Revista O Brasil Mudou

 

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Publicação que traz histórias de como o Brasil Sem Miséria e outros programas sociais estão mudando a vida dos brasileiros

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O BRASIL MUDOU O fim da miséria é só um começo 2 0 11 ‒ 2 0 1 4 Futuro garantido Acesso à saúde, educação e alimentação redesenha a história das crianças no país Superação da pobreza Programas sociais possibilitam mudança de perspectiva para milhões de brasileiros O campo está vivo Com água e assistência técnica, pequenos produtores transformam o meio rural

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Expediente Presidenta da República Dilma Rousseff Vice-presidente da República Michel Temer Ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Tereza Campello Secretário Executivo Marcelo Cardona Rocha Secretário Extraordinário para Superação da Extrema Pobreza Tiago Falcão Secretário Nacional de Renda de Cidadania Luís Henrique Paiva Secretária Nacional de Assistência Social Denise Colin Secretário Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional Arnoldo de Campos Secretário de Avaliação e Gestão da Informação Paulo Jannuzzi Supervisão editorial Anelise Borges | Lígia Kosin Marta Salomon | Renata Lu Coordenação editorial e revisão Cíntia Nunes | Cynara Navarro Eline Santos | Márcio Leal Rejane Gomes Reportagem e produção Ana Paula Siqueira | André Gomes Cristiane Hidaka | Francisco Marques Isadora Lionço | Ligia Girão Lis Weingärtner | Luiz Claudio Moreira Pamela Santos | Patrícia Alencar Sirlene Rodrigues Fotografia Ana Nascimento | Sergio Amaral Ubirajara Machado Foto capa Sergio Amaral Projeto gráfico e diagramação Hugo Pereira Tiragem 2.000 Impressão Gráfica São Jorge 5 Eles superaram a pobreza Brasileiros ultrapassam barreira da exclusão e da miséria 11 Oportunidades para crescer Programas qualificam e melhoram inserção da população mais pobre 16 Todo mundo ganha Economia das comunidades ganha impulso com programas sociais Todos os direitos reservados. Qualquer parte desta publicação pode ser reproduzida, deste que citada a fonte.

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42 22 28 O campo está vivo Acesso à agua, assistência técnica e garantia de venda mudam o meio rural Um futuro melhor para novas gerações Educação possibilita novas conquistas para beneficiários do Bolsa Família A infância sem fome Subalimentação deixou de ser um fenômeno no Brasil 48 Ao lado de quem mais precisa Equipes da assistência social garantem direitos a todos os brasileiros 52 36 Mais saudáveis e desenvolvidos Ações do Brasil Sem Miséria em saúde reduziram a mortalidade infantil A busca pelos invisíveis Estado localiza e inclui os brasileiros das regiões mais isoladas e bolsões de pobreza

