Revista NA MOCHILA - Edição Especial ESCOLAS DO BEM - NOVEMBRO/14

 

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Edição especial da revista NA MOCHILA, mostra o trabalho realizado pelas escolas que são parceiras deste projeto e que se preocupam com a família como um todo.

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EDIÇÃO ESPECIAL Tiragem 10 mil exemplares Você ensina seu filho a ser ético? Conheça as instituições que se preocupam com a educação da família como um todo ❯ Qual a filosofia de cada uma? ❯ Que tipo de cidadão elas querem educar para o planeta?

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Editorial Escolas do bem Quando anunciamos que sairíamos com esta edição especial da revista NA MOCHILA, uma escola nos questionou sobre o título: “Nossa, quer dizer que quem não é parceiro desse projeto é uma escola do mal?”. De jeito nenhum! Acredito com todas as minhas forças que todas as escolas são do bem. A causa está intrínseca ao negócio – não dá pra separar. O que diferencia as escolas parceiras do Projeto NA MOCHILA é simplesmente o fato de que apoiam esta proposta de responsabilidade social, que tem como característica a vontade de mudar o mundo com “algo a mais”, que vai além da escolarização dos alunos. Com a certificação do projeto pelo Selo Social, em agosto deste ano, e que comprova as mudanças que a informação de qualidade proporciona na vida dos nossos leitores, não tínhamos título melhor para esta revista: ESCOLAS DO BEM. Nesta edição você vai conhecer o trabalho de algumas das escolas parceiras na cidade de Sorocaba, qual a filosofia de cada uma, como estão educando os cidadãos do futuro. Aproveite também as matérias que preparamos com carinho. Na reportagem sobre Ética, nossa equipe caprichou nas fontes: Clóvis de Barros Filho e Mário Sérgio Cortella – dois dos mais importantes pensadores Juliany Freitas Cláudia Silva Lucy De Miguel Aproveito para apresentar o jornalista Piero Vergílio, que passa a integrar a equipe de colaboradores da nossa editora. brasileiros da atualidade. Preparamos, inclusive, um vídeo com a entrevista completa do Prof. Clóvis, que está disponível no site da revista (www.namochila.com). Boa leitura! Lucy De Miguel Editora lu@namochila.com Conecte-se com Participe da nossa comunidade no Facebook: Na Mochila Vetor Comunicação Acompanhe nossas notícias: www.namochila.com Na Mochila - Especial Escolas do Bem | 3

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Índice 06 06.... Boas relações exigem confiança 10...Você ensina seu filho a ser ético? 16............................. Quando a escola se preocupa com o “algo a mais” 10 20 30 62 66 20...........Escola Aconchego dos Anjos 22..............................Colégio Adventista 24.............................. Colégio Alpha Kids 26................................Escola Amore Mio 28........................................Colégio Ápice 30............... Colégio COC Santa Rosália 32...............................Colégio Dimensão 34.................................... Escola Dó Ré Mi 36........................ Escola Espaço Criança 38................................Colégio Humanus 40...................................Kingdom School 42...................................Escola Maternità 46..................................Escola Morangos 48..................................... Colégio O Farol 50........................ Escola Pé de Moleque 52............................... Escola São Gabriel 54.............................................Colégio Ser 56......................................Colégio Véritas 58..........................................Escola Viking 60...................................Escola Vila Verde 62................Chácara Escola Viva a Vida 64.....................Escola Viver e Aprender 66................................. Coluna da Cecília Esta é uma edição especial da revista NA MOCHILA, com distribuição gratuita na cidade de Sorocaba. Especial ESCOLAS DO BEM Ano 1 - no 1 - novembro/14 Tiragem 10 mil exemplares Diretoria Executiva: Lucy De Miguel, Cassiano Ricardo Cantero Colaboração: Marisa Sei, Piero Vergílio (redação) Editora de Arte e Tratamento Fotográfico: Cristina Saito Fotos: Cláudia Silva Fotografia Assistente de Produção: Juliany Freitas Jornalista responsável: Lucy De Miguel (MTB 24.662) Impressão: Rip Editores Gráficos Relacionamento com as escolas: escolas@namochila.com Vetor Comunicação e Editora: Rua Braz Laino, 305 – Jd. Emilia Sorocaba – SP – cep: 18031-030 Fone: (15) 3211-0999 Para anunciar: comercial@editoravetor.com.br 4 | Na Mochila - Especial Escolas do Bem

