Revista Mediação - Edição 26

 

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Revista do Colégio Medianeira

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revista de educação do colégio medianeira NÚMERO 25 ANO XI ISSN 1808-2564 e Midiaeducação Novos ESPAÇOS, novos SUJEITOS Ciberespaço O livro, o desenho e o espaço vazio a criança criativa Como você ouve música hoje? sobre DUAS rodas: a cidade e a bicicleta

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expediente sumário Revista de educação editada e produzida pelo Colégio Medianeira ISSN 1808-2564 3 7 11 15 18 Música e Educação A bicicleta na cidade grande: apontamentos sobre uma cultura ciclística urbana à brasileira. Diretor Pe. Rui Körbes, S.J. Gustavo Pinheiro O espaço como brinquedo ou por um brincar como invenção de espaços Diretor Acadêmico Prof. Adalberto Fávero Diretor Administrativo Gilberto Vizini Vieira Gladis Tridapalli Coordenação Editorial Cezar Tridapalli Revisão Cezar Tridapalli Convide a criança para desenhar o que ela quiser Redação Diego Zerwes Bruno Ruiz Projeto Gráfico Liliane Grein Ilustração e imagens Shutterstock Como escolher livros para crianças? Colaboraram nesta edição Gustavo Pinheiro, Gladis Tridapalli, Bruno Ruiz, Claudia Serathiuk, Cezar Tridapalli, Andre Tezza, Aldalberto Favero, Ricardo Azevedo, Valdomiro Ruppental, Nara Nunes Dutra, Martinha Vieira e Daniel Zanela. Cláudia Serathiuk Tiragem 3300 Midiaeducador: que sujeito é esse? Cezar Tridapalli Papel Capa: Papel reciclato 180g Miolo: Papel reciclato 90g Numero de Páginas 52 Impressão Gráfica Radial Tel: 3333-9593 Considerações sobre a formação do ouvinte em tempos de Internet 22 Educação e Música Considerações sobre a formação do ouvinte em tempos de internet Andre Tezza Equipe Pedagógica Supervisão Pedagógica Claudia Furtado de Miranda, Danielle Mari Stapassoli, Juliana Cristina Heleno, Mayco Delavy e Fernando Guidini Educação Infantil e E. Fundamental de 1º a 5º ano Coordenação Profª Silvana do Rocio Andretta Ribeiro que espaço é esse? 26 Ciberespaço: Adalberto Fávero Ensino Fundamental de 6º e 7º ano Coordenação Profª Eliane Dzierwa Zaionc 31 TEATRALIDADE Por Ricardo Azevedo Vida, cidadania e teatralidade Ricardo Azevedo Ensino Fundamental de 8º e 9º ano Coordenação Profª Ivana Suski Vicentin cidadania e Vida, Ensino Médio Coordenação Profº Marcelo Pastre 33 de Economia: as regras da nossa casa-mundo Coordenação de Pastoral Pe. Guido Valli, S.J. Valdemiro Ruppenthal Coordenação de Midiaeducação Cezar Tridapalli Comunicação e Marketing Vinícius Soares Pinto inventos e novos ventos Entrevista com Fred Teixeira e Juliana Cortes 41 Educação para a sustentabilidade: missão de todos por um mundo melhor Nara Nunes Dutra 45 Entrevista com Fred Teixeira e Juliana Cortes Os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião dos editores e do Colégio Nossa Senhora Medianeira. A reprodução parcial ou total dos textos é permitida desde que devidamente citada a fonte e autoria. Linha Verde - Av. José Richa, nº 10546 Prado velho - Curitiba/PR fone 41 3218 8000 Fax 41 3218 8040 www.colegiomedianeira.g12.br mediacao@colegiomedianeira.g12.br De inventos e novos ventos Martinha Vieira 50 Os barulhentos e ingênuos modernistas Daniel Zanella mediação 1

