NA CUIA - EDIÇÃO 1

 

Embed or link this publication

Description

Carimbó

Popular Pages


p. 1

EDIÇÃO 1 ÉPOCA DE PUPUNHA RETROSPECTIV A DA VIRADA CULTURAL PARAENSE O QUE ACONTECEU NO SUPER EVENTO DE CULTURA NA REGIÇÃO O INCRÍVEL SORVETE DE PUPUNHA E + uma receita JURACI SIQUEIRA a SUA OBRA DE CORPO E ALMA E MUITO MAIS CULTURA... cONFIRA! CARIMBÓ Um canto? Uma dança? Um ritmo? Afinal, o que é carimbó? Com a palavra: Dona Onete e Mestre Lucas Bragança, do Grupo Sancari 1

[close]

p. 2

A P ALA VRA “CUIA” É DERIV ADA DE “KU’Y A”, EM TUPI. É A CASCA DO FRUTO DA CUIEIRA PELA MET ADE, SEM A P ARTE DO MEIO. P ARA OS P ARAENSES, NA CUIA CABE TUDO. NÃO SÓ OT ACACÁ, MAS T AMBÉM A MANIÇOBA, O V A T APÁ, O AÇAÍ. COMER NELA TRAZ UM “QUÊ” DE HISTÓRIA, DE REGIONALIDADE T ANTO NORTIST A, QUANTO BRASILEIRA. E É ESSA A INTENÇÃO DESSA REVIST A AQUI. A PRETENSÃO É TRAZER AOS LEITORES AS INFLUÊNCIAS DO CENÁRIO AUDIOVISUAL, MUSICAL, LITERÁRIO, GASTRONÔMICO, TEA TRAL, E DIVERSOS MAIS, EM CONGRUÊNCIA UNS COM OS OUTROS. A NA CUIA TEM COMO PRINCIP AL FOCO A HISTÓRIA DOS MOVIMENTOS CUL TURAIS, QUAIS AS SUAS INFLUÊNCIAS, QUAL O IMP ACTO DELES NAS COMUNIDADES DE BELÉM. UMA PREOCUP AÇÃO DA NOSSA EQUIPE É FOMENT AR ESSA NECESSIDADE CRESCENTE DE DIVULGAÇÃO DA PRODUÇÃO CUL TURAL LOCAL, P ARA A MANUTENÇÃO DO CENÁRIO EAV ALORIZAÇÃO DO QUE NOS É PRÓXIMO. ISSO (EU ESPERO!) AJUDA NA CRIAÇÃO DE UM SENTIMENTO DE PERTENCIMENTO A ESSA TERRA E NOS ENVOL VE COM QUEM DEPENDE DAS MANIFEST AÇÕES CUL TURAIS P ARA SOBREVIVER. COMO V AMOS VER AO LONGO DESSA EDIÇÃO, TEM MUIT A GENTE QUE NÃO SÓ VIVE DE ARTE, MAS VIVE A ARTE. O VELHO E O NOVO, O QUE FOI HISTORICAMENTE MARGINALIZADO E ELITIZADO, O INTERNACIONAL E, PRINCIP ALMENTE, O REGIONAL. TUDO JUNTO E MISTURADO, NA CUIA. Luana Lisboa Arte Diretora de Arte Arte Diagramadora Repórter Colaborativa Lorena Emanuele 2

[close]

p. 3

Agenda Cultural Repórter Colaborativa Izadora Nunes Vitória Mendes Repórter Resenhista Repórter Colaborativa Stéfanie Olivier Madylene Barata Repórter Juliana Araújo Editora-Chefe Repórter Matheus Botelho Repórter 3

[close]

p. 4

janeiro 4 . Com f arinha pupunha 12. Especial Virada Diversas visões dos nossos repórteres na virada cul tural de belém. 18. Agenda Cul tural precisa-se sair de casa 22. cap a carimbó, o ritmo p araense 28. dona onete força da mulher! 31. juraci siqueira vida e obra do mestre das p ala vras 36. “beco sem saída” hoje eu não quero vol tar sozinho 4

