Chicos 29 Fevereiro/2011

 

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e-zine de Cataguases MG Brasil

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chicos n 29 janeiro 2011 e-zine de literatura e idéias de cataguases ­ mg capa dedim de prosa terminamos bem o ano de 2010 com uma edição especial comemoramos os 80 anos de chico cabral já 2011 começamos bastante preocupados o eleitor paulista ao transformar um palhaço em deputado não esperava que a coisa fosse tão longe pelo menos é o que acreditamos não é que o deputado palhaço foi indicado para a comissão de educação e cultura parte de nossos políticos não satisfeitos em transformar o congresso em um obscuro bazar onde se compra e se vende de um tudo pelo menos agora têm um especialista em picadeiro para virar de vez uma grande feira isto se não virar uma zebeeme antes assusta-nos como se imbeciliza a passos tão largos as estruturas públicas do país parabéns eleitores do palhaço talvez nós mereçamos o castigo quem reaparece nesta edição é o poeta leonardo campos autor de alma de brinquedo apresentamos a vocês o poeta marcelo benini que estréia com o livro o capim sobre o coleiro ou tentativas para ausência de chão antônio perin lamenta a queda da casa da rua alferes convidamos a todos para uma visita ao instituto chica onde encontrase em exposição uma ótima retrospectiva dos 30 anos de carreira do artista plástico luiz lopez vale a pena ser vista gabriel franco foto de vicente costa editores emerson teixeira cardoso josé antonio pereira colaboradores desta edição antônio jaime soares antônio perin francisco marcelo cabral leonardo campos marcelo benini ronaldo brito roque ronaldo cagiano wilson pereira fale conosco em chicos.cataletras@hotmail.com visite-nos em http chicoscataletras.blogspot.com/

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sumário ronaldo brito roque será que você também está elegendo seu tiririca josÉ antonio pereira a fuga ronaldo cagiano a ressurreição de um grande escritor wilson pereira os cavalos in/domados de luiz ruffato emerson teixeira cardoso o mundo a alma e os descaminhos na obra de leonardo campos antonio jaime soares o ocaso nas letras francisco marcelo cabral o gato eduardo sanguineti Último passeio antÔnio perin a casa morta i leonardo de paula campos inerências marcelo benini desenvolvi a aptidão do olho miguel torga alguns dados biográficos e alguma poesia 03 04 06 07 10 11 12 13 14 15 16 17 2

