Caleidoscópio nº 69

 

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Caleidoscópio nº 69

Popular Pages


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Caleidoscó opio Nº 69 COLÉGIO SANTA MARIA Revista Profissão professor: mistura de missão e talento Ex-aluna formada em Medicina trabalha no Xingu Ensino Médio cria oficinas de estudo para o ENEM Eleições abrem espaço para estudos interdisciplinares

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eu que fiz Trabalhos desenvolvidos pelos alunos da Educação Infantil expediente Instituto das Irmãs da Santa Cruz COLÉGIO SANTA MARIA Av. Sargento Geraldo Santana, 890/901 Jardim Marajoara – São Paulo/SP (11) 2198-0600 santamaria@colsantamaria.com.br www.colsantamaria.com.br CONSELHO EDITORIAL Irmã Diane Clay Cundiff Irmã Anne V. Horner Hoe Adriana Tiziani Maria Cristina Forti Maria Soledad Más Gandini Paula Bacchi Silvio Soares Moreira Freire Tiyomi Misawa Editora Suze Smaniotto Diretor de arte Marcelo Paton Revisão Rita de Cássia Cereser Sogi COLABORADORES Adriana Pereira da Silva Baptista de Freitas, Alexandre da Silva Oliveira, Ana Claudia Florindo, Bernardo Fonseca Machado, Caroline Mieko Agata Moreira, Cristiane Paulon, Denise Garcia Carneiro, Fabíola Albuquerque, Fernando Siliano Reyes, Gabriela Kraft Gerane, Gilberto Carvalho Soares, Glaydon Marcio do Nascimento, João Neto/FotoJump, Luís Branco, Maria Elizabeth da Costa, Maria Luisa Parise, Mayra Lourenço, Rita de Cássia Cereser Sógi, Robson Veríssimo, Rosana Daher, Sílvia Sonagere, Simei Ribeiro, Sônia Brandão, Suzana Rodrigues Torres, Ulisses Ambrósio, Valéria Conte Delbem Impressão Gráfica Altamisa Tiragem 6 mil exemplares A Revista Caleidoscópio é uma publicação do Colégio Santa Maria. Não é permitida a publicação de seus textos sem a devida autorização. 02

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sumário carta 04 06 07 08 11 12 13 14 18 19 20 22 COTIDIANO Irmã Diane Clay Cundiff Diretora geral do Colégio Santa Maria É BOM SABER ALÉM DOS MUROS P Plenamente alinhados com Pe. Moreau MISSÃO INSPIRADORA NA REDE INTERAÇÃO DEIXA COMIGO MAIS SABER PRISMA DEPOIS DO SANTA SANTA DO BEM REFLEXÃO ensei sobre este texto durante a semana em que festejamos o nosso fundador, Pe. Moreau. Além de acreditar que a educação é algo da mente e do coração, ele não só colocou a necessidade de ter no currículo aquilo que o aluno precisa para viver nesta sociedade, mas também os elementos que ele pode usar para criar o mundo ideal. Outra preocupação dele era que as pessoas da Congregação fizessem um trabalho como educadores em parceria com leigos, nunca restrito a um grupo fechado. Essas orientações estão evidentes nas páginas que você lerá a seguir, pois as atividades não são apenas direcionadas aos educadores adultos, mas também a jovens tomando iniciativas para a sua própria educação, como no grupo refletindo sobre gênero, no debate político e nos projetos ligados ao meio ambiente. Outra coisa que se destaca é como a educação do Santa Maria está cada vez mais pela comunidade e em comunidade, no sentido mais amplo. Quando realizamos um debate, os alunos estão presentes e a internet é usada para levar os questionamentos a um público externo. No ciclo de palestras sobre a Ditadura, não só os alunos do Ensino Médio e da educação de Jovens e Adultos foram convidados, mas também tivemos a presença de pais, funcionários, ex-alunos e de moradores da redondeza. Quando implantamos o exame de proficiência em Inglês, a intenção não era apenas que cada um tivesse o seu diploma. O objetivo maior era (e continua sendo) que os alunos pudessem participar de uma comunidade internacional, de comunicação e pesquisa. O domínio desse idioma tornou-se imprescindível, como Pe. Moreau nem imaginou, embora tenha vislumbrado o mecanismo e a importância desse tipo de aplicação. O mesmo ocorre com o ENEM, que não se coloca em si mesmo, e sim como um recurso para o aluno fazer parte de uma comunidade acadêmica mais ampla. Também concentram a mesma lógica as resoluções de conflitos no parquinho e os estudos do meio, pois envolvem a comunidade fora do Colégio, confirmando que os muros não servem de limite – o mundo é a grande escola desses alunos. Gostaria de destacar que ninguém deve perder duas seções: a primeira é a homenagem ao Dia do Professor, com o depoimento de jovens professores do Santa Maria, e a segunda, o testemunho da ex-aluna Sofia Mendonça. A melhoria do sistema brasileiro de ensino vai acontecer quando pessoas que passam por uma educação como a do Santa Maria, espiritual e humanamente completa, tornarem-se coadjuvantes nesse processo. Meu sonho é que todos sejam professores em suas profissões. A ex-aluna Sofia optou por Medicina e se coloca a serviço do povo indígena, uma situação de troca. Os testemunhos de todos eles concretizam o resumo das propostas descritas nesta edição, que objetivam o desenvolvimento de habilidades para fazer de nossos alunos pessoas íntegras e competentes. Boa leitura! | 03

