A parteira

 

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Description

'A parteira' é um poema narrativo, composto por quatro cantos, escrito em versos decassílabos. É um poema de vozes e tradições misturadas, de cunho social muito forte, entrelaçando em seus versos a vida e a morte como tema central.

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A parteira Adenildo Lima editora da gente

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As mazelas sofridas pelo povo brasileiro são frequentemente relatadas por qualquer cidadão, politizado ou não, com fria indignação. Falar poeticamente sobre a triste sina de um povo sem voz e esquecido é um feito conseguido pelo autor de A parteira, o qual transforma a pobreza, a natureza e a simplicidade em poesia. A parteira é uma obra de cunho social, que retrata a vida não vivida de um povo marcado pelo descaso do poder público. A relação vida e morte é o tema da obra, em que é questionada tanto pela personagem título enquanto ajuda dona Joana a dar à luz a alguém “onde nada reluz” , como pelo narrador quando envolve o leitor em um reviver histórico para analisar a condição de órfão das pessoas desassistidas pela mátria Brasil.

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A parteira

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A parteira Adenildo Lima editora da gente

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Copyright © 2013 Adenildo Lima Equipe Coordenação Editorial: Adenildo Lima Assistente Editorial: Ivanildo de Lima Projeto gráfico e diagramação: Roberto de Lima Capa: Óleo sobre tela 60 x 80 cm João Paulo de Melo Revisão: Dami Glades Maidana Baz Ilustrações: João Paulo de Melo Fica aqui uma singela homenagem a Luís Vaz de Camões, nas páginas 29 e 30, na voz do personagem João. 1ª Edição - 2013 (1ª Reimpressão - 2015) ________________________________________________________________ Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) ________________________________________________________________ Lima, Adenildo A parteira / Adenildo Lima. — São Paulo: Editora da Gente, 2013. ISBN: 978-85-67186-00-9 1. Poesia Brasileira I. Título. 13-09945 CDD-869.91 ________________________________________________________________ Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia: Literatura Brasileira 869.91 Reservados todos os direitos a Adenildo de Lima cnpj: 15.611.861/0001-83 Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei Nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. atendimento@editoradagente.com.br www.editoradagente.com.br

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O parto é a dor da morte... ...ou da vida?... Cícera Ferreira de Lima Minha mãe

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Prefácio Quando lemos um livro, travamos um pacto com o outro, desconhecido, e arriscamo-nos a conhecer partes escuras de nós mesmos. Com A parteira, de Adenildo Lima, não poderia ser diferente. O leitor é pego de início, não há tempo para o vacilo. De lá ou de cá, deixe-me começar! Esse eu narrador impõe-se de pronto, eleva sua voz, abre os espaços para a poesia. Mas ele sabe de suas limitações. Sabe que precisa de nós, leitores. A arte precisa de gente. E ele nos pede: Me ajuda, caro leitor, a ir mais além, / Esta história é minha e tua também / Peço ajuda neste caminhar... E nas oscilações do ritmo e das rimas, o leitor é levado e deixa-se levar. O pacto se estabelece. Esta é uma poesia de vozes e tradições misturadas, que proporcionarão experiências diferentes a cada leitura. Mas imagino que todas passem pela análise da sociedade brasileira por um viés de crítica diante da situação de orfandade em que se encontram milhares de brasileiros. A cada verso, o leitor é chamado a reparar a condição do outro, viver a experiência do outro, e, assim, reavaliar sua visão do mundo e suas atitudes para transformá-lo. A parteira é um poema de fôlego, com rimas que se emparelham, se cruzam, se revezam, num linguajar que ora lembra o cântico dos trovadores de cordel, ora esbarra na prosa do dia a dia, dos recentes protestos nas ruas de todo o Brasil (Levanta, nação! Vamos pros levantes!). Encarar a poesia afiada de Adenildo Lima requer um pouco de coragem. Ele diz coisas dissonantes, que a rima só faz doer mais, como Fantasiosos códigos de navalhas / Cortam os pescoços pelos canalhas. 6­