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ronaldo brito roque será que você também está elegendo seu tiririca foi uma supresa quando um humorista de baixo nível nem tão engraçado assim ganhou as eleições para deputado federal de são paulo mais surpreendente foi seu desempenho pois ele chegou a se eleger com votos suficientes para levar outros candidatos do partido à câmara mais tarde se verificou que o sujeito mal sabe ler e escrever e cometeu erros grotescos de ortografia no exame que a justiça eleitoral o obrigou a fazer mas a decepção não parou por aí ele ainda admitiu ter fraudado um documento pois assinou uma declaração de próprio punho dizendo que sabia ler e escrever e depois confessou que sua mulher é que tinha escrito o texto da declaração ora não sei se vocês sabem mas não existe declaração de próprio punho escrita por um terceiro o punho do terceiro não é próprio ou seja não é o mesmo de quem assina obviamente muitos gostaram disso e acreditam piamente que um legislador pode prescindir da habilidade de ler e escrever mas se você é como eu e entende que ler e escrever são o primeiro passo para compreender e expor idéias se você como eu sabe que o cargo de legislador exige mais que a mera atividade de contar piadas e divertir um público de semiletrados então talvez você tenha ficado indignado com esse acontecimento talvez você esteja pensando que os brasileiros começaram a perder a medida com que deve se julgar um legislador ou um administrador público se você teve essa impressão então quero convidá-lo a uma pequena reflexão você já parou para pensar se também não está elegendo seu próprio tiririca a pergunta pode parecer absurda mas pense bem quando você vai comprar um livro você escolhe um escritor que domine o idioma e a arte da fabulação ou uma prostituta que narra suas peripécias sexuais quando você vai contratar um novo funcionário você dá preferência àquele jovem inteligente e dinâmico mas que fala o que pensa ou àquela menina burrinha e lerda que nunca ousa discordar de você quando seus filhos demonstram interesse em compreender a realidade e lhe fazem perguntas que você não sabe responder você admite que não sabe e os incentiva a procurar a resposta ou simplesmente os manda fazer outra coisa quando você se reúne com os amigos nos churrascos de fim de semana você prefere aquelas canções bonitas que falam de sentimentos humanos autênticos ou aquelas que apenas repetem bordões fáceis às vezes até insultosos a eleição de tiririca não é um fenômeno isolado o brasileiro vem demonstrando repetidamente preferir o pior ao melhor as pessoas que estudam e se dedicam à produção cultural são freqüentemente humilhadas e preteridas àqueles que promovem o divertimento banal sexual ou zombeteiro em geral o quadro político deriva do comportamental se você se indignou com a eleição de um palhaço para deputado um palhaço que não revelou aptidão nenhuma para a função que disputava a melhor forma de lutar contra isso é agir no seu meio pessoal e social valorize as pessoas que demonstram capacidade para compreender e expor idéias valorize o sujeito que é capaz de lhe explicar as situações que você vive valorize o jovem que busca se informar e compreender o mundo não o humilhe por ele buscar algo que você mesmo não conquistou comece a valorizar a cultura e a inteligência que estão mais próximas de você e logo você as verá ocupando lugares de destaque na política e na mídia mas se você não valoriza a cultura dentro do seu próprio círculo social então dificilmente a verá ocupando algum lugar de destaque na sociedade os políticos e figuras públicas não surgem do nada assim como a chuva é resultado da queda de bilhões de gotas eles são resultado das escolhas aparentemente insignificantes de milhões de indivíduos talvez você não possa interromper a enxurrada mas pode deixar de descer com ela vamos dar esse primeiro passo e as mudanças virão naturalmente ronaldo brito roque nascido em cataguases reside no rio de janeiro rj 3

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josé antonio pereira a fuga caminhando pela avenida central sobre anêmicas luzes filtradas pelas árvores enevoadas pela fria temperatura de julho seguia pela noite não percebia nada em torno de si seus olhos outrora astutos e penetrantes naquela cor de mel acastanhado eram agora um triste olhar bovino senta-se em um dos bancos que existem pela calçada ali de costas para o córrego que escorre paralelo a linha férrea bem no meio da avenida separando-a em duas pistas a respiração ofegante fazia as narinas inflarem e desinflarem como se fossem borrachas engolindo bolhas de ar pensava naquela vida inútil se arrastando um fardo de fracassos e tristezas sentado ali no banco não conseguia entender absolutamente nada levanta passa a mão pelo áspero queixo dá conta que há dias não se barbeia atravessa a rua e volta a caminhar sobe rumo à velha praça na esquina se mete pelo bar adentro cotovelos no balcão senta-se bem no fundo nem percebe o cheiro forte que vem dos banheiros à suas costas pede uma aguardente lá na frente aquele clima de falsa euforia de bancários que ali estão desde o encerramento do expediente o incomoda contam dinheiro o dia todo mas permanecem tão sem dinheiro como qualquer outro proletário vangloriam-se de ter espoliado com os abusivos juros do patrão mais um nanico que se meteu a ser empresário desfrutam um asqueroso prazer em espetá-lo no serasa e no spc estes instrumentos de crucificação do mercado financeiro enojado pede outra dose chamam-lhe a atenção as primeiras mulheres de aluguel que já iniciaram o batente tão carregadas de maquiagem aquelas caras e bocas falseadas por cremes e cores borboleteando pelo bar enfiadas em saias curtíssimas botas até os joelhos e os seios querendo saltar de blusas extremamente apertadas se fosse só a maquiagem diria que elas saíram de um oriental teatro kabuqui sente por elas um misto de solidariedade e irmandade na inutilidade de suas vidas todos nós somos usados e só o percebemos após o descarte o vozerio dos caixas e atendentes bancários o incomoda por eles após ter a raiva amortizada pela cachaça sente só pena e uma quase aversão já pelos gerentes de banco não tem jeito é uma imensa repugnância são sórdidos serviçais dos grandes agiotas os banqueiros as duas doses somadas as outras que tomara ao longo do dia turvam um pouco os pensamentos mas não embriagam os sentimentos sendo isto o que mais necessitasse duas sensações lhe ocorrem um empalidecido cinza já de quase repulsão aos bancários e uma fosca empatia avermelhada quase brilho de desejo pelas mulheres elas começam a tornarem-se as belas e raras ruivas do cinema lá da sua adolescência era apaixonado por ruivas nunca as vira pelas ruas da cidade as loiras era uma paixão secundária mas também muito intensa bardot candice berger decepcionara-se ao descobrir que a loiríssima marilyn monroe pintava suas madeixas mas marilyn era marilyn 4