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A P R E S E N TAÇÃO Brasília (DF) – Foto: Sergio Amaral O Brasil mudou. Nos últimos anos, o lema que impulsionou o esforço por um país mais justo e igual dizia que “O fim da miséria é só um começo”. Neste fim de governo, podemos mudar o tempo do verbo e sustentar: “O fim da miséria foi só um começo”. O país é outro e a mudança será relatada aqui na voz de alguns brasileiros, com o testemunho de suas vidas. Estamos falando de crianças bem nutridas e com saúde, que não trabalham mais para ajudar em casa, nem morrem precocemente. Estão na escola, investindo num futuro diferente do de seus pais. Falamos em brasileiros que já não passam fome, como seus pais, avós e bisavós. Falamos de um Brasil onde a pobreza mais severa, considerada em suas várias dimensões e não apenas na baixa renda, caiu de 8,3% da população, em 2002, para o equivalente a 1,1% da população em 2013, segundo dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, com base em metodologia do Banco Mundial. É um avanço incontestável. Em pouco mais de dez anos, deixaram a situação de pobreza mais severa, sobretudo, as famílias com crianças, os negros e os nordestinos, parcelas da população que mais sofriam com as privações. Não estamos medindo apenas a renda. O indicador de pobreza crônica multidimensional leva em conta a escolaridade das famílias, a frequência das crianças às aulas, o acesso a serviços de energia, saneamento e água, as condições da habitação e a posse de bens como geladeira e telefone. Os números atestam o sucesso das ações de combate à pobreza em suas várias dimensões, estratégia que direcionou a elaboração do Plano Brasil Sem Miséria, lançado pela presidenta Dilma Rousseff em 2011 com o objetivo de superar a pobreza extrema no país. O compromisso do governo traduziu-se em decisão política firme, que colocou a pobreza no centro da agenda de políticas públicas do Brasil. Crianças mais saudáveis e mais educadas são o principal caminho para resolver a pobreza de forma duradoura e sustentável. O Brasil Sem Miséria cuidou de ampliar o acesso a creches e a escolas em tempo integral, assim como a melhores moradias. E fez mais. No caso do Semiárido nordestino, foram as cisternas o motor da mudança. Em pouco mais de três anos, mais de 750 mil cisternas foram instaladas na região, garantindo o acesso à água a quem, por vezes, tinha de buscá-la a horas de distância de casa. Outro eixo importante do plano foram as ações de inclusão produtiva, que registraram mais de 1,5 milhão de matrículas em cursos de qualificação O BRASIL MUDOU 5

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profissional. Entre os beneficiários do Bolsa Família, mais de 400 mil tornaram-se microempreendedores individuais e contaram com crédito a juros mais baixos para produzir. No campo, agricultores familiares pobres também contaram com assistência técnica e acesso a crédito. Parte dessa produção reforçou a merenda oferecida nas escolas públicas do país a 43 milhões de crianças e jovens todos os dias. E ajudou o Brasil a superar outro problema histórico: a fome. Em pouco mais de dez anos, 15,6 milhões de pessoas deixaram a condição de subalimentadas, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), que em 2014 tirou o país do Mapa da Fome. Nas próximas páginas desta revista, o leitor irá além dos números e dos indicadores. O impacto das políticas será narrado do ponto de vista de pessoas de Norte a Sul do país. Personagens das grandes metrópoles ou de comunidades isoladas na Amazônia, onde o Estado buscou os que ainda estavam excluídos da rede de proteção social. São brasileiros que falam em nome das cerca de 14 milhões de famílias beneficiárias do Bolsa Família e que, por meio da inscrição no Cadastro Único, tiveram acesso a uma vida melhor. Alguns abriram mão do pagamento do programa de transferência de renda. A maioria viu mudar a perspectiva de futuro. São histórias como a da beneficiária que passou no vestibular de Direito de uma universidade pública, de cidades inteiras que deixaram de ver seus habitantes virarem retirantes da seca, de mulheres que se qualificaram profissionalmente e abriram seus próprios negócios, de sertanejos que, com acesso à água e à assistência técnica, estão deixando o sertão mais vivo e produtivo, de crianças sadias com brilho nos olhos que hoje brincam e estudam. E sonham com a universidade. Nas próximas páginas, veremos que os beneficiários do Bolsa Família trabalham muito e aproveitam as oportunidades de qualificação profissional e crédito para melhorar a sua participação no mercado de trabalho. Não são preguiçosos ou perdedores. Metade dos beneficiários não trabalha porque são crianças e adolescentes. Seu lugar é na escola. As crianças, aliás, são um alvo especial das políticas públicas. Elas começam a ser cuidadas ainda no ventre das mães. E os resultados já aparecem até na redução do déficit de altura, indicador da desnutrição crônica, que costuma ser acompanhado por comprometimento intelectual. Ao lado de resultados medidos cientificamente, há outros, quase intangíveis, como a da menina Andressa, de Nova Iguaçu (RJ), que sonha em ser arquiteta. Da construção do sonho de uma sociedade menos desigual, Andressa já faz parte. Esperamos que as histórias narradas a seguir ajudem o Brasil a vencer o preconceito contra os pobres e a ter orgulho da inclusão social que orienta o projeto de desenvolvimento do nosso país. Tereza Campello Ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome 6 BR ASIL SEM MIS É RIA

