Martha Niklaus

 

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livro Galeria do Lago: arte contemporânea no Museu da República. www.marthaniklaus.com

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GALERIA DO LAGO arte contemporânea no Museu da República

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Presidente da República Federal President Dilma Rousseff Ministra da Cultura Minister of Culture Marta Suplicy Presidente do IBRAM President of IBRAM Angelo Oswaldo de Araújo Santos Diretora do Museu da República Director of the Museu da República Magaly de Oliveira Cabral Santos Coordenadora e Curadorada da Galeria do Lago Coordinator and Curator of the Galeria do Lago Isabel Sanson Portella Artistas da exposição Bandeiras do Brasil | Artists of the exhibition Flags of Brazil (2003): Goto, Cristina Pape, Zé Andrade, Julia Csekö, Emmanuel Nassar, Chang Chi Chai , José Tannuri, Jorge Duarte, Marcos Cardoso, Adolfo Montejo Navas, Ronald Duarte, Anna Bella Geiger, Martha Niklaus, Cláudio Cambra, Custódio Coimbra, Xico Chaves, Suely Farhi, Milton Machado, Lívia Flores, Ni da Costa, Francisco Gregório Filho e o designer Luis Alberto Garcia de Zúñiga (da direita para esquerda | from right to left).

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GALERIA DO LAGO arte contemporânea no Museu da República contemporary art at the Museu da República Organização | Organization Martha Niklaus Museu da República Rio de Janeiro, Brasil 2013

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Sumário | Table of Contents Apresentação | Presentation Angelo Oswaldo de Araújo Santos Magaly de Oliveira Cabral Santos Costurando arte, História e a “coisa pública”– um depoimento Interweaving Art, History and “Public Affairs” – a Testimonial Martha Niklaus Galeria do Lago, uma experiência exemplar Galeria do Lago, an Exemplary Experience Glória Ferreira Não há museu sem poética There is no Museum Without Poetics Mario Chagas Arte contemporânea: agente de comunicação nos museus de História Contemporary Art: an Agent of Communication in History Museums Isabel Portella Exposições Galeria do Lago | Exhibitions at Galeria do Lago Berço esplêndido e Empilhamento | Splendid Cradle and  Stacking O local e um certo global | The Local and a Certain Global Homem Muito Abrangente | A Very Comprehensive Man Futebol é coisa de 11 | Football is for 11 Grotesco e arabesco | Grotesque and Arabesque Jardim das delícias: performance em questão | Garden of Delights: Performance in Question Gravidades | Gravities Não imagem | Non-Image Expedição | Expedition Architectura | Architecture Da ideia pintura | On the Idea of Painting Em círculo | In Circles Paisagem ready made | Ready Made Landscape É a hora | The Time is Now A promessa da gruta e algumas quedas | The Promise of the Cave and Some Falls Personal DJ: arquivo de retratos sonoros | Personal DJ: Sound Portraits Archive Paisagem x retrato | Landscape x Portrait Adjetos e aparatos femininos | Adjects and Female Devices Banco de tempo | Benches of Time Life Without Lights | Vida sem luzes Eu quero você | I Want You Exposições Palácio do Catete | Exhibitions at Catete Palace Bandeiras do Brasil | Flags of Brazil Getúlio, Presidente do Brasil | Getúlio, President of Brazil Nós | We 10 15 20 24 29 34 41 43 47 61 73 85 99 107 123 133 141 149 157 167 175 184 193 203 211 219 225 233 239 249 285 293

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Apresentação O Museu da República dinamiza seus espaços e envolve o parque que o abraça em atividades pelas quais se valorizam os programas museológicos. Foi assim que surgiu a Galeria do Lago, e novos diálogos se estabeleceram. A mirada histórica do trajeto republicano no Palácio do Catete enriquece e estimula o olhar sobre a produção contemporânea. Avaliar as realizações da Galeria do Lago é constatar a energia cultural da instituição e colher resultados positivos de sua abertura para os desafios lançados aos museus na atualidade. É nessa linha que o IBRAM propõe seja o museu brasileiro cada vez mais capacitado, a fim de mostrar ao público como o tempo se reencontra e se ilumina por inteiro, vindo do passado e avançando para o futuro. Angelo Oswaldo de Araújo Santos Presidente do Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM Julho – 2013