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editorial U ma boa turma entre nós, leitores desta revista, faz parte de uma geração que está mais ou menos integrada aos novos meios de informação, comunicação, conhecimento e geração de cultura proporcionados pelo famigerado ciberespaço. Já não mandamos mais cartas aos nossos amigos, lambendo selos e indo até uma agência dos correios, já somos fotografados e corremos para o fotógrafo querendo ver como ficou a imagem, não carregamos mais um trambolho enorme para poder ouvir nossas músicas enquanto caminhamos, entre outros exemplos que poderíamos ficar aqui relembrando. No entanto, não há como fugir da ideia de que adultos com mais de trinta anos cresceram em um mundo muito diferente deste atual. Mudanças não são exclusividade desse tempo, mas a velocidade delas é, sim, característica que diferencia nossa vida contemporânea. Muitos de nós crescemos em um mundo com menos ruídos sonoros e visuais, menos estímulos brotando de janelas de telefones celulares, computadores, redes sociais, e-mails, canais de vídeos e tal. Abríamos mapas em papel e estudávamos a fixidez das fronteiras, tínhamos um mundo do trabalho menos movimentado, a estabilidade como sonho de consumo dos nossos pais. Isso moldou nossa visão de mundo de alguma forma. E eis que, numa velocidade inimaginável, tudo mudou. E continua a mudar. A escola tem raízes profundas cravadas na tradição do saber historicamente acumulado. E isso não deixa de ser uma de suas maiores riquezas. Mas esse passado faz sentido se for trazido e cotejado com o presente. Ele ajuda a nos situar no mundo, mesmo que esse “situar” seja dinâmico. De que forma, então, o ciberespaço pode entrar e fazer parte das rotinas escolares, sendo estudado como objeto de estudo e também como conjunto de procedimentos que geram possibilidades transformadoras tanto na rotina diária da escola quanto na ampliação da visão de mundo e da capacidade criativa do aluno e do educador? Um mantra a ser repetido: “nunca esquecer as mídias tradicionais” (e o livro talvez seja o maior exemplo), mas colocá-las em diálogo com uma nova forma de apreensão dos enigmas do mundo advinda do ciberespaço, da cibercultura. Sobre esse tema é que esta edição da revista se debruçou de maneira mais aprofundada, com dois artigos que tratam com mais acurácia as breves pistas apontadas acima. Mas, como sempre, outros temas habitam nossas páginas. Nesta edição, um longo artigo a respeito de Economia esclarece em detalhes algumas chaves de funcionamento da economia de mercado e propõe a discussão de alternativas urgentes. As crianças também aparecem com grande destaque, seja na discussão sobre a escolha de livros para os pequenos, ou sobre a possibilidade de fazer com que o espaço livre do excesso de brinquedos possa ser o maior brinquedo. Além disso, já pensou em deixar uma criança sozinha, apenas com uma canetinha hidrocor na mão e um sofá branquinho à frente? Que tal lhe parece? Você vai entender o porquê da pergunta. Outra pergunta: quando você escuta música, você só escuta música? Ou faz várias coisas ao mesmo tempo e deixa o som rolar como pano de fundo? Vamos falar sobre isso também, trazendo ainda uma entrevista com os dois últimos contemplados do Projeto Medianeira Nossa Música, que apoia e patrocina músicos locais. Juliana Cortes e Fred Teixeira falam a respeito de seus trabalhos e da música feita em Curitiba. Muito em voga, a sustentabilidade vem sendo debatida no mundo todo. Além de estudá-la, é preciso arregaçar as mangas e praticá-la. Novamente no campo das artes, encerramos este número com uma revisitação à Revista Klaxon, do Movimento Antropofágico do início do século XX e que contribuiu para o Modernismo brasileiro. O artigo envolve educação e o ensino de arte nas escolas. Uma ótima leitura, no papel ou na tela. Visite-nos no www.colegiomedianeira.g12.br ou no www.midiaeducação.com.br. Lá você pode conferir na íntegra todas as edições desta nossa revista. Abraços. Cezar Tridapalli mediacao@colegiomedianeira.g12.br Procure essa e as edições anteriores, que podem ser lidas na íntegra, no nosso blog: Envie sugestões e comentários para: www.midiaeducacao.com.br 2 mediação

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na cidade a BICICLETA apontamentos sobre uma cultura ciclística urbana à brasileira. GRANDE: A presença mais comum da bicicleta nas ruas obriga o motorista ao respeito. As muitas campanhas, o envolvimento da mídia, as recentes ações da administração pública, os ainda tímidos implementos à malha cicloviária, e, afinal, a palavra de boca em boca, o somatório das experiências individuais de descoberta da viabilidade e do prazer de locomover-se de bicicleta, tudo isto tem colaborado para um ambiente mais amigável ao ciclista e para uma verdadeira tomada das ruas pelas bicicletas. Por Gustavo Pinheiro mediação artigo 3