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H I S T Ó R I A S D E S U P ER AÇÃO Novo Hamburgo (RS) – Foto: Ubirajara Machado ELES SUPERARAM A POBREZA Com mais oportunidades, brasileiros ultrapassam barreira da exclusão e da miséria N o estreito sobrado de madeira na vila Grande Gala, em Novo Hamburgo (RS), Delci Lutz cria e costura figurinos para espetáculos de dança e teatro. No extremo oeste do Acre, a ribeirinha Luceildes Maciel planta mandioca para fazer farinha. Em Jacupiranga (SP), Regiane Silva dá aulas para crianças da pré-escola. Essas brasileiras não se conhecem. São mulheres que ultrapassaram barreiras de exclusão e superaram a pobreza com o apoio dos programas sociais do governo federal, como o Bolsa Família e as ações do Plano Brasil Sem Miséria, O BRASIL MUDOU 7

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e de uma rede de proteção social que se amplia e se consolida a cada ano. Mãe de dois filhos, Delci Lutz, 49 anos, teve o apoio desses programas para construir uma nova vida pra si e os dois filhos – Graziele e Daniel, de 18 e 17 anos. Há um ano, formalizou o próprio negócio, a “Delci Figurinos”, graças ao programa Microempreendedor Individual (MEI). Enfrentou a barreira invisível da exclusão e pôde esquecer as duras palavras do pai que repetia, a toda hora, que ela tinha que conseguir um emprego e esquecer essa “história de trabalhar por conta própria”. “Sempre acreditei que ia fazer algo diferente, mas faltava um voto de confiança. Aí veio o Bolsa Família para me ajudar. Depois, o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) e o Sebrae me ajudaram no meu sucesso”. Em 2012, Delci fez dois cursos do Pronatec: o de desenho de moda pelo Senac e o de desenhista de calçados pelo Senai. Os filhos seguiram os passos dela. Fizeram o curso de auxiliar administrativo do Pronatec, voltado ao público do Brasil Sem Miséria. Hoje, ajudam na parte administrativa da “Delci Figurinos”. A figurinista aumentou o ritmo de produção nos dois últimos anos, por conta das encomendas que só crescem. A agenda esteve lotada de pedidos até o final do ano. Delci conta que gosta de pesquisar figurinos e “fazer peças únicas”. “Fazer figurino é diferente, é descoberta, é desafiador para mim”. Bolsa Família e Bolsa Verde ajudaram Luceildes Maciel e sua família a ter mais qualidade de vida No pequeno ateliê nos fundos do sobrado onde a família mora, são produzidos figurinos para espetáculos de teatro e dança, além de vestidos de festa, o que rende à empreendedora entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil por mês. Ela já comprou duas máquinas industriais para “melhorar a produção”. Antes, a renda da família era de apenas meio salário mínimo. A época mais difícil coincidiu com o fim do casamento. Os compromissos pesaram sobre seus ombros. Sozinha, criou os dois filhos. Naquele tempo, já fazia roupas por encomendas, mas o que ganhava não era suficiente para sustentar as crianças. Entrou para o Bolsa Família para conseguir um complemento para sua renda. Também teve a chance de voltar a estudar. Hoje, Delci tem ensino médio completo e quer fazer faculdade de moda no ano que vem. “A gente passou por uma situação bem difícil. Criei os meus filhos sozinha. Há muito tempo, somos só nós três. O Bolsa Família me ajudou muito a pagar as contas e dar segurança para eles”, ressalta. Em julho de 2014, devolveu o cartão do Bolsa Família em uma solenidade de formatura do Pronatec em Novo Hamburgo. Contou sua história em poucas palavras, mas com muita emoção. “É com muito orgulho que entrego o meu cartão”, disse na época. Assim como Delci, outras 2,8 milhões de 8 BR ASIL SEM MIS É RIA Foto: Sergio Amaral

