Abrapa Projekt

 

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Revista da Associação Brasileira de Professores de Alemão

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An die Leser • Aos leitores P r o j e k t Revista dos Professores de Alemão no Brasil Nr. 52 - Dezembro de 2014 – ISSN 1517-9281 S eit August 2012 obliegt die Redaktion der Fachzeitschrift Projekt dem ABraPAVorstand in Rio Grande do Sul, der sich auch mit der diesjährigen Ausgabe beschäftigt. Im Redaktionsteam sind: Josiane Richter, Präsidentin der ABraPA 2012-2015; Geraldo Luiz de Carvalho Neto, Leiter der Spracharbeit - Werther Institut und Schriftleiter des Internationalen Deutschlehrerverbands (IDV); Karen Pupp Spinassé - Dozentin an der UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); Rosângela Markmann Messa Pädagogische Leiterin der Rede Sinodal de Educação; Gabriele Metz-Klein - Fachberaterin der Zentralstelle für Auslandsschulwesen (ZfA) für RS und SC. Wir freuen uns besonders darüber, Ihnen mitteilen zu können, dass sich die 2011 eingeführte Onlineversion von Projekt bewährt hat und brasilien- sowie weltweit eine viel breitere Leserschaft erreicht hat. Mit dem Onlineformat möchten wir demzufolge unsere Projekt-Arbeit fortsetzen, deren diesjähriges Ergebnis jetzt vorliegt. Die vorliegende Ausgabe widmet sich in erster Linie der Veröffentlichung akademischer Artikel von Verbandsmitgliedern verschiedener Regionen Brasiliens. Hier finden Sie Beiträge zu Unterrichtspraxis, Methodik und Didaktik, Lehrerausbildung, Mehrsprachigkeit, Übersetzung, Literatur und Verbandsarbeit. Überdies bieten wir Ihnen eine Rezension über das Lehrwerk Menschen an. Zum Schluss wird die Arbeit vom internationalen Deutschlehrerverband (IDV) und zwei brasilianischen Regionalverbänden (APPA und ARPA) vorgestellt. Wir wünschen Ihnen eine angenehme Lektüre! Josiane Richter Amtierende Präsidentin der ABraPA - 2012-2015 A B R A PA Associação Brasileira de Associações de Professores de Alemão Diretoria PRESIDENTE VICE-PRESIDENTE 2ª SECRETÁRIA 2ª SECRETÁRIA TESOUREIRA Josiane Richter Rosângela Markmann Messa Merlinde Piening Kohl Karen Pupp Spinassé Raquel Vetromilla Conselho Editorial Josiane Richter, Geraldo Luiz de Carvalho Neto, Karen Pupp Spinassé, Rosângela Markmann Messa e Gabriele Metz-Klein. Editores Regionais APP A PA Rosana dos Santos G. Bustamante rosanagbl@hotmail.com DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT ACP A PA Herton Leandro Schünemann hertons@gmail.com APPLA Irene Stecher Mattes ismattes@gmail.com AP A-RIO PA Ebal Bolacio contato@apario.com.br AMP A PA Erika Hansen Gonçalves erika.ahgoncalves@gmail.com ARP A PA Gisela Hass Spindler gisela@iei.org.br AP PA ANOR Edvani Alves de Lima edvani@ccba.org.br Projeto Gráfico Andréa Vichi andreavichi@ig.com.br Correspondência Projekt – Revista dos Professores de Alemão no Brasil Conselho Editorial – a/c Josiane Richter Rua Pastor Ernesto Schlieper, 200 Cx.P 09 CEP 93900 000 - Ivoti - RS josirichter@yahoo.com ou abrapa@abrapa.org.br Distribuição: ABRAPA Periodicidade: Anual 1 Associação Brasileira de Associações de Professores de Alemão www.abrapa.org.br A ABRAPA tem como objetivos básicos a promoção e o intercâmbio de experiências didáticas com as entidades culturais e os órgãos oficiais no sentido de intensificar o desenvolvimento educacional no Brasil, organizar seminários, simpósios e congressos nacionais e internacionais e trabalhar para divulgação da língua e da cultura alemã no Brasil. ABRAPA Josiane Richter Rua Pastor Ernesto Schlieper, 200 Cx.P 09 - Ivoti/RS CEP 93900-000 www.abrapa.org.com abrapa@abrapa.org.com https://www.facebook.com/abrapa. brasil.16?fref=ts Curitiba – PR www.appla.org.br applapr@hotmail.com R. Lisboa, 974 - Pinheiros 05413-001 - São Paulo – SP Tel.: (011) 3063-1425 appasaopaulo@yahoo.com.br www.appasaopaulo.org.br facebook.com/appasaopaulo ACPA Herton Leandro Schünemann Rua Arthur Günther, 221 Residencial Algarve Prédio 04, apto 202 - Amizade Jaraguá do Sul - SC CEP 89.255-570 hertons@gmail.com ARPA Gisela Hass Spindler Rua Pr. Ernesto Schlieper, 200 CEP 93900-000 Cx.P 09 - Ivoti/RS gisela@iei.org.br AMPA Erika Hansen Gonçalves A/C Cultura Alemã Rua do Ouro, 59 CEP 30220-000 Belo Horizonte - BH www.ampamg.com ampa.brasilien@gmail.com APANOR Edvani Lima A/C Centro Cultural Brasil-Alemanha Rua do Sossego, 364 CEP 50050-080 Boa Vista - Recife, PE edvani@ccba.org.br APA-RIO Ebal Bolacio A/C Instituto Goethe Rua do Passeio, 62 - 1º andar CEP 20021-290 Centro - Rio de Janeiro - RJ www.apario.com.br contato@apario.com.br APPLA Irene Stecher Mattes A/C Instituto Goethe R. Reinaldino S.de Quadros, 33 CEP 80050-030 Os textos publicados nas páginas de Projekt são exclusivos e só podem ser reproduzidos com autorização por escrito do Conselho Editorial e com citação de fonte. Projekt não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nos artigos assinados. APPA-SP Rosana dos Santos Gonçalves Bustamante