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Comportamento Boas relações exigem confiança por Marisa Sei No relacionamento familiar ou com pessoas e serviços contratados, confiar é fundamental para ter tranquilidade e estabelecer uma cooperação mútua, colaborando inclusive com o desenvolvimento saudável dos pequenos er segurança, acreditar, ter fé: tudo isso é o que significa a palavra “confiança”, quando buscamos por sua origem. Este sentimento está presente também nas situações cotidianas, e não só em relações mais profundas. Ter confiança é necessário, por exemplo, até na hora de escolher um serviço simples, como um restaurante ou uma conta bancária: é preciso acreditar que o serviço será de qualidade para contratá-lo. Confiar torna-se ainda mais importante para quem vai contratar um serviço destinado às crianças, já que existe a preocupação de estar de acordo com o que a família deseja ou acredita. Para ajudar a estimular o cultivo da confiança não só entre pais e pessoas ou instituições contratadas, mas também entre os membros da própria família, as psicólogas Lucimeire Prestes de Oliveira Tomé e Vivian Cancellara Picini comentam sobre o tema e dão algumas recomendações. Confira! 6 | Na Mochila - Especial Escolas do Bem www.namochila.com  © Can Stock Photo Inc. / adam121 T Depende de boas escolhas Procurar o melhor colégio para matricular os filhos é uma das principais dificuldades envolvendo o sentimento de segurança, já que os pais estão conscientes de que será o local em que as crianças passarão grande parte do dia e, por isso, aprenderão e compartilharão muitos valores. Assim, é fundamental conhecer a escola, o plano de ensino, as pessoas que trabalham no local. “Escolher a escola é de extrema responsabilidade. O adulto, antes mesmo de levar a criança para conhecer o local, deve pesquisar sobre a instituição, sobre os valores e princípios que regem a escola. Conversar com pessoas que utilizam o serviço também é importante”, indica Lucimeire. Antes da matrícula, portanto, pesquise, peça referências, converse com diretores e professores. Só assim é possível ter tranquilidade ao deixar os pequenos diariamente na instituição de ensino. O importante, aliás,

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não é só confiar nos funcionários do local, mas também concordar com o método de ensino, já que, depois de feita a matrícula, não há como querer modificar o que a escola já tem estabelecido e em acordo com funcionários e outros pais. “Se acontecer de os pais discordarem dos ensinamentos ou dos programas que a escola oferece, é melhor buscar outro local, pois a criança sempre está atenta ao que os pais pensam e dizem. Por exemplo: quando os pais não gostam da professora e deixam a criança perceber, naturalmente ela passará a não simpatizar tanto com a professora”, avisa a psicóloga. Quem pesquisou bastante antes de escolher o colégio para a filha foi a bióloga Regina Oliveira. “Existem diversas escolas particulares e busquei conhecer também as públicas. Conversei com professores, li o programa de ensino, procurei saber o que as cantinas ofereciam de alimentação e conheci as atividades que eram dadas fora de sala de aula. Por isso, hoje, não tenho do que reclamar: a Júlia se sente à vontade no colégio, gosta dos professores e não preciso me preocupar com o que ela está aprendendo, tanto de conteúdo didático como de valores”, relata. Estabelecendo uma boa relação Pesquisar, conversar e observar também é uma tarefa imprescindível na hora de escolher pessoas específicas que influenciarão no aprendizado e desenvolvimento dos pequenos, como babás e professores particulares. Estabelecer uma relação de confiança é indispensável, pois, muitas vezes, estes profissionais passam parte do dia com as crianças e mais ninguém. Nesses casos, tão importante quanto conversar com eles é bater um papo também com os filhos. “É preciso sempre conversar com professores e babás, mas também saber dos próprios filhos sobre como foi o dia deles. Observe se não houve nenhuma mudança negativa (e significativa) de comportamento. Não é preciso manter desconfiança, mas sempre monitorar e mostrar que os pais estão presentes e participam da vida dos filhos – isso pode ajudar a estabelecer uma boa relação com o serviço”, recomenda Vivian. Desconfiança pode ser prejudicial Apesar de ser necessário sempre acompanhar de perto a relação da criança com as instituições que frequenta, serviços que usufrui e pessoas com quem convive, esse cuidado não deve ser confundido com desconfiança. “Não depositar confiança no serviço contratado prejudica todos os envolvidos: os pais não ficam tranquilos em deixar os filhos no local ou com a pessoa escolhida; os profissionais não têm a liberdade de desenvolver seu trabalho como estão acostumados porque os pais acabam interferindo; a criança vai percebendo essa relação de desconfiança e não se sente segura”, explica Vivian. Para Lucimeire, no início de um relacionamento, seja na contratação de pessoas ou de serviços, é preciso confiar para que o outro tenha tempo e condições de mostrar o que tem a oferecer e que pode atender às necessidades. Na Mochila - Especial Escolas do Bem | 7 © Can Stock Photo Inc. / yurolaitsalbert