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H I S T Ó R I A S D E S U P ER AÇÃO famílias deixaram o Bolsa Família porque melhoram de vida. Quando lhe perguntam sobre o futuro, ela sorri e diz: “Acho que estou chegando onde imaginei. Queria ter o reconhecimento desse meu trabalho. Estou muito realizada”. O futuro na floresta – A beneficiária do Bolsa Família Luceildes Fernandes Maciel, 38 anos, nasceu e foi criada às margens do rio Moa, no Acre. Ela é exemplo de uma das principais características das políticas sociais brasileiras, a capilaridade, que possibilita alcançar os brasileiros mais pobres nos 5.570 municípios de um país de dimensão continental. Para chegar até a comunidade onde a beneficiária vive com a família, leva-se quatro horas de barco a motor, partindo da cidade de Mâncio Lima, a mais ocidental do Brasil e mais distante em linha reta da capital federal. Casada, Luceildes é mãe de quatro filhos – entre 21 e 14 anos – e avó de dois netos. Ela e o marido plantam mandioca, milho, arroz e banana. Do rio, vem o peixe. Antes de entrar para o Bolsa Família, vivia apenas da agricultura. “Tínhamos o alimento, mas precisávamos ir até a cidade tentar vender nossa farinha de mandioca”, conta ela. “A produção era para comprar o que faltava. Agora, podemos fazer compras na cidade sem preocupação”. Aos poucos, o casal foi melhorando a casa de madeira. São três quartos, todos com cama, sem luxo. Só dois filhos moram com ela. Na sala, não faltam sofá e tele- visão; na cozinha, fogão, geladeira e freezer. Tudo novo. As panelas brilham; refletem até mesmo o olhar surpreso dos visitantes. São guardadas uma ao lado da outra, como se estivessem na vitrine de uma loja. “Um brinco!”, elogia a repórter. Ela timidamente abaixa a cabeça e sorri orgulhosa. “Sempre acreditei que ia fazer algo diferente, mas faltava um voto de confiança. Aí veio o Bolsa Família para me ajudar” Delci Lutz - RS O que Luceildes compra de alimentos, ela divide com as duas filhas casadas. Parte do enxoval dos dois netos foi comprada com o dinheiro do programa. Destaca que não é só o Bolsa Família que ajuda. Beneficiária do Bolsa Verde, programa do Plano Brasil Sem Miséria que incentiva a conservação do meio ambiente e a melhoria das condições de vida de quem vive da floresta, ela recebe R$ 300 a cada três meses. Planta apenas em áreas de capoeira, distantes duas horas a pé de sua casa. “Temos consciência de que, se desmatarmos, não teremos mais terra para cultivar nossas plantações”. A repórter pergunta se um dia ela pensa em sair da beira do rio Moa: “Nem pensar. Sou feliz aqui. Tenho tudo”. Planos para o futuro – “Tenho esperança de crescer na minha profissão e uma vontade muito grande de trabalhar com palestras de motivação. Penso também em escrever um livro de como mudar de vida. Quero retribuir o que fizeram por mim”, diz, emocionada, Regiane Severo da Silva, 36 anos, moradora de Jacupiranga, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo. Mãe de três filhos (15, 8 e 4 anos), ela e o marido Jeferson Kennedy Pereira, 41 anos, enfrentaram tempos difíceis. Ele trabalhou durante anos no cultivo da banana, atividade típica da região. Mas o que ganhava não era suficiente para sustentar a família. Depois, veio o desemprego. Para sair da situação, em 2007, Regiane pediu ajuda no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) da cidade. Lá, ficou sabendo que tinha direito a receber o Bolsa Família (R$ 166). Também conseguiu qualificação. Fez diversos cursos de artesanato (fuxico, patchwork, crochê e tricô). “O mais importante foi aprender que não era só receber o benefício. Eu tinha que continuar e ir mais longe. Procurei me qualificar e reinvesti o pouco que ganhava no meu artesanato”. Jeferson relembra que não foi fácil manter a família como sempre sonhou. Não esquece o dia em que o filho – na época com dois anos – pediu: “Pai, acende a televisão?”. O BRASIL MUDOU 9