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Tá! Tudo bem, tatu do bem: quando o tema está muito em voga, o assunto fica logo batido. Mas desde quando, afinal, este tema está em voga? Eu mesmo já nem sei dizer. Quando vim morar em Curitiba, por exemplo, no ano de 2001, eu já utilizava a bicicleta como transporte e o fato é que as ruas da cidade eram muito hostis ao ciclista. Os ônibus praticavam recorrentemente as “finas educativas” – nome odioso dado a este ato de ameaça à vida humana – e as buzinas e ofensas eram constantes. Eu vivera em Paranaguá durante os anos 1990 e a bicicleta, lá, era o meio de transporte predominante. Ainda é. Nas cidades interioranas do Brasil inteiro (à exceção do Estado de Minas Gerais, com sua topografia ultraexigente para a propulsão humana) tem sido assim há décadas. Mas aqui, na capital paranaense, nestes últimos anos, a mudança é radical. A presença mais comum da bicicleta nas ruas obriga o motorista ao respeito. As muitas campanhas, o envolvimento da mídia, as recentes ações da administração pública, como a via calma da Sete de Setembro e os ainda tímidos implementos à malha cicloviária, e, afinal, a palavra de boca em boca, o somatório das experiências individuais de descoberta da viabilidade e do prazer de locomover-se de bicicleta, tudo isto tem colaborado para um ambiente mais amigável ao ciclista e para uma verdadeira tomada das ruas pelas bicicletas. E pedalar é uma experiência geográfica marcante. Descobre-se a cidade por baixo dos prédios, suas montanhas e seus vales. O automóvel particular encerra um desperdício energético brutal, evidenciado pelo dado elementar de que, ao dirigir sozinho, um ser humano move uma tonelada e meia para transporte de seus oitenta e poucos quilos. A razoabilidade da bicicleta se expressa na sua leveza e agilidade. No trânsito, é comum que os motoristas se assustem com uma bicicleta que se aproxima rapidamente de um cruzamento. O adulto motorista vai esquecendo o que seu corpo, na infância, sabia muito bem. Habitua-se ao peso, à lentidão do enfileiramento das carcaças, ao disparate material de um congestionamento. Mas chega de proselitismo! A mudança radical de contexto que estamos experimentando já nos permite avançar na conversa. Pode-se reconhecer o desenvolvimento de uma cultura ciclística própria deste contexto atual, metropolitano e brasileiro, do crescimento do uso da bicicleta como transporte na cidade grande. É possível pensar a cultura ciclística de que falo a partir de seu paralelo com a cultura automobilística. Ela é menos elitista, mais difusa e não irradia necessariamente do modelo de desenvolvimento urbano norte-americano, como no caso do automóvel. Como prática cotidiana e funcional, é menos visível para quem está imerso nela, tanto mais quanto esteja de fato imbricada nos hábitos diários. Assim é que nos lugares onde esta cultura está melhor estabelecida, temos a predominância de determinadas características para as bicicletas, vestimentas, alternativas de transporte de carga, etc… Nas cidades do interior do Brasil, por exemplo, onde sempre se pedalou como transporte, o mais comum são bicicletas com relação simples, ditas “sem marchas”, de quadros de aço carbono, de bicicletas que têm provado sua durabilidade e confiança anos a fio. O trânsito mais tranquilo permite a cena clássica da família sobre a bicicleta: o pai pedalando, a mulher sentada de lado na garupa, um filho no colo e outro numa cadeirinha presa ao guidão, ou “no cano” mesmo. Os modelos “Barra forte” e “Barra circular”, das marcas Caloi e Monark, respectivamente, 4 mediação