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Assim como a República, o Museu da República é contemporâneo, está em construção e é no cotidiano que ele se faz e se refaz permanentemente. De acordo com sua Equipe, ele tem como missão “Contribuir para o desenvolvimento sociocultural do país, por meio de ações de preservação, pesquisa e comunicação do patrimônio cultural republicano, material e imaterial, para a sociedade brasileira, visando à valorização da dignidade humana, à cidadania, à universalidade do acesso e ao respeito à diversidade.” Entre seus espaços de exposições temporárias, o Museu conta com a Galeria do Lago que, durante os últimos 10 anos, vem promovendo um programa de exposições de arte contemporânea que propicia e estimula reflexões sobre a história republicana, o museu, seu acervo, a arquitetura, o paisagismo, os símbolos nacionais, criando interfaces com assuntos relativos ao Museu da República. Neste sentido, a Galeria do Lago consolidou-se como exemplo de plataforma entre os museus e as artes visuais, num diálogo e numa parceria em que os dois campos se enriquecem mutuamente. O livro-catálogo que aqui se oferece reúne as exposições realizadas nesse período, apresentando panorama bem construído e disponibilizando boa documentação sobre a presença dos artistas e de suas vivências, dos processos de criação dentro do espaço museológico do Museu da República. Os textos de Martha Niklaus [“Costurando arte, história e a ‘coisa pública’], Glória Ferreira [“Galeria do Lago, uma experiência exemplar”], Mario Chagas [“Não há museu sem poética”] e Isabel Portella [“Arte contemporânea: agente de comunicação nos museus de História”] nos ajudam a reconhecer como a linguagem da arte pode atualizar a memória e viabilizar a comunicação com o público de forma sensível e poética. Magaly de Oliveira Cabral Santos Diretora do Museu da República Maio – 2013

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Presentation The Museu da República dynamizes its spaces and involves the park which embraces it in activities through which the museum’s programmes are valorized. This is how Galeria do Lago emerged and new kinds of dialogue have been established. The historical glance to the republican path of the Catete Palace, enriches and encourages the look on the contemporary production. Assessing the achievements of Galeria do Lago is to notice the cultural energy of the institution and to reap the positive results of its openness to the challenges posed to the museums today. It is in this sense that IBRAM proposes that Brazilian museums become increasingly better skilled, in order to show the public how time is reunited and it is entirely lightened, coming from the past and moving forward into the future. Angelo Oswaldo de Araújo Santos President of the Brazilian Institute of Museums – IBRAM July – 2013

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Like the Republic, the Museu da República is contemporary, it is constantly under construction and it is in everyday life that it is permanently made and remade. According to its team, the museum’s mission is “To contribute with the sociocultural development of the country, through the preservation, research and communication of republican material and intangible cultural heritage, for Brazilian society, aiming at the appreciation of human dignity, citizenship, universal access and respect for diversity” . Among its temporary exhibition spaces, the Museum has Galeria do Lago which, over the last 10 years, has promoted a programme of contemporary art exhibitions which facilitates and encourage reflections on our republican History, the museum, its collection, its architecture, its garden, and national symbols, creating interfaces with subjects related to Museu da República. In this sense, Galeria do Lago established itself as an example of platform between museums and the visual arts, in a dialogue and collaboration in which both fields are mutually enriching. This book-catalog brings together texts about the exhibitions held during this period, presenting a well-structured overview and providing good documentation about the presence of artists, their experiences and their creative processes within the space of Museu da República. The texts by Martha Niklaus [“Interweaving Art, History and ‘Public Affairs’”], Glória Ferreira [“Galeria do Lago, an Exemplary Experience”], Mario Chagas [“There is no Museum Without Poetics”] and Isabel Portella [“Contemporary art, an Agent of Communication in Contemporary Art Museums] help us understand in what manner artistic language is able to bring memory up-to-date and facilitate communication with the public in a sensitive and poetic way. Magaly de Oliveira Cabral Santos Director of The Museu da República May – 2013

