Revista Indico N27

 

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Revista Indico - Nº 27 - SetembroOutubro

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SÉRIE III | N.27| SET • OUT | SEP • OCT | 2014 LEVE ESTA REVISTA CONSIGO. É SUA. | TAKE THIS MAGAZINE. IT’S YOURS. Ilha de Moçambique Índia Hong Kong Revista de Bordo da LAM | Inflight Magazine

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FICHA TÉCNICA TECHNICAL DATA ÍNDICO PERIODICIDADE BIMESTRAL BIMESTRAL PERIODICITY Janeiro/Março/Maio/Julho/Setembro/Novembro January/March/May/July/September/November Série Series III, nº 27 PROPRIEDADE PUBLISHER LAM - Linhas Aéreas de Moçambique SA CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA LAM LAM BOARD OF DIRECTORS Dr. Silvrestre Sechene (Presidente do Conselho de Administração Chairman of The Board) Dr. Iacumba Ali Aiuba (Administrador Delegado CEO and Board Member) Dr. Jeremias Tchamo (Administrador do Pelouro Administrativo e Financeiro Chief Financial Officer and Board Member) Eng° João Carlos Pó Jorge (Administrador do Pelouro Técnico Operacional Chief Tecnical & Operation Officer and Board Member) Dr. Carlos Fumo (Administrador do Pelouro Comercial Chief Comercial Officer and Board Member) Dr. Paulo Negrão (Administrador Não-Executivo Non-Executive Board Member) Drª Maria da Graça Fumo (Administradora Não-Executiva Non-Executive Board Member) 03 04 06 10 18 24 33 36 42 54 66 76 80 84 92 MENSAGEM MESSAGE NOTA DO EDITOR NOTE FROM THE EDITOR NOTÍCIAS A JACTO JET NEWS POR DETRÁS DE CADA PORTA BEHIND EVERY DOOR LUGARES ENCANTADOS QUATRO DIAS EM TETE FOUR DAYS IN TETE BILENE MURRAPA – UMA APP QUE VEM DO MATO MURRAPA – AN APP THAT COMES FROM THE BUSH PHOTAR MOÇAMBIQUE BOMBAIM – ÍNDIA, MINHA ÍNDIA MUMBAI – INDIA, MY INDIA HONG KONG – PERDIDO NA CANTON ROAD HONG KONG – LOST ON THE CANTON ROAD MELITA MATSINHE – O PIANO, A VOZ E O ATIVISMO SOCIAL MELITA MATSINHE – PIANO, VOICE AND SOCIAL ACTIVISM FESTIVAL NACIONAL DE CULTURA – 2014 INHAMBANE NATIONAL FESTIVAL OF CULTURE – 2014 INHAMBANE VOE COM A LAM FLY WITH LAM MAPA DE ROTAS ROUTE MAP EDITOR EXECUTIVO EXECUTIVE EDITOR Nelson Saúte – nelson.saute@marimbique.co.mz COLABORAÇÃO CONTRIBUTORS Amâncio Miguel, David Francisco, Laurindos Macuácua, Paola Rolletta, Sónia Sultuane TRADUÇÃO TRANSLATION Paul Fauvet REVISÃO EDITING Olga Pires FOTOGRAFIA PHOTOGRAFY Dudu Mogne, João Costa (Funcho), Maurizio Berti, Ori Pota, Paulo Alexandre, Sergio Uate, Victor Marrão, Yassmin Forte, Corbis /VMI CAPA COVER Paulo Alexandre DESIGN Atelier 004 PAGINAÇÃO E PRODUÇÃO LAYOUT AND PRODUCTION Atelier 004 | Rodrigo Saias, Sara Fortes da Cunha IMPRESSÃO PRINTING Norprint TIRAGEM PRINT RUN 20 000 exemplares NÚMERO DE REGISTO REGISTRATION NUMBER 08/GABINFO-DEC/2006 DEPÓSITO LEGAL LEGAL DEPOSIT 117117/97 MARKETING E PUBLICIDADE ADVERTISING Marimbique - Conteúdos e Publicações, Lda. EDIÇÃO E PRODUÇÃO PRODUCTION AND EDITION Marimbique - Conteúdos e Publicações, Lda. indico@marimbique.co.mz Rua da Sé, nº 114, 6 º andar, sala – 614 Telefone: 258 – 84 30 32 070 Maputo Moçambique LAM Call Center: (+258) 21 468 000 C.P. 2060 Maputo – Moçambique revistaindico@lam.co.mz www.lam.co.mz www.facebook.com/voelam