[close]

p. 5

Vista Cultura Vista 5

[close]

p. 6

coM FARINHA 6

[close]

p. 7

POR JULIANA ARAÚJO Janeiro com gosto de pupunhA Pupunha no doce? Quando os ingredientes regionais ganham força, é preciso inovar e, ainda assim, louvar as tradições A Feira da 25, no final da tarde, não passa nem perto de parecer lotada. Na frente das barracas, porém, os poucos vendedores de pupunha, com as bacias da fruta cozida, laranja e vermelho, quase no asfalto e os cachos crus do lado de dentro, esperam os últimos fãs do seu produto. Distribuída pelos índios sul-americanos, os lugares onde a pupunha foi popularizada foram o litoral da Colômbia, a Costa Rica e a Amazônia brasileira. Por aqui o mercado é de alta qualidade no período de safra, mas durante os outros períodos a fruta é esquecida.>> 7

[close]

p. 8

Marcilene Tavares Magno, feirante há aquilo - às vezes é até mito, sabe? É mais 15 anos, explica que a época da pupunha saber cozinhar mesmo. Se ela descascar lecomeça esse mês e vai até junho. Ou seja, as gal também, ela não é uma pupunha seca, frutas não cozidas que eu via dispostas em sabe?”. Contudo, a facilidade de descascar sua barraca estavam pálidas, não pela qua- o fruto não tem conexão com o teor de óleo, lidade do produto que ela costumava vender, fibras, nem com o sabor. mas pela época do ano, já que a entrevista Identificar quão saborosa a pupunha é foi feita ainda em dezembro. Sobre o tempo se torna uma dificuldade pelo fato de que isso de preparo, Marcilene diz que “depende da quantidade. Se for pouco - um quilo -, é meia hora. Isso quando tá no tempo da pupunha”. “Quando a gente cozinha, assim, é no máximo umas cinco horas”, a feirante relata. Também, pudera: são trinta quilos de pupunha por dia, só na barraca dela. não é definido pela maturação, mas aleatoriamente. Por isso é Nós podíamos ser conhecidos pelos rios. Mas é pela comida, e não tem incentivo pra isso. difícil comprar pupunha e também produzí-la: os cachos tem frutas de qualidades diferentes. De acordo com o INPA “existem demandas para pupunha de melhor qualidade na Amazônia, o que oferece uma oportunidade de desenvolver variedades”. Segundo documento oficial do INPA A pesquisa mostra que a preferência em Be- (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), lém é pelo fruto proveniente do seu próprio a época de entressafra, de julho até dezem- estado e da região do rio Solimões, que tem bro, tem seu mercado alimentado por frutas como média os frutos oleosos. derivadas de pupunheiras inermes (sem espinhos), em municípios de tradição agrícola no estado, porém o plantio é voltado para a produção de palmito da pupunha, que se popu- larizou recentemente. A produção no segundo o lugar não abre, e César, o idealizador dos semestre ainda é pequena para a demanda. pratos, puxou duas cadeiras de frente para C heguei no Dona Dica, restaurante com um ambiente modesto e acolhedor, em uma terça-feira, dia que A feirante vai apertando as pupunhas a Almirante Tamandaré. Ele falou um pouco com o polegar e diz: “Falam que a pupunha das suas criações com a pupunha. “Eu já titem que ser roída, a pupunha tem que fazer nha pensado em fazer um salgado com isso, 8

[close]

p. 9

achava interessante, mas o que? Um dia eu tive o click, sabe?” E assim nasceu o salgado de pupunha e linguiça defumada. Sobre a valorização dos ingredientes Trabalhos com produtos regionais fa- zem crescer esse mercado, e César reconhece isto. Nessa época de alta temporada, ele fala da gastronomia regional como iniciativa popular: “Nós podíamos ser conhecidos pelos rios, pelas manifestações culturais. Mas é pela comida, e não tem incentivo pra isso. É porque as pessoas fazem, é iniciativa popular”. regionais, o cozinheiro volta a falar de turismo. “Hoje o turismo de Belém é a gastronomia. Quando chega alguém de fora, a gente diz “vou te levar em um lugar pra comer””. Ele conta que fica feliz de poder contribuir para o crescimento desse mercado, mas que sempre procura novos lugares dentro da cidade para provar comida nova. “Tem muito lugar que não é valorizado. Encontrei muita coisa gostosa andando pela cidade. São lugares que precisam ser enxergados”. A decoração colorida e descolada da Brigaderie, loja de brigadeiros finos na esquina da Gentil com a Três de Maio, combina com o estilo da sócia do empreendimento, Taiana Lauin, que senta comigo para conceder a entrevista e pede logo um>> 9