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Costurando arte, História e a “coisa pública” – um depoimento Martha Niklaus¹ A exposição Bandeiras do Brasil, em 2003, foi sem dúvida um marco no Museu da República. Colocar 32 obras de arte contemporânea com diferentes interpretações da Bandeira nacional, por entre os clássicos salões, halls e escadaria do Palácio e no seu jardim, no momento em que o povo brasileiro experimentava um afago em sua autoestima, com a chegada do Lula à Presidência, foi muito emocionante. A festa de abertura, com a participação de muitas ONGs [organizações não governamentais] que cuidam da inclusão de minorias e maiorias desfavorecidas, contou com mais de vinte mil pessoas, transformando o Museu em uma verdadeira república democrática. A ideia da exposição surgiu em uma conversa com o Ernandes Fernandes, então assessor do diretor, e imediatamente fui me lembrando de nomes e mais nomes de artistas que tinham trabalhos sobre a Bandeira. Gerou-se uma sinergia tão intensa que foi possível compor um grupo de artistas de várias gerações e tendências com obras muito significativas. O time ficou perfeito, para uma ocasião que pedia a pluralidade. Ainda que sem intenção, começava aí um longo percurso da minha vida profissional, em que passei a trabalhar “criando situações” com a arte e os artistas contemporâneos no Museu da República. Na minha experiência anterior, coordenando a produção das exposições da Galeria Catete, também no Museu da República, com curadoria do crítico de arte Paulo Reis e consultoria da artista Anna Bella Geiger, meu papel era bem definido e a Galeria não se vinculava com o Museu. O saudoso Paulo Reis abriu caminho com a Galeria Catete para as exposições de arte contemporânea, criando um perfil de galeria para artistas no início de carreira, muitos hoje renomados. Sua sensibilidade e seu talento como curador somavam-se à poesia dos textos que escrevia a cada exposição. Em 2005, foi inaugurada a Galeria do Lago, no andar térreo do anexo, abrindo para o jardim e em frente ao lago. A nova localização da Galeria respondeu muito bem ao objetivo de possibilitar maior acesso aos visitantes, proporcionando a democratização da linguagem da arte contemporânea ao atingir público amplo e diversificado. Neste momento, me foi dada a tarefa de ficar à frente da programação de exposições da Galeria. Foi um grande desafio, que aceitei confiando na minha experiência de artista e nos muitos anos de trabalho dentro de museus. A instância pública do trabalho foi um dado importantíssimo e difícil de conduzir. As primeiras exposições, Berço esplêndido e Empilhamento, de Carlos Vergara; O local e um certo global, de Anna Bella Geiger, e Homem Muito Abrangente, de Milton Machado, foram escolhidas para dar representatividade ao local. Três exposições com obras que revelavam políticas do Estado, do mundo da arte e do indivíduo, abriam o espaço imprimindo o teor político que definiu sua vocação, confirmando que a Galeria do Lago nascia associada ao Museu da República, um museu de História da república brasileira. Não seria um espaço independente, mas conectado e inserido no contexto e nas propostas do Museu como um todo. A arte, a História e a “coisa pública” passaram a se constituir como matéria-prima do meu fazer, que deveria dar conta de uma relação frutífera entre essas três instâncias. Minha alternativa foi criar programas, que foram se desenhando no decorrer das exposições. O Série Duplas foi o primeiro a se configurar. A negociação entre dois artistas que ao criarem suas obras exercitem o diálogo, a divisão de tarefas e o acordo nas decisões é o tipo de relação que me pareceu afinado com o espírito republicano do local. E é uma prática muito frequente na arte hoje. Ao adotar as duplas, descartava as exposições de artistas individuais que trabalham na cidade do Rio de janeiro. Restrição importante para a pequena programação, o pouco espaço e os limitados recursos que a Galeria divide com os outros setores no Museu da República. Dimensionar a relação entre demanda e atendimento, com as centenas de artistas locais, foi um impasse solucionado com as duplas. Galeria do Lago 10