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MENSAGEM DO ADMINISTRADOR DELEGADO MESSAGE FROM CEO IACUMBA ALI AIUBA Estimado Cliente Amigo, Os índices de crescimento da LAM estão cada vez mais assinaláveis, como evidenciam os resultados do primeiro semestre deste ano em que transportamos mais de 340 000 passageiros, com uma melhoria de desempenho na ordem de 14%, comparativamente a igual período do ano anterior. Estes resultados dão aso à operacionalização do nosso Plano Estratégico para o quinquénio e que entrou em vigor este ano, aumentando o alento de podermos alcançar, e quiçá superar, a meta estabelecida para os anos da sua efectividade até 2018, que é de um crescimento de 14%. Reiteramos deste modo o foco na rentabilização da frota, assumindo o desafio de ter as aeronaves a realizar o maior número de voos, de optimização de frequências nos destinos que operamos e uma proficiência em terra para que os voos saiam sempre conforme o horário. Contamos com a valiosa contribuição dos nossos clientes amigos a quem convidamos a expressar as suas opiniões e a apresentar sugestões para a melhoria da nossa cadeia de valor, desde a aquisição das passagens aéreas, o check-in, o voo até ao desembarque. Para o efeito, temos folhetos disponíveis a bordo das aeronaves e nas lojas onde poderão ser registadas as contribuições. Temos, pois, a consciência de que, com a participação de todos, tornaremos mais fiável o crescimento desta companhia de bandeira nacional, respeitando rigorosamente os padrões internacionais da indústria de aviação. Votos de boa Viagem! Dear Client and Friend, The levels of growth of LAM are ever more noteworthy, as the results from the first half of this year show. In that period we carried more than 340,000 passengers, with an improvement in performance of about 14%, compared with the same period the previous year. These results help make operational our Strategic Plan for the five year period which took effect this year, and gives us increased encouragement that we can achieve and perhaps surpass the target established for the period of the plan, lasting until 2018, which is for an annual growth rate of 14%. Thus we are reiterating our focus on making our fleet profitable, taking up the challenge of having our aircraft undertake a greater number of flights, and with proficiency on the ground, so that our flights always leave on time. We are counting on the valuable contribution of our clients and friends, and we invite you to express your opinions and make suggestions to improve our value chain from the acquisition of air tickets, to check-in, to the flight until disembarkation. For this purpose, we have forms available on board the aircraft and in the shops where contributions can be registered. We are thus aware that with the participation of everyone we will make the growth of the national carrier more reliable, respecting rigorously the international standards of the aviation industry. Have a good trip! |3

