Gazeta Valeparaibana

 

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Fevereiro 2015

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Ano VIII - Edição 87 - Fevereiro 2015 Distribuição Gratuita Vale do Paraíba Paulista - Litoral Norte Paulista - Região Serrana da Mantiqueira - Região Bragantina - Região Alto do Tietê RECICLE INFORMAÇÃO: Passe este jornal para outro leitor ou indique o site A experiência e os impactos da escravidão africana na Região Amazônica Quando se fala sobre a presença negra na Amazônia é frequente ver o espanto das pessoas. Ainda hoje, especialmente fora da região, é comum ouvir a pergunta: “Mas, afinal, existiu escravidão na Amazônia?” Página 13 Dia 20 de Fevereiro se comemora o dia Mundial da Justiça Social. No entanto, no Brasil pouco temos o que comemorar. Apesar de ser um país rico em recursos naturais e com um PIB (Produto Interno Bruto) figurando sempre entre os 10 maiores do mundo, o Brasil é um país extremamente injusto no que diz respeito à distribuição de seus recursos entre a população. Página 14 O reino pedregoso de Suassuna Lembro-me do contraste entre o respeitoso silêncio e as sonoras gargalhadas numa tarde no Salão de Atos da UFRGS. Tratavase da aula inaugural do ano de 1996. O motivador desses espasmos de comicidade e admiração era Ariano Suassuna. Como se fosse um Quixote sertanejo, o escritor hipnotizou uma platéia de quase dois mil alunos com a sua técnica de encantamento que remonta aos primórdios da experiência literária: a arte de narrar histórias. ANALFABETISMO FUNCIONAL EA QUALIDADE DO ENSINO Segundo dados do Instituto Paulo Montenegro e da Ação Educativa, tivemos certo progresso no Alfabetismo Funcional. Em 2001, 61% da população brasileira era alfabetizada funcionalmente, ou seja, tínhamos 39% de analfabetos funcionais. Já em 2011 era 73% a quantidade de alfabetizados funcionais, consequentemente 27% ainda amargavam à beira do alfabetismo funcional. Leia mais Pagina 4 Leia mais Pagina 9 ************* Solidariedade x Fraternidade O que são esses direitos? São direitos que se preocupam Um tema a ser discutido ou um com a humanidade, com a coletilema a ser seguido. Atualmente, vidade, e por isso mesmo requer o envolvimento e a participação não há mais “Espaço para o Im- de todos. proviso”. ***************** TEMA OU LEMA Leia mais Pagina 5 Leia mais Pagina 10 www.formiguinhasdovale.org /// CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasill.net

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 2 Editorial A esquerda e a direita segundo Ariano Suassuna "Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro é de direita". Não concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita. Talvez eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoiévski e aquela grande mulher que foi santa Teresa de Ávila. Como consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de esquerda e direita. Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembléia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva. De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”. Escreve o primeiro: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade”. Afirma o segundo, sobre o pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: “A propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia” (isto é, para a comunidade). Concluo recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro é de direita. Ariano Suassuna, ícone do Movimento Armorial (1927-2014). O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso. ******** Eu digo sempre que das três virtudes teologais chamadas, eu sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança. Eu sou o homem da esperança. ******** … que é muito difícil você vencer a injustiça secular, que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos. ******** "Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver." ******** Não sou nem otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos. Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo. ******** O sonho é que leva a gente para a frente. Se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado. ******** Não sei, só sei que foi assim! (em o Auto da compadecida) Rádio web CULTURAonline Brasil NOVOS HORÁRIOS e NOVOS PROGRAMAS Prestigie, divulgue, acesse, junte-se a nós ! A Rádio web CULTURAonline Brasil, prioriza a Educação, a boa Música Nacional e programas de interesse geral sobre sustentabilidade social, cidadania nas temáticas: Educação, Escola, Professor , Família e Sociedade. Uma rádio onde o professor é valorizado e tem voz e, onde a Educação se discute num debate aberto, crítico e livre. Mas com responsabilidade! Acessível no link: www.culturaonlinebr.org IMPORTANTE Todas as matérias, reportagens, fotos e demais conteúdos são de inteira responsabilidade dos colaboradores que assinam as matérias, podendo seus conteúdos não corresponderem à opinião deste projeto nem deste Jornal. A Gazeta Valeparaibana é um jornal mensal gratuito distribuído mensalmente para download Editor: Filipe de Sousa - FENAI 1142/09-J Gazeta Valeparaibana Um MULTIPLICADOR dos Projetos Sociais “ALeste” e Formiguinhas do Vale CULTURAonline BRASIL Email: redacao@gazetavaleparaibana.com Designe e artes gráficas: Rede Vale Comunicações www.formiguinhasdovale.org

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 3 Povos Indígenas Dia 7 de Fevereiro é dedicado à luta do Povos Indígenas e assim resolvemos trazer um pequeno histórico no pós 1500. Os mais velhos - homens e mulheres - adquirem grande respeito por parte de todos. A experiência conseguida por muitos anos de vida os transforma em símbolos de tradições da tribo. O pajé é uma espécie de curandeiro e conselheiro espiritual. O Chefe da Tribo Os índios vivem em aldeias e, muitas vezes, são comandados por chefes, que são chamados de cacique, tuxánas ou morubixabas. A transmissão da chefia pode ser hereditária (de pai para filho) ou não. Os chefes devem conduzir a aldeia nas mudanças, na guerra, devem manter a tradição, determinar as atividades diárias e responsabilizar-se pelo contato com outras aldeias ou com os civilizados. Muitas vezes ele é assessorado por um conselho de homens que o auxiliam em suas decisões. Em 1500, quando os portugueses chegaram ao Brasil, estimava-se que havia por aqui cerca de 6 milhões de índios. Nos anos 50, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, a população indígena brasileira estava entre 68.000 e 100.000 habitantes. Passados os tempos de matança, escravismo e catequização forçada, atualmente há cerca de 280.000 índios no Brasil. Contando os que vivem em centros urbanos, a população indígena ultrapassa os 300.000. No total, quase 12% do território nacional pertence aos índios. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, havia em torno de 1.300 línguas indígenas. Atualmente existem apenas 180. O pior é que cerca de 35% dos 210 povos com culturas diferentes têm menos de 200 pessoas.. Hoje em dia, o que parecia impossível está acontecendo: o número de índios no Brasil e na Amazônia está aumentando cada vez mais. A taxa de crescimento da população indígena é de 3,5% ao ano, superando a média nacional, que é de 1,3%. Em melhores condições de vida, alguns índios recuperaram a sua auto-estima, reintroduziram os antigos rituais e aprenderam novas técnicas, como pescar com anzol. Muitos já voltaram para a mata fechada, com uma grande quantidade de crianças indígenas. "O fenômeno é semelhante ao 'baby boom' do pósguerra, em que as populações, depois da matança geral, tendem a recuperar as perdas reproduzindo-se mais rapidamente", diz a antropóloga Marta Azevedo, responsável por uma pesquisa feita pelo Núcleo de Estudos em População da Universidade de Campinas. Com terras garantidas e população crescente, pode parecer que a situação dos índios se encontra agora sob controle. Mas não! O maior desafio da atualidade é manter viva sua riqueza cultural. Organização e Sobrevivência do Grupo Os índios brasileiros sobrevivem utilizando os recursos naturais oferecidos pelo meio ambiente com a ajuda de processos rudimentares. Eles caçam, plantam, pescam, coletam e produzem os instrumentos necessários a essas atividades. A terra pertence a todos os membros do grupo e cada um tira dela seu próprio sustento. Existe uma divisão de tarefa por idade e por sexo: em geral, cabe à mulher o cuidado com a casa, as crianças e a roça; o homem é responsável pela defesa, pela caça (que pode ser individual ou coletiva) e pela colheita de alimentos na floresta. Alimento - Pesca Além de um conhecimento profundo da vida e dos hábitos dos animais, os índios possuem técnicas que variam de povo para povo. Na pesca, é comum o uso de substâncias vegetais (tingui e timbó, entre outras) que intoxicam e atordoam os peixes, tornando-os presas mais fáceis. Há também armadilhas para pesca, como o pari dos teneteharas - um cesto fundo com uma abertura pela qual o peixe entra atrás da isca, mas não consegue sair. A maioria dos índios no Brasil pratica agricultura. Cultura Indígena O esforço das autoridades para manter a diversidade cultural entre os índios pode evitar o desaparecimento de muita coisa interessante. Um quarto de todas as drogas prescritas pela medicina ocidental vem das plantas das florestas, e três quartos foram colhidos a partir de informações de povos indígenas. Na área da educação, a língua tucana, apesar do pequeno número de palavras, é comparada por lingüistas como a língua grega, por sua riqueza estrutural - possui, por exemplo, doze formas diferentes de conjugar o verbo no passado. Ritos e Mitos No Brasil, muitas tribos praticam ritos de passagem, que marcam a passagem de um grupo ou indivíduo de uma situação para outra. Tais ritos se ligam à gestação e ao nascimento, à iniciação na vida adulta, ao casamento, à morte e a outras fases da vida. Poucos povos acreditam na existência de um ser superior (supremo); a maior parte acredita em heróis místicos, muitas vezes em dois gêmeos, responsáveis pela criação de animais, plantas e costumes. A arte se mistura à vida cotidiana. A pintura corporal, por exemplo, é um meio de distinguir os grupos em que uma sociedade indígena se divide, como pode ser utilizada como enfeite. A tinta vermelha é extraída do urucum e a azul, quase negro, do jenipapo. Para a cor branca, os índios utilizam o calcário. Os trabalhos feitos com penas e plumas de pássaros constituem a arte plumária indígena. Alguns índios realizam trabalhos em madeira. A pintura e o desenho indígena estão sempre ligados à cerâmica e à cestaria. Os cestos são comuns em todas as tribos, variando a forma e o tipo de palha de que são feitos. Calendário Feriados, Datas Comemorativas 1 – Dia do Publicitário 1 – Dia do Tomate 2 – Dia de Iemanjá 2 – Dia da Receita Federal 5 – Dia do Datiloscopista 6 – Dia do Agente de Defesa Ambiental 7 – Dia do Gráfico 7 – Dia Nacional Luta dos Povos Indígenas 9 – Dia do Frevo 9 – Dia do Zelador 10– Dia Internacional da Internet Segura 10– Dia do Atleta Profissional 11– Dia de Nossa Senhora de Lourdes 12– Dia de Santa Eulália de Barcelona 13– Dia Mundial da Rádio 14– Dia da Amizade 16– Dia do Repórter 17– Carnaval 18– Cinzas 19– Dia do esporte 20– Dia Mundial da Justiça Social 21– Dia Internacional da Língua Materna 22– Dia da Criação do IBAMA 26– Dia do Comediante 27– Dia Nacional do Livro Didático 27 - Dia do Idoso 28– Dia da Ressaca 28– Dia Mundial das Doenças Raras www.formiguinhasdovale.org /// CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebr.org