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A primeira da série, a exposição Gravidades, da dupla Dias & Riedweg, apresentou três obras: Primeira leitura, Pau da bandeira e Vale quanto pesa (hoje reunidas em apenas uma obra, sob título O universo do baile). Obras políticas e contundentes, representativas para o ano que se comemorava os vinte anos da última Constituinte no Brasil. Nas cinco edições subsequentes desse programa, investigações sobre o acervo (Da ideia pintura), o espaço da Galeria [Em círculo], o momento cultural da cidade (É a hora) e o público do Museu (Banco de tempo) desencadearam as propostas das exposições. O programa Um Olhar de Fora nasceu naturalmente, com o interesse de artistas estrangeiros pelo Museu da República. A chancela institucional sempre viabilizou a vinda desses artistas com o apoio de fora do Brasil, justificando recebê-los com a merecida diplomacia. A contribuição que esse programa tem trazido é muito rica e fértil, seja porque alarga as formas de ver e interpretar nossa realidade ou em função do contato com estéticas diversas. Duas finlandesas, duas portuguesas, uma alemã e uma francesa apresentaram-se na Galeria do Lago, até o momento. Em geral, o entrosamento entre os artistas deste programa e a Galeria demora um, dois, três anos, tempo para os desenrolos burocráticos e o amadurecimento das propostas. O desenvolvimento do trabalho do artista estrangeiro acontece, em alguns casos, a partir da troca de emails e pesquisas a distância. Em outros casos, quando já aportado no país, o artista envolve-se com o Museu numa espécie de “residência”. O tempo trabalhado com a necessária atenção favoreceu a simultaneidade entre os eventos e comemorações abraçados pelo Museu e os assuntos trazidos pelas exposições internacionais. Um exemplo é a exposição Paisagem x retrato, da francesa Berthe Salegos, elaborada a partir de extensa pesquisa sobre figuras de destaque na República brasileira, na qual imagens eram veladas e reveladas , discutindo a memória e inviabilidade de sua permanência no tempo. A mostra foi inaugurada durante a 9ª Semana de Museus, cujo tema foi “Museu e memória”. Lidar com a produção internacional foi uma experiência intensificada com as itinerâncias da exposição Bandeiras do Brasil, na Europa. O interesse das embaixadas brasileiras na Bélgica, Inglaterra, Espanha e França levou uma seleção de obras da exposição original a estes países. A Bandeira do Brasil transfigurada em arte contemporânea foi o cartão de visita do Museu da República, durante quatro anos consecutivos, neste giro além-mar. Na ocasião, a Galeria do Lago contava com a colaboração do produtor e técnico em marketing Jorge Granja, que se dedicou especialmente às articulações internacionais. A exposição coletiva Nós, sobre a representação do negro na arte contemporânea, trouxe importantes obras e artistas internacionais ao Brasil – uma odisseia enfrentada em parceria com a curadora da mostra, Daniella Géo. Os complicados trâmites de saída e entrada de obras, seguros, transporte, danos, licenças, hospedagem – que me tiraram o sono em muitas noites viradas no Museu em companhia dos patos, que dormiam no jardim – foram compensados pela bela ex- Cabeça de vaca, intervenção de Sébastien Perroud nas águias do Palácio do Catete, realizada no Projeto Figura 9, em 2005. | Cabeça de Vaca [Cow Head], intervention by Sébastien Perroud on the eagles of the Catete Palace, part of Projeto Figura 9, in 2005. 11 Martha Niklaus – Costurando arte, História e a “coisa pública”