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embora tenham perdido muito em qualidade nas suas versões mais recentes, ainda são a regra. Paralamas e outros implementos de caráter utilitário também são sintomáticos da consolidação desta cultura: as pessoas se apropriam dos objetos, modificando-os conforme diretrizes estéticas ou funcionais. É curioso notar uma tendência atual de transformar as bicicletas segundo um padrão de modificações que se costuma fazer em automóveis: “rebaixar”, adornar as rodas, instalar suspensões pesadas visando um aspecto de robustez, na grande maioria das vezes em prejuízo da funcionalidade e eficiência da bicicleta. Entretanto, o uso diário da bicicleta num grande centro urbano requer uma especialização da indústria que, no Brasil, vai sendo alcançada a passos lentos. No contexto atual, fica cada vez mais evidente o abismo criado por uma segmentação de mercado que, à semelhança do que ocorre com os eletrônicos, cria ampla oferta de produtos de baixíssima qualidade, praticamente descartáveis, inflacionando o segmento imediatamente superior. Este, por sua vez, distingue-se do nível mais baixo apenas porque sua durabilidade é suficiente para que siga sendo funcional por um prazo significativo. Ainda como no caso dos eletrônicos, este segmento inferior destina-se quase que imediatamente ao lixo e sua produção e comercialização são das manifestações mais vis e irresponsáveis do caráter acéfalo dos mercados e do livre “empreendedorismo” industrial. Além do desperdício ao aglutinar metais e plástico para componentes que durarão muito pouco servindo àquilo para que foram fabricados, estas bicicletas frustram a experiência das pessoas com o aparelho. Criam a impressão equivocada de que bicicletas são máquinas ineficientes, trambolhosos transtornos. Lamentável, numa época em que a tecnologia do ciclismo está em seu auge e, com um mínimo de orientação, é possível adquirir um maquinário relativamente barato e perfeitamente funcional. Na Europa, em cidades cuja adoção da bicicleta como meio de transporte é absolutamente majoritária, o estágio mais avançado de industrialização faz com que predominem bicicletas essencialmente simples e duráveis, cujos componentes são fabricados em pequena escala, para atender aos mercados locais. Há uma ampla oferta de acessórios, reboques para transporte de crianças e alforjes. Impressiona o ciclista urbano brasileiro a simplicidade das bicicletas de Copenhague, de Amsterdã. “Pretas”, inexpressivas. É que a nossa referência de uma boa bicicleta ainda são as bicicletas esportivas, que se opõem às entulháveis “bicicletas de supermercado”, usadas um par de vezes e destinadas à poeira dos bicicletários de condomínio. Escrevo este artigo enquanto faço uma viagem que tem ares desta cultura ciclística urbana em ascensão, da qual estou falando. Indo a Belo Horizonte, embarco minha bicicleta no avião, despachada num volume compacto, preparado no próprio aeroporto, em cerca de 30 minutos, utilizando uma mala específica para isso. Despacho, também, os alforjes de uso diário como bagagem convencional. Tudo fica ainda muito aquém do limite de peso franqueado. Em Confins, monto a bicicleta e pedalo o trecho de 45Km até Belo Horizonte. As alterosas mineiras, mesmo aplainadas no entorno da metrópole, são um desafio. Não fosse meu tempo, vontade e disposição para encarar a empreitada, poderia ter tomado um ônibus carregando a bicicleta ainda embalada. Devagar, vão se popularizando as práticas, vão acabando os “ineditismos”: o pessoal da companhia aérea lidou com bastante naturalidade com o fato de que eu despachava uma bicicleta. mediação 5

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Cada vez mais, os prédios comerciais dispõem de bicicletários e a pergunta provocativa que eu costumava fazer: “mas ninguém vem de bicicleta aqui?” fica sendo só uma lembrança. Esta cidade por vir segue com as suas muitas mazelas, mas o trânsito é mais limpo, mais silencioso e a presença aberta dos corpos nas ruas torna o espaço urbano, afinal, essencialmente mais humano. Gustavo Pinheiro é laboratorista audiovisual do Colégio Medianeira, advogado e cicloviajante. Formado em Direito e graduando em Cinema, desdobra-se entre a advocacia e a edição de vídeo. Integra o Água Viva Concentrado Artístico, grupo que realiza diversas ações culturais na cidade de Curitiba. Já viajou de Curitiba ao Rio de Janeiro, de Porto Alegre até Montevidéu, entre outras pedaladas. comente este artigo: mediacao@colegiomedianeira.g12.br Recomendações A Holanda é conhecida por ser um país em que a bicicleta é utilizada como meio de transporte. Cerca de 84% da população tem uma ou duas bicicletas e 33% dos deslocamentos diários são feitos com ela. Chuva, vento ou frio não impedem que os bicicletários fiquem lotados. Acesse os links abaixo e confira dois vídeos. Cycling in the Netherlands in the 1950s http://bit.ly/1poOrA6 Uma coleção de imagens coloridas de ciclistas holandeses nos anos 1950. Em vilas, cidades, indo ao trabalho, por puro prazer: os holandeses andam muito de bicicleta por todo o país. Bicycle Rush Hour Utrecht (Netherlands) III http://bit.ly/1q6m1XT O tráfego intenso de bicicletas na quarta maior cidade da Holanda: Utretch, que tem mais 300 mil habitantes. 6 mediação