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Mas se for intrépido o bastante e vislumbrar os penhascos da poesia em voz alta de A parteira, o leitor chegará a recantos idílicos e seus olhos verão imagens de um lirismo delicado, capaz de captar: A essência da alma como luz na garrafa. Ou poderá ouvir palavras em forma de oráculo, palavras que fincam a gente no chão úmido querendo brotar: O mundo, mundo é uma belíssima esfera. A poesia de Adenildo Lima é popular na temática, contempla o brasileiro oprimido, na beirinha de morrer de fome. É popular na linguagem, fácil de entender. Em paralelo, observam-se construções trabalhadas por um estilo individual e referências a um repertório erudito. Nesse sentido, destaca-se a reconstrução de um soneto de Camões. Trata-se de uma poesia de extremos, intensa, e que brinca com a tradição. A parteira é um poema de narrativas, de protagonistas que se alternam e se ligam por uma linha tênue, apenas um pequeno veio de água correndo que, no meu entendimento, é a vida. São vidas que estão por um fio, porque as histórias se passam na secura da nossa terra, onde tudo é escasso. Até o amor – um bem que, na caracterização dos personagens, parece nascer com as mulheres e que os homens ainda estão procurando. Tem a dona Joaninha, sofrendo a dor líquida do parto. Tem a história do menino Pedro, que quer brincar – mas onde está seu brinquedo? Tem as histórias de Zé Buchada, com seu nome de entranhas, de comida, preguiçoso para o trabalho mas célere para narrar fantasias – e por isso tão essencial. Tem Madalena – mãe santa, heroína mulher –, que sabe, como ninguém, o que é amar e sofrer. E José... O narrador, muito malandro, brinca com a erudição e pergunta, num tom que interpela Drummond: José, por onde andas, José? José... 7

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E entre o ser e o não ser, a vida e a não-vida, está Maria, a parteira. Como coadjuvante do universo, ela assiste a vinda dos seres ao mundo. Em seus ouvidos, ela escuta o choro do antes e do depois do nascer. É sexta-feira, a parteira sobe a serra. E sobe, sobe, sobe, sobe, sobe, sobe... Eleva o pensamento e deita na terra. Escuta o barulho infinito que move As batidas do pulsar nas veias O universo estremece e cresce, assim, Dentro de si, como o começo do fim. Enfim, aquela vida se nomeia. Do alto da serra, lugar da experiência mística por excelência, a parteira escuta o som do universo e contempla. É ela que faz a ligação entre a terra e o céu. Não pode ser apenas uma mulher. Pode? Seja quem for, ela sabe de realidades incontornáveis. Entre o choro da criança ou o lamento da mãe, a parteira cumpre sua sina, e espera. Há uma criança querendo nascer. Na linguagem afiada de Adenildo Lima, há uma vontade de vida que se impõe e – em meio à aridez das ausências e à brutalidade dos conflitos – produz linhas delicadas, projeta caminhos esquecidos, em que, se olharmos com atenção, seremos capazes de encontrar a poesia: E a parteira deitada na terra / Contemplando a poesia da vida. Isabel de Andrade Moliterno Mestre e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) 8­

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De lá ou de cá, deixe-me começar! E, permito-me você a protestar. Ela acordava e falava de amor, Deitava sentindo uma louca dor, Queria e lutava pelo pão almejado, Desejado e às vezes tão maltratado; O sonho de alguém que busca louvor, O de ir além do imenso corredor. 11

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Posfácio Em A parteira, o autor parteja metáforas em versos úmidos, quentes, tórridos. Açambarca o mundo, faz uma síntese da dor, do abandono e do descaso. A parteira a partejar a vida, sem lume, sem desejos de vir a ser, existir; permanecer em essência, talvez seja a tônica. Vir à luz significa morrer em vida, fracassar no fio da cureta. Não é eutanásia! Não se burla a dor, não se aplica analgésicos, a dor se faz por ser sentida a cada instante; em cada estrofe um universo de mazelas sociais. O abandono antes do parto, no cálice da vida, servida em goles secos, intragáveis; vidas que se fazem, e se perfazem na dor. A morte em vida, a orfandade! Uma nação refém do descaso, um povo que sonha em ir além do imenso corredor. E onde desemboca o corredor atravessando-o aonde se chega? Sítio da Lagartixa e do Limão, onde não há comida e o riso é perdido. É ali que há um parto complicado a fazer, uma parteira sem certificação que ignora o seu próprio sofrimento, e, a criança resistindo, não quer nascer. Nascer para quê? Para viver nesse mundo? Talvez a felicidade consista em não saber o que é viver. E a agonia continua: o parto, a parturiente, a dor, a parteira a partejar, e, a criança sem querer nascer, será que intuíra que nasceria órfã? A dor de vir à luz, a dor de nascer numa terra tão rica, mas 119

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