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cotidiano Caleidoscópio nº 69 residências urbanas Dando continuidade ao projeto Ecoestudantil, os estudantes do 8º ano farão a instalação de duas minicisternas no CCA Frei Reginaldo, entidade na qual realizam trabalho voluntário. “O projeto visa a estimular tanto a adoção de tecnologias sustentáveis quanto o uso mais racional dos recursos naturais”, explica Denise Garcia Carneiro, professora de Ciências. Preocupada com a preservação do meio ambiente, com a escassez cada vez maior de água apropriada para o consumo humano, com a falta de espaço físico nas residências urbanas e desejosa de que a população faça um uso mais racional da água proveniente das chuvas, a série criou o projeto experimental “Aproveitamento da água das chuvas por meio do uso da tecnologia da minicisterna em residências urbanas”. A iniciativa será levada adiante pelos alunos junto às comunidades atendidas pela entidade, com a proposta da construção de cisternas para que adotem novos hábitos capazes de contribuir para a formação de cidadãos mais críticos e conscientes. Minicisternas em Água: qual será sua contribuição? No 7º ano, o Dia Mundial do Meio Ambiente foi marcado pela elaboração de vídeos focados no consumo consciente dos recursos naturais, em especial a água, tema recorrente nas aulas pela crescente crise de abastecimento que afeta boa parte do país. Os vídeos foram dedicados às ações positivas que evitam o desperdício, incentivam a utilização da água de reuso, a importância das construções sustentáveis e a manutenção das florestas para o ciclo hidrológico. Sim, a água tem um ciclo, portanto é infinita?! Opa! Depende. “Se considerarmos o ciclo, a quantidade de água praticamente não varia no planeta; se pensarmos na água potável, própria para nosso consumo e, portanto, necessária à vida, essa sim corre sério risco. É só olhar ao nosso redor e perceber a relação nada saudável que construímos com esse bem tão essencial”, declara a professora de Ciências Caroline Mieko Agata Moreira. Qual será sua contribuição? ponta da língua No dia 13 de setembro, 27 alunos da 2ª e 3ª série do Ensino Médio vieram para a escola por um motivo muito especial: realizar as provas de certificação da Universidade de Cambridge do nível Advanced. A estrutura e a logística foram preparadas com cuidado para não só possibilitar um ambiente confortável aos alunos, mas também para garantir os parâmetros de qualidade exigidos pela Universidade. O Colégio recebeu seis examinadores contratados pela São Paulo Open Centre, parceira nesse ousado projeto, que avaliaram os alunos nas habilidades de Listening, Speaking, Reading e Writing. Na etapa seguinte, em 11 de outubro, 255 alunos realizaram os diferentes papers em 15 salas, sendo 123 alunos prestando o PET (Preliminary English Test) e 132 alunos, o FCE (First Certificate in English). Momentos que ficaram na história da escola! Inglês na Homenagem aos pais A homenagem aos pais do Jardim I, II e Pré foi preparada com histórias, brincadeiras, jogos e vivências de música e movimento, possibilitando uma manhã de convivência entre pais e filhos, permeada por muito carinho e troca de conhecimentos. Os presentes foram confeccionados pelas crianças e entregues aos pais, acompanhados por muitos abraços e beijos. Emocionados, eles se despediram com um gostoso cafezinho, tecendo comentários a respeito da importância de momentos como esses proporcionados pelo Santa Maria, em meio a correria do dia a dia. 04