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 4 Literatura I epopéia satírica e apocalíptica, constituída por alucinações e desventuras de uma espéLembro-me do contraste entre o respeitoso cie de cronista-fidalgo (Pedro Dinis Ferreira silêncio e as sonoras gargalhadas numa tar- Quaderna). de no Salão de Atos da UFRGS. Tratava-se da aula inaugural do ano de 1996. O motiva- O romance-memorial-poema-folhetim se ador desses espasmos de comicidade e admi- presenta dividido em folhetos que focalizam a ração era Ariano Suassuna. Como se fosse prometida volta de dom Sebastião por meio um Quixote sertanejo, o escritor hipnotizou de um banho de sangue nas pedras do Reino uma platéia de quase dois mil alunos com a sertanejo. Na crueza espinhenta e indomada sua técnica de encantamento que remonta da ressurreição do mito, nasce a esperança aos primórdios da experiência literária: a arte da contemplação de um reino presentificado por duas enormes pedras onde pingos pratede narrar histórias. ados brilham ao sol. Como esfinges a serem Nessa atmosfera de oralidade impregnada de decifradas, as pedras trazem consigo o missentidos míticos e mágicos anticartesianos, tério nordestino de uma metamorfose visceperpetua-se um espírito poético oriundo do ral: como o fraco se torna forte, como o real cordel nordestino que introduz um sertão so- se torna fantasia, como a memória se torna nhoso e brutal. Suassuna instaura uma enig- lenda. O reino pedregoso de Suassuna Poemas de Ariano Suassuna Noturno Têm para mim Chamados de outro mundo as Noites perigosas e queimadas, quando a Lua aparece mais vermelha São turvos sonhos, Mágoas proibidas, são Ouropéis antigos e fantasmas que, nesse Mundo vivo e mais ardente consumam tudo o que desejo Aqui. Será que mais Alguém vê e escuta? Sinto o roçar das asas Amarelas e escuto essas Canções encantatórias que tento, em vão, de mim desapossar. Diluídos na velha Luz da lua, a Quem dirigem seus terríveis cantos? Pressinto um murmuroso esvoejar: passaram-me por cima da cabeça e, como um Halo escuso, te envolveram. Eis-te no fogo, como um Fruto ardente, a ventania me agitando em torno esse cheiro que sai de teus cabelos. Que vale a natureza sem teus Olhos, ó Aquela por quem meu Sangue pulsa? Da terra sai um cheiro bom de vida e nossos pés a Ela estão ligados. Deixa que teu cabelo, solto ao vento, abrase fundamente as minhas mão... Mas, não: a luz Escura inda te envolve, o vento encrespa as Águas dos dois rios e continua a ronda, o Som do fogo. Ó meu amor, por que te ligo à Morte? mática territorialidade na qual emergem deuses e diabos, sob a lei do acaso e da fatalidade. Esses seres-ameaçadores resultam de um sopro de imaginação que produz sentidos desérticos e espinhentos de uma terra-fera: o reino sertanejo do delírio e do sacrifício. Enraizada numa sagração onírica, a narrativa também propõe um diálogo entre o Nordeste e a Península Ibérica através de um audacioso projeto estético que intercambia a poesia oral com as imagens e os sons armoriais. Herdeiro da heráldica medieval, o Movimento Armorial nasce com o objetivo de salvaguardar um manancial de insígnias, brasões e bandeiras que constituem a força imagística da cultura popular (dos estandartes de maracatus às bandeiras de clubes de futebol). Ariano acabou desencadeando uma nova conceptualidade no interior da arte brasileira que navega entre iluminuras arabescas e acordes de rabeca. O escritor paraibano busca uma abertura de significados que convidam o leitor a reconstruir uma tradição literária marcada por uma cosmovisão de elementos híbridos e (pluri) historiográficos: o texto cômico de Plauto, os figurantes da commedia dell'arte, as histórias coletivas da falação cotidiana. O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, publicado em 1971, talvez seja o mais audacioso livro de Suassuna. A obra se configura como uma Segundo Quaderna, "Deus fala por meio das pedras". Assim, é preciso que ouçamos esse pedregoso discurso que brota da tênue separação entre a anedota tragicômica e o lamento da desesperança lírica. Os enigmas do Reino estão camuflados nas pedras que resistem ao tempo, simbolizando a força de uma cultura armorial-popular brasileira que, formada pelo sangue dos seus heróis, profetas e santos, permanece renovada na escrita de Ariano. Entre o riso, o sonho e o desvairio, evidencia-se, portanto, a representação de uma brasilidade que mergulha num mundo maravilhoso, orquestrado pelas suturas razão -desrazão e homem-pedra. O sertão continua sendo o lugar do encontro com deuses ancestrais, pedrificando-se como uma fonte perpétua de mitologizações populares. Uma das lições aprendidas no interior da pedra é a capacidade de dizer sim à vida, apesar da aridez das mortes trágicas, da secura da alma rachada do sertanejo. Nesse rochedo de narrativas, a pedra aprisiona e adormece. Que Ariano continue trilhando esse pedregoso reino da imaginação, encastelado no canto improvisado, no folheto, no romance, nas danças populares, no espetáculo de marionetes, nas histórias sem dono. Suriel Ribeiro - Artesania Literária ******************* A mulher e o reino Ó romã do pomar, relva, esmeralda, olhos de Ouro e de azul - minha Alazã! Ária em corda do sol, fruto de prata, meu Chão e meu Anel - cor da Manhã! Ó meu Sono, meu sangue, Dom, coragem água das pedras, rosa e beldever! Meu candeeiro aceso da Miragem meu mito e meu poder - minha Mulher Dizem que tudo passa e o tempo duro tudo esfarela O sangue há de morrer Mas quando a luz me diz que esse ouro puro se acaba por finar e corromper meu Sangue ferve contra a vã Razão e há de pulsar o Amor na escuridão! O que é o Movimento Armorial ? Movimento Armorial foi uma iniciativa artística cujo objetivo seria criar uma arte erudita1 a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro. Um dos fundadores e diretores foi o escritor Ariano Suassuna. Tal movimento procura orientar para esse fim todas as formas de expressões artísticas: música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema,arquitetura, entre outras expressões. www.formiguinhasdovale.org /// CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasil.net

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 5 Cidadania em ônibus, enfrentamento com a polícia e invasão de prédios como se essas ações fossem admiráveis e como se não houvesse nenhuma importância para quem sofre as consequências disso e que é o próprio povo. São vândalos disfarçados de justiceiros, oTEMA OU LEMA portunistas, aproveitadores tão desonestos quanto aqueles que estão no comando da Um tema a ser discu- exploração e a quem queremos tanto combatido ou um lema a ser ter. seguido. Atualmente, Poxa, como está sendo difícil ser brasileiro... não há mais “Espaço para o Improviso”. Faz tempo que não vivemos uma política hoInfelizmente, não é o que temos visto e senti- nesta, uma economia sem crises, sem nos do a respeito da economia brasileira onde a sentirmos ameaçados por todos os lados. inflação se encontra no topo, num cresciSerá que viveremos sempre à mercê da sormento desprezível e sem metas bem definite? Isso é um privilégio? das que leva a maus resultados e com muita dose de descaso e de corrupção onde se Não temos guerras, terremotos, maremotos, mas, em compensação temos uma sucessão tem justificado o injustificável. de crises e que tão acostumados a isso nem Estamos navegando num barco sem direção dá para imaginar o que seria um brasileiro que funciona convenientemente às entidades viver sem essa“sorte”, mas com dignidade. e identidades que não mostram a cara e desviam nosso dinheiro sem nenhuma indigna- Do jeito que as coisas andam e a cada ano ção enquanto exercem seus mandatos de que passa revivemos as mesmas situações. forma inimputável. Mediante a situação, por vezes, dá-se a impressão de sermos reféns de um inconformismo, pois a reação da maioria é de que tudo já é esperado, tolerado e nós indolentes a isso faz parecer de que no Brasil, nada irá adiantar e nada dará certo. Cada vez mais os políticos dos quais dependemos para administrar nossa economia, vivem na zona de conforto e o povo na zona de indiferença talvez já sem capacidade de análise e ação. Cidadania Entende-se por cidadania o direito de participar ativamente da sociedade na qual o indivíduo está inserido. Um conjunto de direitos e deveres que permite a uma pessoa participar da vida e do governo de seu povo. Uma pessoa sem cidadania fica em uma posição de inferioridade no grupo em que essa está inserida e é “impedida” de tomar decisões importantes para sociedade, por exemplo. Desde a Grécia e Roma antigas notam-se o surgimento de uma futura cidadania. Já haviam designações de cargos e atribuições sociais. Apenas pessoas “oficialmente cidadãs” tinham o direito de ocupar cargos importantes e tomar decisões para a sociedade. Foi na França do século XVIII ( com a Revolução Francesa ) e nos EUA ( com a Declaração dos Direitos Humanos ) que o conceito de cidadania foi oficialmente adotado, com influências da Roma antiga. E foi também na França que se introduziu na legislação moderna as resignações de cidadania e cidadania ativa. A cidadania teve um sentido político no século XVIII, mas, atualmente, tem um sentido jurídico. As “normas” para uma pessoa ser considerada cidadã vai de acordo com as leis de cada Estado. No Brasil, por exemplo, é considerado um cidadão brasileiro uma pessoa que tenha nascido aqui ou tenha descendência – no caso, pai ou mãe – brasileira. A cidadania indica que um “cidadão oficial” tem direito a todas as leis que o Estado reserva a seus cidadãos e uma futura proteção em territórios estrangeiros – aí entra o papel das embaixadas. O direito de votar e ser votado, influenciar nas decisões do governo, ter uma função e um emprego na Administração pública são exemplos dos direitos concedidos pela cidadania. "Ser cidadão é ter direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei: é, em resumo, ter direitos civis.” ( Jaime Pinsky, A História da Cidadania) Genha Auga A repulsa social, tem se mostrado através de Jornalista MTB: 15320 atitudes sem delimitações como botar fogo Não existe sucesso ou felicidade sem o exercício pleno da cidadania e da ética. SOBRE DEMOCRACIA REPRESENTATIVA Democracia representativa é o exercício do poder político pela população eleitora não diretamente, mas através de seus representantes, por si designados, com mandato para atuar em seu nome e por sua autoridade, isto é, legitimados pela soberania popular. VOCÊ TAMBÉM É RESPONSÁVEL! Na cidade, a pressão da opinião pública é capaz de fazer o que a lei não consegue! Porque precisamos fazer a Reforma Política no Brasil? Seus impostos merecem boa administração. Bons políticos não vem do nada. Para que existam bons políticos para administrar o país, toda a sociedade precisa colaborar para que eles possam nascer e terem sucesso. É preciso um sistema eleitoral moderno para melhorar a qualidade da política. Os políticos "tradicionais" tem horror à reforma política, porque ela pode mudar a situação atual onde eles usam e manipulam o eleitor e são pouco cobrados ! www.formiguinhasdovale.org /// CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasil.net