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NOTA DO EDITOR NOTE FROM THE EDITOR Ilha Dourada chamou Rui Knopfli a Muhipiti, num dos seus mais belos poemas sobre a Ilha de Moçambique. Ninguém sai incólume daquele lugar esplendoroso. A Ilha é onde a beleza de tudo nos colhe de surpresa. Sempre. Assim aconteceu com a fotógrafa Yassmin Forte. Pedimos a Sónia Sultuane que escrevesse um texto a partir das fotografias de Yassmin. A fotografia em diálogo poético com o texto. Tete é uma terra de promessa, ali se demanda o futuro. Laurindos Macuácua lá esteve quatro dias e regressou deslumbrado. Aqui ele dá livre curso ao seu encantamento. Mais a Sul, Bilene, foi lugar de revisita e encantamento para Dudu Mogne. Bilene, na província de Gaza, está a duas horas de carro da cidade de Maputo. Vale a pena descobrir a magia do lugar, dos que lá habitam ou afluem, das suas praias, da imensa lagoa, das suas paisagens. Paola Rolletta, por sua vez, conta uma belíssima história da Murrapa com as suas prodigiosas qualidades. Paulo Alexandre fez editar um belíssimo livro de fotografias – Photar Moçambique. Alexandre é português, vive há muitos anos em Moçambique e atua na área tipográfica e é fotógrafo profissional. O livro que ele deu à estampa é um verdadeiro hino aos moçambicanos e a este belíssimo país. Usamos de empréstimo o título para o nosso portefólio que traz nobilíssimas imagens deste fotógrafo. David Francisco esteve na Índia e calcorreou Bombaim, a antiga Bombaim, hoje Mumbai, uma autêntica megalópole, entre outras cidades, daquele imensíssimo país. Posteriormente, deixou-se perder numa emblemática avenida de Hong Kong – a Canton Road, que é uma espécie de 5ª Avenida de Nova Iorque, numa cidade de torres de vidro e um incessante bulício nas ruas que lembram a emblemática cidade americana. Das duas cidades do Oriente sufragamos aqui duas viagens ao estrangeiro. Melita Matsinhe é uma pianista com talento e causas. Amâncio Miguel traça o perfil desta artista empenhada. Inhambane, outra das cidades esplendorosas do Índico, acolheu o festival nacional de cultura. Yassmin Forte esteve lá. Estas são as matérias deste roteiro de deslumbramentos, nossa permanente celebração de Moçambique, numa viagem de reiterado encantamento. The writer Rui Knopfli called Muhipiti the Golden Island in one of his most beautiful poems about Mozambique Island. Nobody leaves this splendid place untouched. The Island is where the beauty of everything catches us by surprise. Always. That’s what happened with the photographer Yassmin Forte. We asked Sónia Sultuane to write a text based on Yassmin’s photographs. Photography in poetic dialogue with the written word. Tete is a land of promise, and there the future is determined. Laurindos Macuácua sent four days there and returned dazzled. Here he gives free flow to his enchantment. Further south, Bilene was a place for Dudu Mogne to revisit and also to be enchanted. Bilene, in Gaza province, is a two hour car journey from Maputo city, It is well worth discovering the magic of the place, and of the people who live there, or who flock there – the magic of its beaches, of the immense lagoon, of its landscapes. For her part, Paola Rolletta, tells us a very pretty story of the plant Murrapa with its prodigious qualities. Paulo Alexandre has edited a gorgeous book of photographs – Photar Moçambique. Alexandre is Portuguese. But he has lived for many years in Mozambique, where he works in the typography area and is a professional photographer. His book is a true anthem to Mozambicans and to this beautiful country. We have borrowed the title for our portfolio which reproduces the extremely noble images taken by this photographer. David Francisco was in India and tramped through the old Bombay, today Mumbai, an authentic megalopolis, among other cities, of that enormous country. Later he lost himself in an iconic avenue in Hong Kong, Canton Road which is like New York’s Fifth Avenue, in a city of glass towers and a constant bustle the brings the American city to mind. From these two eastern cities we have brought here two journeys abroad. Melita Matsinhe is a pianist with talent and causes. Amâncio Miguel gives us the profile of this committed artist. Inhambane, another of the spectacular cities on the Indian Ocean, hosted the National Festival of Culture. Yassmin Forte was there. These are the materials for this route map of wonder, our permanent celebration of Mozambique, in a journey of repeated enchantment. Nelson Saúte Editor Executivo Executive Editor 4|

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LAM ELEGE NOVO ADMINISTRADOR DELEGADO A LAM, reunida na sua Assembleia Geral de accionistas, elegeu, no dia 16 de Julho de 2014, o Dr. Iacumba Ali Aiuba para o cargo de Membro do Conselho de Administração da empresa. Após a realização da Assembleia Geral reuniu-se o Conselho de Administração da LAM que nomeou o Dr. Iacumba Ali Aiuba para o cargo de Administrador Delegado da empresa, sucedendo a Dr.ª Marlene Manave. Até à sua eleição para o cargo de Administrador Delegado da LAM, o Dr. Iacumba Ali Aiuba exercia as funções de Coordenador da Comissão dos Assuntos Económicos e Tarifas do CNELEC – Conselho Nacional de Electricidade, e de Administrador Não Executivo do INCM – InstitutoNacional das Comunicações de Moçambique. É membro do GIRBI – Gabinete Interministerial de Remoção das BarreirasaoInvestimento. UPGRADE NA GESTÃO DA QUALIDADE A LAM iniciou, neste segundo semestre de 2014, a implementação do projecto Quality ManagementSystem / Safety Management System, que é uma forma integrada, moderna, expedita e flexível de gestão dos processos da qualidade e segurança. Com este sistema, a LAM passa a ter maior eficiência e eficácia no seu processo de monitoria, organização, uso e disponibilização de ferramentas de trabalho que, mediante os planos e solicitações para as auditorias, LAM ELECTS NEW CHIEF EXECUTIVE OFFICER On 16 June a General Meeting of LAM shareholders elected Dr. Iacumba Ali Aiuba to the post of member of the Board of Directors of the company. After the General Meeting the LAM Board of Directors met and appointed Dr. Iacumba Ali Aiuba to the post of Chief Executive Officer of the company, succeeding Dr. Marlene Manave in this position. Until his appointment as LAM Chief Executive, Dr. Iacumba Ali Aiuba had been Coordinator of the Commission on Economic Affairs and Tariffs of CNELEC (National Electricity Council), and a non--executive director of the INCM (Mozambique National Institute of Communications). He is also a member of GIRBI (Inter-ministerial Office for the Removal of Barriers to Investment). UPGRADE IN QUALITY MANAGEMENT In the second half of 2014, LAM began to implement the project for a Quality Management System / Safety Management System. This is an integrated, modern, expeditious and flexible way of managing quality and safety procedures. With this system, LAM has greater efficiency and effectiveness in monitoring, organising, using and making available work tools. For the company’s plans and requests for the audits, these tools can be made available in real time, in electronic format, from the company’s data base. The system also optimises the control of 6|