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artigo O ESPAÇO como brinquedo ou por um como invenção ESPAÇO Por Gladis Tridapalli brincar de E aí, o que podemos inventar pra hoje? Do que o espaço deixa a gente brincar? Cabana, navio, restaurante, avião? Pular na cama? Se esconder no closet? Brincar de fantasias? Se arrastar pelo chão? Fazer piquenique com as bonecas? Ou nada disso? O que vem pela frente? mediação 7

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A prática do brincar geralmente está associada a manusear brinquedos. Isso indica que, quanto mais brinquedos a criança tem, mais possibilidades ela teria de brincar. Uma hipótese aceita. No entanto, nessas linhas que seguem, proponho mais uma hipótese para o brincar. Uma hipótese que, com toda humildade, é testada, todos os dias, nessa inevitável relação de ser mãe, professora e artista da dança ao mesmo tempo. Por isso, trago a ideia de brincar como a arte de inventar espaços. Um amiguinho da minha filha, que veio brincar em casa, entrou no quarto dela e fez a seguinte observação: “Olívia tem poucos brinquedos”. Na hora, levei um choque e pensei: será que pouco nos dedicamos à compra de brinquedos para a Olívia? Resposta interna imediata: sim, realmente, não somos bons em compras e, por escolha, tentamos comprar poucos brinquedos. Adquirir muitos brinquedos implica o pouco uso dos mesmos e um acúmulo de plástico/lixo/luxo/que é típico do exercício automático e anestesiado da compra capitalista. Comprar porque a criança está entediada e pede novidade. Comprar porque a propaganda instaura a necessidade. Comprar brinquedos porque nós, mães e pais, já não sabemos o que fazer com uma tarde inteira e uma criança. Comprar para preencher, para entulhar as prateleiras. Comprar sabendo que podemos doar no natal e achar que assim salvamos nossa consciência, o planeta e as crianças que não possuem brinquedos. Enfim... Mas voltemos à preocupação inicial: Olívia estaria brincando pouco porque não possui muitos brinquedos? Não. Ela brinca muito. Apresentei para o amigo da Olívia os brinquedos reais: bonecas de pano, alguns jogos de madeira, quebra-cabeças, livros infantis, uma cozinha linda que a dinda deu e umas motocas de pedal também. Assim, a dupla de amiguinhos seguiu brincando com o que tinha e por um bom tempo. No entanto, a falência das possibilidades dos brinquedos já era esperada por mim, e a pergunta costumeira vem: O momento da falência do brinquedo e de pânico para as mães (risos) é a hora em que a criança enjoa de tudo que ali está, porque já explorou o que o brinquedo na sua função mais óbvia apresenta como possiblidade. Quando o brinquedo e a sua lógica concreta se esgotam, abre-se mais espaço para que a imaginação e outros modos de brincar com ou sem esses brinquedos possam emergir. mãnhêeee o que tem mais pra brincar? mãnhêeee o que tem mais pra brincar? Ao tentar responder a pergunta, saí pela casa mostrando os espaços como possibilidades de um habitar brincante. Aqui temos a casa/ap toda para vocês: sala branca grande qua- 8 mediação