[close]

p. 10

expresso. “É. Nós que fazemos”, ela responde de fazer um segundo teste. “A gente vai fazer rapidamente, quando pergunto se é a loja que uma nova batida, pra colocar uma pupunha produz o sorvete de pupunha que utilizam na diferente, que fica com um paladar mais forbebida que foi divulgada no instagram da Bri- te”. De acordo com a empresário, o foco não gaderie e me fez procurá-la para falar dos usos alternativos do ingrediente. era ser “forte” nos ingredientes regionais, mas usá-los para que o paraense entenda que são produtos de O importado “Na verdade, é uma qualidade. “Desde o começo por ser parceria com a Cairu que a importado - cai a gente tá batendo na tecla de gente tem. Levamos a base muito mais rápido colocar coisas regionais [no e só fazem lá com o proces- no paladar do que cardápio]”. o so das máquinas deles, pra Só de pupunha, já produregional ficar com uma textura boa”, ziu brigadeiro e salgado da fruta ela continua. A minha taça com carne seca. “É totalmente de Expresso com Sorvete de Pupunha chega. diferente eu vender um chocolate do Combú, Enquanto eu provo a bebida, ela fazendo a brigadeiro de pupunha, e dizer que estou vendescrição do paladar. E é precisa. “No doce a dendo pupunha vai se perdendo, ela vai caindo pro também um brigadeiro belga. O importado lado do milho”. O sorvete é amidoso, só dá por ser importado, por ser chocolate belga pra sentir o gosto da pupunha bem no final. ele cai muito mais rápido no paladar do que o Com o expresso, fica impressionantemente regional, que lá fora todo mundo ama, adora, leve. 10 vende e explora”. Taiana comenta que a empresa preten-

[close]

p. 11

RECEITA Ingredientes: 1. 100g de pupunha cozida 2. 1 xícara de creme de leite 3. 1 colher de sopa (cheia) de manteiga 4. 2/3 de xícara de bacon em cubinhos 5. Uma pitadinha de sal Preparo: 1. Descasque e tire o caroço das pupunhas. 2. Frite o bacon - sem colocar óleo nenhum, ele frita com a própria gordura 3. Tire o excesso de gordura do bacon jogando ele em uma “caminha” de papel-toalha. 4. Bata no processador a pupunha e o creme de leite. É recomendado que a fruta ainda esteja quente - e nova! (Comprar e deixar de um dia pro outro pode fazer com que ela fique mais seca). 5. Misture a manteiga na massa do purê. 6. Coloque em uma panela, em fogo médio, mexendo moderamente. 7. Adicione o sal (Eu sei que “uma pitada” não ajuda, mas depende dos outros ingredientes. O jeito é provar, galera, senão corre o risco de salgar!). 8. Adicione o bacon ao purê e continue mexendo! 9. Quando o purê estiver um pouco mais grosso, desligue o fogo. 10.Sirva! 11

[close]

p. 12

ESPECIAL VIRADA 12

[close]

p. 13

a identidade na Virada cul tural Em belém, a virada cultural aconteceu nos dias 13 e 14 de dezembro. foi o primeiro evento desse tipo que a cidade sediou. A equipe dA Na Cuia esteve lá, participou de pertinho de um monte de shows, oficinas, entre outras atividades. Aqui, cada um conta sua experiência no evento. 13

[close]