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Alunos, alunas, homens, mulheres: o X é a questão Em maio deste ano, um grupo de alunas do Ensino Médio procurou a equipe de professorxs. Estavam aflitas: desejavam discutir práticas de gênero. Sinalizavam que as relações entre alunas e alunos estavam despertando debates, questões e, por vezes, conflitos. Solicitavam “uma palestra, uma aula, qualquer coisa” para terem espaço para discussão. Professorexs decidiram, então, iniciar um Grupo de Estudos com a temática Gênero. Todas as quartas-feiras, no intervalo do almoço, alunxs se reúnem com professorxs do Ensino Médio para tratar de conceitos históricos e sociológicos que versem sobre “Gênero”. O espaço é também destinado para compartilhar experiências, relatos, angústias e expandir a reflexão para práticas cotidianas. As aulas são abertas e qualquer alunx pode frequentar o grupo, que reúne entre 20 e 30 jovens a cada sessão. “Desse modo, estamos construindo, alunxs e professorxs, um espaço de debate crítico sobre construções que afetam mulheres e homens”, afirmam os professorxs de Sociologia e História da série. Obs.: Neste caso, o uso do X não se trata de erro ortográfico, mas um recurso de provocação. Celebração do amor No dia 9 de agosto, o 4º ano celebrou a ação de graças a Deus, nosso Pai, por todos os pais do Colégio. A missa celebrada pelo Padre Pedro aconteceu nas quadras, em um ambiente acolhedor, preparado com muito carinho. Além dos pais, houve a presença de muitos avôs, que reconhecem ou vivenciam a paternidade dos netos, seja como mais um tutor da criança, seja para suprir a ausência do pai. Na procissão de entrada os alunos levaram lenços coloridos até o altar contendo palavras que expressavam valores aprendidos e vivenciados no dia a dia com seus pais: espiritualidade, confiança, limites, diálogo, incentivo, verdade, honestidade, integridade... Valores que evangelizam, humanizam e libertam. Conversa sobre sustentabilidade minar projetos experimentais de baixo custo que possam gerar conforto, economia, segurança, entretenimento e qualidade de vida na sociedade, o convidado apresentou os principais conceitos relacionados à sustentabilidade e aos recursos hídricos, além de projetos desenvolvidos e patenteados por ele. “Tais trabalhos serviram como fonte de inspiração para que os alunos possam construir seus próprios projetos, apresentados na Semana Pe Moreau”, revela o professor de Ciências Simei Ribeiro. Os trabalhos têm como princípio o respeito e a preservação do patrimônio planetário, fazendo uso racional das fontes de energias naturais, renováveis e não poluentes. No início de junho, os alunos do 6º ano tiveram um encontro com Edison Urbano, empreendedor social, projetista de tecnologias ecológicas de baixo custo e coordenador do site Sempre Sustentável. Com o objetivo de disse- a década que não terminou Para dar continuidade às discussões empreendidas no primeiro semestre sobre a instauração da Ditadura Civil-Militar no Brasil, a equipe de Ciências Humanas do Ensino Médio organizou o evento “A década que não acabou”. O evento contou com palestras, exposição com cartazes que abordavam a música e as lutas da época, roupas, alimentos e objetos dos anos 80. De acordo com as professoras de História Valéria Conte Delbem e Mayra Lourenço, o ciclo de debates foi organizado em três eixos temáticos. No primeiro dia, foi a geopolítica mundial, economia brasileira e a falência do Milagre Econômico. O contexto político, a campanha das Diretas Já e o papel dos movimentos sociais e da Igreja Católica contra a Ditadura foram abordados no segundo dia. Para encerrar, música e cultura no anos 80, um retrato do Brasil por meio da emergência do rock nacional e da indústria cultural e fonográfica. O fechamento foi feito com a discussão sobre as consequências das escolhas políticas dos anos 1980 até hoje. | 05

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é bom saber Caleidoscópio nº 69 Como lidar em casa com os conflitos que acontecem na escola? Paula Bacchi, pedagoga e orientadora do Jardim I e II, responde esta questão sempre presente nas famílias com filhos nas primeiras séries da vida escolar É muito difícil para nós, adultos, lidar com a tristeza dos filhos ao contarem sobre brigas que aconteceram no período em que estiveram longe de nossa proteção. Nosso sentimento é de indignação, raiva e até mesmo culpa. Pensamos: como pode aquele “fulano” brigar ou bater no meu filho? E a professora, onde estava nessa hora que não viu ou não tomou providências? A professora estava lá, mas não estava protegendo ou evitando os conflitos, mas ensinando as crianças agredidas a se defenderem e mostrando às que ainda lidam com conflitos batendo, a resolvê-los por meio do diálogo. Importante ressaltar: não existe convivência sem conflito, nem entre as crianças, nem entre os adultos. A escola é, na maioria das vezes, o único espaço de convivência de algumas crianças e é lá onde aprenderão a se defender e a colocar seus limites perante os colegas. Este é um aprendizado imprescindível para a vida social. Evitar os conflitos, na tentativa de protegê-las, não ajudará em nada. A proteção nesse momento terá como única consequência o aumento da insegurança das crianças frente a uma situação em que precisam se defender sem a presença de um adulto. Qual deve ser o papel dos professores? Eles precisam estar atentos e aproveitar os momentos de conflito para ensinar a forma ideal de resolvê-lo, e essa forma é o diálogo. Com as crianças menores, costumamos pedir ideias do que podem falar ou fazer ao se envolverem em conflitos. E qual deve ser o papel dos pais ao ouvirem o relato das desavenças que aconteceram na escola? Ouvir com atenção, acolher seus filhos e sugerir que conversem com seus professores, pois os problemas que acontecem na escola devem ser resolvidos pelos professores ou orientadores, na escola. 06