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josé antonio pereira lembra-se que depois de muita bebida já a teve cantando je t aime naquele tom sussurrado num belo vestido negro inflado por ventos imaginários noutra ocasião completamente embriagado embarcava numa aventura ferroviária pela europa num vagão a sós ora com candice ora com brigite e la vie em rose na voz de piaf ao fundo noites e mais noites de sexo solitário com tantas musas cinematográficas arrepia-se com as baionetas da ditadura fálicos instrumentos de perseguição aos que por apenas pensar diferente eram massacrados barricadas em paris sacudiam sua inércia na voz de janis joplin viajava de mercedes benz por estradas de poeira multicolorida num quase delirium tremens liberdade palavra imantadora de desejos fugas alucinadas viagens e mais viagens regadas a álcool turbinadas por blow in the win e summertimes encontrara na poesia onde em redemoinho liquidificar tudo isto nunca terminara um poema todos foram para o lixo inconclusos conhecera lia via nela novos rumos até quem sabe um prumo lia foi-se com um bacharel as taxas de juros recitadas pelos bancários num tom de leiloeiro de quermesse o traz a tona pede outra aguardente a última senão sente que irá a lona olham-no com desdém ele percebe nos contadores de dinheiro alheio repulsa pela sua presença acham-se membros de uma casta superior e ele um pária invadindo um espaço que não lhe pertence tudo dera errado nessa hora o cérebro contraía de raiva nessa contração nada sentia tornava-se um autômato quando o ódio em sentido contrário expandia a massa cinzenta pressionando-a contra o crânio a dor era violenta era o ódio a todos aqueles que o levaram àquela situação já não enxergava individualmente seus algozes todos adquiriram uma expressão única era aquela igualdade torpe ali unificada num sorriso medíocre um prazer mórbido em ver alguém destruído eles conseguiram o coração acelerava a intensidade das emoções o corpo aquecia brotando suores por todos os poros era gelado tão gelado que se sentia como mergulhado num mundo só de nitrogênio líquido pediu a conta pagou e saiu caminhou por horas e horas dentro da noite não havia mais ninguém pelas ruas tudo era dor os pés os músculos que mesmo com tanto álcool continuavam tensionados sentou-se no banco de uma praçinha morta o cansaço e a dor venceram acendeu um cigarro tragou­o profunda e demoradamente arregalou os olhos rumo à imensidão silenciosa do céu sem lua surgiu uma bela estrela no meio do céu pensou que sempre no meio da dor brota um ato poético começava a sentir um fio de esperança lembrou-se da promessa ao acordar naquele dia desistiu da esperança mais um longo trago viu a brasa do cigarro vagalumear no meio da noite a vertigem da tragada deu-lhe coragem com o disparo de um relâmpago a estrela oscilou uma dor em alta voltagem explodiu no peito ele se esticou e endureceu uma pacífica calmaria soprada por uma brisa acalentou seu corpo seus pensamentos eram uma bola formada por minúsculas luzes matizadas por infinitas cores ele agora ouvia e via tudo não havia mais dor via seu corpo ali no banco a boca tinha um sorriso doce o semblante era pura ternura tudo era claro nem a poesia o libertara viu a cidade despertar e partiu rumo ao breu da noite josé antonio pereira cataguases mg 5