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 6 Cultura Popular Alguns blocos são tão importantes que ajudam a perpetuar o frevo como patrimônio cultural do Recife, como é o caso do já citado “Galo da Madrugada”, do Recife, e o “Clube de Vassourinhas”, de Olinda. Por isso, vale a pena comentar um pouco sobre eles. O Clube de Vassourinhas é um elemento simbólico do frevo pernambucano. Desfila há mais de cem anos nas ruas da cidade de Olinda e ganhou lugar na história, dentre outras coisas, pela música-símbolo do frevo: Vassourinhas, composta por Matias da Rocha e Joana Batista em 1907. Tamanha é a popularidade dessa música, que até foi adaptada para um jingle político da candidatura de Jânio Quadros à presidência da República. O Galo da Madrugada surgiu em 1978 com o único propósito de resgatar o frevo de rua. Sai todos os anos no sábado de carnaval e, em 1984, entrou para o Guiness como o maior bloco de rua do mundo. Seu hino é sempre cantado com muita alegria pela cidade do Recife durante o carnaval, composto por José Mário Chaves, já foi até gravado pelo cantor Alceu Valença: O FREVO como cultura Popular Com origens no final do século XIX, o frevo é uma manifestação da cultura corporal tipicamente pernambucana. Não é novidade afirmar que o termo frevo se deve a uma alteração popular da palavra ferver. Segundo informações disponíveis no site do “Galo da Madrugada”, um dos blocos mais tradicionais de carnaval do Recife, como o ritmo era bastante acelerado, “com o passar dos anos, o termo usado pelas pessoas para o ritmo era ‘frervendo’ e assim ficou conhecido como frevo”. Segundo Edson Carneiro, citado no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, é necessária a distinção entre a música do frevo e a dança do frevo. Inicialmente, o termo frevo designava uma folia de rua marcada pela música intensa. Relatos de jornais da época, anteriores ao acontecimento anual, são indicativos para mostrar que essa festa realmente ganhava as ruas da “Ei pessoal, vem moçada cidade de Recife. Para conter o “frervor” dos Carnaval começa no Galo da Madrugada foliões, os organizadores passaram a contra(BIS) tar grupos de capoeira que se apresentavam A manhã já vem surgindo, à frente dos blocos, com o intuito de controlar O sol clareia a cidade com seus raios de crisos comportamentos violentos que por vezes tal surgiam. Além disso, o uso do guarda-chuva – E o Galo da madrugada, já está na rua, salou sombrinha, dependendo da região – na dando o Carnaval dança também tem a mesma origem: os gruEi pessoal... pos de capoeira usavam também esse artefato para controlar a população. As donzelas estão dormindo As cores recebendo o orvalho matinal E o Galo da Madrugada Já está na rua, saldando o Carnaval Ei pessoal... O Galo também é de briga, as esporas afiadas E a crista é coral E o Galo da Madrugada, já está na rua Saldando o Carnaval Ei pessoal...” Se observarmos de perto, hoje, os movimentos corporais do frevo, podemos identificar claramente a influência da capoeira na sua composição, especialmente movimentos baiAinda que muitos reconheçam a música frevo xos, que requerem máximas flexões dos joecomo folclore, os musicólogos a classificam lhos. Atualmente há, em média, 120 passos como uma particularidade da Música Popular catalogados para o frevo. Brasileira. No entanto, essa discussão acerca Em geral, os passos mais complexos, que inda música é da alçada da Educação Artística. cluem habilidades acrobáticas, são realizados É a cultura corporal, o interesse da Educação apenas por passistas dos blocos, a grande Física e, por isso, é especificamente a dança massa de foliões mantém a sua diversão com passos mais simples e populares. que será abordada nesse texto. A cultura, pela definição clássica de Edward B. Tylor, que é considerado o pai do conceito moderno de cultura, diz que a cultura é “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. www.formiguinhasdovale.org /// CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasil.net

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 7 Contos, Poesias e Crônicas CUIDAR DO AMOR Genha Auga – jornalista MTB: 15.320 Nosso amor tem fé e crença e estão enraizados nas profundezas do Universo de tal forma que juntos, promovem-nos estabilidade, rejuvenescimento e, assim, de olhos fechados e no silêncio, solidificamos nossos corações. Nesse contexto,vivemos cada vez mais com qualidade, nosso sorriso jamais será arrebatado por alguém e a raiva encarece em nossas almas porque é sobreposta pela coragem e pela energia do nosso amor que movimenta nossas vidas. O mundo será nosso mestre enquanto quisermos aprender e cuidar do sentimento sublime que nos mantém unidos e que alvorece a cada dia. Temos a força para enfrentar cada momento, seja bom ou ruim, pois não esquecemos que a vida é uma mistura do amargo e do doce e, com humildade e cumplicidade, juntos, degustaremos todos os sabores que o destino nos apresentar com a sabedoria que transcende as dificuldades e, que somada às alegrias, teremos a felicidade como resultado. CORAGEM Lágrimas Escarlates Poema de Boanerges Filho Passaram-se os anos, foi preciso coragem. Deixar o lugar onde dedicara sua vida. Competência e honestidade foi seu jargão. Preservou em tempo o que lhe restara: saúde e dignidade. Foi preciso coragem para dedicar-se à própria vida. Dormir mais, transgredir regras, falar de seus pensamentos, ter desobrigações sem culpas, conhecer pessoas desinteressadas. Desprendeu-se de tudo. Tornou-se gostosamente uma vadia! Não ficou nenhum “vazio”, preencheu-se de amor e tranquilidade antes que a morte a levasse ou a loucura a condenasse. Essa coragem a fez uma adorável desocupada. Aposentou-se! Que o meu pensar, falar, escrever e cantar possa, tão somente, levantar os sons e atitudes de paz entre todos os homens de qualquer nação, cor, língua, bandeira sexual, crença... Que os gemidos agoniados do meu próximo, na agonia da sua dor nas profundezas da depressão do abandono, sejam tão altos e agudos que rasguem em sangria os tímpanos adormecidos nos mais secretos recôncavos da minha alma inerte e enferma. Que, com isso, eu não consiga fugir em disparada sem antes lhe deixar um bálsamo que cure a sua dor e refrigere as pisaduras na sua alma fumegante! Que as lágrimas, escarlates e escaldantes, daquele que cruzar o meu caminho, possam me molhar e queimar tanto que eu não consiga me mover covardemente em fuga sem entes enxugá-las do rosto desfigurado da sua alma retorcida! Que eu pobre em sensibilidade e misericórdia, porém, transbordante de arrogância e estupidez, possa do meu doentio sono ser acordado pelo clamor daqueles que, mesmo em silêncio, imploram por socorro desesperadamente! “Paz e amor”, era lema do movimento hippie em 1968. Mas no Brasil, esse lema é muito anterior. Nilo Peçanha era vice-presidente da República, morreu o titular, Afonso Pena, em junho de 1909, e ele assumiu o governo dizendo que seu governo seria “de paz e amor”. Por falar nisso, os hippies se cumprimentavam mostrando os dedos indicador e médio abertos (como o V de vitória), significando paz e amor. Mas aqui havia uma gozação. Diziam que o cumprimento de hippies cearenses era levantando três dedos (o indicador o médio e o anular), significando “paz, amor e rapadura”. Genha Auga Numa sociedade movida à dinheiro e hipocrisia, encontramos pessoas propensas aos mais diversos rumos incluindo-se a devassidão. Cuidado com quem andas, pois tua companhia sumariza quem és. Não tenha medo de lutar pelo que acredita, apenas seja você mesmo nos mais divergentes momentos que possam surgir. Fazendo isto, certamente afetará os que estão à tua volta que não gostam do que veem. Saberão fazer a triagem do joio e do trigo. Só tome cuidado com o lado com que ficará, pois uma escolha errada pode te afetar drasticamente. Pense no seu futuro. Sua escolha hoje, será o seu futuro amanhã. Seja feliz, haja com honestidade sempre.