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além dos muros Caleidoscópio nº 69 O mundo como uma grande sala de aula A Estudos do meio expandem conhecimentos, permitem aos alunos desenvolverem novas habilidades, além de significarem uma rica experiência de vida escola é um espaço privilegiado para a construção do conhecimento, produz e reproduz às gerações mais novas o conhecimento e experiência acumulados. E, assim como a sociedade, a escola transforma-se historicamente. A sala de aula não se basta e o aluno tem que ver presente ali o mundo e sair dali para o mundo. ”Nesse sentido, o Estudo do Meio é uma ferramenta valiosa para o enriquecimento das experiências de aprendizagem e fundamental, na visão de ensino do Santa Maria”, atesta o professor de Geografia Robson Veríssimo. Ao romper com exercícios pedagógicos engessados e incumbir ao aluno um papel ativo na produção do conhecimento, a equipe pedagógica tradicionalmente tem criado possibilidades de diálogo inteligente com o mundo. “A experiência do Estudo do Meio produz resultados que vão além da mera visitação a um novo espaço, abrindo um vasto universo de possibilidades para ações interdisciplinares”, pondera Gilberto Carvalho Soares, professor de Geografia. “Esse trabalho exige um rigoroso planejamento para a articulação da proposta pedagógica do Colégio com os projetos da série e demandas de aprendizagem dos alunos nos mais diferentes componentes e séries, e não deve se esgotar na saída”, explica Rita de Cássia Cereser Sógi, professora de Língua Portuguesa. É necessária a mediação para compreender as diferentes experiências e transformá-las em aprendizado, seja no que diz respeito às relações sociais, seja ao acadêmico. Seja no Cinturão Verde de São Paulo, ao longo do Alto Tietê, nas fazendas de agronegócio e nos assentamentos de agricultura familiar ou no centro de São Paulo, com suas contradições e solidariedade, os alunos do Ensino Fundamental II aprendem, desde o 6º ano, a importância e estratégia de registro e de síntese, iniciando com narrativas da experiência de campo, passando por relatórios formais a exposições e debates. Alunos do 6º ano conhecem a nascente do Rio Tietê (fotos ao lado e acima); turmas do 7º ano em visita à Fazenda Vaughan (foto abaixo) | 07

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missão inspiradora Caleidoscópio nº 69 Vocação para ensinar No mês em que se comemora o Dia do Professor, parabenizamos todo o corpo docente do Santa Maria e apresentamos quatro jovens professores da casa, que aceitaram a honrosa missão de educar. E fazem isso de forma inspiradora, com paixão e carisma bre, acima e ao redor de cada aluno. É preciso perceber cada aluno como alguém dotado de infinito valor e gigantesco potencial, com suas angústias, seu passado e seus múltiplos futuros possíveis. Qual seu maior sonho relacionado à profissão? Ao fim da carreira, sentir que pude fazer por alguns alunos uma fração do que meus professores e professoras fizeram por mim quando eu passava por minha infância e adolescência. A aula ideal é aquela que... Transforma os alunos, ainda que momentaneamente, em filósofos – apaixonados pelo conhecimento ou ansiosos por encontrá-lo. O aluno ideal é aquele que... Assume que há algo que vale a pena ser aprendido, que aceita ser desafiado, que se questiona, que dá abertura para rever sua relação consigo mesmo, com o outro e com o mundo. A escola ideal é aquela que... Tira os alunos, professores e funcionários da zona de conforto. Que torna todos os alunos ideais! Na sua opinião, a educação no Brasil precisa... Primeiramente, de 10% do PIB investidos em educação pública e gratuita. Por mais que isso não resolva por si só os problemas, faltam condições materiais mínimas para que a educação cumpra seus variados papéis em escala nacional. E isso passa obrigatoriamente pela valorização dos profissionais da educação (não só professores) e de melhoria substancial de seus salários. Os colégios particulares têm também, obviamente, a sua importância, mas um outro olhar para a educação pública é uma questão emergencial! Henrique: sonho em repetir o feito de seus professores Henrique Genereze, 27 anos, professor de Filosofia do Ensino Médio, Cientista Social, formado pela USP, atua na profissão há cinco anos, está há dois no Santa Maria. Como foi a decisão de dar aulas? Sempre pensei em lecionar como uma opção profissional. Mas foi ao longo da licenciatura que percebi o grande desafio que é ser professor e, daí em diante, me vejo fazendo outras coisas além de ensinar, mas não penso mais em sair da sala de aula. O que o motiva para esse trabalho? Testemunhar a evolução acadêmica, intelectual, emocional e afetiva dos alunos ano após ano, e reforçar cotidianamente minhas esperanças de melhorias para nossa sociedade. Ser jovem facilita o convívio com os alunos? Seguramente pode facilitar desde que o professor tenha maturidade para cumprir seu papel com a responsabilidade que lhe é intrínseca. No geral, facilita a comunicação em um nível bastante sutil da relação professor-aluno, mas é preciso uma atenção extra em tornar clara a sua posição de adulto e autoridade (ainda que não autoritária). No entanto, creio que, com o passar do tempo, é possível manter muito dessa proximidade na comunicação, como vários colegas fazem, e adicionar a isso outras vantagens que apenas a experiência proporciona. Quais são os principais desafios dessa profissão? Administrar com o máximo de isonomia as normas e procedimentos formais da relação aluno e professor, sem nunca esquecer a condição humana que reside por detrás, por so- 08