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posição, instalada no segundo e terceiro andares do Palácio. A inauguração contou com a presença de ministros de Estado, representantes de vários museus e das artes visuais. A burocracia, com seu timing próprio e suas exigências formais, é um mecanismo quase impeditivo às realizações dentro de uma instituição cultural pública, assim como em muitas outras esferas governamentais, imagino. Quanto à criação artística, a incompatibilidade entre as duas instâncias é gritante. A falta de entendimento entre o que se precisa executar e o que se precisa regulamentar é mais do que frequente. Paciência e perseverança são qualidades imprescindíveis para empreender dentro do serviço público. Sinto que o fato de ser uma artista e entender as necessidades de outros artistas na realização de seus trabalhos me deu condição de fazer mediação mais assertiva com a instituição para viabilizá-los. E mesmo quando o impedimento torna-se intransponível, e isso acontece, assumir o fato como um limite do processo é a única solução. Para um artista maduro, o limite se estabelece como um dado em seu processo criativo. Ele sabe que sem limite não tem criação. E é com este argumento que muitas vezes incentivei artistas a não se abaterem – ou mesmo se debaterem – com a impossibilidade imposta, mas aceitaremna como mais um desafio. A experiência com a dupla Elisa Pessoa e Celina Portella mostrou claramente o resultado deste confronto. A não autorização do arquiteto Vista da exposição República do skate: a subversão do uso, na Galeria do Lago, em dezembro de 2011. | do IPHAN (Instituto do Patrimônio HisExhibition view of República do Skate: a subversão do uso [Skateboard Republic: the Subversion of Use], at Galeria do Lago, December 2011. tórico e Artístico Nacional) para que elas pintassem as portas da Galeria, onde pretendiam projetar um vídeo, foi um balde de água fria no projeto das artistas. Depois da frustração, elas aceitaram entrar na Galeria e criaram uma videoinstalação, que surpreendeu a todos. As exposições coletivas, em geral, aconteceram em concordância com alguma agenda oficial no país, como foi o caso de Futebol é coisa de 11, na Copa de 2006, e Paisagem ready made, no Ano da França no Brasil, em 2009. É bem verdade que os programas muitas vezes se entrelaçam, como no caso de um grupo de oito artistas divididos em quatro duplas apresentando-se no Série Duplas, na exposição Da ideia a pintura. Mesmo no programa Um Olhar de Fora, motivado por evento da agenda oficial, como foi com a artista alemã Roseline Rannoc, que teceu relações entre o Jardim de Paul Villon no Museu da República e a arquitetura modernista do Distrito Federal, durante as comemorações dos 50 anos da inauguração da cidade de Brasília, apresentando a exposição A promessa da gruta e algumas quedas. Desde 2006, a Galeria contou com a colaboração da historiadora da arte e crítica Isabel Portella, também funcionária do Museu, que em curadoria compartilhada com Daniela Mattos e Alexandre Sá estreou na programação com um grande evento de performances, O jardim das delícias. Em dezembro de 2012, tive o prazer de passar para ela a coordenação da Galeria do Lago, com a certeza de deixar em boas mãos a continuidade do trabalho. Sempre que os recursos permitiram, foram convidados curadores de fora do Museu, na intenção de diversificar os olhares e enriquecer as propostas das exposições. Adolfo Montejo Navas, Armando Mattos e Jacqueline Belotti fizeram Galeria do Lago 12