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ronaldo cagiano a ressureição de um grande escritor a editora letraselvagem de taubaté por iniciativa de seu editor nicodemos sena relançou recentemente em são paulo o romance deus de caim do matogrossense ricardo guilherme dicke obra que foi um dos vencedores do concorrido prêmio walmap 1967 e foi saudado por jorge amado guimarães rosa e antonio olinto integrantes do júri como uma revelação e um marco na literatura brasileira deus de caim surge num momento de transição política das artes da moral dos costumes da linguagem vivíamos uma época de rápido escalonamento de valores em direção a uma suposta modernidade em todos os sentidos a ficção ainda vinha de um experiência estética bastante canônica ainda muito fortes os ecos do modernismo na poesia mas a prosa ainda caminhava para descolar-se dos modelos machadianos ou do realismo naturalismo quando primeiro surgiu o tufão chamado grande sertão veredas uma década depois deus de caim emerge como um furacão estético em pasmoso cidade criada pelo autor a partir de sua habilidosa capacidade de recuperar a mitologia popular ou o inconsciente coletivo ­ como uma macondo ou uma komala ou uma yoknapatawpha a exemplo de garcía márquez rulfo ou faulkner que espelhou as experiências de um mundo arcaico e burguês esboçam-se os conflitos da família amarante de amor entre lázaro e minira interditado pelo seu irmão jônatas por meio de sedução e tentativa de estupro constituem-se no ponto de partida de uma tensão que vai perpassar todo o livro e que são o núcleo central do romance a partir desse fato e seus desdobramentos é que se instaura uma profunda discussão sobre o homem sobre o amor sobre a traição sobre o poder sobre interesses escusos e difusos como o desejo de apropriação do outro que na verdade soa como uma metáfora da apropriação da terra num momento em que o tema da reforma agrária era um tabu muitos acontecimentos se intercalam ou interpenetram nesse romance como alegoria ou como recurso da intertextualidade como no caso dos embates filosóficos travados entre os personagens grego e cirillo serra sobre o mundo sobre a verdade sobre a religião e a cultura assim como isidoro ao discorrer sobre música e poesia essa faceta do romance também exterioriza o diálogo que dicke estabelece com outros gêneros e reflete a sua preocupação existencial e sua relação muito íntima com a filosofia as artes e o pensamento culto uma vez que ele foi filósofo professor tradutor e pintor e é também como pintor que reverberam sua visão impressionista desse mundo interiorano atrasado resistente às mudanças característica de um país até então confinado a uma cultura e a uma economia agrárias e estigmatizada por totens tabus e mitos que sustentam a vida e a memória do homem comum e do homem que controla política ideológica e religiosamente a vida das pessoas como os velhos coronéis do passado deus de caim ao fazer uma releitura do mito bíblico na verdade está fazendo uma incursão na atualidade porque o mundo não mudou apesar da tecnologia do avanço das comunicações e das ciências do desenvolvimento material e econômico das pessoas e das nações os mesmos conflitos dramas as mesmas questões dissensões os mesmos dilemas controvérsias e polêmicas ­ estão aí ­ ambição incesto mentira roubo morte usurpação esbulho da terra ­ estão aí desde a fundação do mundo desde que adão e eva experimentaram do fruto proibido e levantaram guarda para viver o próprio caminho atraindo o que na lógica cristã seria chamado de maldição de adão e eva até abel e caim o grande dilema existencial é a luta pelo poder e contra a morte seja o poder do que quer roubar o amor de outrem seja o poder arbitrário dos que detém o controle político e financeiro de um país seja o poder de decidir obrigar e impor sanções sem defesa como dos ditadores seja o poder intrínseco que o desejo de ambicionar o poder maior que é o poder demiúrgico de um mestre que pode ser deus ou o diabo e que na verdade deságua numa única e instintiva necessidade a de perpetrar-se l e para isso vencer o tempo despistar a morte e se possível vencê-la custe o que custar com deus de caim dicke cutuca as férias da humanidade que estão abertas até hoje desde a fundação do mundo e seu processo criativo contempla o caos e esse caos se reflete nas histórias repletas de cizânia e perigo mas prioritariamente numa linguagem vigorosa densa que não deixa o leitor sair indiferente que nada atenua senão repercute a violência a violência que atravessa os séculos sem estereótipos calcada numa impactante revelação que é resultado ou espelho da própria desordem mental e intelectual do próprio homem o elo entre o passado genético da humanidade e a modernidade tumultuada em que vivemos ­ homens governo e mundo ­ mereceu em dicke uma releitura surreal não como fantasia pura e simples de uma historieta de sertão mas como recurso para entenderse a loucura individual e coletiva e acima de tudo mostrar que o real supera a si mesmo que é necessária as tintas da ficção pelo viés do absurdo para poder entender esse intricado e violento sistema que é a vida aquela que segundo guimarães rosa é perigoso viver ronaldo cagiano nascido em cataguases reside em são paulo sp 6