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Inhaltsübersicht • Sumário AN DIE LESER | EDITORIAL ............................................................................................................................................................................................................ 01 MEHRSPRACHIGKEIT | MULTILINGUISMO .................................................................................................................................................................................... 03 Por que dizer “sich aposentieren” no Hunsrückisch brasileiro está correto? Marco Aurelio Schaumloeffel UNTERRICHTSPRAXIS | PRÁTICA DE ENSINO .............................................................................................................................................................................. 06 Como avaliar material didático digital? Análises e reflexões para professores. Gabriela Marques-Schäfer, Bárbara Mendes e Jade Nunes Araujo LITERATUR | LITERATURA ............................................................................................................................................................................................................... Uma literatura entre-lugares. O caso da literatura em língua alemã produzida no Brasil no século XIX Gerson Roberto Neumann 11 METHODIK UND DIDAKTIK | METODOLOGIA E DIDÁTICA ........................................................................................................................................................... 17 A interação tempo, modo, aspecto em estudos de tradução alemão - português: o aspecto imperfectivo em evidência Heloísa Schaefer Wilke Jardim e Rosângela Markmann Messa DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT LEHRERAUSBILDUNG | FORMAÇÃO DE PROFESSORES ............................................................................................................................................................. 22 Pibid: ein interessantes Projekt zur Förderung der Deutschlehrerausbildung für angehende Lehrer am Instituto Superior de Educação Ivoti Josiane Richter ÜBERSETZUNG | TRADUÇÃO .......................................................................................................................................................................................................... 26 Metáforas e fraseologismos zoomórficos: uma proposta de estudo contrastivo em alemão e português do Brasil Tito Lívio Cruz Romão 2 UNTERRICHTSPRAXIS | PRÁTICA DE ENSINO .............................................................................................................................................................................. 29 A discussão contemporânea sobre o uso do livro didático de DaF André Luiz Ming Garcia LEHRERAUSBILDUNG | FORMAÇÃO DE PROFESSORES ............................................................................................................................................................. 34 Die Deutschlehrerausbildung in Brasilien: Herausforderungen und Tendenzen Maria Luísa Lenhard Bredemeier REZENSION | RESENHA .................................................................................................................................................................................................................. 40 Coleção Menschen: um mix de livro didático tradicional e recursos tecnológicos Catarina Portinho-Nauiack VERBANDSARBEIT | TRABALHO DE ASSOCIAÇÃO ....................................................................................................................................................................... 42 Der IDV und ABraPA Geraldo de Carvalho VERBANDSARBEIT | TRABALHO DE ASSOCIAÇÃO ....................................................................................................................................................................... 44 Conheça a APPA Rosana dos Santos Gonçalves Bustamante VERBANDSARBEIT | TRABALHO DE ASSOCIAÇÃO ....................................................................................................................................................................... 46 Conheça a ARPA Gisela Hass Spindler

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Mehrsprachigkeit • Multilinguismo Por que dizer “sich aposentieren” no Hunsrückisch brasileiro está correto? Marco Aurelio Schaumloeffel | University of the West Indies, Barbados (alemão-padrão) ou a palavra armazém em português? Provavelmente não, por considerá-las palavras que fazem parte do léxico, do vocabulário “normal” destas línguas. Contudo muitos acham graça e até mesmo consideram erro crasso alguém usar palavras provenientes do português nas variantes dos dialetos Hunsrückisch1 falados no Brasil. Taxam o Hunsrückisch de “alemão-de-capoeira”, “língua de colono pobre e coitado”, “coisa de ignorante”, “língua de gente que não sabe falar direito”, “alemão errado”, para me restringir a apenas alguns dos termos que já ouvi pessoalmente. O objetivo deste curto artigo é esclarecer, desmistificar e explicar de forma simples os motivos pelos quais palavras do português são emprestadas, incorporadas e usadas na língua que muitos falam como sua língua materna, especialmente no sul do Brasil. preconceito linguístico, devido ao status social a ele conferido ao longo dos anos. O preconceito linguístico é “mais precisamente o julgamento depreciativo, desrespeitoso, jocoso e, consequentemente, humilhante da fala do outro (embora preconceito sobre a própria fala também exista)” (Scherre 2008: 12). Estas afirmações acerca do Hunsrückisch brasileiro não possuem, contudo, nenhuma base lógica ou correta do ponto de vista científico dos estudos em Linguística. Cabe aos estudiosos das línguas a análise e a contextualização de fenômenos que ocorrem dentro dos mais O EMPRÉSTIMO LINGUÍSTICO As afirmações acima sobre o Hunsrückisch brasileiro não passam de 1 Optou-se pelo termo Hunsrückisch brasileiro neste artigo para deixar claro que o autor se refere às variedades dele faladas no Brasil. Geralmente se diz que as variantes do alemão do Brasil são, predominantemente, originárias do Hunsrück. É importante, porém, frisar que não existe apenas uma variante naquela região (e nem no Brasil) que possa ser denominada assim. Há diversas variedades, embora com grande parte dos seus sistemas em comum. Desse modo, pode-se falar na Alemanha, por exemplo, de variedades como o Moselfränkisch e o Rheinfränkisch; este último, por sua vez, engloba variedades de Hessisch e Pfälzisch (Schaumloeffel 2007, p. 32-33). Para obter mais detalhes sobre o Hunsrückisch, recomendamos os estudos de Altenhofen (1996), Baranow (1973) e Damke (1997). 2 Há muitos estudos sobre o fenômeno dos empréstimos linguísticos. Para maiores detalhes consulte p. ex. Weinreich (1976). DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT V ocê acharia graça se alguém usasse a palavra Fenster em Hochdeutsch diversos aspectos da gramática e do vocabulário. Para que entendamos melhor o fenômeno do uso de palavras do português no Hunsrückisch brasileiro, gostaria de brevemente mencionar a origem das duas palavras mencionadas acima como desencadeadoras dessa reflexão: Fenster e armazém, presentes no alemão e no português atuais, respectivamente. Essas palavras são aparentemente triviais e fazem parte inquestionável de sua respectiva língua, mas, historicamente, elas também são fruto de empréstimos linguísticos2. Em termos simples e sem entrar em nuances e detalhes de como ocorre esse fenômeno, um empréstimo linguístico é a transferência, o empréstimo de um termo de uma língua para outra. Há vários motivos pelos quais empréstimos linguísticos são feitos, mas de forma generalizada podemos afirmar que eles ocorrem principalmente porque um determinado termo não existia no momento de sua incorporação na nova língua ou porque o novo vocábulo viria substituir um termo anterior, o qual talvez 3