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Comportamento Escola: contato necessário Por não acreditarem nas instituições formais de ensino ou não encontrarem alguma que esteja de acordo com os valores da família, alguns pais vêm optando por © Can Stock Photo Inc. / Leaf ensinar as crianças em casa – às vezes, a tarefa fica por conta de professores particulares, outras, dos pais mesmo. Contudo, a prática de ensinar em casa não é regulamentada no Brasil e acaba privando os pequenos de terem contato com outras crianças e adultos, item necessário para o desenvolvimento cognitivo e social. “Quando a criança está na escola, tem a oportunidade de entrar em contato com diferentes pessoas e valores e conhecer regras que muitas vezes difere das estabelecida s em casa. Assim, desenvolve a capacidade de discernir, pois aprender o que é certo e errado é importante no processo de desenvolvimento e de educação”, diz Lucimeire. Frequentar a escola traz apenas benefícios, contudo, se houver equilíbrio entre o tempo que a criança passa no local e em casa, com a família. “É essencial ter um período do dia para fazer o que quiser, na hora que quiser. Quando estão na escola, as crianças têm uma rotina a seguir, estipulada pela instituição – se isso ocorre num período superior a oito, 12 horas, acaba não sendo tão saudável. Frequentar a escola é imprescindível porque ensina a ter uma rotina, seguir regras, dividir brinquedos, relacionar com seus pares... Mas é preferível não em período integral”, aconselha Vivian. Em família Para que as crianças possam falar com sinceridade sobre os acontecimentos diários e sobre seu relacionamento com outros adultos, deve existir ainda a confiança depositada nos pais. Com isso, fica mais fácil também ter tranquilidade com as pessoas e serviços contratados. “Para merecer a confiança de uma criança, é necessário que o adulto tenha comportamento coerente e não provoque decepções. É fundamental estar presente na vida da criança e demonstrar, por meio de suas atitudes, que a criança pode confiar em seus cuidados e sempre quando prometer ou falar algo, fazer, cumprir”, avisa Lucimeire. Sem tanta preocupação, a relação de confiança entre pais e filhos pode ser construída naturalmente. Para a psicóloga Vivian Cancellara Picini, quando os pais confiam nos filhos e demonstram, dificilmente os filhos também não confiarão nos pais. “As duas 8 | Na Mochila - Especial Escolas do Bem partes são influenciadas uma pela outra. Se os filhos confiarem nos pais, isso garantirá a eles liberdade para explorar o mundo e saber que sempre terão esses adultos como pessoas que darão apoio e acolhimento em situações difíceis”, complementa. Dar crédito ao que os pequenos fazem e dizem pode ajudá-los a se relacionar melhor em ambientes coletivos, inclusive. E confiar também pode ser sinônimo de dar autonomia, já que os pais acreditam na capacidade dos filhos de realizarem certas coisas. “Quanto mais autonomia os pais dão ao filho, mais ele acreditará em sua própria capacidade”, destaca Vivian, que acrescenta ainda a importância de sempre dizer a verdade às crianças. ✤ Nossas fontes: Lucimeire Prestes de Oliveira Tomé é psicóloga especialista em Psicologia Escolar e Educacional e autora do livro Conversando sobre Crianças Vivian Cancellara Picini é psicóloga www.namochila.com 