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wilson pereira os cavalos in/domados de luiz ruffato eles eram muitos cavalos de luiz ruffato é um livro surpreendente mais é um romance terrível instigante envolvente surpreendente pela sua inusitada estruturação que como muito bem anota o escritor sérgio sant anna na orelha do volume funde as melhores virtualidades do conto e do romance uma obra com o olhar abrangente e romanesco sobre uma diversidade de cenas e personagens interligados e ao mesmo tempo em seus episódios o impacto do gênero conto com a elaboração de uma linguagem condensada que aproxima o conto mais moderno,cheio de invenção da poesia de certo luiz ruffato não é o primeiro escritor a romper com a estrutura tradicional do romance aquele com inicio meio e fim com a trama evoluindo num clima de tensão para um clímax e desfecho como ensinavam os compêndios de literatura já vem de algum tempo a tendência para um novo modelo de narrativa fugindo ao velho esquema sobretudo o da oposição entre protagonista e antagonista que se intrigavam em disputa por um amor ou por terras ou por poder até mesmo a velha questão maniqueísta da disputa entre o bem e o mal parece não dar mais o tom de contos novelas e romances pelo menos nos moldes de outrora mas o que realmente surpreende e constitui uma saudável inovação neste livro do ruffato é que os personagens entram e saem de cena rapidamente e uma única vez mesmo que aparentemente não tenham relação uns com os outros estão sim interligados por um fio tênue quase indizível mas que os alinhava num painel humano social e sobretudo dramático os diversos episódios vão se sucedendo como pequenos relatos numa espécie de minicontos mas ao mesmo tempo vão compondo um toldo narrativo multifacetado em que partes tecem a realidade dramática geral feita de ações e suas consequências de intenções e tensões de angustias pressões sociais e depressões individuais essa teia em cujos fios andam vivem convivem sobrevivem ou subvivem sofrem amam desamam-se agridem-se teia em que uns se tornam presas fáceis outros aprendem artimanhas e destilam venenos mas onde há também vida pulsando nas vias urbanas nas veias humanas onde há lampejos de solidariedade de bondade e de poesia essa imensa teia que se chama cidade megalópole tanto que sérgio sant anna afirma tomado em seu todo se poderia dizer que a personagem principal de cavalos é a cidade de são paulo como se contempla do mais alto de seus edifícios ou do avião que se aproxima à noite dos aeroportos de congonhas ou cumbica ah como deveria ser inocente provinciana a paulicéia desvairada de mário de andrade diante da são paulo atual retratada por ruffato mas que em muitos aspectos já incomodava o poeta modernista que aliás já denunciava em seus poemas o risco da perda da individualidade além de injustiça social de preconceitos pois ele já anteviu ou viu mesmo naquela época a cidade como engrenagem a triturar as pessoas o livro de ruffato bem que poderia trazer epígrafe de mário de andrade pois certamente há parentesco entre as duas obras nesse sentido merecem menção os seguintes versos giram homens fracos baixos magros serpentinas de entes frementes 7