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tenha caído em desuso ou que, p. ex., possa ter perdido seu status de uso no dia-a-dia. Há, ainda, casos de empréstimos que são incorporados com a finalidade de desambiguação. No português atual, p.ex., a palavra inglesa off parece ter um status maior, ao menos nos shoppings, do que a palavra desconto, embora muitos talvez nem saibam exatamente o que off signifique. Voltemos, contudo, aos exemplos mencionados acima. A palavra alemã Fenster deve sua origem ao latim; após algumas transformações linguísticas bastante comuns (alterações fonéticas e morfológicas), o termo latino fenestra (janela) transformou-se em Fenster. No português temos a palavra defenestrar (jogar/jogarse pela janela), proveniente da mesma fenestra latina. Já a palavra armazém no português é de origem árabe: al-makhzan, um lugar para guardar mercadorias, depósito; é daí que também surge a palavra portuguesa magazine3. Qual o objetivo de usar essas duas palavras? Elas servem para ilustrar como as línguas recorrem a termos de outras línguas e os incorporam, a ponto de nem serem mais identificadas como provenientes de outro idioma. Esse é um recurso muito normal, difícil de ser percebido em palavras mais antigas como armazém e bem mais fácil de ser identificado em palavras como sanduíche (obviamente proveniente do inglês sandwich). Algumas vezes, até mesmo alteramos o sentido de palavras quando empréstimos linguísticos são feitos: lunch (que em inglês significa “almoço”) vira lanche, que em português significa uma “refeição rápida ou pequena”. Esse tipo de incorporação, porém, não permite que nós afirmemos que o português deixou de ser português porque agora usa as palavras armazém e lanche, ao invés de outras equivalentes que talvez já 3 tenham caído em desuso ou quem sabe nunca tenham existido. Se assim fosse, seríamos privados de milhares de palavras; talvez só um punhado de palavras “genuínas”, o que quer que isto signifique, ficariam a nossa disposição. O CASO DO HUNSRÜCKISCH BRASILEIRO O mesmo fenômeno ocorre com o Hunsrückisch brasileiro. Os alemães que imigraram para o Brasil nem sempre sabiam falar o alemão-padrão; em muitas áreas do novo mundo, o Hunsrückisch se estabeleceu como língua-padrão, por ter sido a língua da maioria (cf. Altenhofen 1996, Damke 1997 e Pupp Spinassé 2008). Ele funcionava como uma espécie de língua-franca, pois a origem de muitos imigrantes nem sequer era a região do Hunsrück, mas sim outras partes da área onde hoje estão situadas a Alemanha, a Áustria, a Suíça e até mesmo partes da França e da Polônia atuais, onde se falava alemão. Grande parte dessa imigração ocorreu de 1824 até o final daquele século. As comunidades se formavam e muitas vezes ficam isoladas, sem contato algum com a área de língua alemã dos antepassados, e algumas vezes até mesmo de certa forma isoladas em relação a outras áreas do próprio Brasil, onde se falava português, italiano e outras línguas. As línguas são extremamente dinâmicas, apesar de muitas vezes nem nos darmos conta de que elas funcionam assim. Como exemplo anedótico, pensemos em uma pessoa dos anos de 1950, que tenha sido guardada em uma caixa naquela época e que só tenha sido libertada recentemente para ver o mundo dos nossos dias. Será que ela saberia do que estamos falando se citássemos termos como celular, computador, impressora, fibra ótica, crédito pré-pago, DVD, curtir e postar na rede social, entre outras centenas de verbetes e expressões? Certamente não, essa pessoa se sentiria completamente perdida, como se estivéssemos falando em outra língua ou “com códigos secretos”. Algo parecido se deu com o Hunsrückisch brasileiro. Ele passou a existir de forma relativamente isolada em relação às variedades faladas na região do Hunsrück na Alemanha. Em compensação, porém, ele passou a conviver com as variantes do português brasileiro e, em algumas circunstâncias, também em contato com outras línguas europeias faladas no Brasil. Essa situação de contato é condição necessária para que haja um ambiente propício para a ocorrência de empréstimos linguísticos. Se nós já fazemos empréstimos de línguas com as quais sequer estamos em contato direto, então imaginemos a situação do Hunsrückisch no Brasil. Além do desenvolvimento independente da língua de origem, com o passar do tempo, novas invenções surgiram e, com ela, a necessidade de criar ou emprestar centenas de palavras. Como “batizar” a televisão em Hunsrückisch brasileiro, se o termo do alemão-padrão não é conhecido e não está à disposição? Inevitavelmente a solução é recorrer à língua com a qual se está em contato, daí surge a solução e o nome do objeto, já adaptado à fonética do Hunsrückisch brasileiro: televisón. A outra solução é recorrer à criatividade e usar termos disponíveis na própria língua para criar a nova palavra: Bildakaschte (junção dos termos alemães “Bilder” e “Kasten”, significando em tradução direta para o português “caixa de imagens”), palavra que ocorre em algumas regiões e é uma variante de televisón. Nada de errado e nem de absurdo nisto, apenas um fenômeno DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT 4 Dicionários etimológicos são instrumentais para o estabelecimento da origem dos empréstimos linguísticos. Como os dois exemplos aqui citados são relativamente bem conhecidos, nenhum dicionário etimológico foi consultado. Porém, até mesmo uma consulta rápida on-line permite confirmar a sua origem. Para armazém veja http:// www.dicionarioetimologico.com.br/ e para Fenster consulte http://www.duden.de/.

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linguístico passível de ocorrer em línguas vivas. Ou de onde os alemães teriam tirado a palavra Fernsehen (fern – longe, sehen – ver)? Ela é formada exatamente como televisão (do grego tele – longe, em junção com o latim visione – visão). Em suma, quando um falante de Hunsrückisch brasileiro diz que o seu avô hot sich endlich aposentiert4 (“finalmente se aposentou”), ele não comete nenhum erro, nenhum atentado absurdo à língua, nem demonstra que é pouco inteligente. Ao contrário, mostra como a língua é dinâmica, como ela pode se adaptar às necessidades e aos fatos do dia-a-dia. Ele demonstra, na verdade, que sua língua funciona perfeitamente como instrumento de comunicação, com regras gramaticais e fonéticas definidas, exatamente como qualquer outra língua. Inclusive, sequer foge à regra de ter exceções gramaticais. Com a expressão usada, esse falante expri- me exatamente o que tem de ser dito para que a comunidade de falantes entenda o que pretende dizer. Ao contrário, se fosse arrogante e quisesse mostrar o quão é “versado”, dificilmente seria entendido pelos falantes do Hunsrückisch ao recorrer à expressão usada atualmente na Alemanha para dizer a mesma coisa: er ist in Rente gegangen ou er ist in den Ruhestand gegangen. CONCLUSÃO O preconceito em relação a este fantástico e completo sistema de comunicação que é o Hunsrückisch brasileiro, um verdadeiro tesouro que carrega dentro de si a cultura e a história de um povo, infelizmente ainda persiste. A falta de conhecimento em relação ao Hunsrückisch gera desconsideração. Uma pena que ainda haja alguns professores, inclusive de alemão, que ignorantemente desprezam o Hunsrückisch, procurando uma superioridade fantasiosa calcada em sua própria arrogância e ignorância acerca do funcionamento linguístico e orgânico de um sistema completo de comunicação oral, como é o caso do Hunsrückisch brasileiro. O objetivo deste curto artigo foi demonstrar o quão importante é a reflexão e a compreensão adequada de fenômenos como o bilinguismo entre os descendentes de alemães, italianos, japoneses e de outras etnias, inclusive as indígenas, no Brasil. Não há justificativa científica para procurar eliminar o bilinguismo entre os falantes no Brasil, não há justificativa lógica nem prática para tal. Ser bilíngue é uma vantagem no mercado de trabalho no mundo todo, mas em nosso caso também é uma questão de não ignorar, apagar ou menosprezar a própria história. Somos o que somos, somos quem podemos ser. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTENHOFEN, Cléo Vilson. Hunsrückisch in Rio Grande do Sul. Ein Beitrag zur Beschreibung einer deutschbrasilianischen Dialektvarietät im Kontakt mit dem Portugiesischen. Stuttgart: Steiner, 1996. BARANOW, Ulf Gregor. Studien zum deutsch-portugiesischen Sprachkontakt in Brasilien. Tese de Doutorado. München: Ludwig-MaximiliansUniversität, 1973. DAMKE, Ciro. Sprachgebrauch und Sprachkontakt in der deutschen Sprachinsel in Südbrasilien. Frankfurt am Main: Peter Lang, 1997. PUPP SPINASSÉ, Karen. Os imigrantes alemães e seus descendentes no Brasil: a língua como fator identitário e inclusivo. Conexão Letras. Porto Alegre: PPG-Letras, UFRGS, 2008, vol. 3, n. 3, p. 125-140. SCHAUMLOEFFEL, Marco Aurelio. Interferência do Português em um Dialeto Alemão Falado no Sul do Brasil. Bridgetown: Lulu, 2007. SCHERRE, Maria M. P . Entrevista sobre Preconceito Linguístico, variação e ensino concedida a Jussara Abraçado. Caderno de Letras da UFF – Dossiê: Preconceito linguístico e cânone literário, n. 36, p. 11-26, 1. Sem., 2008. WEINREICH, Uriel. Sprachen in Kontakt. München: Beck, 1976. Assim como muitas palavras, o verbo “sich aposentieren” (aposentar-se) apresenta diferentes variantes nas mais diversas regiões. Ele p. ex. também pode ser realizado como “sich aposehtere”, “sich aposentehren”, “sich aposentiere”. O sistema de aposentadoria só passou a existir em 1889 na Alemanha, portanto, provavelmente não beneficiava nem era conhecido pelos imigrantes alemães do Hunsrück no momento em que a maioria deles imigrou para o Brasil. O autor deste artigo é falante nativo da variedade Hunsrückisch falada em Boa Vista do Herval, localidade do município de Santa Maria do Herval – RS, e os exemplos citados aqui constam no corpus por ele coletado com mais de 13 horas de gravações feitas com 36 entrevistados selecionados de acordo com critérios sociolinguísticos (Schaumloeffel, 2007). 4 DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT 5