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ótimas curadorias para a Galeria. Atuar como curadora não é uma função que cumpro com o aparato teórico. Percebo que ao interagir com os artistas o meu envolvimento acontece muito mais como parceira na empreitada da criação, interagindo artisticamente com a obra em processo. Cada exposição torna-se uma experiência para mim. E isso foi o melhor de tudo, nos 10 anos deste trabalho! Minha formação de arte-educadora sempre me deixou atenta ao aspecto educativo das exposições e à importância de viabilizar o acesso à arte contemporânea para o público em geral. Adotamos como padrão de texto para os folders das exposições o diálogo aberto com o artista, buscando aproximar os visitantes ao universo do criador como forma de desmitificação da arte. Artista, processo e obra foram assuntos bastante explorados nos impressos da Galeria. Nesta publicação, reeditamos esses textos, que acompanham cada capítulo. Foi com grande satisfação que, sempre que possível, fazíamos uma pré-abertura das exposições para todos os funcionários efetivos e terceirizados do Museu. Nestes momentos, percebia que a simplicidade e o olhar descomprometido são canais fundamentais para a percepção da arte. Não posso deixar de lembrar a passagem da educadora e arteterapeuta Gloria Camacho, que no período curto em que se dedicou à Galeria desenvolveu materiais didáticos muito interessantes para trabalhar as exposições com grupos de escolares, esforço que merecia continuidade. A Galeria do Lago também acolheu alguns eventos com propostas vindas de fora. Antes mesmo das obras de adequação de seu espaço, em 2005, o Projeto Figura 9, das artistas e curadoras Dani Soter e Claudia Tavares, trouxe um grupo de artistas franceses que realizaram intervenções em vários espaços do Museu. Eles ocuparam as duas salas ainda com tacos soltos e paredes descascadas, com a instalação Beautiful City. O visitante, ao caminhar no escuro, pisava em “estalinhos”, produzindo sons que pareciam estopins de tiros, e no alto de um monte reluziam pequenas lâmpadas nos remetendo à violência nas favelas. Um olhar que percebeu de imediato a contradição: naquela época, em uma cidade que se quer maravilhosa, pulsava fortemente em todo o ambiente urbano a ameaça de um conflito. No mesmo espírito crítico, em alusão à corrupção que atormenta o Brasil, o artista Sébastien Perroud encapuzou as águias que decoram o teto do Palácio do Catete. Essa instalação desafiou os corajosos e leais companheiros de trabalho de todos estes anos, Ronald e Ronaldo, que ao se pendurarem nas águias para enfiar-lhes os capuzes reafirmavam o esforço e a presteza com a qual a Galeria do Lago sempre pode contar. Acompanhando o seminário que discutiu o espaço público e a prática do skate, a exposição República do skate: a subversão do uso contou com obras de arte de 52 artistas skatistas na Galeria, selecionadas pelos curadores, artistas e também skatistas Wilson Domingues e Vagner Donasc. Com sua estética própria, a qualidade das obras desta “galera” me surpreendeu. Assim como o profissionalismo e a amizade do grupo. Em 2011, dois eventos contaram especialmente com jovens artistas de outros estados do Brasil: a 7ª Bienal da UNE (União Nacional dos Estudantes), com obras de caráter especialmente irreverente, e o Perpendicular res publica, promovido pelo artista mineiro Wagner Rossi, em que ações artísticas provocaram reflexões sobre a nossa sociedade. Performance Homem produto, de Tatiana France, com a participação do grupo Urbitantes, no evento Perpendicular res-pública, em maio de 2005. | Performance Homem produto [Product Man], by Tatiana France, with the participation of the group Urbirantes, in the event Perpendicular res-pública, May 2005. 13 Martha Niklaus – Costurando arte, História e a “coisa pública”

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Sempre pautada na política dos programas e atenta às propostas do Museu da República como um todo, tentando linkar a arte contemporânea aos objetivos do Museu, me surpreendi no dia que a artista Elisa Castro veio me falar do projeto Eu quero você. Já havia algum tempo, o Museu pretendia desenvolver um projeto em torno das memórias de seus visitantes vivenciadas no próprio Museu. Conhecer seu público é hoje uma tarefa importante, que vai ao encontro da função social dos museus. O projeto Eu quero você propunha trabalhar na “escuta” dessas memórias e transformar esta experiência em arte. Eu vibrei com a possibilidade de realizarmos este desejo do Museu dentro do campo da arte contemporânea, e achei que tal coincidência valia criar mais um programa para a Galeria, que chamei de Solo Especial. Por meio dele, poderemos realizar e incluir exposições individuais de importância ímpar para o Museu. Performance Interdito, de Tábata Costa, no evento Perpendicular res-pública, em maio de 2005.| Performance Interdito [Interdict], by Tábata Costa, in the event Perpendicular respública, May 2005. Ao longo dos anos foi sendo delineada a política curatorial da Galeria do Lago, que ao mesmo tempo foi definindo seu perfil. Hoje, ao rever toda esta trajetória, retomar contato com os artistas com quem trabalhamos e pensar nas últimas exposições e nas que estão por vir, percebo que foi possível implementar dentro do Museu da República um espaço para o exercício poético, um ambiente de troca entre instituição e processo criativo, um local em transformação, vivo! Viva! 1 Artista visual, arte-educadora, coordenadora e curadora da Galeria do Lago / Museu da República [2003 - 2013] Galeria do Lago 14