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se vazia com a parede para desenhar, no quarto o closet e suas escuridões tão cheias de mistério, os corredores, os entre-lugares, as sacadas com plantinhas. E antes de me afastar da dupla de amiguinhos, eu perguntei o que pergunto à Olívia nas manhãs que passamos juntas: - e aí, o que podemos inventar pra hoje? Do que o espaço deixa a gente brincar? Cabana, navio, restaurante, avião? Pular na cama? Se esconder no closet? Brincar de fantasias? Se arrastar pelo chão? Fazer piquenique com as bonecas? Ou nada disso? O que vem pela frente? Cada dia Olívia inventa uma coisa com seus brinquedos reais e também com outros materiais, como panos, lençóis, panelas, travesseiros, cadeiras, grãos, livros, copinhos. Com muita tranqueira, ela preenche o espaço vazio e o tédio de não saber o que fazer e que, aos poucos, é substituído por uma longa brincadeira narrada por sua vozinha em intermináveis invenções. A poltrona vira montanha. O chão branco o mar. As cadeiras portas da cabana. Os lençóis são paredes e até personagens. As bonecas convidadas. As panelinhas aeronaves. A casa vira virando uma bagunça e antes isso me deixava angustiada. No entanto, no correr do tempo, entendi que não era a bagunça que me fazia mal, porque afinal, depois, arrumamos tudo e juntas. O que me angustiava era a falta de espaço. Como num grande estúdio vazio para se dançar, tivemos que abrir espaços em nosso apartamento para que o espaço realmente se tornasse uma possibilidade para uma criança existir como um ser brincante, inventivo e livre para transformar objetos e lugares, que aparentemente não são brinquedos, em jeitos de brincar. Abrir espaços no próprio espaço. Desdobrar espaços no aparente espaço único. Abrir espaços. Decisão tomada. Lembro que foi um dia de doar muitas coisas: sofás, tapetes, mesas, utensílios domésticos, roupas e louças. Foi um dia de abandonar certas coisas que não fazem mais sentido porque certas materialidades aprisionam o sentir e o próprio reconhecimento de outros modos de operar no espaço que habitamos no cotidiano como a nossa própria casa. Foi um dia que fizemos escolhas por relações um apartamento que aparentemente não é tão bonito como antes e não tem um bom sofá para visitas. Ao mesmo tempo, nossas visitas se refestelam nos pufes, tapetes, bolas de pilates, chão. Abrir espaços se tornou meta. Espaço. Espaço. Espaço. Espaço físico, espaço da imaginação, espaço para as relações humanas. Abrir espaço para que o pensamento comece a navegar, a enxergar o que está posto e o que vai além, a criar, percorrer além também. Abrir espaço para movermos com o vazio e também ficar no vazio. O tédio e sensação de vazio são inspiradores para renovarmos nossos fazeres. Os fazeres simples e os complexos. Uma criança também pode ficar no vazio, no não saber o que fazer ou na crise de sentir tédio, de enjoar do que está fazendo. A criança não é uma máquina, que precisa sempre estar fazendo, algo atrás de algo, porque nós, adultos, somos pressionados a lhes dar tarefas. É na falência das ações e dos brinquedos que a criança pode escolher o que fazer ou não fazer. É quando podemos olhar para o espaço sem repostas préestabelecidas que temos a chance mediação 9