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Unterrichtspraxis • Prática de Ensino Como avaliar material didático digital? Análises e reflexões para professores Gabriela Marques-Schäfer1, Bárbara Mendes2, Jade Nunes Araujo3 | UERJ DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT O desenvolvimento da Internet móvel faz com que cada vez mais pessoas busquem juntar o uso da tecnologia ao aprendizado de idiomas. Através de computadores, tablets e celulares, aprendizes de língua estrangeira usam, fora da sala de aula, não só aplicativos educacionais e dicionários eletrônicos, mas também materiais didáticos digitais oferecidos, em sua maioria de forma gratuita, por diversas editoras. 6 A oferta de materiais didáticos digitais é vista de forma positiva por muitos professores e alunos. Seu uso, dentro e fora de sala de aula, varia de acordo com os interesses e objetivos do contexto de ensino/ aprendizagem. Muitos professores questionam, porém, como trabalhar em sala de aula de forma eficaz com o material disponível nas páginas das editoras (Rösler 2004, Marques 2006). Para tentar responder a essa questão é preciso, primeiro, descobrir a função que esses materiais digitais podem assumir dentro de um contexto de ensino/aprendizagem específico e qual qualidade eles oferecem. O objetivo do presente artigo é refletir 1 sobre a crescente oferta de materiais didáticos em formato digital, fazendo uma análise da qualidade de alguns de seus aspectos.4 Muitos materiais podem parecer ser bons à primeira vista, mas é somente com o uso deles que nos deparamos com alguns problemas. Dessa forma, é necessário que se elabore critérios de análise que nos levem a uma reflexão mais concreta sobre o assunto. Alunos de uma disciplina ministrada no Instituto de Germanística da Universidade de Gießen, na Alemanha, desenvolveram um catálogo de perguntas que pode ser visto como um guia de critérios de qualidade voltado tanto para os produtores de materiais didáticos digitais, quanto para usuários desses materiais. O Catálogo de Gießen está disponível gratuitamente na Internet5 e pode ser uma ferramenta importante para ajudar professores de línguas não só a aprofundar seus conhecimentos ligados ao ensino de línguas mediado por computador como também a justificar suas opiniões sobre determinadas ofertas. Este Catálogo é dividido em quatro capítulos: (1) Introdução, (2) Critérios Gerais, (3) Habilidades e (4) Áreas de Aprendizagem. O capítulo de Critérios Gerais é composto por quatro subcapítulos que trazem questões ligadas a aspectos técnicos em geral, como o uso do computador, da internet, do tipo de navegação, formas de ajuda oferecidas e protocolo de aprendizagem. Ainda no capítulo de Critérios Gerais encontram-se perguntas relacionadas aos tipos de exercícios e tarefas, à interatividade do material e ao tipo de feedback oferecido. O terceiro capítulo traz questões importantes para a análise dos materiais que se propõem a melhorar Gabriela Marques-Schäfer é doutora em Linguística Aplicada pela Justus-Universität-Gießen, Alemanha, e atualmente trabalha como Professora Adjunta de Língua Alemã na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). 2 Aluna de Graduação em Letras, Português-Alemão, UERJ. 3 Aluna de Graduação em Letras, Português-Alemão, UERJ. 4 Cabe informar que este trabalho surgiu a partir das discussões e pesquisas realizadas na disciplina “Prática de Ensino de Língua alemã II e o uso de novas tecnologias” do curso de licenciatura em Letras, Português-Alemão, da UERJ. 1 http://www.uni-giessen.de/cms/fbz/fb05/germanistik/iprof/daf/dokumente/kriterienkatalog [último acesso em 27/08/2014]

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as habilidades de compreensão escrita e auditiva dos aprendizes, assim como de suas habilidades de produção oral e escrita. No quarto e último Capítulo, os autores listam uma série de questões ligadas a diferentes temas do processo de aprendizagem de línguas, como cultura, gramática, vocabulário, testes, jogos e pronúncia. Com o intuito de apresentar uma introdução ao tema, analisaremos, no presente trabalho, o material didático digital dos livros Berliner Platz 1 Neu e DaF kompakt A1, ambos da Editora Klett. Para tanto, escolhemos como foco de análise a questão do Catálogo de Gießen que se refere à elaboração de Feedback. Já na página na Internet do livro DaF kompakt há exercícios de gramática complementares para praticar a compreensão escrita e compreensão auditiva, glossários, lista de vocabulário e transcrições de todos os exercícios de áudio dos livros. Assim como outras páginas na Internet de livros didáticos, na página do DaF kompakt também há a possibilidade de se fazer testes de nivelamento de acordo com o conteúdo do livro e receber os resultados via E-Mail. Antes de discutirmos, no próximo capítulo, a questão principal de análise deste trabalho, a questão do feedback , apresentamos com a tabela seguinte os resultados de uma análise inicial do material didático digital dos livros selecionados, baseada em alguns critérios do Catálogo de Gießen. Tabela 1: Critérios relevantes para uma análise inicial de material didático digital. Os livros Berliner Platz 1 Neu e DaF kompakt A1 foram elaborados especialmente para alunos sem conhecimento prévio de alemão e abordam temas do cotidiano em países de língua alemã a partir de um enfoque comunicativo e dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Quadro Comum Europeu de Referência para Línguas (Europarat 2001). Professores e alunos encontram gratuitamente materiais para aula na página na Internet do livro Berliner Platz 1 Neu, como exercícios complementares, glossários, lista de vocabulário, transcrições de todos os áudios dos livros, sugestões de temas para projetos e instruções para o uso de material em DVD.6 Além disso, há também, para os interessados, diferentes modelos de testes, listas com links que levam a páginas na Internet que tratam de temas relacionados às lições do livro, e um serviço de consultoria via E-Mail para aqueles professores que buscam formação continuada e que trabalham em Cursos de Integração.7 6 http://www.klett-langenscheidt.de/Deutsch_als_Fremdsprache/Fuer_Erwachsene/Berliner_Platz_Neu/uebersicht/Komponenten/10098 [último acesso em 27/08/2014]. 7 Os Cursos de Integração são cursos oficiais oferecidos na Alemanha desde 2005 pelo Governo Federal com o objetivo de melhorar a integração dos estrangeiros no país, através do aprimoramento de conhecimentos de língua e cultura alemã. Maiores informações em http://www.bamf.de/DE/Willkommen/DeutschLernen/Integrationskurse/integrationskurse-node.html [último acesso em 27/08/2014] DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT EXEMPLOS PRÁTICOS: BERLINER PLATZ X DAF KOMPAKT 7