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wilson pereira a se desenrolar estes homens de são paulo todos iguais e desiguais quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos parecem uns macacos uns macacos do poema cortejos paulicéia desvairada possivelmente luiz ruffato não tenha se lembrado disso nem se inspirado nas preocupações de mário de andrade com o burburinho e as peripécias do cotidiano da capital paulista nos idos de 1920 e claro não se pode comparar a vida frenética o ritmo alucinado e às vezes caótico dos dias atuais com aqueles em que os iconoclastas modernistas viveram quando ainda não fervilhava nas ruas de são paulo a multidão de pessoas nem circulavam pelas ruas e avenidas a avalanche de automóveis nem os problemas de hoje se espelham nos daquele tempo quando certamente não havia as filas quilométricas por emprego os assaltos e seqüestros o tráfico de drogas o sexo anunciado como mercadoria nos jornais e na internet fica porém a lembrança da afinidade entre os dois textos e se houve alguma intencionalidade do autor de eles eram muitos cavalos não significa demérito mas antes busca e realização de um projeto literário digamos de um projeto narrativo-poético rico e afinado com obras de primeira grandeza da literatura nacional assim é que ao evocar o extraordinário poema de cecília meirelles romance lxxxiv ou dos cavalos da inconfidÊncia do livro romanceiro da inconfidência do qual toma emprestado o verso do título o autor enuncia de saída seu projeto de um texto plurissignificativo feito de alusões de conotações de sugestões portanto de múltiplas possibilidades interpretativas respaldado nessas possibilidades de interpretação sem no entanto a pretensão de contestar sérgio sant anna ocorre-me que o personagem principal pode também ser o próprio narrador que aparece pouco explicitado eu narrador e eu narrado em poucos episódios e levanto essa hipótese 8 por pensar que ninguém narra fatos dessa ordem poderia dizer ninguém escreve um livro desses mas não se deve confundir ­ manda a boa cartilha crítica ­ o narrador com o autor e sai incólume imparcial sem sangrar sua sensibilidade e mesmo sua dor parceira nas tintas das páginas por isso o emprego do adjetivo terrível a escolha das cenas e dos cenários a apropriação desse universo íntimo do individuo e simultaneamente coletivo social urbano já entremostra o desafio do narrador de se entranhar nos sentimentos e emoções de suas criaturas de revirar-lhes o avesso de percorrer seus labirintos psíquicos além da escolha há forma de narrar elíptica densa tensa e intensa a denotar o envolvimento do autor que extrai de cada episódio a carga mais dramática e traumática numa linguagem apropriada propositadamente a esse objetivo e se procede essa minha leitura confirma-a o texto intitulado noite p131 em que o narrador em priemeira pessoa embora nomeado humberto se coloca como sujeito da ação e acaba por confessar sua impotência diante da realidade sugerida que o atormenta não vai passar nunca esse mal-estar nunca essa sensação de inutilidade marin marina e sigo sussurando suspirando o hálito suocante da gasolina envolvente ainda porque o leitor pelo princípio da intersubjetividade artística se vê preso ao emaranhado teor das situações que são na verdade conhecidas suas alguns por experimentá-las na própria pele outros por assistirem a elas a olho nu no corre-corre das ruas ou nas telas da tv ou por as lerem nas páginas dos jornais instigante o outro adjetivo suscitado porque o autor vai aproximando os atores nessa rede de intrigas como se estivesse fazendo uma reportagem ao vivo trazendo o foco do alto da distância o romance começa