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Especial Você ensina seu filho a ser ético? Dois importantes pensadores brasileiros falam à NA MOCHILA sobre o aprendizado dos códigos de conduta desde a primeira infância. por Lucy De Miguel V ocê está em uma festa em um buffet infantil e observa seu filho na paciente fila do Arvorismo. De repente, a criança que estava por último é arrancada de seu lugar e colocada, pela mãe, como primeiro da fila, passando à frente de todos os outros que haviam chegado primeiro. A indignação das outras crianças da fila é notória. Eles reclamam, protestam. A mãe, com sua arrogância, ignora. Quem poderia decidir ali o que estava certo ou errado era a monitora. Mas esta, sabe-se lá por qual motivo, não se opõe. E aquela criança aprende, em um 10 | Na Mochila - Especial Escolas do Bem local lúdico e divertido, que é correto levar vantagem em detrimento do outro. “Minha mãe me ensinou a furar fila. Que legal!”, é o que vai ficar registrado em sua mente. O perigo disso tudo é: se a criança não aprende em casa, a vida ensina. Daí o erro que muitos pais cometem em querer proteger sua cria. Fatos como este são corriqueiros, vemos o tempo todo. Para quem desconhece a importância da ética na convivência humana, é fácil compreender a enorme “falta de educação” daquela mãe, que certamente não aprendeu a ser ética e deve cometer esta www.namochila.com  © Can Stock Photo Inc. / michaeljung

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em convivência”, explica o e outras irregularidades em “Educar é restringir, filósofo e educador Mário desrespeito ao outro e à soé definir privações, Sérgio Cortella. Ou melhor, ciedade. Nem precisa pensar é direcionar a é o conjunto de princípios e muito: nos deparamos com energia vital numa valores de conduta que uma tais exemplos de desrespeito pessoa ou um grupo de pestodos os dias. São aquelas certa direção em pessoas que largam o carsoas tem. detrimento de outra. Daí vem a pergunta: a rinho do supermercado no Se deixarmos uma partir de qual idade devemeio do estacionamento ou criança solta, ela será atrás do carro ao lado, param mos ensinar uma criança a guiada pelos seus nas vagas de gestantes ou de respeitar os códigos de coninstintos.” idosos (pra não ter que andar duta ética, para vivermos muito, afinal, não tem ninem harmonia na sociedade? Clóvis de Barros Filho Segundo o professor de figuém olhando...), compram algo e não honram com o losofia da Universidade de compromisso de pagar. Ou aquele colega São Paulo, Clóvis de Barros Filho, ética é de trabalho que é seu amigo, mas que não algo que se aprende a partir do momento perde a oportunidade de te prejudicar na que a criança começa a socializar com as empresa. Afinal, ele também quer ser pro- outras. “Sem dúvida é na infância o melhor momento para a criança entender o que a movido, assim como você. A revista NA MOCHILA conversou com ética significa. Eu não posso dizer se é na dois dos mais importantes pensadores brasi- família o lugar ideal, porque muitas vezes leiros da atualidade – Clóvis de Barros Filho os pais são agentes de deformação moral. e Mário Sérgio Cortella – para entender a Muitas vezes, através de seus exemplos, responsabilidade dos pais e da escola em eles prestam um desserviço ético, porque transmitir os valores éticos para as crianças. querem fazer triunfar suas ambições de A palavra ética tem origem grega, “ethos”, qualquer jeito, porque não respeitam o que significa “caráter”. “Ética é aquela pers- coletivo a que pertencem, porque estão pectiva para olharmos os nossos princípios e sempre tentando levar vantagem. E ainda a os nosso valores para existirmos em socieda- criança recebe em casa um péssimo modelo de. É impossível pensar em ética sem pensar de aprendizado ético”, afirma. Na Mochila - Especial Escolas do Bem | 11 Foto Cláudia Silva