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A Tabela 1 mostra a simplicidade técnica do material digital oferecido nas páginas dos dois livros em questão. Não há a oferta de explicações gramaticais, glossários, vídeos, chats com outros aprendizes, tutores, dicionários online, diagnóstico de erros, explicações nem exercícios para avaliar a pronúncia. A única diferença na oferta de material digital entre os dois livros analisados é a existência de uma escala de progressão funcional nos exercícios do Berliner Platz 1 Neu. Esta escala mostra aos alunos em uma só página a porcentagem de erros e acertos em cada exercício e pode ser vista como uma espécie de protocolo ou diagnóstico de aprendizagem. Não encontramos, porém, nenhuma explicação sobre como usá-la e interpretála. O DaF kompakt não fornece esta ferramenta de visualização geral da progressão individual. Os resultados dos exercícios são dados separadamente ao final de cada exercício através de cores diferentes. O aluno pode, porém, solicitar o envio dos resultados de cada exercício por E- mail, como uma forma de protocolo de aprendizagem que registra não só erros e acertos, mas também a data e a hora em que os exercícios foram realizados (vide Imagem 2). De uma forma geral, podemos afirmar que o material didático digital de ambos os livros oferece àqueles alunos que buscam aprender e melhorar seus conhecimentos de língua alemã uma linguagem facilitada. Os temas das situações abordadas nos exercícios possuem ligação com à realidade do cotidiano de países de língua alemã. Dessa forma, certos exercícios digitais contribuem não só para o aprimoramento de conhecimentos linguísticos do aluno, mas também de conhecimentos culturais. exercícios digitais que podem ser categorizados da seguinte forma: exercícios de completar lacunas, de correlacionar lacunas, de arrastar e colar palavras ou frases (conhecidos em inglês como drag and drop ), exercícios de múltipla escolha, exercícios de escrita e leitura. Cada vez mais alunos veem nesses exercícios uma boa oportunidade de praticar seus conhecimentos linguísticos. Os exercícios são ordenados por temas e/ou lições do livro. A questão mais interessante de análise dentro das ofertas de exercícios digitais é a questão do feedback, ou seja, a resposta que o computador oferece aos alunos no momento em que buscam aprimorar seus conhecimentos. Assim como as reações de um professor dentro de sala de aula, o feedback digital desempenha papel importante no processo de aprendizagem, porque ele pode ser responsável pela motivação e orientação do aluno em momentos de dificuldade. Diante de determinados feedbacks, os alunos podem ou não se sentir motivados a aprender mais sobre o conteúdo que está sendo tratado no exercício. Se o feedback é bem elaborado, o aluno pode se interessar mais e continuar os estudos. Se não for o caso, o aluno pode ficar desmotivado e desistir dos exercícios propostos por não receber uma orientação que lhe ajude de fato em seu processo de aprendizagem. Rösler (2004: 179-189) diferencia entre feedback programado e feedback inteligente. O primeiro é o tipo de reação programada mais comum que recebemos depois de exercícios feitos no computador e que é igual para todos os tipos de respostas. Já o feedback inteligente é aquela reação que varia de acordo com o tipo de resposta dada ao exercício. O feedback inteligente é muito mais difícil de ser programado, porque a pessoa responsável por programá-lo tem que levar em conta DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT A QUESTÃO DO FEEDBACK. POR QUE ELE É TÃO IMPORTANTE? Os livros aqui analisados oferecem em suas páginas diferentes tipos de 8 Imagem 1: Exemplo de feedback de exercícios digitais do livro DaF kompakt. [http://www.klett.de/eks/okdaf/auswertung.php, último acesso em 04/08/2014].

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todas as respostas e erros possíveis que possam ser digitados. O feedback inteligente ainda não é uma realidade nos exercícios encontrados nas páginas das editoras, já que ainda não há uma forma inteligente de o computador lidar com todos os tipos de respostas possíveis dos alunos. Há, porém, tentativas de melhorar o feedback programado, de forma que ele detecte alguns erros nas respostas e oriente o aluno, com o intuito de ajudá-lo a melhorar sua produção. Rösler (2004: 180) explica que há alguns tipos de feedbacks programados que vão além daquelas simples respostas de certo ou errado, mas que ainda não são tão eficazes quanto uma resposta de um professor. Exemplos de feedbacks programados mais elaborados são aqueles que trabalham com imagens, gráficos e tabelas extras. Para o presente trabalho analisamos os tipos de feedbacks dados aos alunos nos exercícios propostos nas páginas na Internet dos livros Berliner Platz 1 Neu e DaF kompakt A1. Os tipos de feedback dados nos exercícios da página do livro DaF kompakt são muito simples. Se a resposta estiver certa, a cor verde é usada. Já se estiver errada, é usada a cor vermelha. Nada além da avaliação de “certo ou errado” é disponibilizado – não há links para outras páginas, nem explicações ou dicas de aprendizagem. O mesmo tipo de feedback pode ser encontrado no material disponibilizado para o livro Berliner Platz 1 Neu. As imagens a seguir são exemplos de feedback dado através do simples uso de cores. A Imagem 1 mostra o resultado final de três exercícios realizados da lição 2 do livro A1. Podemos observar que a página que mostra os resultados do aluno só faz uso de cores diferentes sem dar explicação sobre seus significados. Não encontramos também no feedback dado nenhum tipo de explicação que ajude o aluno a entender o que ele errou quando e porquê. Outro Imagem 2: Exemplo de feedback de exercício digital do livro Berliner Platz 1 Neu/ tema “Familienleben”, exercício 2. [http://xportal.klettlangenscheidt.de/berlinerplatz/, último acesso em em 27/08/2014]. problema está também no fato de que na página onde os resultados são apresentados só é possível visualizar as respostas dadas pelo aluno e não mais as questões propostas anteriormente, ou seja, o aluno, ao ver seu resultado, pode já ter esquecido como eram os enunciados de cada exercício e isso dificulta sua reflexão e entendimento sobre possíveis problemas e erros cometidos. Para poder saber como eram os enunciados dos exercícios e visualizar as respostas certas, o aluno deve, em um segundo momento, clicar em “Lösungen”. Mesmo assim, quando as respostas certas são apresentadas ao lado das respostas dadas pelo aluno, não é dado nenhum tipo de explicação sobre a forma e o significado do feedback. Cabe ao aluno interpretar e compreender sozinho o que o programa mostra. A Imagem 2 mostra o feedback dado em um exercício do material digital do livro Berliner Platz 1 Neu. Podemos observar que, aqui, mais uma vez, não há explicações sobre a forma e o significado do feedback dado através das cores nem sobre o conteúdo dos erros. Aqui também cabe ao aluno interpretar e compreender sozinho o que ele fez certo ou errado, sem que o programa ofereça algum tipo de ajuda. CONCLUSÃO Analisando o material didático e o tipo de feedback dos exercícios dos livros Berliner Platz 1 Neu e DaF kompakt A1 oferecidos em suas páginas na Internet, mostramos suas limitações técnicas e questionamos seu valor didático. A utilização dessas ofertas digitais a fim de motivar, dar autonomia e exercitar a cooperação na aprendizagem de uma segunda língua é uma forma atraente para alunos e professores, porém, se ela não for bem analisada e integrada a um projeto pedagógico mais amplo, pode acabar tendo um efeito positivo somente a curto prazo, já que apresentam ainda muitos problemas. Perguntamo-nos, dessa forma, se exercícios que apresentam esse tipo de feedback programado simples – como os analisados DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT 9