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wilson pereira com a visão panorâmica de quem olha a cidade de cima quando o avião se aproxima para o pouso pra fixá-lo depois no chão áspero do cotidiano até jogá-lo dentro dos olhos de cada ser abordado e por extensão dentro da consciência do leitor instigante por fim porque o livro é um convite à reflexão crítica e a sensibilidade artística além da humana ou pelo menos um convite à busca de entendimento da linha frágil que costura as relações humanas e sociais destes dias atribulados especialmente nas grandes cidades mas resta indagar se o romance expõe numa espécie de reportagem fatos que por mais cruéis que possam parecer se tronaram corriqueiros como atestar então o seu poder de fascínio a sua vibrante energia literária que prende a atenção do leitor e o sacode com sua carga líricodramática da inércia e da indiferença a resposta é que isso só é possível aos bons escritores que sabem transformar matéria bruta em arte machado de assis por exemplo não transformou o batido e ancestral tema do ciúme num dos romances mais geniais da literatura universal o d casmurro luiz ruffato procede assim pois não apenas narra mas imprime aos fatos uma visão ­ e uma versão ­ sutil e pungente sugerindo insinuando novas e intrincadas realidades o citado texto noite bem que pode ser tomado como síntese da proposta do livro entreolho-a por sobre as páginas do estado de são paulo sugestão de um entre/olhar que vê cria mostra nas entrelinhas uma supra-realidade além da mera realidade expostas nas bancas de jornal e prossegue e ela come estupidamente metafisicamente a junção dos dois advérbios é bastante sintomática todo o arcabouço traumático do romance vem à tona com o corte preciso da linguagem matéria-prima da literatura que se constrói ali a propósito com metáforas metonímias elipses interrupções num ritmo adequado ao conteúdo às vezes acelarado,em galopes às vezes sôfrego entrecortado mas sempre domado pela mão sábia de quem domina as rédeas desses cavalos e eles eram muitos cavalos wilson pereira brasília df 9

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emerson teixeira cardoso o mundo a alma e os descaminhos na poesia de leonardo campos quando você não tiver passarinho pra tratar experimente ler o livro alma de brinquedo de leonardo de paula campos nesse livro está a alma de um poeta singularíssimo sou capaz de apostar que ele satisfará todas as suas necessidades de poesia as possíveis e as impossíveis também porque o poeta nos diz ali que sonhar o impossível é um bem da poesia e que tudo não se esgota nas possibilidades terrenas vai mais longe ao dizer que melhores ainda são os sonhos que não se concretizam porque estes habitarão o mundo da imaginação já finalizando na sua preleção convida-nos a nos conhecer no espelho das letras que realizamos unindo a imaginação do autor a nossa e vice-versa eu acabei concordando com tudo que ele disse nos preparando como ele fez para as possibilidades do seu sonho que vai começando com este triste início a noite escolta inocente a desgraça humana e as estrelas perdem seus valores passa por renata caminha nas estrelas todo tempo é pouco quando em meio ao tempo tento refletir que a paisagem mais bonita é o rosto ela é viva ela pode sorrir na noite pairam flores no asfalto precipitam-se do céu ­ do seu auto e mais que despedida que na sua ida você deixou todas as estrelas e era só uma menina e o algodão ela tomou do pé o algodão arrancou aquelas sementes e veio até a mim meio displicente consciente voluntária observou-me pediu a aliança e então a poliu mais intimamente com os olhos do que com o algodão de suas mãos ou nessa estrofe do poema alheia É que se insinua aí a canção da morte pois da cova profunda do seu olho avoluma-se um vento torpe como a seca bebe um poço campos às vezes parece coincidir com Álvares de azevedo que com certeza leu o poeta que segundo um crítico arguto trouxe poe à paulicéia que no seu caso é minas mais cervantina que camoniana ­ a benção pedro nava ­ com seus crepúsculos sangrentos muito se teria que dizer deste poeta o que certamente ainda se fará no futuro pelo menos é o que me parece ou então muito me engano É que vieram aqui os corvos guardiães da noite precipitaram-me reminiscências dos mortos ao tom de graças e açoites por que não dizer que a si se aplicam as mesmas palavras do sr legrandin ao memorialista infante em o caminho de swann tens uma bela alma de qualidade rara uma natureza de artista não a deixe em falta do que é preciso lendo alma de brinquedo de leonardo de paula campos pensei ver desenhar-se muito depressa na minha imaginação o perfil de sua alma meiga habitante do corpo de um genuíno poeta daí eu pensar que é sorte nossa que tantos valores culturais mantenham-se vivos e a tão cantada vocação artística desta cidade enfim ainda se justifica emerson teixeira cardoso cataguases mg 10