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poderão ser facultadas em tempo real, em formato electrónico, a partir da base de dados da empresa. O sistema optimiza, igualmente, o controlo de documentos, a gestão das qualificações e formações do pessoal operacional, incluindo o programa de segurança de voo. documents, and management of the qualifications and training of operational staff, including the flight safety programme. LAM DOA CENTENAS DE MANTAS A LAM, no âmbito da sua Responsabilidade Social, ofereceu centenas de mantas a algumas instituições e crianças do país nas regiões mais frias. Esta acção visou contribuir para minimizar o sofrimento de crianças que passam dificuldades. Deste modo, foram escolhidas três regiões, nomeadamente Angónia, em Tete, Lichinga, no Niassa, e Inchope, em Manica. O Orfanato MALU NCHEREZO, em Angónia, Município de Ulongoe, a 130 quilómetros da cidade de Tete, foi uma das instituições que beneficiaramdesta acção de ResponsabilidadeSocial. O Orfanato alberga cerca de 70 crianças órfãs que durante o dia frequentam a escola local. Em Lichinga, a doação foi dirigida ao Orfanato Casa Betânia, com 25 meninas, localizado no Mosteiro, e também à Pediatria do Hospital de Lichinga. Em Chimoio a oferta foi realizada no Posto de Saúde de Inchope, distrito de Gondola, província de Manica e dirigida às crianças. Todas estas acções foram dirigidas pelos membros do Conselho de Administração e testemunhadas por alguns quadros da empresa e foram também apoiadas pelos representantes dos Governos locais. LAM DONATES HUNDREDS OF BLANKETS As part of its Social Responsibility, LAM has offered hundreds of blankets to some of the country’s institutions and children in the coldest regions. This action sought to help minimise the suffering of children who are facing difficulties. Three regions were chosen, namely Angónia in Tete, Lichinga, in Niassa and Inchope, in Manica. The MALU NCHEREZO orphanage, in the Angónia municipality of Ulongue, 130 kilometres from Tete city, was one of the institutions which benefitted from this Social Responsibility action. The orphanage houses about 70 children who attend the local school during the day. In Lichinga, the donation went to the Casa Betânia orphanage, which houses 25 girls, and also to the paediatric ward of Lichinga Hospital. In Manica province, the blankets were delivered to the Inchope health post, in Gondola district, and they were intended for children. All these actions were directed by members of the LAM Board of Directors, and witnessed by some of the company’s staff. The activities were also supported by representatives of the local governments. 8|

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Por detrás de cada porta Behind every door texto text Sónia Sultuane fotografia photography Yassmin Forte