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 8 Carnaval - Indústria Cultural acertando aleijam, e o público retribui com um entusiasPorque o carnaval não é mais como sendo aquela coisa tradicional?” pergunta. mo triste. (…) Ai como é diferente o carnaval em Portuem outros carnavais Para o professor, não se pode imaginar que, na era digital, a festa fosse realizada como na primeira metade do século passado. Então, dê-lhe sambódromo, televisão, camarote de cervejaria, “celebridades” pagas para aparecer aqui ou ali, marketing, patrocínios, imagens e mais imagens. Política no enredo A origem do carnaval brasileiro está no entrudo português, que incluía brincadeiras em que os participantes se atiravam ovos e tomates. Essa festa chega ao Brasil com algumas características semelhantes, mas a partir da vinda da família real ao Rio de Janeiro, em 1808, começa a passar por transformações. “Vai aparecendo uma coisa mais organizada, que não são exatamente blocos, mas brincadeiras que coincidiam com aquelas totalmente desconexas do entrudo”, diz Caldas. O modelo de cooptação das escolas de samba pelo Estado passou por transformações, mas se mantém até hoje. Durante a ditadura militar (1964-1985), algumas escolas enfrentaram problemas por não querer prestar homenagem ao establishment e acabaram censuradas. Já no período da redemocratização houve o famoso episódio da alegoria do Cristo Redentor, proibido de aparecer como mendigo no desfile da Beija-Flor em 1989. O carro saiu mesmo assim, com a imagem coberta por uma lona preta e uma faixa com os dizeres: Esse processo evolutivo ganha força durante a Repúbli- “Mesmo proibido, olhai por nós”. ca Velha, no final do século 19 e primeiras décadas do A partir dos anos 50 há algumas concessões e abertuséculo 20. ras que o próprio Vargas é obrigado a aceitar por conta de seu retorno como presidente eleito democraticamente. Mesmo com a censura, porém, nunca deixou de haver espaço para o escracho e para a crítica às questões políticas e sociais. O samba Lata d’água na cabeça é um exemplo claro, aponta Caldas. A letra (“Lata d’água na cabeça/ Lá vai Maria/ Sobe o morro e não se cansa/ gal. Lá nas terras de além e de Cabral (…) desfilam os blocos dançando avenida abaixo, com vidrilhos que parecem diamantes, lantejoilas que fulgem como pedras preciosas, panos que talvez não sejam sedas e cetins mas cobrem e descobrem os corpos como se o fossem”, tudo ao som do “samba terramoto da alma”. Nos preparamos para a reta final dos grandes negócios... Mais um carnaval. Ninguém precisa atravessar o deserto do Saara, dizer à mamãe que quer mamar ou perguntar à jardineira por que ela está tão triste para saber que, nos próximos dias, o carnaval vai mobilizar milhões de pessoas de norte a sul do País e será tema onipresente na mídia, gostese ou não dele. Tão inevitáveis quanto a transmissão dos desfiles das escolas de samba ou as repetidas explicações sobre as origens de blocos e outras manifestações tradicionais são os comentários nostálgicos dos que, como naquele comercial de TV sobre uma coleção de livros de fotografias, garantem que bons mesmo eram os carnavais de antigamente. Quiçá os do tempo em que as folias comandadas pelo adiposo Rei Momo eram referidas pelo garboso epíteto de “tríduo momesco”. É o período das marchinhas de Chiquinha Gonzaga e de compositores como Noel Rosa, Sinhô, Pixinguinha e João da Baiana. No Rio de Janeiro, surgem os blocos tanto nas regiões citadinas quanto nos morros. Nos dias de carnaval, esses blocos se encontravam e havia “confrontos” – não beligerantes, mas de celebração – da cultura popular vinda do morro com aquela dos moradores das classes médias. É dessa forma espontânea que Nostalgia e saudosismo, entretanto, não cabem mais nasce o carnaval. nesse cenário, aponta o professor Waldenyr Caldas, O presidente Getúlio Vargas, especialmente no período docente da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da do Estado Novo (1937-1945), institucionaliza o carnaval. USP e pesquisador de áreas como música e manifesta“Ele percebe que isso seria politicamente interessante ções de massa. “O carnaval hoje é um produto da indúspara ele, porque a festa já havia se tornado o principal tria cultural, como o futebol, a telenovela, o shopping produto da cultura lúdica da época, como a telenovela é center. Não somos nós que queremos isso. É o procesna atualidade”, afirma Caldas. so transformacional da sociedade que gera esse tipo de coisa”, diz o professor. Pode-se ser contra desumanida- Com fins político-ideológicos, Getúlio coopta as escolas, des e injustiças do capitalismo, afirma Caldas, mas é que passam a receber ajuda governamental – apenas, nele que navega a indústria cultural, e é em torno do porém, se os seus enredos fizessem a exaltação dos capital e da compra e da venda – seja de produtos, idei- feitos oficiais. as, imagens etc. – que giram as coisas. Não por acaso, é a época em que são compostos gran- pela mão leva a criança/ lá vai Maria/ Maria lava a roupa lá no alto/ Lutando pelo pão de cada dia/ Sonhando com a vida do asfalto/ Que acaba onde o morro principia”) tem um texto político fantástico que denuncia a miséria dos morros e o pouco caso do Estado em relação à periferia. As escolas também continuam recebendo recursos púdes sambas-exaltação, alguns populares até hoje, como blicos. É comum que Estados ou regiões usem verba Caldas localiza em meados da década de 1950 – no oficial para encomendar enredos exaltando belezas nagoverno de Juscelino Kubitschek – o começo da trans- Aquarela do Brasil, de Ary Barroso (de 1939). formação do carnaval em produto da indústria cultural. No ano da morte de Ricardo Reis, José Saramago des- turais ou episódios históricos. Para o professor, é um ato legítimo dos governos, que podem utilizar essas verPouco depois, durante a ditadura militar, o modelo das creve o carnaval português de meados da década de bas da mesma forma que os recursos para publicidade escolas de samba deixa de ser amador/profissional para 1930 e sublinha as diferenças que o marcavam em relana mídia. Patrocinados ou não, os enredos não se furse tornar exclusiva e irreversivelmente profissional. ção ao do Brasil. Saramago coloca Reis a observar o tam a mostrar a exuberância da criatividade dos compo“Hoje as escolas são grandes empresas que trabalham corso, o desfile de carros enfeitados: sitores e carnavalescos, que conseguem fazer sambas o carnaval com objetivos mercantis. É importante o re- “Estes carros rangem, bamboleiam, pintalgados de figunos quais se misturam em poucas estrofes o antigo Egigistro histórico, mas não tem sentido que ele se mante- ras, e em cima deles há gente que ri e faz caretas, másto com as cataratas do Iguaçu, tudo rimando com nha como uma coisa artesanal. caras de feio e de bonito, atiram com parcimónia ser“Sapucaí” ou “nossa escola brilhando na avenida”. pentinas ao público, saquinhos de milho e feijão que Se tudo muda, por que o carnaval tem que continuar Fontes: site da USP e Wikipédia Se não houvesse carnaval, nem futebol, nem novela cooptativa e nenhum outro evento que ludibriasse o povo brasileiro, O Brasil já era um país de primeiro mundo. www.formiguinhasdovale.org /// Rádio web CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasil.net

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 9 Espaço Educação sair de uma fase de alfabetismo rudimentar para, por exemplo, alfabetismo pleno. QUALIDADE DO ENSINO Onde é que estamos errando? Pois ao vermos esses resultados e confrontamos com as declarações de um Ministro da Educação dizendo ser vontade do governo enxugar o currículo do Ensino Médio, nós, enquanto professores ficamos preocupados. A título de ilustração citamos aqui um trecho do livro de Armindo Moreira – Professor não é Educador - em que uma professora de língua portuguesa defendia o uso de gírias, corruptelas e solecismos em sala de aula como algo normal, pois no entender dessa professora, o uso da língua-padrão nãos Segundo dados do Instituto Paulo Montenegro e seria a única forma de alguém se expressar. Segue da Ação Educativa, tivemos certo progresso no Al- o trecho: fabetismo Funcional. Em 2001, 61% da população brasileira era alfabetizada funcionalmente, ou seja, “Dizia professora: Devemos ensinar os alunos a tínhamos 39% de analfabetos funcionais. Já em falarem como o povo fala. E prosseguiu: A gíria faz 2011 era 73% a quantidade de alfabetizados fun- parte da linguagem do povo, por isso devemos usá cionais, consequentemente 27% ainda amargavam -la em sala de aula. E também os solecismos, como à beira do alfabetismo funcional. Porém, isso de nóis fumo, tu viu, treis milhão (...)são erros só para certa forma, ainda não é um dado a ser comemo- a classe dominante: para o povo não é. rado, pois o próprio instituto nos dá o que é ser Fiz notar à professora que, para ela, a palavra povo alfabetizado e a escala de alfabetização, daí perce- significava pessoa sem instrução. Ela concordou, bemos que ainda falta muito para sair da zona de mas não gostou. (...) todo cidadão tinha o direito sagrado de aprenperigo. Para entendermos melhor como isso funciona o der a língua-padrão (...) não lhe reconhecer esse próprio Instituto nos dá uma orientação sobre ca- direito gera desigualdades nocivas ao indivíduo e à sociedade. Lembrei que se a criança aprendesse a da estágio do alfabetismo: língua-padrão, poderia mais facilmente melhorar Analfabeto - Corresponde à condição dos que não de vida. Ela afirmou que pobre sempre seria pobre, conseguem realizar tarefas simples que envolvem mesmo que instruído. Ela, simplesmente, disse que a leitura de palavras e frases ainda que uma parce- eu estava errado. “Então, eu concluí que, poderíala destes consiga ler números familiares (números mos contratar a zeladora para ministrar aulas de língua portuguesa – e a professora, com seu curso de telefone, preços etc.); Rudimentar - Corresponde à capacidade de locali- superior, iria procurar outro emprego”. ANALFABETISMO FUNCIONAL E A zar uma informação explícita em textos curtos e familiares (como um anúncio ou pequena carta), ler e escrever números usuais e realizar operações simples, como manusear dinheiro para o pagamento de pequenas quantias ou fazer medidas de comprimento usando a fita métrica; Básico - As pessoas classificadas neste nível podem ser consideradas funcionalmente alfabetizadas, pois já leem e compreendem textos de média extensão, localizam informações mesmo que seja necessário realizar pequenas inferências, leem números na casa dos milhões, resolvem problemas envolvendo uma sequência simples de operações e têm noção de proporcionalidade. Mostram, no entanto, limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas ou relações; e Pleno - Classificadas neste nível estão as pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais: leem textos mais longos, analisando e relacionando suas partes, comparam e avaliam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Quanto à matemática, resolvem problemas que exigem maior planejamento e controle, envolvendo percentuais, proporções e cálculo de área, além de interpretar tabelas de dupla entrada, mapas e gráficos. Ao lermos essa classificação vemos o quão é difícil não”. Um grande erro sem dúvida. E voltamos à nossa eterna dúvida: - A quem interessa um ensino sem qualidade? Recentemente, na prova de redação do Enem 2014 ocorreu um fiasco sensacional, porém trágico. Mais de 500 mil alunos zeraram a prova de redação e apenas 250 conseguiram nota máxima, 248 mil foram anuladas por não obedecerem ao tema proposto, isso num universo de 6 milhões de estudantes. A mediocridade impera no meio estudantil, nossos alunos não sabem ler, falar e muito menos escrever a língua padrão. Do total de alunos, apenas 250 são alfabetizados plenos e terão alguma chance durante a vida profissional outros são, como dizemos na gíria “meia boca”. A grande maioria, no entanto, podemos considerar como analfabetos funcionais e irão girar em torno, como satélites, ou como moscas em torno do doce, sem porém nunca prová-lo de fato. Não há remédio para isso, o mal está feito. Os empregadores terão que arcar com o custo disso e a sociedade irá amargar os efeitos dessas políticas desastradas e inconsequentes. O país ficará patinando, como um carro no lamaçal, gastando seus recursos sem sair do lugar. Enquanto a educação for considerada política partidária e não como política de estado esses serão os resultados. Enquanto isso, “nóis fumo, agente vamos, menas” e outras desgraças mais continuarão a povoar o mundo desencantado dos jovens. Não bastasse esse desalento, ainda temos professores que falando e escrevendo erradamente tal qual o aluno, querem se igualar por baixo, na tentativa de ser “bonzinho”, quando na verdade deveriam estar um patamar acima, exigindo que escrevessem corretamente, lessem corretamente, buscando o melhor para eles, fazendo com que adquiram vocabulário Brilhante a conclusão do professor Armindo. Se para poderem expressar suas ideias. Só assim, fiseguirmos a mesma linha de raciocínio também nalmente, teremos condições de sairmos da condiconcluímos que o principal instrumento de domi- ção de país subdesenvolvido. nação dos dominantes, leia-se opressores, é o conhecimento, a instrução. Então, para que os opri- Referencias: midos se libertem e mudem esse jogo é necessário Instituto Paulo Montenegro e Ação Educativa mosensinar-lhes a língua-padrão, caso contrário iremos tram evolução do alfabetismo funcional na última mantê-los sob o jugo das classes dominantes, sem década. Disponível em: http://www.ipm.org.br/ipmb_pagina.php? chances de progresso na vida profissional. Quando perguntamos: Qual o objetivo da escola? mpg=4.02.01.00.00&ver=por Moreira, A. Professor Temos como resposta: - Educar para a vida. Que não é Educador. Charqueadas: Profeduc, 2012. vida? Uma vida de pobreza? Sem condições de alçar um voo mais alto? Ao analisarmos os dados apresentados pelo Insti- Omar de Camargo tuto Paulo Montenegro verificamos que a porcen- Técnico Químico tagem de alfabetizados Plenos praticamente não Professor em Química. mudou em dez anos de pesquisa, ficando em torno decamargo.omar@gmail.com de 25%. Portanto, temos 75% da população entre os níveis Analfabeto, Rudimentar e Básico. Isso não Ivan Claudio Guedes é suficiente para um país, como o nosso, aspirar Geógrafo e Pedagogo. grandes voos, haja vista o Ideb, recentemente pu- Articulista e Palestrante. Especialista em Gestão Ambiental. Mestre em Geoblicado. Não conseguimos melhorar nossos indicadores e, ciências e doutorando em talvez, seja esse relaxamento no ensino de língua Geologia. portuguesa e matemática nosso grande entrave. icguedes@ig.com.br Cabe dizer aqui que na matemática também temos OUÇA-NOS aqueles que acham que basta aprender as quatro E agora José? operações básicas, pois como disse a professora do Todos os Sábados 16 horas exemplo: “pobre será sempre pobre, instruído ou Na CULTURAonline BRASIL www.formiguinhasdovale.org /// Rádio web CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasil.net