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A escola ideal é aquela que... Não existe também. Mas existem escolas que geram o debate e abrem espaço para que as potencialidades de seu corpo discente, docente e administrativo possam se realizar.  Na sua opinião, a educação no Brasil precisa... De alfabetização política e crítica. Isso significa que precisamos, além de investimento, claro, saber que educação deve ser uma arma para a produção de conhecimento e para a destruição das desigualdades de classe, raça, gênero e sexualidade.  Gilberto Soares, 34 anos, professor de Geografia do Fundamental II, formado pela UNICAMP, leciona há 12 anos, sendo três no Santa Maria. Como foi a decisão de dar aulas? Como aluno do Colégio Santa Maria, já atuava em oficinas nos projetos de inserção social. A partir do segundo ano da faculdade, comecei a lecionar na educação formal e em projetos sociais na periferia de São Paulo. Nessa fase, percebi que a Educação me realizaria profissionalmente, como pessoa e cidadão. O que o motiva para esse trabalho? O desafio de criar diariamente, buscando o que há de melhor em mim e no outro, sejam os alunos, famílias e colegas. Ser jovem facilita o convívio com os alunos? Se por um lado ser jovem nos aproxima ao Bernardo gosta de lidar com as potências dos alunos Bernardo Machado, 27 anos, Doutorando em Antropologia Social pela USP, professor de Sociologia há três anos no Ensino Médio do Santa Maria, começou a lecionar em 2009 em uma escola estadual. Como foi a decisão de dar aulas? A “decisão” não aconteceu. Digo que estou sempre aprendendo a ser professor e todos os dias escolho continuar esse aprendizado. Resumindo: não decidi, decido todos os dias.  O que o motiva para esse trabalho? Lidar com as potências das pessoas. Todos os dias preciso pensar e agir em relação ao outro, em diálogo com o outro. Isso me motiva. Ser jovem facilita o convívio com os alunos? Até agora eu sempre estive próximo da idade dos alunos. Uma distância que começou com cinco anos, em 2009, e agora está na faixa dos dez. Não tenho uma outra experiência – saber como é ter uma distância de 30 anos –, mas imagino que deva ser muito rica também. Entendo que alunos e eu, por termos um repertório partilhado de referências, na linguagem e nas experiências sociais que convivemos, conseguimos trocar bastante.   Quais são os principais desafios dessa profissão? Manter-se acreditando, não em um mundo ideal, mas acreditando que é possível dialogar. Qual seu maior sonho relacionado à profissão? Alfabetizar politicamente as novas gerações. Acredito ser fundamental que tenhamos gerações críticas quanto ao modo de agir politicamente em seu dia a dia. A aula ideal é aquela que... Transborda os muros da escola e que impacta as reflexões dos alunos em suas práticas diárias. O aluno ideal é aquele que... Não existe. Não acredito em mundos ideais, mas mundos reais, com pessoas reais. Um aluno real me interessa, com todas suas questões, dores, limites e, sobretudo, potências.  Prata da casa: Gilberto foi aluno do Santa Maria | 09