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89% foi a redução da extrema pobreza na faixa etária de 0 a 15 anos entre 2003 e 2014 A energia elétrica tinha sido cortada por falta de pagamento. “Naquele dia, jurei que isso nunca mais ia acontecer. Essa foi a maior dor da minha vida. Energia elétrica dentro de casa eu não deixo faltar não”, garante ele. Há dois anos, o dia a dia da família mudou. Jeferson passou no concurso da prefeitura e trabalha como guarda municipal. “Graças ao nosso esforço e à ajuda que tivemos, consegui passar no concurso. Hoje tenho o meu carro e posso carregar a minha família”. Regiane também conseguiu emprego e devolveu o cartão do Bolsa Família. Formada em Magistério, ensina a crianças da pré-escola em uma instituição particular. Também voltou a estudar. Faz Pedagogia. Mas não abandonou o artesanato, que continua a complementar a renda. Relata que sempre oferece ajuda às mães dos seus alunos para que elas tenham também a oportunidade de se qualificar e mudar de vida. Quer retribuir o apoio e a amizade que recebeu na fase mais dura de sua vida. “O ser humano precisa de uma oportunidade na vida, de alguém que acredite nele”, assegura. Superação no Semiárido 10 B RASIL SEM M IS É RIA São Paulo (SP) – Foto: Sergio Amaral – Dona Fafá, como é carinhosamente chamada a cearense Maria de Fátima dos Santos, 51 anos, é ex-beneficiária do Bolsa Família. Assim como Regiane e Delci, ela devolveu o cartão do programa. Tinha percebido que conseguiria sustentar os oito filhos com a produção de verduras, hortaliças e frutas nas proximidades da sua

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H I S T Ó R I A S D E S U P ER AÇÃO casa, na comunidade Jenipapo, em Itapipoca (CE), a 130 quilômetros de Fortaleza. “Fiz questão de pedir que eles passassem o benefício para uma pessoa mais carente aqui da comunidade”, revela. Fafá não conhece outra rotina, apenas a da agricultura. Aos dez anos, já ajudava o pai na plantação. Casou adolescente e continuou cuidando da roça. Depois, com a viuvez, teve a ajuda dos filhos para cuidar da horta. A agricultora conta que não teria saído do lugar se não fosse o Bolsa Família. A situação melhorou ainda mais depois de ter recebido cisternas, que lhe permitiram acesso à água. Foto: Sergio Amaral Para Fafá, a cisterna é a “coisa mais maravilhosa que já fizeram”. Tem duas: uma para o consumo da família e outra para produção. “No tempo de estiagem, já até doei água para quem ainda não tinha cisterna”, relata. Antes da construção das cisternas, “puxava” água do cacimbão que fica a 300 metros da sua casa. Hoje, ela produz sem agrotóxicos e colocou em prática as técnicas de agroecologia que aprendeu em um curso. Já ensinou os vizinhos a plantar mastruz do lado do pé de tomate e do pimentão, o que evita pragas. Além do milho e do feijão, Fafá cultiva cheiro verde, tomate, pimentão, alface, manga, maracujá, banana, graviola e abacaxi. Na feira agroecológica da cidade, chega a faturar “Fiz questão de pedir que eles passassem o benefício para uma pessoa mais carente aqui da comunidade” Dona Fafá - CE Com a ajuda do Bolsa Família, dona Fafá Santos criou oito filhos em Itapipoca (CE) R$ 500 por mês, o que completa a pensão que recebe. Fala que, sempre que precisam, os seis filhos que já casaram passam lá no seu quintal para “pegar alguma fruta”. Com o aumento da renda, a agricultora sonha em comprar um carro. “Cada dia a gente está melhorando e quero comprar um carrinho pra andar. Já estou fazendo minhas economias”. O valor do quilombola – “O que está dando dinheiro mesmo é o mamão e a mandioca”. É assim, com palavras simples e voz acanhada, que Joaquim Fernandes de Castro, 54 anos, explica o que produz na comunidade quilombola Fazenda Ema, a 22 quilômetros de Teresina de Goiás (GO). Joaquim sempre viveu da roça, mas a renda era baixa e instável. Hoje ele não precisa mais tentar vender a produção na cidade, como fazia em outros tempos. Há dois anos, comercializa tudo com o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), estratégia que integra o Brasil Sem Miséria e possibilita a superação da pobreza no campo, com a O BRASIL MUDOU 11