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Tive o privilégio de, também, me ter tornado gente num dos lugares mais belos e misteriosos de Moçambique. Ainda muito pequenina, lembro-me das casinhas brancas com portas de vários feitios, pesadas, altas, de cores variadas. Às vezes, queríamos abrir e entrar para descobrir o que encerravam; outras vezes, ficávamos cheios de medo do que elas guardavam. Lembro-me dos bancos no jardim onde nos sentávamos para descansar ou programar a próxima malandrice. Tenho uma vaga ideia de um grande corredor com fachadas pintadas de amarelo, onde ficavam as mulheres mais bonitas da ilha. Vestidas de capulanas garridas, sentavam -se nas escadinhas e pintavam o rosto com mussiro, criando verdadeiras obras de arte. Musicando, tocavam-se, embalavam-se. O paredão, todo branquinho, parecia abraçar o mar com os seus candeeiros antiquíssimos nas suas extremidades. Lembro-me do tempo ameno, da lua a mergulhar na calmaria do mar verde encerrando os muros da fortaleza da ilha... era como se as suas portas se fechassem para os estranhos. Lembro-me de ver os peixes, corais e as conchinhas no fundo do mar. De repente, cresci e parti, e essa porta fechou-se, levando para bem longe todos os mistérios infantis. Passados uns anos, regressei a este lugar sagrado. Todos estávamos mais velhos, eu, a terra, a ilha, os que aqui vivem, a vida da ilha. Senti o sabor a velho. Vi as ruas povoadas de almas silenciosas, vi os mesmos candeeiros que iluminaram a minha infância, vi as mesmas canoas coloridas, I had the privilege of growing up in one of the most beautiful and mysterious places in Mozambique. Although I was still a very small child, I remember the little white houses, with doors of various types, heavy, tall and painted a variety of colours. Sometimes we wanted to open them and go inside to discover what they enclosed. But at other times we were afraid of what they were protecting. I remember the benches in the garden where we would sit down to rest or to plan the next escapade. I have a vague idea of a long corridor with facades painted in yellow, where the prettiest women on the island used to stay. Dressed in brightly coloured capulanas, they would sit on the steps and paint their faces with the cosmetic known as mussiro, creating true works of art. Singing, they would touch each other, and soothe each other. The wall, all painted white, seemed to embrace the sea, with the ancient lamps at its ends. I remember the balmy weather, the moon dipping into the stillness of the green sea, enclosing the walls of the island’s fortress... it was as if its doors were closed to outsiders. I remember seeing the fish, the corals and the shells on the sea bed. Suddenly I grew up and I left, and this door was closed, leaving far behind all my childhood mysteries. Some years later, I returned to this sacred place. We were all older – me, the land, the island, those who live here, the life of the island. I felt the old flavour. I saw the streets peopled with silent souls, I saw the same lamps which illuminated my childhood, I saw the same coloured canoes, but now weary with time, with their sails all patched, like the 12 |

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mas já cansadas do tempo, com as velas todas remendadas, como a própria ilha, guardando as memórias de cada viagem partilhada. Caminhei pelas ruas desertas onde ainda ecoam as vozes dos escravos e do comércio. Vi o hospital imponente de portas fechadas, que se tornou num lugar assombrado, depósito das memórias de dor, amor, esperança e fé. Encontrei pelas ruas máquinas pesadas, abandonadas no meio do nada, como se estivessem à espera de nova vida, para voltarem ao seu trabalho. As correntes que aprisionavam as almas roubadas, em outras latitudes, escravas da matéria mas não da alma, estão aqui a contar a sua história. Os cheiros agarrados às paredes, os sabores que aqui aportaram, ficaram também entranhados no corpo da ilha. Os ritmos que se dançam, nos corpos que se contornam, estão cravados os gestos nunca esquecidos de uma vida dura, mas também de uma vida cheia de esperança. As portas, as grandes guardiãs da ilha, dos sonhos aqui sonhados, dos mistérios aqui vividos, dos segredos aqui enterrados, de uma outra era de uma outra dimensão. Está aqui encerrado, atrás destas portas, todo o mistério de uma das mais belas ilhas do mundo. Aqui, atrás destas portas, estão guardadas as memórias da nossa história. island itself, protecting the memories of each shared voyage. I walked through the deserted streets, where the voices of slaves and of traders still echo. I saw the imposing hospital, its doors closed. It has become a haunted place, a deposit of memories of sorrow, love, hope and faith. In the streets I found heavy machines, abandoned in the middle of nothing, as if they were waiting for new life, to go back to work. The chains that used to imprison stolen souls, in other latitudes, slaves of matter but not of spirit, are here to tell their story. The smells clinging to the walls, the tastes provided here, have also been ingrained into the body of the island. The rhythms danced in the entwined bodies are embedded in the never forgotten gestures of a tough life, but also of a life full of hope. The doors, the great guardians of the island, of the dreams that were dreamed here, of the mysteries lived here, of the secrets buried here, of another era of another dimension. Shut up here, behind these doors, is all the mystery of one of the most beautiful islands of the world. Here, behind these doors, are kept the memories of our history. | 13

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