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missão inspiradora Caleidoscópio nº 69 criar uma referência para a próxima fase que esses alunos adolescentes viverão, pode nos distanciar ao estarmos mais suscetíveis ao erro. O professor que convive bem com os alunos é aquele que constrói o diálogo, independentemente da idade. Quais são os principais desafios dessa profissão? Conseguir sobreviver a partir dela, com o mínimo de conforto e tempo para poder atualizar-se e dar a atenção devida aos alunos. Qual seu maior sonho relacionado à profissão? Que TODOS os alunos aprendam tudo o que foi proposto, ou seja, 100% de aproveitamento. A aula ideal é aquela que... Os alunos se envolvem e aprendem. O aluno ideal é aquele que... Questiona, problematiza e propõe ações no mundo em que vive (inclusive o professor) a partir dos conceitos aprendidos. A escola ideal é aquela que... Envolve a todos ali presentes na ação de aprender e realiza parcerias além de seus muros, voltadas para o objetivo de melhor formar seu aluno. Na sua opinião, a educação no Brasil precisa... Que haja um esforço de governos, iniciativa privada, famílias e indivíduos na concretização das vinte metas do Plano Nacional de Educação, recém-aprovado. Caroline Mieko, 34 anos, professora de Ciências do Fundamental II desde janeiro de 2014, formada pela UNESP, leciona há 11 anos, desde a universidade. Como foi a decisão de dar aulas? A opção pelo meu curso acadêmico nunca foi inspirada pela licenciatura, meu maior foco era a pesquisa laboratorial, dentro da área de Fisiologia. No segundo ano, um professor me fez o convite para dar aula, após uma apresentação de seminário. Pensei em recusar inicialmente, porém sempre gostei de experimentar novas oportunidades e dar aulas me pareceu interessante, então aceitei. Quando entrei na sala (um cursinho comunitário, projeto de extensão) pela primeira vez, senti o peso de uma tonelada cair sobre Escolha da profissão aconteceu após Caroline entender missão mim. Naquele momento, quando vi mais de 30 alunos com idade para serem meus pais, todos ali, com a expressão cansada de um dia inteiro de trabalho nas plantações de cana-de-açúcar (o foco eram os trabalhadores das usinas de cana da região), esperando que eu lhes desse algo, percebi a imensa responsabilidade, mas também a linda missão que eu acabara de assumir. Ali percebi que havia feito a minha escolha profissional, decidi ser professora! O que a motiva para esse trabalho? Acredito na educação como ferramenta de transformação individual, social e ambiental. Por meio da educação, o ser humano é capaz de aplicar o conhecimento de forma cidadã. É por meio da educação que permitimos a igualdade de condições. Ser jovem facilita o convívio com os alunos? Acredito que a idade não seja um fator de grande interferência no convívio com o aluno. A relação aluno-professor pode nascer de maneira espontânea, pois ocorre uma grande afinidade ou ela pode demandar certo tempo. Nesse último caso, o professor precisa achar um caminho para chegar até o aluno, o que muitas vezes não ocorre na primeira tentativa. Quais são os principais desafios dessa profissão? Significar a educação num mundo no qual tudo é imediatismo, onde a escola perdeu seu charme e o professor é entendido como uma ferramenta obsoleta. Qual seu maior sonho relacionado à profissão? Que a educação seja prioridade e seja praticada de forma responsável e comprometida, que seja universal, atingindo todas as esferas sociais. A aula ideal é aquela que... Os minutos não se tornam eternos. O aluno ideal é aquele que... Não tem medo de errar, que não tem medo de aprender e é livre pra sonhar. A escola ideal é aquela que... Cria um ambiente saudável para a educação. Na sua opinião, a educação no Brasil precisa... Ser repensada, significada e valorizada. 10

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na rede Caleidoscópio nº 69 Programação para crianças N o meio educacional está cada vez mais em evidência a ideia de que o trabalho com lógica computacional pode desenvolver inúmeras competências em crianças e até mesmo nos adultos. Recentemente, o ensino da programação de computadores nas escolas foi defendido por pessoas como Bill Gates, Barack Obama e Mark Zuckerberg, fundador do Facebook. Não é por menos. Tem sido comprovado na prática que, enquanto as aplicações são construídas pelos alunos, há diversas habilidades sendo estimuladas que vão além da compreensão do conteúdo. Dentre elas, raciocínio crítico, pensamento sistemático, lógica, autonomia, comunicação, trabalho colaborativo e, claro, a criatividade, competências fundamentais para o cidadão do século 21. Há algum tempo, o Santa Maria investe na inserção do ensino de programação para seus alunos. Em 1994, quando foi implantado o primeiro laboratório de informática, a utilização da linguagem LOGO, em que a criança precisava programar uma tartaruga na tela do computador para construir figuras geométricas, já era amplamente difundida pelo NETi, o Núcleo de Educação e Tecnologia da Informação. “Atualmente temos intensificado o uso deste conceito e avançado ainda mais em sua aplicação”, explica Muriel Vieira Rubens Alves. É o que ocorre nas aulas do 4º ano no laboratório de informática, por exemplo. Nelas o projeto do segundo semestre é norteado pelo desafio de construir programas com interação e animação de personagens. Para isso as crianças adquirem diversos fundamentos de lógica de programação por meio de desafios online, resolução de algoritmos e também no Scratch, ferramenta adotada há quatro anos no plano de informática da série. “Nossa experiência tem mostrado que são trabalhos como este que oferecem a oportunidade de potencializar o uso do computador no ambiente acadêmico, fazendo com que a tecnologia colabore positivamente na aprendizagem de nossos alunos”, finaliza Muriel. | 11