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antonio jaime o ocaso nas letras romantismo o sol declinava no horizonte ­ josé de alencar modernismo a tarde suicidava-se como petrônio ­ oswald de andrade pós-modernismo caía a tarde feito um viaduto ­ joão bosco-aldir blanc atemporal o sol amuntava na cacunda da serra ­ geraldinho antonio jaime soares cataguases mg 11

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chico cabral o gato para marcus vinicius quiroga na sala da rua duvivier o cheiro de jasmins colhidos em jardim público e a presença do gato sucumbem ao odor de pêssegos e peras que esperam o poema num canto de mesa de ferreira gullar francisco marcelo cabral nascido em cataguases reside no rio de janeiro rj 12

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edoardo sanguineti Último passeio homenagem a giovanni pascoli 1982 eu sou o sopro asmático fantasmático mecânico e automático e patético e paródico patológico psicológico pneumático de uma voz vivaz em contra-luz com filigrana honesta de mesto grão e trama e grama arcaico tanto e apotropaico tanto de me ficar entalado empalhado fossilizado entre as quelas de suas teias telagráficas holográficas oleográficas gráficas para assustar-te os teus mortos tortos espantalhesco fonema fresco antimorceguesco epirema picaresco faunesco grotesco simiesco poetema piratesco papagaiesco galesco falante em ponto e linha em ponto e vírgula perturbador compungido provocador estafante tripudiante diarróico logorróico alfabético estóico estético emético herpético energético erótico hermético harpa sonora até agora vibrante carpa canora timidamente abocante e por fortuna ao teu anzol afiado ao teu chamado numa má hora muito andante face de lua galante minguante coante pensante assim dizia e dizendo assim a minha voz sumiu fragmento 4 do poema pertencente ao livro bisbidis 1987 tradução de aurora f bernardini 13

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antônio perin a casa morta i ao josé vecchi lá na casa dos carneiros violas e violeiros só vivem clamando assim madre amiga é ruim lá na casa dos carneiros sete candeeiros iluminam a sala de amor elomar em cantiga de amigo zé a casa da rua alferes caiu o cheiro da nossa infância foi-se a açucena-branca no aço do portão lacrimejou no fio da foice do peão tratores avançaram sem alvará o último átimo do pequeno al-fãriz brandindo o aço de sua cimitarra forjada do mais diáfano verbo foi chorar um acorde da guitarra zé o cheiro da manga agora só na gôndola o roxo da jabuticaba só na marca dos imorais tudo a baixo tudo tudo nem soleira alta nem sótão nem cumeeira nem porão nem assoalho de tábua corrida nem virgens nuas por entre frestas doravante zé fruta roubada no pomar nem pensar nunca mais antonio perin itaobim mg 14

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