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de propor outros sentidos a ele. E isso não é diferente na criança. Olívia, no final da manhã, quando já cansou de todas as brincadeiras, resmunga, chora, vive o seu tédio e entra naquela zona do não-saber. No entanto, quase sempre se resolve quando se propõe a me ajudar no almoço e pede para lavar os legumes ou mexer as panelas, ou limpar os armários, ou lavar o chão da cozinha com muita água e sabão ou ou ou. Nesse momento, confesso que sinto uma preguicinha, mas assim mesmo digo sim e abro espaço no meu coração e no ESPAÇO para proporcionar essa participação e para ver a lambança, seja qual for a sua escolha. Hoje, ela resolveu lavar legumes. Ela subiu em cima da cadeira, puxei-a para perto da pia e a água começou a jorrar. No pretexto firme de lavar vagens e brócolis, aquele serzinho foi se molhando propositalmente e de corpo inteiro. Banho geral. Restou-me fingir que não via e sorrir. Abri um sorriso secreto, largo e profundo, daqueles que a gente dá com os lábios fechados e que mais doem do que fazem gargalhar, mas que mostram o quanto algo vale a pena. Gladis Tridapalli é artista da Entretantas Conexão em Dança e docente/pesquisadora no Curso de Dança da Faculdade de Artes do Paraná. Especialista em Dança Cênica pela UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina) e mestre em Dança pela UFBA (Universidade Federal da Bahia). Foi professora de dança do Colégio Medianeira durante 8 anos, atuando em projetos artísticos, educacionais e sociais. Recomendações Humor é coisa séria Autor: Abrão Slavutzky | Editora: Arquipelago Este livro nos apresenta um panorama inédito e provocativo do revolucionário poder do humor. O psicanalista Abrão Slavutzky constrói uma história cultural do humor na qual discorre, com igual maestria, tanto sobre a sabedoria de Dom Quixote quanto a respeito do nascimento e desenvolvimento do humor infantil. E ainda analisa o humor como centelha para o sexo, antídoto para o desamparo e constante ameaça ao autoritarismo. Humor é coisa séria é um livro para toda e qualquer pessoa que já tenha sentido a fundamental necessidade de sorrir diante dos assombros e das tristezas da vida - como fizeram os judeus que utilizaram o humor como recurso de sobrevivência nos campos de concentração nazistas, como nos ensina um dos mais instigantes capítulos desta obra. Parafraseando Italo Calvino, um dos autores prediletos de Abrão Slavutzky - num mundo pleno de tragédias, devemos tentar identificar aquilo que, em meio ao trágico, é tragicômico ou cômico, e preservar o humor. Tarja Branca Autor: Cacau Rhoden A partir dos depoimentos de adultos de gerações, origens e profissões diferentes, o documentário discorre sobre a pluralidade do ato de brincar, e como o homem pode se relacionar com a criança que mora dentro dele. Por meio de reflexões, o filme mostra as diferentes formas de como a brincadeira, ação tão primordial à natureza humana, pode estar interligada com o comportamento do homem contemporâneo e seu “espírito lúdico”. 10 mediação

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desenhar o que ela quiser A atividade típica da infância é o brincar. Crianças brincam de praticar esporte, brincam de pintar, de correr, de ser adulto. Não por acaso, elas começam a fazer de conta, escolhem seus papéis e adaptam objetos para criar uma realidade desejada. Elas querem limpar a casa! Mas é comum ouvirem um – Agora, não! Assim, não estará sendo ceifada a principal vantagem de ser criança? Ilustração de Teresa Mussi Goulart, 6 anos, com a ajuda de Bruno Ruiz. Material usado: Têmpera de ovo em papel 120g/m² (gema de ovo, água, vinagre e pigmento) Convide a crianca para Por Bruno Ruiz artigo mediação 11

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ense – somando-se os elementos – em uma criança, uma canetinha hidrográfica e um sofá de tecido (novo, para que adultos fiquem mais apreensivos). Na mente adulta, a tendência parece ser a de destacar a tinta e o móvel (objetos da situação) e colocar a criança e principalmente sua subjetividade em um segundo plano. Certamente é mais fácil se ver preparado para a situação assim, em pensamento, teorizando um momento tão marcante para famílias e para aquele pequeno vivente cheio de curiosidade e anseios pelo novo, mas há de se prezar, também na prática, pela imaginação infantil. Por certo que, de imediato, a preocupação pode recair sobre o sofá e o transtorno que o risco azul no aveludado creme deve gerar com custos e prazos de limpeza, porém a maneira como se nega a ação – que é a primitiva busca pela arte e pela descoberta – será a chave que detém o código de muitas portas, trancando/ destrancando. O meio em que se passa a infância e as relações interpessoais que a cercam estarão presentes em todo o desenvolvimento pessoal. Por isso, é importante os envolvidos neste processo estarem cientes da enorme participação do fator emocional sobre o ânimo imaginativo e sobre o desenrolar da capacidade de leitura dos elementos sociais. A atividade típica da infância é o brincar. Crianças brincam de praticar esporte, brincam de pintar, de correr, de ser adulto. Não por acaso, elas começam a fazer de conta que, escolhem seus pa- P péis e adaptam objetos para criar uma realidade desejada. Elas querem limpar a casa! Mas é comum ouvirem um – Agora, não! Assim, não estará sendo ceifada a principal vantagem de ser criança? Benefício este que é poder, a qualquer momento, desfrutar das suas maleabilidades física e mental, características que aparecem principalmente no infante que ainda não recebeu a cartilha-magna sobre o certo-errado. Isso porque, com as brincadeiras e jogos simbólicos, a criança exterioriza suas fantasias criando uma realidade esperançosa de ter regras menos rígidas, com valorações e possibilidades que nutrirão os seus desejos de solução de todo e qualquer conflito para poder continuar aproveitando alegremente o próprio brinquedo. Ao contrário da convenção da sociedade de consumo em que vivemos, onde o produto justifica o modo de desenvolvimento, “o brincar não produz objetos, mas proporciona prazer” (Rubem Alves em A gestação do futuro). As experiências vividas são as primeiras influências sobre o poder de imaginação, por isso é importante que cada membro da família participe ativamente sabendo que “os primeiros pontos de apoio que a criança encontra para sua futura criação se constituem pelo que vê e ouve, acumulando materiais que então usará para construir suas fantasias”, como aponta Vygotsky em A imaginação e a arte na infância. Quanto mais a criança ouvir, ver, fazer leituras, experimentar, tanto maiores serão as combinações 12 mediação