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interação Caleidoscópio nº 69 Ciclo de palestras marca o aniversário de 50 anos do golpe civil-militar no Brasil onhecer os erros do passado para não repeti-los no futuro. Partindo dessa premissa, o Colégio Santa Maria, em decorrência do aniversário de 50 anos do golpe civil-militar no Brasil, idealizou um ciclo de palestras, antecedendo a Semana Pe. Moreau, com o intuito de resgatar a verdade e manter a história viva para que todos os membros da comunidade sempre se lembrem de um passado, em nada distante, que alterou a vida de todos os brasileiros. No dia 1º de abril de 1964, os militares deram um golpe na democracia ao derrubar o governo João Goulart, legalmente no poder. O que se seguiu no decorrer dos anos foi uma série de arbitrariedades contra o estado democrático de direito. Violências, torturas, mortes e desaparecimentos, além do cerceamento das liberdades individuais foram constantes nessa triste “página infeliz da nossa história”, que durou 21 anos e deixou sequelas profundas na sociedade brasileira. Para dar clareza ao ciclo de palestras, o Colégio elencou cinco temas inter-relacionados que contassem ao público presente a trajetória do golpe civil-militar. Os palestrantes foram convidados tendo em vista suas trajetórias de vida, seja na militância política, sindical ou intelectual. “São ações pedagógicas dessa monta que diferenciam o Santa Maria, colocando-o na vanguarda educacional paulistana”, declara Fernando Siliano Reyes, professor de Geografia. Todas as palestras estão disponíveis no canal do Santa Maria, no YouTube. Memória e reflexão C Waldemar Rossi, membro da Pastoral Operária e metalúrgico aposentado Ivan Seixas, ex-militante do MRT, preso e torturado pela ditadura civil-militar Alunos e comunidade em geral participaram das palestras Henrique Ollitta, militante político e atuante nos movimentos sociais da zona norte de São Paulo 12

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deixa comigo Caleidoscópio nº 69 Analisar para melhorar ENEM possibilita constante investimento na qualidade de ensino do Santa Maria O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é uma avaliação das escolas públicas e particulares realizada, desde 1998, pelo Ministério da Educação do Brasil, cujos resultados podem ser utilizados para compor a avaliação de medição da qualidade do Ensino Médio no país; implementar políticas públicas; desenvolver estudos e indicadores sobre a educação brasileira e criar referencial nacional para aperfeiçoamento dos currículos do Ensino Médio. Nesse exame, busca-se aferir as competências e habilidades desenvolvidas pelos estudantes ao fim da escolaridade básica. A aferição é realizada por meio de uma redação e de provas objetivas que avaliam quatro áreas do conhecimento: Linguagens e Códigos, Ciências Humanas, Ciências da Natureza e Matemática. O ENEM é o maior exame do Brasil e conta, este ano, com mais de 8,7 milhões de inscritos distribuídos em mais de 1.600 cidades do país. Com a intenção de melhor preparar os nossos alunos para enfrentar essa avaliação e aperfeiçoar os cursos desenvolvidos no Santa Maria, a equipe de técnicos e de professores analisou detalhadamente e interpretou pedagogicamente os microdados (resultados) gerados pelos nossos alunos nos últimos exames do ENEM. Esses dados subsidiaram o planejamento e definiram mudanças e correções no trabalho realizado, visando a melhorar a qualidade da educação desenvolvida pela escola. Dentre as várias ações desenvolvidas, destacam-se as 17 Oficinas de Estudos para o ENEM, atividade de ensino-aprendizagem, organizada em módulos, com tema, metodologia e dinâmica que se iniciam e se concluem em aulas de 120 minutos e são coordenadas pelos professores de cada área do conhecimento. Essas oficinas, realizadas no segundo semestre, foram distribuídas em seis sábados e contaram com a participação de 117 alunos da 3ª série do Ensino Médio. “Nessas aulas, os alunos analisaram questões, discutiram procedimentos, retomaram conceitos e realizaram exercícios práticos para desenvolver as competências e habilidades estabelecidas e exigidas pelo Novo ENEM”, destaca o diretor do Ensino Médio, Silvio Soares Moreira Freire. Santa + iG = ENEM Professores do Ensino Médio do Santa Maria foram convidados pelo Portal iG a gravar vídeos de curta duração com dicas sobre os principais pontos a que o aluno deve ficar atento e que frequentemente estão presentes nas provas do ENEM. Esses vídeos estão disponíveis no Portal iG desde o início de outubro. Confira as dicas dos nossos professores! Jovem Fora de Série Graças ao excelente desempenho na 10ª edição do Fórum FAAP, a aluna Bruna Baxhix, da 3ª série do Ensino Médio, foi convidada a participar do Prêmio Jovens Fora de Série da Fundação Estudar, do qual saiu vencedora. Foram levados em conta, para sua vitória, aspectos como potencial transformador, histórico acadêmico e extracurricular. Bruna concorreu com estudantes do Ensino Médio de todo o país e contou com o auxílio do professor de Sociologia Bernardo Fonseca. Parabéns a ambos pela iniciativa! | 13