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aqui – podem, primeiro, manter o aluno motivado a continuar a estudar sozinho no computador, e se, segundo, podem contribuir efetivamente para o aprendizado dos alunos. O professor, ao escolher um livro, precisa conhecer também o material didático digital oferecido pelas editoras, já que há um grande interesse por parte dos alunos por esses recursos digitais. Com o presente trabalho, apresentamos alguns critérios do Catálogo de Gießen que podem ajudar professores a aprender a criticar e analisar melhor ofertas didáticas dis- poníveis na Internet para que eles possam, posteriormente, orientar seus alunos sobre as possibilidades, os limites, as vantagens e desvantagens da utilização dessas ofertas dentro de seus contextos de ensino. Por fim, baseando-se nas questões e problemas aqui apontados, acreditamos ser importante que professores e alunos tenham a habilidade e competência de refletir sobre a oferta digital de determinadas editoras, que, por sua vez, não devem servir só como uma vitrine para venda de material didático impresso, mas como uma opção eficaz de material de ensino que contribua para a aprendizagem dos alunos e complemente com qualidade o conteúdo trabalhado em sala de aula. A reformulação dos exercícios e de seus respectivos feedbacks, assim como o avanço na qualidade da interatividade entre alunos e professores/tutores nas páginas da Internet com fins didáticos são sugestões e desejos de todos os envolvidos com processos de ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras, sejam eles professores, alunos, pesquisadores, editores ou programadores de informática. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT Europarat/Rat für kulturelle Zusammenarbeit: Gemeinsamer europäischer Refe-renzrahmen für Sprachen: lernen, lehren, beurteilen. (Hrsg.) von Goethe Institut Inter Nationes, der ständigen Konferenz der Kultusminister der Länder in der Bundesre-publik Deutschland (KMK), der Schweizerischen Konferenz der Kantonalen Erzie-hungsdirektoren (EDK) und dem österreichischen Bundesministerium für Bildung, Wissenschaft und Kultur (BMBWK). Berlin, München, Wien, Zürich, New York: Langenscheidt, 2001. Marques, Gabriela d. O.: Tecnologia e internet no ensino de língua estrangeira: Avaliação discursida de professores e alunos. Tese de Mestrado. Pon-tifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2006. [disponível em http://www.livrosgratis.com.br/arquivos_livros/cp025746.pdf, último acesso em 28/08/2014] Rösler, Dietmar: E-Learning Fremdsprachen – eine kritische Einführung. Stauffen-burg, Tübingen, 2004. 10

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Literatur • Literatura Uma literatura entre-lugares. O caso da literatura em língua alemã produzida no Brasil no século XIX Gerson Roberto Neumann1 | UFRGS/Universität Potsdam mundos, contudo sem espaço definido. O caso da literatura em língua alemã no Brasil”, projeto desenvolvido há longo tempo e agora aprofundado em forma de Pós-Doutorado junto à Universität Potsdam, na Alemanha. O que se quer com o presente texto é chamar a atenção dos leitores – principalmente dos vinculados ao contexto de ensino de língua alemã no Brasil – para a necessidade de se trabalhar e pesquisar esta literatura que está esquecida em arquivos de universidades, institutos e residências particulares. Trata-se de uma literatura que precisa ser vista e ter voz e, além disso, trata-se de uma literatura que também poderia ser trabalhada em sala de aula. Como dito acima, há longo tempo o tema da literatura entre mundos e sem espaço definido é foco de projetos de pesquisa. Já durante os estudos de Graduação, refletiu-se sobre a questão em pesquisas em torno da literatura escrita e publicada em língua alemã em editoras brasileiras, principalmente no século XIX e início do XX. Como bolsista de Iniciação Científica, foi possível atuar no projeto de pesquisa do Prof. Dr. Arthur B. Rambo intitulado “Recuperação da imprensa teuto-brasileira,” 1 11 o qual tinha por objetivo organizar e classificar por temas bibliotecas e acervos trazidos para a Unisinos.2 Trata-se de bibliotecas oriundas, principalmente, de seminários jesuíticos do interior do estado do RS. Durante esse período, discutiu-se e refletiu-se sobre a classificação de autores da literatura ficcional publicada em língua alemã no Brasil. Aparentemente não se chegou a uma definição para a questão. Comumente são usados os conceitos de “literatura teuto-brasileira” (entre outros, A LITERATURA EM LÍNGUA ALEMÃ PRODUZIDA E PUBLICADA NO BRASIL Trata-se aqui de uma literatura de fundo sócio-histórico, no caso o contexto Gerson Roberto Neumann é professor de Literatura e Língua Alemã na UFRGS e atua também na área da Tradução. Entre 2014 e 2015 está vinculado à Universität Potsdam com bolsa Capes/Alexander von Humboldt para realização de Pos-Doc, cujo tema central é o apresentado aqui nesse texto. Publicou textos sobre as relações literárias entre Brasil e Alemanha. Sua dissertação de mestrado (2000) institula-se A Muttersprache (língua materna) na obra de Wilhelm Rotermund e Balduíno Rambo e a construção de uma identidade cultural híbrida no Brasil e a tese de doutorado (2004) Brasilien ist nicht weit von hier! Die Thematik der deutschen Auswanderung nach Brasilien in der deutschen Literatur im 19. Jahrhundert (1800-1871). 2 Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, em São Leopoldo - RS. Ver www.unisinos.br. DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT O presente texto traz a reflexão em torno do tema “Uma literatura entre por Kuder 1936; Huber 2002; 2003; Seyferth 2004) ou então “literatura brasileira de expressão alemã” (Ribeiro de Sousa 2009). No entanto, nenhuma das formulações em torno da questão agrega a essa discussão uma reflexão suficientemente aprofundada em torno da real existência dessa literatura, ou seja, onde ela poderia ser localizada, qual a sua origem e quem são os autores que a compõem. Na fase da delimitação fundadora dessa literatura “especial” foram elaboradas uma ampla lista de títulos e uma longa enumeração de gêneros, sendo um deles de literatura ficcional. O gênero ficcional em língua alemã produzido no Brasil é o objeto de reflexão neste momento.