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Especial Ética se aprende na escola? Para Mario Sérgio Cortella existe uma diferença entre educação e escolarização. Educação é a formação de uma pessoa. Escolarização é um pedaço da educação. “A tarefa de educação dos filhos é da família em primeiro lugar, e do poder público de forma secundária. A escola faz escolarização. Por isso, se a família não cumpre aquilo que precisa cumprir, a escola não dará conta. É preciso fazer uma parceria com as famílias, de modo a também formar os pais. Porque uma parcela dos pais está perdida, ela não sabe que tem obrigação. Ela vive uma situação de submissão com os filhos”, explica. Cortella dá o exemplo daquela família que chega ao restaurante e pergunta ao filho de 8 anos aonde ele quer sentar, o que ele quer comer, o que ele quer fazer. Para ele, embora seja uma forma carinhosa de os pais tratarem a criança, é algo que a deseduca. “É óbvio que eu sou contrário a bater, a espancar, mas não sou contrário de maneira nenhuma a uma educação que seja firme. Ser firme não é espancar. É a fala, é a autoridade, é colocar a mão no ombro com delicadeza, mas com firmeza, pra criança sentir a pressão, sem machucar. Pode parecer pouco, mas há uma diferença significativa na formação de um caráter. Fazer perguntas deixando que a criança escolha não é uma forma carinhosa de educar. Ela é acovardada. É a ditadura infantil. Resultado: parte dessas crianças é formada em famílias que não têm autoridade sobre ela. A criança dorme na hora que quer, come o que deseja, sai a hora que quer. Não pode ser assim”, ressalta. E se não há restrições na família, a criança vai encontrar obstáculos a essa falta de limites na escola. “Mas aí, quando a criança é contrariada ou precisa seguir regras, ela parte pra cima do professor. Nós nunca tivemos tantos casos de violência de alunos contra professor como estamos tendo agora. Porque o educador é o primeiro adulto na vida de uma criança a exercer a autoridade. E © Can Stock Photo Inc. / monkeybusiness “A ética é a crença de que a convivência de amanhã possa ser melhor do que a de hoje. Portanto, é um esforço coletivo de aperfeiçoamento da convivência.” Clóvis de Barros Filho 12 | Na Mochila - Especial Escolas do Bem www.namochila.com 