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mais saber Caleidoscópio nº 69 Conscientização política Nos meses que antecedem as eleições, o assunto torna-se muito presente nas salas de aula do Santa Maria. É essencial estimular o interesse das crianças para a política, e o momento favorece o trabalho com questões ligadas à cidadania, à democracia e à responsabilidade social 14

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a criança governasse o mundo. “ A partir dessas reflexões, as crianças tiveram momentos e oportunidades de pensar no mundo ideal, justo e fraterno e chegaram à conclusão de que nas eleições é preciso pensar bem em quem vamos eleger para representar o nosso país, estado ou cidade, ou seja, o interesse coletivo é representado através do voto”, revela a professora da série Gabriela Kraft Gerane. Visita à Subprefeitura de Cidade Ademar Política para os pequenos “Não tenho nada contra os adultos, mas eles bem que podiam dar um tempo. Sair de férias. Ir pro espaço. Conhecer Saturno, Urano, Plutão... As crianças ficariam aqui, na Terra, tomando conta de tudo. Naturalmente, as coisas voltariam aos seus lugares.” Este é um pequeno trecho do livro Se criança governasse o mundo, de Marcelo Xavier, com o qual o assunto eleições foi introduzido aos alunos do Pré. A história promove soluções para diversas situações sociais que afligem a população na sociedade atual. O trabalho provocou questionamentos, como “O que é ser cidadão?”, “O que é democracia?”, “O que fazem e quem são os candidatos?” e “O que é título de eleitor?”. Após a leitura do livro, os alunos começaram a opinar e projetar como seriam os animais, as pessoas, a natureza, o trânsito, as guerras, os pobres, os hospitais... se Buscando contribuir com a conscientização dos alunos, futuros eleitores, da importância do voto, bem como propiciar a participação em vivências educativas no exercício de direitos e deveres, o 2º ano do Fundamental I visitou a Subprefeitura de Cidade Ademar. O subprefeito Francisco Lo Prete recebeu as crianças e foi entrevistado por elas. Além disso, os alunos fizeram um tour pelo prédio, conhecendo departamentos, funcionários e materiais utilizados para a execução de obras. O papel da população foi bastante destacado. O Conselho Tutelar de Cidade Ademar havia sinalizado que as crianças e famílias por ele atendidas estavam precisando de roupas, calçados, brinquedos e livros. “Foi significativa a participação das famílias dos alunos da série nas campanhas de arrecadação que fizemos, bem como preciosos os momentos de partilha, no mais amplo sentido da palavra, que nossos meninos tiveram oportunidade de vivenciar”, revela a professora Sílvia Sonagere. Alunos do Jardim II em simulação do voto Dentro do projeto da série, os alunos também elegeram dois representantes de classe – governador e presidente - com o objetivo de estimular o exercício da cidadania. A eleição ocorreu após aulas teóricas sobre a função dos cargos, adaptados para a realidade escolar. Hora do voto Os alunos do 3º ano estudaram as funções do Presidente da República, Governadores, Senadores, Deputados Federais e Estaduais, quais são alguns dos candidatos a esses cargos no pleito de outubro e as relações existentes entre os poderes legislativo e executivo. Assistir ao Programa Eleitoral, buscar informações veiculadas pelos principais meios de comunicação a respeito da história política dos concorrentes e das propostas apresentadas pelos partidos são atividades que colocam a importância da informação e a responsabilidade dos eleitores no centro da reflexão. Uma simulação da eleição para os representantes do poder executivo foi realizada alguns dias antes da oficial. A vivência demonstra como o voto faz com que todos tenham a mesma importância e o mesmo poder de escolha. “O trabalho consiste em desenvolver o senso investigativo e crítico, a conscientização de que todos nós somos responsáveis por nossos representantes e que votar é um direito do qual não devemos abrir mão”, finaliza a professora Maria Elizabeth da Costa. Turmas do 2º ano visitaram a Subprefeitura de Cidade Ademar | 15

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