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 10 Direitos Humandos Direitos Humanos de terceira Geração Solidariedade/Fraternidade O que são esses direitos? São direitos que se preocupam com a humanidade, com a coletividade, e por isso mesmo requer o envolvimento e a participação de todos. Primeiro devo dizer que cada geração dos Direitos humanos corresponde a nossa evolução como sociedade e como seres humanos. A teoria das gerações está relacionada ao lema da Revolução Francesa. Assim, os Direitos de primeira Geração estão consagrados pelo princípio da liberdade, onde estão os interesses individuais civis e políticos. Os de segunda geração estão consagrados pelo princípio da Igualdade ( Econômicos, sociais e culturais) e os de terceira pelo princípio da Solidariedade ou Fraternidade. Entram aí os interesses coletivos e difusos. São direitos que tratam do meio – ambiente, da paz, do progresso da humanidade, cooperação entre os países, da autodeterminação dos povos e outros. Alguns desses princípios estão em nossa Constituição federal. Se esses direitos estão baseados no princípio da solidariedade, deduzimos que eles perpassam os limites do individualismo, se pensa no bem estar de uma sociedade. A ideia de solidariedade ultrapassa as fronteiras, é global, se prioriza o bem comum, os interesses da humanidade. Por serem direitos mais recentes, eles estão em convenções e pactos internacionais e não na Declaração Universal dos Direitos Humanos. São eles: Direito a qualidade de vida, a um meio ambiente cuidado e preservado, à proteção dos recursos naturais, hídricos, a qualidade do ar que respiramos, a tudo que envolve a ecologia. Direito de preservar a identidade cultural de um povo, as culturas em geral, as minorias, direito a uma sociedade mais justa, mais igualitária e linear. Direito a PAZ , que foi adotado pela ONU em 1966. No Brasil ele se encontra formalizado no art. 4º, VI da Constituição Federal, rege as relações internacionais ( defesa da paz). Um direito universal e fundamental, um direito da humanidade. Alguns classificam o Direito à paz como Direito de quinta geração. Existem algumas controvérsias. O fato é que é um direito que está positivado e que é indispensável para que as nações possam se desenvolver e conviver harmoniosamente. O Direito ao DESENVOLVIMENTO, adotado em 1986 pela ONU, encontra-se no art. 1º da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. Prega o desenvolvimento da pessoa humana de forma geral, contemplando todos os seus aspectos dentro das sociedades existentes. A Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos já reconhece desde 1981, o direito ao desenvolvimento como um direito do ser humano. O Direito ao PATRIMÔNIO comum da humanidade, previsto pela ONU em 1974, compreende o uso comum do mar e seu subsolo. A UNESCO, na Convenção do Patrimônio Mundial, se propõe a proteger e conservar o patrimônio cultural , natural e misto. Podemos considerar que o conhecimento também faz parte do patrimônio da humanidade. Os bens materiais e imateriais que são considerados importantes e essenciais para a humanidade devem ser protegidos. O Direito à COMUNICAÇÃO, está consagrado na Constituição Federal no art. 220: “ A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição “. Surgiu em 1969 na ONU. É de fundamental importância numa sociedade democrática em que vigora o Estado de Direito. É o Estado reconhecendo o direito à liberdade de expressão, à comunicação, e o direito à informação como direitos fundamentais . O Direito de AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS, diz respeito ao direito que cada nação possui de conduzir o seu próprio destino. Referendado na carta das nações unidas, no Pacto Internacional de direitos civis e políticos de 1966. Direito ao MEIO AMBIENTE saudável, preservado. O enunciado desse princípio está na declaração de Estocolmo de 1972. Faz parte de algumas constituições e de outros documentos internacionais. É um direito difuso que faz parte dos direitos fundamentais, diz respeito aos indivíduos e a coletividade. da A Lei nº 6.938 / 1981, no art. 3°, inc. I, dispõe sobre a política nacional do meio ambiente, como “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” A proteção e a preservação do meio ambiente assim como a sua degradação atinge a humanidade, o planeta, e a todos os seres vivos que aqui habitam, portanto, a sua proteção é função de todos e não apenas do Estado. Esse direito fundamental está intrinsecamente ligado à qualidade de vida. Todos esses direitos são imprescritíveis, ou seja, não perdem a validade nunca e são inalienáveis, o que quer dizer que não podem ser transferidos, cedidos, vendidos. Os direitos fundamentais são também irrenunciáveis, não posso abrir mão nem me desfazer deles. São invioláveis, efetivos, universais e indivisíveis. São direitos do homem que estão positivados, são para todos, devem ser garantidos pelo poder público. Somos nós os titulares desses direitos, pois são direitos difusos, por isso a nossa participação na sua proteção é importante, devemos estar atentos para defender os direitos de solidariedade. Precisamos deixar de lado o egoísmo de pensarmos apenas individualmente e pensarmos no bem comum, na coletividade. O fortalecimento dos direitos humanos depende de nós. Como diz Eduardo Galeano: "Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja.” E poderá ser aquilo que queremos... Mariene Hildebrando Prof. e especialista em Direitos Humanos Email: marihfreitas@hotmail.com www.formiguinhasdovale.org /// CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasil.net