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Interweaving Art, History and “Public Affairs” – a Testimonial Martha Niklaus¹ The exhibition Bandeiras do Brasil [Flags of Brazil], in 2003, was undoubtedly a landmark of Museu da República. Placing 32 contemporary artworks with different interpretations of the national flag, throughout the classic halls and staircase of the Palace and in its Garden, at a moment the Brazilian people were experiencing a boost in their self-esteem, with Lula as a president, was very exciting. The opening, with the participation of many NGOs (Non Governmental Organizations) that seek to include disadvantaged minorities and majorities, had over twenty thousand visitors, turning the Museum into a true democratic republic. The idea for the exhibition came up during a conversation with Ernandes Fernandes, then assessor of the director, and I immediately remembered many names of artists who had works about the Flag. The synergy of the situation was so intense that it was possible to form a group of artists from several generations and artistic tendencies with very significant works. The team was perfect for an occasion that called for plurality. Perhaps unintentionally, there started a long trajectory of my professional career “creating situations,” with contemporary art and artists, at Museu da República. In my previous experience, coordinating the production of Galeria Catete’s exhibitions, also at Museu da República, curated by art critic Paulo Reis and with consultancy of artist Anna Bella Geiger, my role was well defined and the Gallery was not linked with the Museum. The late Paulo Reis opened way with Galeria Catete to contemporary art exhibitions, creating a kind of gallery that was convenient for artists in early career, many of whom are very well known today. His sensibility and talent as a curator was added to the poetic way he wrote the texts for each exhibition. In 2005 Galeria do Lago was opened on the ground floor of the annex, facing the Garden and the lake. The new location of the Gallery, met very well the goal of providing visitors with more access and democratising contemporary art language for a broad and diverse audience. At this time, I was given the task of heading the Gallery exhibition schedule. It was a great challenge, which I accepted trusting my own experience as an artist and the many years working in museums. The public instance of my work was extremely important and difficult to manage. The first exhibitions, Empilhamento [Stacking], by Carlos Vergara and Berço esplêndido [Splendid Cradle]; O Local e um certo global [The Local and a Certain Global], by Anna Bella Geiger and Homem Muito Abrangente [A Very Comprehensive Man], by Milton Machado, were selected in order to give representativity to the site. Three exhibitions with works revealing State policies, policies of the art world and of the individual, opened the space giving it a political content which defined its tendency, reinforcing the fact that Galeria do Lago was associated with Museu da República, a museum for the History of Brazilian Republic. It would not be an independent space, but it would be connected and placed within a context and in the proposals the Museum aimed at as a whole. Art, History and “public affairs,” ended up forming the raw material of my craft, which should maintain a fruitful relationship with those three instances. My alternative was to create programmes, which gradually took shape throughout the exhibitions. Série Duplas [Double Series] was the first to emerge. The negotiation between two artists who, through artistic creation, exercise the dialogue, a division of tasks and agreeing on joint decisions is the kind of relationship that seemed to be in tune with the republican spirit of the place. Besides, it is a very common practice in art today. By adopting the duos, I dismissed exhibitions of individual artists who worked in the city of Rio de Janeiro, an important restriction for the limited schedule, small room and the few resources the Gallery shares with other sections of Museu da República. 15 Martha Niklaus – Interweaving Art, History and “Public Affairs”

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