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da imigração alemã no Brasil. Especialmente em relação à imigração alemã, é necessário lançar um olhar mais atento ao século XIX. Os primeiros imigrantes chegaram ao Brasil nas primeiras décadas do referido século com apoio do então governo imperial. Devido ao cenário político da época, os imigrantes não poderiam ser espanhóis, o que se explica devido às longas fronteiras com os países de língua espanhola. Holandeses e franceses eram uma opção impossível devido às antigas invasões no Nordeste brasileiro, assim como ao fato de estas nações possuírem colônias na América do Sul. Os ingleses não entravam em questão por causa de seus contatos próximos com Portugal. A partir desse cenário político, a emigração de alemães para o Brasil parecia favorável. Havia ainda outro fator em prol da imigração de alemães no Brasil: o casamento de Dom Pedro com a filha da casa dos Habsburgos da Áustria, Leopoldina. Nesse cenário, ocorre a entrada dos primeiros imigrantes alemães no Brasil. A produção literária das primeiras ondas imigratórias dá-se em forma de relatórios e de cartas, ainda não existindo espaço para a produção de uma literatura que possa ser vista como arte (de uma literatura de ficção). A partir de 1850, ingressam no Brasil também emigrantes que deixavam sua terra natal principalmente por questões políticas. Em números, trata-se de um grupo menor; no entanto, com a sua chegada ocorre um crescimento considerável no que tange à política e à cultura no contexto imigratório. Muitos desses novos imigrantes atuaram na Revolução de 1848 com o objetivo de criar uma unidade nacional alemã e, com a derrota, tiveram 3 que deixar sua pátria. A maior parte destes revolucionários vendeu sua força de trabalho como soldado ou mercenário, emigrando para os Estados Unidos; outros procuraram a América do Sul e destes muitos atuaram como soldados do lado brasileiro, em guerra com o ditador argentino Juan Manuel de Rosas na Guerra de La Plata.3 Os mercenários tornaram-se figuras emblemáticas no contexto imigratório brasileiro, de modo que o grupo passou a ter um significado especial: eles são chamados de Brummer, um conceito que se fixou na História da imigração alemã no Brasil. Segundo Kreutz (1991), a definição Brummer quer dizer, em primeiro lugar, “o que causa zunido, barulho;”4 eles são resmungões que questionam tudo que se lhes é oferecido. Em segundo lugar, os mercenário são chamados de Brummer por causa do barulho que faz o Patacão5 sobre a mesa, dinheiro pelo qual trabalhavam. Nesse contexto, foi fundado o primeiro jornal para as comunidades alemãs no Brasil, em 1852: Der Kolonist. Seu editor foi o diretor do diário O Mercantil, José Gomes Cândido, curiosamente um empreendedor de origem não germânica. Esse primeiro jornal, no entanto, teve uma breve existência. Os temas abordados pelo jornal giravam em torno do comércio, da indústria e da agricultura e também se traduzia as principais leis do império. O objetivo do jornal era de ampliar o tão relevante conhecimento geral dos colonos para uso no dia a dia brasileiro.6 O segundo jornal – Der deutsche Einwanderer – existiu primeiramente no Rio de Janeiro. Por questões financeiras, foi transferido para Porto Alegre no ano de 1854 pelo Dr. Kiekbach, onde foi comprado por Theobald Jaeger. O primeiro redator- chefe do jornal foi Carl Jansen, um Brummer. Também este jornal teve vida efêmera, sendo fechado em 1861. Contudo, no mesmo ano as instalações foram compradas por um grupo de comerciantes, entre os quais se encontravam integrantes da antiga Legião Alemã, portanto Brummer. Dessa iniciativa, resultou o primeiro jornal alemão que desenvolveu um importante e longo trabalho: Deutsche Zeitung, que existiu até 1917. Importantes redatores trabalharam nele, entre eles Karl von Koseritz, possivelmente o liberal mais famoso. O jornal destacou-se pela sua postura liberal e anticlerical. Depois dessa primeira experiência exitosa, a atividade jornalística teutobrasileira intensificou-se; outros jornais surgiram, também fora da capital do Rio Grande do Sul. Em São Leopoldo, então o local com a maior concentração de imigrantes, Julius Curtius fundou, no ano de 1867, o almanaque Der Bote. Amtliches Blatt für St. Leopold und die Colonien. Esse jornal era igualmente de tendência anticlerical, mas, devido a divergências políticas relativas à colonização alemã no Brasil, tomou um posicionamento de oposição em relação ao Deutsche Zeitung.7 É importante ressaltar, contudo, que política e culturalmente não havia espaço para uma convivência harmoniosa nesse novo contexto, principalmente depois da chegada dos Brummer. Devido ao fato de este grupo ser formado basicamente de imigrantes de posição política liberal, explicando-se por isso a sua oposição ao tradicionalismo religioso (tanto católico como evangélico-luterano), iniciou-se um movimento anti-Brummer que se fez perceber claramente no cenário editorial. Dessa forma, as igrejas católica e luterana tornaram-se oposição frente aos ideais 12 DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT Mais em relação a esse tema, vide Cem anos de germanidade no Rio Grande do Sul. Trad. Arthur B. Rambo. São Leopoldo: UNISINOS, 1999, p. 151-154. 4 KREUTZ, L. 1994, p. 22. 5 Uma moeda do período imperial brasileiro. 6 Ver FAUSEL, 1956, p. 225. 7 FAUSEL, E. 1956. Segundo Fausel, o jornal foi publicado até o ano de 1877.

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liberais. O ganhador nessa disputa foi o cenário político-cultural da imigração alemã no Brasil, pois o conflito se fez refletir frutífero na produção literária. Depois de anos de discussões, em 1899, foi publicada no Editorial do suplemento literário Unterm Südlichen Kreuz, do jornal Deutsche Post uma importante reflexão sobre a publicação de textos literários em língua alemã “sob uma outra constelação” em um outro “contexto.” Foi enfatizado o fato de que essa produção também deveria ser acessível àqueles que a quisessem ler. Segundo o editor e também escritor Wilhelm Rotermund, produção já existia, o que havia até então era a falta de opções onde se pudesse publicar, como é possível ler na passagem a seguir: Wir gehen hier durch die zauberhafte Natur zuletzt selber verzaubert hindurch. Hätten wir doch nur jemanden, der unsere Augen öffnete für die vielen Schönheiten und sie uns erklärte! Es ist doch nicht recht, daâ man uns immer dem Grossen Bären des nordischen Himmels führt, wo wir unter dem südlichen Kreuz wohnen (...). Schön wär’s schon und auch gewiß nützlich, wenn man in einer Reihe ernster und heiterer Bilder das Land, über welchem das Kreuz des Südens seine stillen Kreise zieht, und auch die Menschen darin abkonterfeien würde. Mancher, das weiß ich, hat schon solche Zeichenstudien gemacht, aber sie in der Mappe ruhen lassen, weil er für derartige Skizzen keine Verwendung hatte.8 A LITERATURA EM LÍNGUA ALEMÃ NO BRASIL. LITERATURA ENTRE DOIS MUNDOS A discussão em torno da literatura em língua alemã deixada pelos imigrantes alemães e seus descendentes é, sem dúvida, de grande importância. No ano de 2014 são comemorados os 190 anos da imigração alemã no Brasil. No entanto, o que se produziu na área da literatura encontra-se, em grande parte, infelizmente, esquecido em arquivos. Isso (também) deveria e mereceria ser recuperado e rememorado nessa ocasião! Trata-se aqui de uma literatura sem pertencimento, que se localiza entre a Alemanha e o Brasil. Em questão está, portanto, uma literatura existente no Brasil, cujo local de identificação ainda não pode ser definido. Ela não é tida como brasileira porque foi publicada principalmente em língua alemã e direcionada a um grupo leitor limitado – mas ainda assim um grupo leitor brasileiro falante de língua alemã. Apesar de publicada em língua alemã, nela são abordados temas da realidade brasileira – trata-se do cotidiano dos imigrantes alemães. Esse fato, por sua vez, leva ao não reconhecimento dessa produção como literatura alemã, pois ela não é mais escrita na Alemanha e, por sua vez, tornou-se de certa forma desconhecida na Alemanha. Além disso, é importante mencionar que essa literatura paulatinamente incorporou termos da língua local, o que levou a um distanciamento ainda maior da geograficamente já distante Alemanha. A partir de um estudo mais aprofun- dado e mais atento dessa literatura, pretende-se dar, portanto, uma importante contribuição para a discussão, ampliação e o aprofundamento de questões relativas ao tema, destacando conceitos como espaço, local e minorias. A discussão científica atual possibilita uma análise apropriada e profícua da expressão literária desse grupo imigrante nada homogêneo. No presente projeto, pretende-se, no entanto, analisar a literatura do imigrante alemão como uma produção de um grupo que produz ficção na sua língua materna em um cenário linguístico distinto. Com o passar do tempo, o cenário linguístico deixa perceber que um processo de hibridização linguístico-cultural está em curso. São muitas as perguntas que surgem, quando se reflete de modo mais aprofundado sobre a questão, como, por exemplo: 1) A literatura dos imigrantes alemães e seus descendentes pode ser tomada como literatura de um grupo? Em caso afirmativo, e observando-se as diferenças inerentes a cada um, essa literatura poderia pertencer a uma história da literatura (brasileira/alemã)? Como isso se daria? 2) Ao se falar, conforme o romanista Ottmar Ette, de uma “Literatura sem local definido,” seria desnecessário tratar de uma literatura brasileira ou alemã? Ainda segundo Ette, a função da literatura – assim como da filologia – é tornar audível o que há muito valia como perdido.9 Seria esse também o caso da literatura aqui em questão? 3) Que função poderia desempenhar a tradução nesse caso? Que as línguas ocupam um lugar de destaque nessa produção 13 8 O chamamento foi publicado no Editorial do suplemento “Unterm südlichen Kreuz” em 4 de janeiro de 1899. Poder-se-ia citar aqui ainda outros almanaques e jornais, esse contudo não é o objetivo nesse momento. Sobre o assunto, BONOW (1991) publicou uma detalhada dissertação de mestrado. Nestes almanaques e jornais foi publicada a literatura analisada nas pesquisas que vêm sendo desenvolvidas. 9 ETTE, 2005, p. 59. DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT