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 11 O outro lado da história O BRASIL NÃO FOI COLÔNIA 1992, p.13-14), afirma que os dados da Companhi- em 1500 receber o nome de Província de Santa a de Jesus revelam algumas singularidades, onde Cruz está explicado”. percebe-se um plano de “conquista espiritual”, refletido na estratégica instalação e disseminação geográfica dos colégios jesuítas, que rejeitavam tudo que viesse a ser profano. Alerta para o fato de o fundador português da Companhia de Jesus, o Pe. Simão Rodrigues ser também o “implacável e Estes breves traços são suficientes para se verificar que a matéria que envolve a palavra “colônia” aplicada ao Brasil não é matéria dispicienda e “dá panos para a manga”, segundo o dito popular. Este fio de Ariadne perpassa toda a Dinastia de Avis e dos Bragança para desembocar nos dias de “A expansão portuguesa não foi, nem fruto do aencarniçado denunciador de Damião de Góis pehoje. caso, nem um feito político da Coroa ou de corterante os tribunais da Inquisição”. Damião de Góis, são esforçados, antes a missão de uma Ordem Assim, constitui matéria de alta relevância os ainiciática.” comendador da Ordem de Cristo, guarda-mor da Manuel J. Gandra contecimentos históricos envolvendo a Ordem do Torre do Tombo, cronista-mor do Reino, embaixador de Portugal nas cortes da Europa, foi um dos maiores pensadores portugueses. Personagem CONTINUAÇÂO Por: Loryel Rocha Parte IV (Final Templo e sua sucedânea, a Ordem de Cristo no tocante as matérias respeitantes à história do Brasil. Suprimi-las, ou antes, delegar exclusivamente à Portugal tal herança, é uma fórmula bem eficaz importante para os planos do rei D. Sebastião, que em 1572, tinha conseguido do Papa Pio V a Muito embora Tito Lívio (A Ordem de Cristo e o autorização para (ré)-reformar os estatutos das de escamotear a história. Brasil) distingua sobremaneira a atuação dos jesuí- ordens religiosas e militares de Cristo, Aviz e Santi- Fernando Pessoa (Mensagem), de modo lapidar, tas portugueses dos jesuítas espanhóis, Frei Ber- ago. Pretendia o rei fazer renascer a antiga força diz: nardo da Costa (in: Inéditos da Crônica da Ordem militar destas ordens. Neste quesito, Damião de de Cristo) apresenta um Compêndio Histórico so- Góis era um personagem central. O jovem rei abre os jesuítas e a Ordem de Cristo que contém fastava-se do seu tio, Cardeal-Inquisidor (futuro denúncias graves. Frei Bernardo acusa os jesuítas rei de Portugal) e dos dois padres jesuítas que o Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal. Vaticina a poetisa e folclorista brasileira Anna Made se apossarem não só do patrimônio templário haviam educado. Damião de Góis foi assassinado. ria Dutra de Menezes de Carvalho(in: As Brasilíapertencente a Ordem de Cristo, bem como, de in- Tito Lívio (op. cit.,1980) apresenta a personalidade des), entendendo ser chegada a hora de quebrar o tentaram assumir o seu papel no desempenho do “ressentida” e a “sede de poder” que apresentava silêncio: ideal sinárquico . o Pe. Simão Rodrigues. É difícil atingir o mistério sagrado Frei Bernardo acusa os jesuítas de se apossarem No entanto, embora tenha havido uma quebra de que envolve o Brasil em oculta intenção não só do patrimônio templário pertencente a Or- harmonia, o ideal sinárquico dos templários pode perguntar qual Missão, intuir qual mestrado dem de Cristo, bem como, de intentaram assumir ser vislumbrado nos reis seguintes à D. João II, noilumina o futuro desta nossa nação. o seu papel no desempenho do ideal sinárquico. tadamente em D. Afonso V, D. Manuel I, D. SebasE quando este gigante de repente acordar Este documento elucida os estragos e ruínas que a tião I, D. João IV e D. João VI. Dos Descobrimenvão rugir pororocas, vão cantar minuanos Companhia de Jesus fez ao Reino e aos templários. tos Marítimos (1500) até a proclamação da Indee os mitos secretos e os tesouros do mar Não sem razão, Gandra afirma que D. João II ao pendência do Brasil (1822) Portugal teve 12 Reis, surgirão nos espaços, sagrados, profanos, mudar o destino nacional o transforma numa suprimindo-se o Cardeal-Rei D. Henrique (1580) e e será revelado em seu credo abismal questão de “Secos e Molhados”, ou seja, numa a Dinastia Filipina (1640). Sendo o Brasil Província o silêncio de Deus, pela voz da verdade mera questão de finanças, de procura por riquezas de Portugal, estes reis também pertencem a históe o Brasil transmutado, paraíso ideal materiais, caminho diametralmente oposto ao ria brasileira, pois, são igualmente reis do Estado será Ele, só Ele, por toda a eternidade perseguido pela Ordem do Templo e sua sucedâ- do Brasil. nea a Ordem de Cristo. O início da decadência de Portugal, com claras repercussões para a futura história brasileira. No tocante à questão do referido desempenho do ideal sinárquico dos jesuítas em solo brasileiro, Wilson Martins (in:Historia da inteligência brasileira (1550-1794), vol. I. São Paulo: T.A. Queiroz, Consigna Tito Lívio(1980, p. 57) sobre o nome Terra de Vera Cruz atribuído ao Brasil: “Alí não foi hasteada a bandeira do Rei, a bandeira da Coroa Portuguesa, mas, a bandeira da Ordem de Cristo, porque esse patrimônio lhe fora adjudicado pelos Papas Martinho V, Nicolau V e Calisto III, no século XV.[...] O fato de a terra descoberta O Brasil Não Foi Colônia é o título de uma conferência proferida pelo historiador paulista brasileiro Tito Lívio Ferreira na Sociedade de Geografia de Lisboa em 27/06/1957. O Brasil Não Foi Colônia, longe de ser um título provocativo ou ingênuo, configura uma chamada de atenção, lançada em meados do século XX, que já na altura estava e, ainda está, na contramão da historiografia nacional, submetida à um pensamento marxista, árduo defensor de uma história republicana anômala, que privilegia as literaturas que se esmeram em “desmontar” a memória da monarquia portuguesa e, por conseguinte, do Brasil. www.formiguinhasdovale.org /// Rádio web CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasil.net

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 12 Nosso Direitos semprego e auxílio-doença, imperiosa a leitura da exposição de motivos da MP 644/14, Da Constituição Federal, lei ou Segu- exposição essa que podemos deixar, em hirado? pótese alguma, de fazer uma leitura atenta e criteriosa, como a qualquer texto normativo. Pensão por morte de quem? As mudanças advindas da medida provisória 664/30 provocam espanto aos juristas e mais ainda aos segurados da previdência social. A começar pela numeração recebida, 664/2014, isso quer dizer que foi a 664ª medida do ano, vale dizer, mais de 55 ao mês. Haja urgência e relevância para a edição de tantas medidas provisórias! Onde esteve e o que fez o Poder Legislativo durante todo o ano? Aprovou/ votou medidas provisórias apenas? Parece que sim. Os benefícios previdenciários realmente são urgentes, mas daí a demandar uma medida provisória que os restrinja, foge a qualquer razoabilidade, deixando de lado a relevância da matéria o que, implica dizer, se afasta dos preceitos constitucionais para a edição de norma legislativa dessa natureza. Ao depararmos com as novas regras para a concessão da pensão por morte, seguro de- Dessa exposição extraímos os motivos que levaram a exigência de carência para a concessão por morte, de casamento ou união estável vigente há mais de dois anos, e a perda de seu caráter vitalício ao cônjuge/ companheiro sobrevivente. São eles: elevados custos com a concessão do benefício para dependentes cujo segurado/instituidor havia recolhido apenas um único mês para a previdência social; casamentos entre cônjuges com idade mais avançada visando a segurança do sobrevivente (na falta de um deles) com o benefício da pensão; e, ainda, sua limitação temporal para que os dependentes mais jovens (cônjuges/companheiros) tenham um incentivo ao trabalho e busquem seu próprio sustento. A medida chegar a colocar a população brasileira como, toda ela, useira e vezeira em prática de artimanhas e truques mágicos para o percebimento da pensão mantida pelo INSS, como se fosse norma de conduta de todos os segurados e dependentes: não querer mais trabalhar e só viver em busca do valor que viriam a receber a título de pensão pela morte de seu respectivo cônjuge/ companheiro. te. Chega a causar arrepios a leitura breve dessa exposição de motivos que, também trata de aumento da expectativa de sobrevida, déficit da Previdência e necessidade de ajustes das contas, apresentando percentuais sem mencionar o aumento da arrecadação. Apenas através da Justiça do Trabalho, a arrecadação da Previdência Social aumentou, nos últimos anos, consideravelmente. Também não trata a exposição de motivos, dos aportes de verbas da Previdência Social para outras esferas/investimentos do Governo, que não a proteção ao trabalhador. Já em vigor, não resta outra opção ao trabalhador/ segurado, aceita-la, eis que certamente será convertida em lei. Mas pairam dúvidas: 1ª É constitucional a medida, como instrumento normativo? 2ª. A proteção prevista pelo artigo 201, inciso I da Constituição Federal: prevalece a cobertura dos eventos de doença, invalidez, morte e idade avançada? 3ª. Cumpre os fundamentos elencados pelo artigo 1º, incisos III e IV, da Constituição Federal? De grão em grão, que culminam em toneladas, o Poder Executivo vem legislando e, em matéria previdenciária, as coberturas desses eventos passo a passo mutilada, até chegar o A exposição de motivos se esquece tão sodia que se tornarão letra morta, sem direito a mente de um princípio jurídico abraçado por pensionista! Quem viver verá. toda a legislação pátria: a boa-fé se presume. Através da medida provisória, o legislador Enviado por: Claudia Andreucci parte do pressuposto inarredável que paira Publicado por: Claudia Mohallem no site sobre os segurados: sua má-fé e má índole JusBrasil em 23/01/2015 na obtenção do benefício de pensão por mor- Temos todos que "dar uma força" aos aposentados e pensionistas . Hoje, são eles. Amanhã, seremos nós. ATENÇÂO A Gazeta Valeparaibana, um veículo de divulgação da OSCIP “Formiguinhas do Vale”, organização sem fins lucrativos, somente publica matérias, relevantes, com a finalidade de abrir discussões e reflexões dentro das salas de aulas, tais como: educação, cultura, tradições, história, meio ambiente e sustentabilidade, responsabilidade social e ambiental, além da transmissão de conhecimento. Assim, publica algumas matérias selecionadas de sites e blogs da web, por acreditar que todo o cidadão deve ser um multiplicador do conhecimento adquirido e, que nessa multiplicação, no que tange a Cultura e Sustentabilidade, todos devemos nos unir, na busca de uma sociedade mais justa, solidária e conhecedora de suas responsabilidades sociais. No entanto, todas as matérias e imagens serão creditadas a seus editores, desde que adjudiquem seus nomes. Caso não queira fazer parte da corrente, favor entrar em contato. Rádio web CULTURAonline Brasil Prestigie, divulgue, acesse, junte-se a nós. A Rádio web CULTURAonline BRASIL, prioriza a Educação, a boa Música Nacional e programas de interesse geral sobre sustentabilidade social, cidadania nas temáticas: Educação, Escola, Saúde, Cidadania, Professor e Família. Uma rádio onde o professor é valorizado e tem voz e, a Educação e o Brasil se discute num debate aberto, crítico e livre, com conhecimento e responsabilidade! Acessível no link: redacao@gazetavaleparaibana.com www.culturaonlinebr.org www.formiguinhasdovale.org /// CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasil.net