p. 14

E POR AMANDA PINHO: conforto cultural, “porque muita gente se limita m um dos pontos turísticos mais boni- quanto à sua escolha musical, então espero tos e frequentados da cidade, a noite que elas possam conhecer novos artistas e começou agradável e com um clima que todo mundo, do mais pobre até o mais bem família. Enquanto Tom Salazar e Daiane rico, possa aproveitar o que estão oferecenGasparetto davam início às atrações da noite, do”. Por fim, a noite e o começo da manhã crianças se dividiam entre brincadeiras e pi- foram “uma grande oportunidade de conhepocas à beira do anfiteatro. A segunda atração cer um pouco mais da cultura regional e nada noite foi Delcley Machado que manteve a cional”, como muito bem resume a advogada plateia atenta. A bióloga Pamela Baker, que es- Amanda Vieira. tava com alguns amigos, celebrou o evento, dizendo que “estava faltando algo desse tipo POR JULIANA ARAÚJO: em Belém”. Toda cabelos e cores, Luê foi a tercei- ra atração da noite. Um dos momentos mais bonitos da noite, foi quando, violino em mãos, rias, com a designer Júlia Leão, e culinária ela chamou o pai ao palco e, juntos, eles le- infantil com a chef Sophia Honda. O organizavaram um pouco de junho àquela noite de dor Victor Kato, da Ovelha Negra, teve a ideia dezembro. Arthur Espíndola também passou para o evento por causa do próprio filho. “Os por lá com seu samba e quando Dona Onete pais precisam de uma programação para o subiu ao palco a noite já estava em festa. Felix final de semana e as crianças precisam de Robatto, Mestre Vieira e Pio Lobato fecharam um espaço para desacelerar, para criar”, disa noite da melhor maneira possível e a sen- se. Ele me contou que a intenção do projeto sação de que tudo tinha valido à pena era também é criar um público-alvo para o cenápalpável. rio cultural local, fazendo com que as crianças C omecei a Virada indo na Casarela, pra cobrir a Programação Infantil, com desenho e contação de estó- Uma enxurrada de preciosidades regio- se envolvam com as atividades e criem gosto nais em um único palco, em uma única noite pela arte. A Sophia falou da importância do e todo mundo pôde se deliciar com tudo isso envolvimento das crianças em eventos cultusem nem precisar pagar nada. Para a tradu- rais como esse. “As crianças tem que sentir tora Pamela Russo, a Virada Cultural fez com que podem fazer as coisas. que as pessoas saíssem das suas zonas de 14 Elas não podem ser tratadas como se-

[close]

p. 15

res a parte, elas tem que aprender a fazer”, disse. De noite, fui para a Praça da Bandeira. show foi um dos mais envolventes, o que deixou Lucas Padilha, vocalista da banda, muito satisfeito: “Mesmo com todos os problemas que a gente teve por aqui, a gente conseguiu fazer um show muito bacana. Foi improvisado, mas foi ótimo”, disse. De lá, segui para o Mercado de São Quando eu cheguei, a Molho Negro tava acabando de tocar. Camila Honda entrou no palco depois da exibição do videoclipe da sua música “Baile Saudoso”. Em entrevista para a Na Cuia, a cantora, que apresenta as músicas do CD desde 2012, contou que suas influências foram moldadas no âmbito familiar. Seguido dela, o grupo Cronistas de Rua se apresentou, aquecendo a platéia para a atração nacional: Emicida. Os fãs do rapper tentaram invadir o backstage e o próprio palco - e um deles conseguiu. Ele movimentou a praça, com forte presença de palco e brincando com as músicas. A minha noite acabou por aí, mas os shows seguiram, com Strobo e Manoel Cordeiro na sequência. Brás, onde acontecia a Virada de Rua, que uniu a exposição fotográfica Paráfrica, alguns shows de rap, intervenções de grafite, além de concurso de b-boys. Quando cheguei, por volta das 17h30, quem se apresentava era a Família Sempre Pelo Certo. Para Rog MC, integrante do coletivo, “a apresentação foi algo muito construtivo, principalmente pela vinda do Bruno B.O., que veio de Ipixuna pra participar da Virada”. E ainda teve uma surpresa: Keila Gentil, vocalista da Gang do Eletro. Logo após, rolou a Batalha de São Brás, disputa de rimas que acontece todo sábado no M POR VITÓRIA MENDES: inha primeira parada foi na loja Ná Figueredo. Em clima intimista, a programação no local teve shows mercado. O vencedor foi o MC Gabriel, que levou um prêmio de 300 reais. do cantor Lucas Guimarães e das bandas Cais Virado e Meio Amargo. Infelizmente, as constantes quedas de energia na rua atrapalharam o show do Cais Virado, queimando um amplificador no fim da apresentação. Por causa disso, a banda Meio Amargo fez um show acústico. Apesar dos contratempos, o E POR LOUISE LESSA: m uma das ruas estreitas da cidade velha, os 4 garotos se preparavam instalando caixas de som e afinando ins- trumentos. Na primeira banda a tocar na no primeiro dia de Virada Cultural fez seus show entre musicas com arranjos psicodélicos e tiradas de humor. Algumas horas depois, no>> 15

[close]

Comments

no comments yet