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está claro. Até que ponto a importância das línguas e da tradução deve ser inserida nesse contexto da discussão? 4) As pesquisas e os levantamentos da literatura alemã publicada no Brasil e que hoje se encontra basicamente em arquivos tornariam essa produção do século XIX, mas de grande importância para a compreensão da história da formação do Brasil e da Alemanha, mais acessível, permitindo assim que mais pesquisadores possam estudá-la.10 Partindo dos estudos teóricos brasileiros relativos à literatura em língua alemã no contexto de imigração alemã no século XIX, é importante que se possa aprofundar e discutir a referida literatura com estudiosos da área da Literatura, assim como de outras áreas. meio a passagens e à procura por aceitação e na luta pela eliminação de todas as formas de preconceitos. Em relação a isso, pode-se ler na apresentação do livro ZusammenLebensWissen. List, Last und Lust literarischer Konvivenz im globalen Maßstab: die Frage, wie wir zwischen unterschiedlichen Kulturen, Religionen, Sprachen und Identitätszuschreibungen zusammenleben können, ist freilich eine der Grundfragen, auf welche die verschiedensten Traditionen der Literaturen der Welt [...] seit dem Gilgamesch-Epos und seit Tausendundeine Nacht immer wieder neue Antworten gesucht haben.11 Em relação à literatura dos imigrantes alemães também existe um convívio, que em parte é o reflexo de duas culturas, ou dito de outra forma, é a expressão de uma cultura que passou a existir dentro de outra, assumindo logo muitos elementos da cultura dela. Por isso, a literatura em questão pode ser tomada como um caso de hibridismo e como uma terceira forma de identificação. Além dos estudos críticos de Ette, são de extrema importância “O local da cultura”, de Homi Bhabha (2000), especialmente quando se trata de “Estereótipo, discriminação e o discurso do colonialismo” e Stuart Hall (2009) quando se trata “Da diáspora. Identidades e mediação cultural”, assim como os trabalhos de Ortrud Gutjahr (2012), principalmente em relação aos estudos da “Transculturalidade e intermedialidade na Germanística em tempos globais”12 e de Andrea Pagni,13 nos seus estudos sobre “Processos de Tradução Cultural” e sobre “Literatura de Viagem.” Importante também é o diálogo com o trabalho da Profa. Dra. Celeste H. M. Ribeiro de Sousa (2004), da USP, no qual ela se ocupa da “Imagem do outro” nas relações literárias entre Brasil e Alemanha. Ribeiro de Sousa também é a coordenadora do grupo de pesquisa RELLIBRA, que tem como objetivo trazer a literatura em língua alemã publicada no Brasil a uma plataforma online para, com isso, torná-la mais acessível ao leitor e pesquisador.14 Na produção literária em questão, é importante enfatizar que não se trata de uma produção de imigrantes com pouca experiência ou iletrados (o que também não deveria ser um elemento excludente por si só!), mas de muitos autores de formação acadêmica. Entre eles figuram, por exemplo, Georg Knoll (1861-1940 – estudou Botânica em Geisenheim), Paul Aldinger (1869-1944 – Doutor em Filosofia), Wilhelm Rotermund (1843-1925 – Doutor em Filosofia), e dentre eles o talvez mais ilustre e mais importante: Karl von Koseritz (1830-1890), que desempenhou importante trabalho político-cultural no Brasil. A germanista Marion Fleischer (1981) busca definir essa literatura heterogênea dentro de sua homogeneidade, no entanto acaba por se concentrar nos objetivos dos autores estudados por ela. Conforme Fleischer, a referida literatura tem por objetivo contribuir para a manutenção da língua alemã e das tradições. Ao mesmo DEZEMBRO 2014 No 52 | PROJEKT O LOCAL NA LITERATURA A relevância do local na literatura há tempo fixou seu lugar nas discussões em áreas como as Ciências da Cultura e da Literatura. Nesse sentido, com essa discussão, pretende-se refletir sobre questões em torno da identidade e suas diversas formas de desdobramento. A partir de uma perspectiva da literatura alemã, vem ao encontro da discussão uma importante obra de Ottmar Ette, ZwischenWeltenSchreiben. Literaturen ohne festen Wohnsitz (2005). O referido autor trabalha, entre outros temas, “Literatur in Bewegung” (2001) e “ÜberlebensWissen” literário (2004), sempre com o objetivo de refletir formas de expressão literária em 10 14 Em relação ao trabalho de pesquisa em arquivos e acervos, cabe mencionar o projeto de digitalização dos principais acervos no Brasil que guardam almanaques e jornais publicados em língua alemã pelos imigrantes alemães e seus descendentes no Brasil. O referido projeto do qual farei parte com o presente projeto, é encabeçado pelo Prof. Dr. Paulo A. Soethe, da UFPR e conta com a parceria do Deutsches Literaturarchiv Marbach. Além disso, estamos em contato com a colega argentina que iniciou o registro da literatura de expressão alemã naquele país, Profa. Dra. Regula Rohland de Langbehn. Ver Prof. Dr. Paulo A. Soethe, Germanistik in Südbrasilien. p. 531-534, 2010. 11 Ver http://www.uni-potsdam.de/romanistik/ette/konvivenz.html. 12 Mais dados sobre a bibliografia de Gutjahr, ver http://www.slm.uni-hamburg.de/ifg2/personal/Ortrud_Gutjahr.html. 13 Mais dados sobre a bibliografia de Pagni, ver http://www.romanistik.phil.uni-erlangen.de/institut/mitarbeiterinnen/pagni.shtml#reiseliteratur. 14 A Profa. Dra. Celeste Ribeiro de Sousa também coordena o Projeto de Pesquisa “Literatura Brasileira de Expressão Alemã” no Grupo de Pesquisa RELLIBRA (Relações Linguísticas e Literárias Brasil-Alemanha). Ver www.rellibra.com.br.

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