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 13 A Floresta e a África Floresta 
negra lhadores cativos e libertos, ancorados em sólida pesqui- dores africanos, vendedoras de açaí, mucamas e criasa documental, novas temáticas e métodos. dos, forros negociando suas produções de tabaco, artiO mergulho nesse universo vem revelando outras histó- gos de latão e cobre, oferecendo seus serviços de saparias sobre a vida dos africanos Brasil afora. Tais resulta- teiro, carpinteiro e ourives, divertindo-se nas festas do dos ajudam a fortalecer as lutas contemporâneas dos Espírito Santo, de Nossa Senhora de Nazaré ou, ainda, movimentos sociais de negritude porque iluminam traje- como membros da Irmandade do Rosário. tórias de indivíduos e comunidades, colaboram nos processos de reconhecimento de terras quilombolas e fundamentam reivindicações de políticas de ação afirmativa e combate ao racismo. Hoje, as pesquisas revelam um Brasil muito mais diverso do ponto de vista étnico-racial do que se pensava no passado. Os estudos fazem isso trazendo outros personagens para a cena, entre eles, homens e mulheres de A experiência e os impactos da escravidão africana origem africana, escravizados ou não, que viveram na na Região Amazônica Amazônia. Quando se fala sobre a presença negra na Amazônia é Enegrecendo a floresta frequente ver o espanto das pessoas. Ainda hoje, espe- Estudos recentes indicam que a Amazônia foi conectada cialmente fora da região, é comum ouvir a pergunta: às redes do tráfico atlântico ainda no fim do século XVII “Mas, afinal, existiu escravidão na Amazônia?” e, até meados de 1750, estima-se a entrada de cerca de Podemos começar respondendo que a experiência da escravidão africana também marcou a trajetória da parte norte da colônia portuguesa na América. Em decorrência disso, hoje a presença negra na Amazônia é inegável, com enorme impacto na vida da região, marcando sua história, suas formas de comer, vestir, amar, dançar, cantar, rezar, trabalhar, juntamente com todas aquelas heranças intangíveis que as pessoas levam na pele, nos olhos e na alma. São inúmeros os sinais dessa presença. Existem hoje 406 comunidades quilombolas nos estados do Amapá, Amazonas, Maranhão e Pará. Os dados são da Fundação Cultural Palmares, entidade do governo federal responsável pela certificação dessas comunidades, etapa necessária para o reconhecimento de suas garantias constitucionais e, especialmente, o direito às terras em que vivem. Em todo o Brasil, são cerca de 2 mil comunidades já certificadas. Agora, pergunta-se: se a presença negra na Amazônia é tão relevante, por que sabemos tão pouco sobre ela? Para começar, é preciso lembrar que, durante muito tempo, boa parte da historiografia partiu do princípio de que a escravidão não teve grande importância na região, já que ali se costumava usar o trabalho indígena em maior escala que o africano. Inclusive, havia certo consenso de que estudar a presença africana no Brasil era relevante apenas nos lugares onde existia grande número de escravos. Basicamente, isso significava falar das regiões Sudeste e Nordeste do País. Durante anos, esses argumentos foram usados para justificar a falta de aprofundamento da pesquisa sobre a presença negra na Amazônia. O resultado disso repercutiu fundo na produção historiográfica sobre o tema e alcançou os livros didáticos. Afinal, quanto menos se pesquisava sobre o assunto, mais difícil era falar sobre ele. Desde o fim da década de 1980, esse cenário vem sendo revertido em razão da notável expansão dos estudos sobre a escravidão africana e as experiências de trabaEscravos foram empregados na construção de fortalezas, condução de embarcações para Mato Grosso, nas fazendas de cana, arroz, tabaco, mandioca, milho, na criação de gado e de cavalos na Ilha de Marajó. Também eram artesãos, tecelões de chapéus e redes de algodão, apanhadores de açaí, pescadores, trabalhadores do porto, dos arsenais de guerra e da Marinha, das obras públicas, calafates, carpinteiros, pedreiros, ferreiros, vendedores de tabaco, garapa e frutas. Também estavam nas casas senhoriais servindo, ninando, zelando, cozinhando, lavando e costurando. Estavam em todos os lugares dividindo espaços com os trabalhadores índios, o que tornava essas cidades diferentes das outras. mil indivíduos na região, provenientes, em especial, da No século XIX, Manaus e Belém surpreendiam os viaCosta da Mina, área tradicional de comércio negreiro na jantes estrangeiros que por ali passavam. Suas belezas naturais eram atrativos inquestionáveis, mas a diversiÁfrica. dade étnico-racial de suas populações era o tema recorO tráfico era feito com forte comprometimento da coroa rente nos relatos. Os dados mostram que existia, ao portuguesa e, considerando que o Grão-Pará e o Maralado de uma grande maioria de índios vivendo nas cidanhão não eram uma de suas rotas mais rentáveis, havia des, dos escravos africanos e dos chamados brancos, certa irregularidade nos desembarques até a segunda uma grande variedade de tipos mestiços que tornava a metade do século XVIII, quando foi criada a Companhia Amazônia um laboratório extraordinário para estudo dos Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão. efeitos das “misturas raciais”. A partir daí, coube à nova empresa a tarefa de ampliar a Mas outros laços ligavam as histórias de índios e africaoferta de escravos para os proprietários da região, em nos relacionados com suas experiências de solidariedaespecial porque a coroa portuguesa resolveu, no mesde construídas a partir do duro cotidiano que muitas vemo período, abolir a escravidão dos índios (1755) que zes compartilharam. As tentativas de constituir novos eram trazidos dos altos cursos dos rios amazônicos paespaços fora da escravidão levaram à formação de muira servir nas propriedades no Pará e no Maranhão. Os tos quilombos/mocambos que, eventualmente, reuniram índios eram trabalhadores indispensáveis e o fim de sua índios e africanos no mesmo espaço. As fugas também escravidão, somado à presença dos escravos, não reforam frequentes e, em vários casos, épicas, porque presentou uma redução dessa importância. Eles contiatravessavam amplos espaços do território amazônico. nuaram a ser empregados em diversas formas de trabalho compulsório e, inclusive, compartilharam muitas des- Escravos lançaram mão de muitas estratégias para sobreviver em um mundo adverso e se esforçaram para sas experiências com os escravos negros. manter, no limite de suas possibilidades, o controle de Enquanto a Companhia esteve em funcionamento (1755 suas vidas. Buscaram juntar dinheiro para alcançar al-1778), estima-se que tenha comercializado perto de 25 forria, formaram comunidades independentes, guardamil escravos na imensa área que hoje conhecemos coram segredos no fundo da alma e transmitiram a seus mo Maranhão, Pará, Amazonas e Mato Grosso. Até medescendentes. ados do século XIX, seguindo os novos fluxos do tráfico internacional, as populações desembarcadas na Amazô- Mas a presença negra não se reduziu à escravidão. nia serão procedentes, em sua maioria, da África Cen- Outros homens e mulheres viveram na região sendo professores de música, chefes de polícia, capoeiras, tral Atlântica. gráficos, lavadeiras, oleiros, carpinteiros – uma lista sem Assim, no século XIX já era bastante evidente a presenfim. Apesar de o silêncio sobre essas histórias notáveis ça da população escrava africana nas vastidões amazôainda ser persistente, não há como negar que está sennicas, trabalhando com os índios nas lavouras de café, do revertido pela força inquebrantável de todas essas tabaco, cana-de-açúcar, na coleta de produtos da floresexperiências históricas. • ta, nas canoas do comércio e também nos diversos núcleos urbanos existentes floresta adentro. Como disse o historiador Flávio dos Santos Gomes, há muito tempo a Por Patrícia Melo Sampaio* Professora do Departamento de História da Ufam e pesfloresta já estava enegrecida. quisadora do CNPq Que tipo de atividades realizavam os escravos? Circulando pelas ruas de Belém e Manaus estavam carrega- www.formiguinhasdovale.org /// CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasil.net

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 14 Conhecer Dia Mundial da Justiça Social Dia 20 de Fevereiro se comemora o dia IMundial da Justiça Social. No entanto, no Brasil pouco temos o que comemorar. Apesar de ser um país rico em recursos naturais e com um PIB (Produto Interno Bruto) figurando sempre entre os 10 maiores do mundo, o Brasil é um país extremamente injusto no que diz respeito à distribuição de seus recursos entre a população. Um país rico; porém, com muitas pessoas pobres, devido ao fenômeno da desigualdade social, que é elevado. Pesquisadores da área social e econômica atribuem essa elevada desigualdade social no qualidade, uma política fiscal injusta, baixos Brasil a um contexto histórico, que culminou salários e dificuldade da população em desnuma crescente evolução do quadro no país. frutar de serviços básicos oferecidos pelo Estado, como saúde, transporte público e saneaMesmo sendo uma nação de dimensões conmento básico. tinentais e riquíssima em recursos naturais, o Brasil desponta uma triste contradição, de es- Teóricos brasileiros, pessoas e instituições tar sempre entre os dez países do mundo que estão à frente de iniciativas que visam com o PIB mais alto e, por outro lado, estar diminuir, e quem sabe, acabar com o problesempre entre os 10 países com maiores índi- ma da desigualdade no Brasil, apontam uma difícil fórmula que deve aliar democracia com ces de disparidade social. eficiência econômica e justiça social como uDados ma solução viável para o problema. Em um relatório da ONU (Organização das Nações Unidas), que foi divulgado em julho Mesmo com a Constituição Federal e diverde 2010, o Brasil aparece com o terceiro pior sos códigos e estatutos, assegurando o acesso à educação, moradia, saúde, segurança índice de desigualdade no mundo e, em se tratando da diferença e distanciamento entre pública, além de autonomias econômicas e ricos e pobres, fica atrás no ranking apenas ideológicas, a realidade que se vê ainda é disde países muito menores e menos ricos, co- tante do que se reza nos direitos do cidadão mo Haiti, Madagascar, Camarões, Tailândia e brasileiro no tocante à erradicação da desigualdade social neste país, em constante África do Sul. crescimento econômico e político. A ONU mostra ainda, nesse estudo, como Da redação principais causas de tanta desproporcionalidade social, a falta de acesso à educação de 21 de Fevereiro ma das minhas maiores paixões, a Língua Portuguesa. Discorrerei, então, sobre a nossa língua materna e sua importância e soberania no mundo contemporâneo. Já somos mais de 200 milhões de falantes no planeta, o que faz desse idioma o terceiro mais falado no universo lingüístico ocidental, ficando atrás apenas do Inglês e do Espanhol. de Língua Francesa. Dia Internacional da Língua Materna O dia internacional da língua materna foi instituído em 1999 na Conferência Geral da UNESCO. O principal objetivo é promover a diversidade cultural linguística e alertar para as tradições linguísticas e culturais. Teve a sua origem no Dia do Movimento da Língua celebrado em Bangladesh desde 1952. Existem cerca de 6000 línguas faladas no mundo, sendo que metade estão quase a desaparecer. Assim, a UNESCO propõe a recuperação das línguas ameaçadas. A língua portuguesa é uma das línguas mais faladas no mundo, por isso não se encontra dentro das línguas ameaçadas. A Importância da Língua Portuguesa no Mundo Globalizado Em meu artigo inaugural, falarei acerca de u- É importante então que busquemos cada vez mais valorizar e defender a nossa língua materna. Afinal preservá-la denota muito mais do que somente zelar pelo falar de um povo, significa defender o que há de mais precioso em nossa nação: nossa identidade, nossos costumes, nossa história e até mesmo nosso futuÉ importante ressaltar que a Língua Portugue- ro. sa é importante não apenas para Portugal, Refletirmos sobre este tema é, portanto, de mas também para todos os demais povos que extrema importância, haja vista que nosso idiintegram a Comunidade dos Paises de Língua oma é o traço principal da união entre Brasil, Portuguesa, dentre os quais o Brasil aparece Portugal e outros países falantes da Língua como a nação mais importante, na sua ascenPortuguesa. são, considerando o elevado número de falanA língua de Camões se tornou de forma intentes e sua projeção a nível mundial. sa, um elemento característico da nação braAo contrário dos que muitos pensam, o mun- sileira e veículo de comunicação de uma das do do novo milênio não será bilíngüe - língua mais ferventes e genuínas culturas do mundo nacional mais o Inglês, mas trilíngüe ou quem atual. sabe até multilíngüe. Não devemos deixar que o moderno Mundo A famosa globalização não ocorrerá somente Virtual nos iluda com a imagem de um suposem torno dos Estados Unidos, que se intitula to império da Língua Inglesa. a superpotência do planeta, mas ainda de forma diversa, em torno de grupos econômicos O seu uso no mundo de hoje não substitui de diferentes, sejam regionais ou continentais, forma nenhuma a função essencial e primordicomo é o caso do Bloco Econômico da Améri- al de fortes línguas nacionais, como é o caso ca do Sul e a União dos Países Europeus e da nossa rica e maravilhosa Língua Portugueaté mesmo os blocos culturais e lingüísticos sa como o da Comunidade dos Países de Língua Por: Rokatia Kleania Portuguesa e o da Comunidade dos Países www.formiguinhasdovale.org /// CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasil.net