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inclusão de pequenos agricultores em uma rota produtiva. Perseverante, Joaquim conseguiu vender, no ano passado, o limite do PAA para o produtor individual: R$ 4,5 mil. Com o dinheiro e mais o que lucrou com a venda de quase 200 quilos de sementes nativas de capim-andropogon, comprou seu primeiro carro – um Uno Mille, ano 1991. “Paguei R$ 5,5 mil e não me arrependo”, conta, orgulhoso. O carro transporta, além do mamão e da mandioca, as hortaliças produzidas por ele. “Já teve tempo que carregava um saco de 20 quilos nas costas por dois quilômetros até a pista. Depois, pegava um ônibus ou Foto: Sergio Amaral uma carona até a cidade”, lembra o agricultor, que já planeja “comprar um carrinho melhor”. Mas antes quer aumentar a produção e, consequentemente, a renda da família. Para ele, o quilombola “está sendo uma pessoa de valor para o governo”. Na comunidade, acredita o agricultor, a vida melhorou muito com o programa Luz Para Todos e o de habitação quilombola, do Ministério das Cidades, e outros benefícios sociais. Com a energia elétrica, por exemplo, as famílias da região passaram a armazenar os alimentos e utilizar eletrodomésticos. Joaquim recebeu uma casa de alvenaria, graças a políticas públicas do governo federal. A esposa Cenira – que é merendeira em uma escola municipal – e os seis filhos são beneficiários do Bolsa Família. Com o benefício, comprou um fogão novo e aposentou de vez o à lenha. A família planta milho, feijão, arroz e batata para consumo próprio. Deixa para comprar na cidade apenas o óleo e a carne. “O Bolsa ajudou na educação dos meninos e a comprar comida, roupas, fogão e geladeira. Ajudou em tudo”, relata Joaquim. Texto: Rejane Gomes Reportagem: André Gomes, Cristiane Hidaka, Isadora Lionço e Pamela Santos, Luiz Cláudio Moreira e Márcio Leal Joaquim Castro: produção para o Programa de Aquisição de Alimentos, primeiro carro e casa nova 12 B RASIL SEM M IS É RIA

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Q U A LI FI C A Ç Ã O P R O FI SSI O NAL Cruzeiro do Sul (AC) – Foto: Sergio Amaral OPORTUNIDADES PARA CRESCER Com programas sociais, população mais pobre conquista inserção formal no mundo do trabalho “ Ela é a garota propaganda da obra”, gritou um dos 8,3 mil operários da ampliação de uma das maiores fábricas de celulose do país, à beira do Lago Guaíba, no Rio Grande do Sul, quando viu a tímida Simone ser entrevistada. Simone Nunes Vieira, 30 anos, é ex-beneficiária do programa Bolsa Família e, hoje, um exemplo de que, com a ajuda de ações e programas sociais do governo federal e muita força de vontade, é possível crescer e ainda ter a expectativa de ir mais longe. A gaúcha do pequeno município de Camaquã (RS), a 30 quilômetros de Porto Alegre, trabalhou na roça quando criança. A vida difícil no campo O BRASIL MUDOU 13