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autoridade não é autoritarismo. Autoridade é a responsabilidade com mando. Essa autoridade tem que ser exercida. Tem pai que reclama que o professor deu falta porque o filho faltou, ou porque o filho leva lição de casa. O problema disso é que nós estamos formando uma geração mais fraca, que não pega no serviço”, completa Cortella. de definição das condições em que a satisfação pode acontecer. E a educação dos pais é uma parte importantíssima desse processo civilizatório, que é um processo de direcionamento das energias vitais. Quando esse trabalho não é bem feito, a criança tenderá a sofrer fora de casa as punições que deveria ter sofrido no ambiente familiar”, diz. Os valores se perderam? Há quem diga que antigamente as pessoas eram mais educadas, que a sociedade era mais ética e que estes valores de respeito e de integridade estão se perdendo com o tempo. Mas Clóvis de Barros Filho não concorda com esta teoria. “A história da humanidade é a história da exploração, da humilhação, do massacre, da opressão... portanto, não dá pra acreditar que um dia nós tínhamos valores excelentes e que estes se perderam. “Nós nunca tivemos tantos casos Eu tenho a impressão de que nós nunca tivemos uma convivência adequada. Sou de violência de alunos contra muito mais confiante no futuro do que no professor como estamos tendo passado”, esclarece. agora. Porque o educador é o Para o filósofo e professor, o passado primeiro adulto na vida de uma não é um bom exemplo. “Temos a chance criança a exercer a autoridade.” de fazer com que amanhã a convivência seja melhor do que hoje. Mas eu também não Mário Sérgio Cortella acredito em transformações radicais, do dia pra noite. Acredito que as coisas podem ir Clóvis de Barros também exalta o tra- melhorando devagar, de degrau em degrau, balho do educador com a necessidade de como verdadeiros grãos de areia. Hoje, por ser restritivo. “Educar é restringir, é definir exemplo, em lugares fechados, é muito privações, é direcionar a energia vital numa pouco provável que alguém tire um cigarro certa direção em detrimento de outra. Se pra fumar, o que há dez anos era normal. deixarmos uma criança solta, ela será guiada Então eu acho que a convivência melhorou pelos seus instintos, por aquilo que Freud nesse quesito”. E ainda completa: “A ética chama de ‘principio de prazer’. Ela buscará é a crença de que a convivência de amanhã maximizar seu prazer e isso pode tornar possa ser melhor do que a de hoje. Portanto, complicada a sua existência no mundo social. é um esforço coletivo de aperfeiçoamento Todo trabalho de civilização é um trabalho da convivência”, diz. Na Mochila - Especial Escolas do Bem | 13 Foto Gigi Kassis

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Especial © Can Stock Photo Inc. / monkeybusiness arrogância ou prepotência. Cortella orienta Como ensinar ética aos filhos? Os dois pensadores concordam que é para que os pais prestem mais atenção aos função da família ensinar princípios e va- filhos, principalmente os jovens, que são lores que serão a base da personalidade, da avessos a qualquer tipo de autoritarismo. conduta do indivíduo. E se o mundo ou as “Quando o filho chega em casa e você pessoas não são éticas como deveriam, entra pergunta: ‘E aí, filho, o que você aprendeu aí a questão dos valores morais. “O mundo hoje na escola?, isso é auditoria. Se você que nós vamos deixar para nossos filhos de- quer saber isso, de uma forma que ele vai pende muito dos filhos que nós vamos deixar gostar, você deve perguntar: ‘E aí, filho, o para este mundo. E que filhos nós vamos que é que você pode me ensinar hoje?’ A diferença é que crianças e deixar?”, indaga Cortella. “Personalidade ética é jovens adoram ensinar. Os Quem pensa que esses valores serão construídos construída quando nós valores que um filho terá são os valores que nós passarmos fora de casa, está enganado. prestamos atenção, “Uma criança que tem diaquando nós olhamos para ele”, explica. Clóvis também destaca betes, por exemplo, deve ser para o jovem com a importância da socializacriada fechada em casa para o olhar dele, e sem não correr o risco de comer ção na introdução da ética arrogância.” o que não pode ou deve ser na educação das crianças. instruída pelos pais de que, “Desde os jogos mais infanMário Sérgio Cortella quando fora de casa, coma tis, a criança deve ser instrusomente aquilo que não fará ída a respeitar a convivência. mal para ela?” pergunta Cortella. “É claro Esses jogos infantis, com a participação de que não podemos criar nossos filhos em mais de um, são momentos importantísuma redoma. O mesmo vale em relação à simos para que a criança possa saber até conduta. Temos que ensinar a eles como onde vai a pretensão dela e até onde vai viver neste mundo”, completa. a preservação do próprio jogo, que presConstruir uma personalidade ética não supõe a aceitação de certas regras. E esse é tarefa fácil para os pais ou para os edu- já é um excelente passo para a introdução cadores, porém, pode e deve ser feita sem da ética”, afirma. 14 | Na Mochila - Especial Escolas do Bem www.namochila.com 