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Teresa Mussi Goulart, com a ajuda de Bruno Ruiz Canetinha hidrocor em guardanapo possíveis em suas criações imagéticas e em sua criatividade prática. Além da influência sobre nossas criações, ao combinar fantasia, memória e realidade experimentada, todos nos empenhamos na tentativa de compreender realidades com as quais não temos contato. A fantasia que flui na mente infantil, apesar de ser mais pobre em experiências vivenciadas se comparada à dos adultos, tem ainda uma liberdade criativa que muitas vezes nos surpreende. Mesmo tendo energia própria para suas expressões, é importante fornecer materiais, acompanhar a criança em suas atividades e ter interesse por processos e ferramentas. Isso ajuda pais e filhos a terem uma intimidade criadora que não se limita aos aspectos da realidade concreta, ao espaço ou ao tempo. Mesmo com os tão presentes contratempos, o desenhar e o pintar, prática das mais preferidas na infância, são alternativas muito acessíveis de brincadeira e descoberta. As inúmeras possibilidades de materiais e suportes podem ser encontradas todos os dias em nossas casas e o ato de experimentá-las juntos e compartilhar as descobertas estabelece ótimo vínculo entre os familiares. Através de conversas e problematizações, usando temas representados nos desenhos ou sugerindo novos – buscando ampliar as possibilidades e nunca restringilas –, podemos observar registros muito expressivos e de visão particular tão logo os conhecimentos vão sendo adquiridos. Fomentar o repertório de referências objetivas e subjetivas é fundamental para abastecer o imaginário da criança e possibilitar o desenvolvimento de uma personalidade equilibrada e que encare com naturalidade as diversidades culturais. Vale dizer que a passagem pelas etapas do desenho, conforme o amadurecimento da criança, é gradual e deve ser admirado. Isso porque, de início, partindo dos rabiscos amontoados e manchas de tintas anamórficas, ela estará se familiarizando com as funções dos riscos e suas possibilidades, passando pela fase dos desenhos esquemáticos, para então começar a exigir de si mesma uma busca por representações com formas e proporções mais coerentes com a realidade. Quem sabe também, voltando a ter contato com tais materiais e com suas fantasias, o próprio adulto consiga entender melhor o seu desenvolvimento. Expressar as metáforas internas com rabiscos e manchas coloridas não é apenas coisa de criança e, ganhando melhor organização plástica, logo poderão ter mensagem comunicativa. Portanto, a experimentação de materiais, que dará vazão a expressões subjetivas, é atividade que desenvolve crianças, adultos, a família, pois “o homem, contudo, não é um realista, mas um construtor do mundo (...) e seu mundo é a exteriorização de seus valores e aspirações, a encarnação de sua intenção, a objetivação do espírito” (Rubem Alves, em A gestação do futuro). comente este artigo: mediacao@colegiomedianeira.g12.br Bruno Ruiz é acadêmico de licenciatura em Artes Visuais na Faculdade de Artes do Paraná (FAP) e trabalha no setor Audiovisual do Colégio Medianeira. mediação 13

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