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a impediu de terminar os estudos. Teve três filhos. A oportunidade de melhorar de vida surgiu quando foi incluída no Bolsa Família, em 2011. O dinheiro complementava a renda do marido, que trabalha em uma loja de material de construção. Ajudava a comprar roupas e alimentos para os três filhos. Mas Simone era irrequieta. Queria aproveitar tudo o que ofereciam para melhorar sua vida e de sua família.Viu os panfletos para cursos gratuitos oferecidos pelo Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e logo se inscreveu para pedreira de alvenaria. “Escolhi esse curso porque já tinha ajudado a levantar a casa do meu pai, fazendo massa, carregando tijolo e levantando parede”. Ao terminar o curso, Simone se candidatou a uma vaga na Celulose Riograndense. Como demoravam a chamar, não hesitou e fez também o curso de carpinteira. O emprego apareceu em 2013 e ela finalmente passou a fazer parte do quadro de funcionários da empresa. Quatro meses depois, veio a promoção. O salário aumentou de R$ 880 para R$ 1,5 mil, mais tíquete alimentação de R$ 320. A renda mensal dela, mais a do marido, soma R$ 2,2 mil. Como eles, 1,7 milhão de famílias já deixaram o Bolsa Família voluntariamente – foram às autoridades e pediram para sair. Cerca de 1,1 milhão, além disso, foram desligadas por falta de recadastramento e nunca mais retornaram. Parte desse contingente são hoje novos empreendedores. Brasileiros que buscaram qualificação profissional, se colocaram no mercado de trabalho ou se formalizaram como microempreendedores, com a ajuda de programas como o Pronatec ou o Programa Crescer, de crédito orientado para produção, entre outros. Simone contou que, no primeiro dia de trabalho, o corpo todo tremia, numa mistura de nervoso com alegria. Quase morreu de vergonha quando pisou na obra, disse ela, porque grande parte dos trabalhadores eram homens. Com o tempo, foi se acostumando e em um ano comprou um bolo – de padaria, mesmo – para comemorar. Hoje tem vários amigos no local de trabalho. A garota propaganda da Celulose sonha com mais coisas, como fazer o supletivo e conquistar novos espaços no mercado. Com o salário de Simone, a vida da família mudou para melhor. Hoje, ela e o marido conseguem pagar uma pessoa para tomar conta da filha caçula de três anos. “Antes, queria comprar uma roupa para os guris e não podia. Não tinha como comprar, porque era só o salário dele. Agora, eu posso comprar, no mesmo mês, roupas para todos eles”. A família também comprou um carro – um Corsa Sedan – e, em outubro deste ano, pagou a última prestação. Eles já tiveram outro carro “tão velho que nem funcionava”, contou a pedreira. Quanto aos sonhos, Simone quer construir a própria casa e deixar de pagar o aluguel. Simone é um exemplo do quanto os cursos de qualificação profissional oferecidos pelo governo Pronatec Mais de 1,5 milhão de matrículas em cursos de qualificação das inscrições são de mulheres 67% dos inscritos têm idade entre 18 e 29 anos 48% 14 B RASIL SEM M IS É RIA

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Q U A LI FI C A Ç Ã O P R O FI SSI O NAL federal, por meio do Sistema S e institutos técnicos, ajudaram a mudar a vida de milhares de brasileiros, de todos os cantos do país. Desde 2011, o Pronatec para o público do Brasil Sem Miséria, com mais de 620 cursos orientados à população inscrita no Cadastro Único, registrou mais de 1,5 milhão de matrículas, de Norte a Sul do país. Estratégia – O Plano Brasil Sem Miséria também promoveu o acesso de povos e comunidades tradicionais às políticas públicas, como o cigano Alex Soares da Costa. Com o primeiro benefício do Bolsa Foto: Ubirajara Machado Família, recebido em março de 2014, ele comprou leite e fraldas para a primeira filha com a esposa Joagna Ferreira. O casal é muito jovem: ele tem 20 anos, ela, 19. Os dois são ciganos da etnia Calon - primeiros a chegar ao Brasil no século XVI, de origem ibérica -, e vivem numa pequena comunidade próxima a Trindade, no estado de Goiás. Assim que entrou no Cadastro Único como beneficiário do Bolsa Família, Alex descobriu um curso do Pronatec que, segundo ele, tinha tudo a ver com sua vocação pro- “Agora eu posso comprar, no mesmo mês, roupas para os três guris, todos eles.” Simone Vieira - RS Simone Vieira fez dois cursos de qualificação e conseguiu emprego em fábrica de celulose O BRASIL MUDOU 15

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