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© Can Stock Photo Inc. / ainsel “Tudo o que não puder contar como fez, não faça”. Famosa definição de ética do filósofo Immanuel Kant Pais x falta de tempo A atual rotina familiar, na qual pai e mãe trabalham fora e possuem uma cobrança cada vez maior em sua vida profissional, a relação com a educação da criança acaba ficando comprometida pela própria falta de tempo – sem falar na falta de energia. “Os pais hoje educam menos por uma questão de administração das suas forças vitais. Tanto o marido quanto a mulher se dedicam tanto aos seus projetos profissionais, ao seu trabalho, ao ganho do sustento, que acabam delegando a tarefa de educar os filhos. E de certa maneira não querem assumir o ônus e o custo de impor sanções aos filhos”, explica Clóvis de Barros. E é aí que mora o problema. “Muitas vezes, as exigências da vida profissional fazem com que os pais tenham que abrir mão de gastar energia para entrar em atrito, para advertir, para dar bronca nos filhos. Tudo isso custa, é pesado, é cansativo. Então, ‘deixa pra lá’. Essa ideia do ‘deixa pra lá’ é particularmente nefasta, porque a criança precisa ser preparada para interagir em sociedade. E essa preparação tem que ser feita no seio da família”, esclarece. Escolhas certas Uma grande preocupação para os pais é saber se a educação que seus filhos estão recebendo, tanto dentro de casa como fora dela, dará a eles uma base sólida para que saibam fazer escolhas corretas. A criança começa a escolher por volta dos 6 a 7 anos, mas as responsabilidades vão ficando cada vez maiores na adolescência: o primeiro beijo, a primeira relação, a faculdade, o primeiro gole, o primeiro cigarro, as companhias... Certamente, se você ainda não parou para pensar nisso, fica o alerta do professor Clóvis: “As escolhas tendem a ser tanto melhores quanto mais sofisticado for o repertório daquele que escolhe. Nós nunca poderemos inibir as pessoas de fazerem certas escolhas”, afirma. Para ele, cabe aos pais dar as condições para que as escolhas sejam consistentes. E isso tem a ver com trajetória, com o repertório, com experiências de vida. São as experiências de vida que permitirão as escolhas. “Elas não saem do nada. Nesse sentido, todos nós que educamos uma criança somos responsáveis por abrir o leque de suas experiências, e fazendo isso estaremos também melhorando as suas referências para futuras escolhas”, finaliza. ✤ Você pode ver o vídeo com a entrevista completa do Professor Clóvis de Barros Filho. Acesse o site: www.namochila.com Nossas Fontes: Clóvis de Barros Filho, jornalista, advogado, palestrante e escritor. É professor de Ética na Universidade de São Paulo (USP) Mário Sérgio Cortella, filósofo, doutor em Educação, é palestrante e autor de vários livros sobre Educação e Ética. Na Mochila - Especial Escolas do Bem | 15

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Projeto NA MOCHILA Quando a escola se preocupa com o texto Lucy De Miguel entrevistas Piero Vergílio Entenda como funciona este projeto de responsabilidade social que leva informações aos pais sobre a educação dos filhos “algo a mais” do dia-a-dia, na troca de experiências com outras famílias, com a escola, com o pediatra e outros profissionais especializados. Enfim, é um trabalho pesado, porém contínuo. Foi com o intuito de levar informações úteis às famílias – e sem a pretensão de ditar regras sobre a melhor forma de educar – que surgiu o Projeto NA MOCHILA em 2009, em Sorocaba (SP), a partir de uma parceria com as escolas particulares (Ensino Infantil e Fundamental I), em uma proposta inédita no Brasil de inserir um veículo rico em informações dentro da mochila www.namochila.com  A gestação de uma criança é um período de grandes mudanças para o casal, de aprendizado, de reflexão e de espera – afinal, são nove meses que demoram uma eternidade para as mamães que não veem a hora de pegar o filho no colo. E quando nasce o bebê, sem bula ou manual de instruções como costumam dizer, começa uma nova etapa na vida da família: a responsabilidade de cuidar, amar e educar. E se os filhos nascem sem bula, igualmente os pais só aprendem a árdua e deliciosa missão de criá-los na prática, com a vivência 16 | Na Mochila - Especial Escolas do Bem © Can Stock Photo Inc. / 4774344sean

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