãos de fadas que são de mulheres tecem fio a fio estas maravilhas que partem para os quatro cantos do mundo e, por instantes, é o Oriente que recordamos, é na Pérsia ou na Arábia que viajamos. Sabe-se que Arraiolos remonta ao século II antes de Cristo, fundada por um governador grego de nome Rayos. No princípio do século XIII, D. Afonso doa a Soeiro Bispo de Évora as termas de Arraiolos e este manda construir o Castelo. Nos finais do Arraiolos

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Conhecer – Terras de Portugal 13 século XV, D. Manuel expulsou várias famílias árabes da mouraria de Lisboa e estas fixaram-se em Arraiolos, dizendo a tradição que aqui vieram criar os famosos tapetes, ensinando a fiação e desvendando o segredo de tingir as abundantes lãs dos muitos rebanhos da região. À esquina da igreja da Misericórdia, discreta por fora mas riquíssima nos seus azulejos do século XVIII, encontra-se o bulício do dia-a-dia. Subimos a rua do Condestável e o que encontramos são casas brancas e mais brancas a fazer morrer de inveja o castelo lá no alto, onde parte da muralha se perdeu mutilada pela história. Sento-me no pelourinho, onde o povo outrora fez justiça, e fecho os olhos a recordar o passeio da manhã. Santana do Campo, fundada sobre minas romanas, e mais mulheres a tecer arraiolos, S. Pedro da Gafonheira, Sabugueiro, Brotas e a lenda de Nossa Senhora de Brotas, o lugar fantasma da Torre das Águias, Mora, Pavia e a sua Anta, e depois mil aldeias porque esta gente não está só. À volta casinhas brancas e depois a barragem do Divor e a água que o Alentejo venera. País para sonhar – afinal é fácil. Jornal do STAL, n.º 40, Setembro de 1995

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14 António Marques Regresso à idade média A «mui nobre» vila de Óbidos conquistou o título de «sempre leal» por ter resistido a um cerco de oito meses imposto pelo «Bolonhês», mais tarde Afonso III de Portugal, que usurpou o título de rei a seu irmão D. Sancho, refugiado com a rainha D. Amélia dentro da muralha. O curioso do título é que foi o próprio Bolonhês que, ao invés de castigar os obidenses, os agraciou com esta divisa. A linda vila da Estremadura nasceu muito antes de Portugal se afirmar como país independente. Vestígios pré-históricos e, após sucessos vários, documentos proto-históricos de povos sem conta lá estão dentro dos muros, atestando que o homem sempre se apaixonou em todas as idades por esta região de sonho. Os mais visíveis são os romanos e os árabes que descobrimos ao dobrar da esquina. Prenda dos reis de Portugal às reais esposas desde D. Dinis, a vila passa a ser a sede da «Casa das Rainhas», tendo sido ofertada em primeiro dote a Isabel de Aragão, que a lenda imortalizou no milagre das rosas. Quem a arrancou aos mouros foi outra lenda que povoa os nossos sonhos de criança, Gonçalo Mendes da Maia, o grande lidador. A coberto da noite, enquanto Afonso Henriques ataca pelo Sul da Muralha, o velho guerreiro lança as escadas à fortaleza e conquista a «jóia da coroa». Óbidos

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Conhecer – Terras de Portugal 15 Ao longo da história, Óbidos teve dias de glória escritos a ouro, como de ouro são as pedras das muralhas que abraçam este cenário que, visto do Alto da Torre de Menagem do vetusto Castelo (hoje pousada), parece fantasia mas está bem vivo, conservado e são. Um formigueiro humano vai luzindo por vielas, becos e pequenas ruas, limpas e cuidadas, dando ao turista, nacional ou estrangeiro, a ilusão de actor medieval. Por toda a parte, velhas igrejas com altares «forrados a ouro joanino» atestam o carácter sagrado do lugar, sim porque se há terra que deve ser visitada de cabeça descoberta e olhos no céu é a maravilhosa terra obidense. Do alto das muralhas, lá está a Várzea da Rainha, hoje campo de cultivo, outrora fundo marinho que nos leva até à Lagoa, que espreita do povoado da Foz do Arelho. Come-se bem dentro e fora dos muros até à vizinha cidade de Caldas da Rainha. O peixe das suas caldeiradas vem de Peniche, as carnes são as melhores que se conhecem, mas o melhor é entrar na Estalagem do Convento, no antigo Paço Real, hoje pousada, no Alcaide ou fora de portas na ilustre Casa de Ramiro, no Caldeirão, e no D. João V. Não há roteiro recomendado. Todos os passos bem medidos farão uma história no encalço da História. Quem não visitou Óbidos, não conhece o dealbar dos tempos medievos. Jornal do STAL, n.º 41, Dezembro de 1995

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