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Fevereiro 2015 Gazeta Valeparaibana Página 15 Negócios da saúde Dia 28 de Fevereiro é o dia dedicado inter- berculose siga as recomendações sobre o regime antinacionalmente às doenças raras e é sobre microbial e que faça os exames. doença que resolvemos trazer este artigo. Visitas em casa e conversas com familiares são táticas Para um visitante comuns para fazer com que os pacientes sigam as recodos Estados Uni- mendações médicas, não abandonem o tratamento e dos, Cuba desori- mesmo para evitar gravidez indesejada. Numa tentativa enta. Automóveis de evitar infecções como a dengue, a equipe de saúde norte-americanos local visita as casas para fazer inspeções e ensinar as estão em todo pessoas sobre como se livrar da água parada. lugar, mas todos Este sistema altamente estruturado, orientado para a datam dos anos prevenção, produziu resultados positivos. As taxas de 50. Nossos cartões bancários, cartões de crédito e tele- vacinação de Cuba estão entre as mais altas do mundo. fones inteligentes não funcionam. O acesso à internet é A expectativa de vida de 78 anos de idade é virtualmenpraticamente inexistente. E o sistema de saúde também te idêntica à dos Estados Unidos. A taxa de mortalidade parece irreal. Há médicos demais. infantil em Cuba caiu de 80 por mil nos anos 50 para Todo mundo tem um médico da família. Tudo é de graça, totalmente de graça — e não precisa de aprovação prévia ou de algum tipo de pagamento. Todo o sistema parece de cabeça para baixo. É tudo muito organizado e a prioridade absoluta é a prevenção. Embora Cuba tenha recursos econômicos limitados, seu sistema de saúde resolveu alguns problemas que o nosso [dos Estados Unidos] ainda nem enfrentou. Médicos de família, junto com enfermeiras e outros profissionais de saúde, são os responsáveis por dar atendimento primário e serviços preventivos para seu grupo de pacientes — cerca de mil pacientes por médico em áreas urbanas. Todo o cuidado é organizado no plano local e os pacientes e seus profissionais de saúde geralmente vivem na mesma comunidade. Os dados médicos em fichas de papel são simples e escritos à mão, parecidos com os que eram usados nos Estados Unidos 50 anos atrás. Mas o sistema é surpreendentemente rico em informação e focado na saúde da população. Todos os pacientes são categorizados de acordo com o nível de risco de saúde, de I a IV. Fumantes, por exemplo, estão na categoria de risco II, e pacientes com doença pulmonar crônica, mas estável, ficam na categoria III. As clínicas comunitárias informam regularmente ao distrito sobre quantos pacientes tem em cada categoria de risco e sobre o número de pacientes com doenças como a hipertensão (bem controlada ou não), diabetes, asma, assim como sobre o status de imunização, data do último teste de Papanicolau e casos de gravidez/cuidado pré-natal. menos de 5 por mil — menor que nos Estados Unidos, embora a taxa de mortalidade materna esteja bem acima daquela dos países desenvolvidos e na média para os países do Caribe. 40% da taxa dos Estados Unidos — similar ao que era nos Estados Unidos em 1985. Um neurologista nos informou que seu hospital só recebeu um CT scanner doze anos atrás. Estudantes norteamericanos de universidades médicas cubanas dizem que o trabalho nas salas de cirurgia é rápido e eficiente, mas com pouca tecnologia. Acesso à informação via internet é mínimo. Um estudante informou que tem 30 minutos por semana de acesso discado. Esta limitação, como muitas outras dificuldades de recursos que afetam o progresso, é atribuída ao embargo econômico dos Estados Unidos [imposto em 1960], mas podem existir outras forças no governo central trabalhando contra a comunicação fácil e rápida entre cubanos e os Estados Unidos. Como resultado do estrito embargo econômico, Cuba desenvolveu sua própria indústria farmacêutica e agora fabrica a maior parte das drogas de sua farmacopeia básica, mas também alimenta uma indústria de exportaSem dúvida, os resultados são consequência de melho- ção. Recursos foram investidos no desenvolvimento de rias em nutrição e educação, determinantes sociais bá- expertise em biotecnologia, em busca de tornar Cuba sicos para a saúde pública. A taxa de alfabetização de competitiva no setor com os países avançados. Cuba é de 99% e o ensino sobre saúde é parte do currí- Existem jornais médicos acadêmicos em todas as especulo obrigatório das escolas. Um recente programa na- cialidades e a liderança médica encoraja fortemente a cional para promover a aceitação de homens que fazem pesquisa, a publicação e o fortalecimento de relações sexo com homens foi desenhado para reduzir as taxas com outros países latino-americanos. As universidades de doenças sexualmente transmissíveis e aumentar a médicas de Cuba, agora 22, continuam focadas em atendimento primário, com medicina familiar exigida coaceitação e adesão aos tratamentos. Os cigarros já não são oferecidos na cesta básica men- mo primeira residência de todos os formandos, embora sal e o número de fumantes decresceu, embora as equi- Cuba já tenha hoje o dobro dos médicos per capita que pes médicas locais digam que continua difícil convencer os Estados Unidos. fumantes a deixar o vício. Os contraceptivos são gratui- Muitos dos médicos cubanos trabalham fora do país, tos e fortemente encorajados. O aborto é legal, mas como voluntários num programa de dois anos ou mais, pelo qual recebem compensação especial. Em 2008, considerado um fracasso do trabalho de prevenção. Não se deve romantizar o sistema de saúde cubano. O havia 37 mil profissionais de saúde cubanos trabalhando sistema não é desenhado para escolha do consumidor em 70 países do mundo. A maioria trabalha em áreas ou iniciativas individuais. Não existe sistema de saúde carentes, como parte da ajuda externa de Cuba, mas privado pago como alternativa. Os médicos recebem alguns estão em áreas mais desenvolvidas e seu trababenefícios do governo como moradia e alimentação, lho traz benefício financeiro para o governo cubano (por mas o salário é de apenas 20 dólares por mês. A educa- exemplo, subsídios de petróleo da Venezuela). ção é gratuita e eles são respeitados, mas é improvável Todo visitante pode ver que Cuba continua distante de ser um país desenvolvido em infraestrutura básica, coque obtenham riqueza pessoal. Cuba é um país em que 80% dos cidadãos trabalham mo estradas, moradias e saneamento. Ainda assim, os para o governo e o governo é quem gerencia orçamen- cubanos começam a enfrentar os mesmos problemas tos. Nas clínicas de saúde comunitárias, placas infor- de saúde de países desenvolvidos, com taxas crescenmam aos pacientes quanto o sistema custa ao Estado, tes de doenças coronárias, obesidade e uma população mas não há forças de mercado para promover eficiên- que envelhece (11,7% dos cubanos tem 65 anos de idade ou mais). Todo paciente é visitado em casa uma vez por ano e cia. aqueles com doenças crônicas recebem visitas mais Os recursos são limitados, como descobrimos ao ter O seu incomum sistema de saúde enfrenta estes problefrequentes. Quando necessário, os pacientes podem ser contato com médicos e profissionais de saúde cubanos mas com estratégias que evoluiram da peculiar história direcionados a policlínicas distritais para avaliação de como parte de um grupo de editores-visitantes dos Esta- política e econômica de Cuba, um sistema que — com especialistas, mas eles retornam para as equipes comu- dos Unidos. Um nefrologista de Cienfuegos, a 240 quilô- médicos para todos, foco em prevenção e atenção à nitárias para acompanhamento. Por exemplo, a equipe metros de Havana, tem uma lista de 77 pacientes em saúde comunitária — pode informar progresso também local é responsável por garantir que o paciente com tu- diálise na província, o que em termos de população dá para outros países. www.formiguinhasdovale.org /// CULTURAonline BRASIL /// http://www.culturaonlinebrasil.net

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